A Guardiã dos Sonhos

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por lulumoon em Ter 23 Nov 2010, 16:35

Ai, o ansiado capitulo! Oh Ana, se soubesses as vezes que eu vinha ver se tinhas postado nestas ultimas semanas! Andava mesmo com saudades da fic! E, My god tu escreves que ta fartas rapariga! Eu ia a meio do capitulo e já pensava "Oh, deve estar a acabar", mas de repente, paw, mais meio metro de texto! Matreiro
A primeira parte é aquela base, o tempo a decorrer as coisas a "estabilizar" (No que diz respeito a uma vida de adolescente normal! Matreiro), alguns esclarecimentos, umas partes cómicas "(e talvez a pior noticia para algumas raparigas), Eiji estava agora fora do ‘mercado’" (adorei o termo) e a cena do flagrante pela professora de Inglês! Matreiro Já para não falar no picuinhas! Matreiro
Capitulo absolutamente esclarecedor e interessante.
Gostei da tua versão personalizada no Milénio prateado! Valeu a pena! Os poderes da Agnes/Linda nem sei se me deixam tranquila ou preocupada! Desiludido
Gostei de saber o passado do Edward e da Coelhinha! Matreiro Só ainda estou em vias de entendimento daquilo que os deixou tão afastados. Já começo a ter uma luz, mas não vou deitar palpites ao ar (O que costuma resultar nas aulas de portugues, em que não faço praticamente nenhum, e mando bocas á toa e a professora acha que eu estudo muito! É louca Mal disposto), Enfim, vou deixar que desvendes timtim por timtim antes de dar opinião!
Agora, cenas tipicamente adolescentes, que eu gosto ^^
Casal preferido --» Sem duvida a Mari e o Kenji! Dá-me mesmo pica, apesar de não serem os protagonistas!
Achei muito fofa a forma como o Kenji disse que gostava dela! Ainda bem que se resolveram! Smile
O Eiji e a Linda são um casal mais... Digamos... Casal! Calminhos aparentemente, mas depois, pumbas, apanhados atrás da escola nas "indecências"! kekeke!
Depois, A Cecy e o Setsu! Aquilo é que são verdadeiras vacinas! sempre a picarem-se um ao outro! E viva a Cecilia que pôs o ego do rapaz para baixo e outra coisa para cima (Ai cala-te Lulu! Mal disposto') Grande voz, hein?!
Ora bem, mal posso esperar pela visita ao palácio, acho que é um momento muito esperado, mesmo! Estou ansiosa pelos reencontros de pais e filhos!
Podes não ter gostado do capitulo, mas a minha opinião não se altera em relação a esta fic! Vale muitíssimo a pena lê-la e esperar por cada capitulo, por muito tempo que demores! Espero que não sejas daquelas que desistem a meio! sei que ás vezes há vontade, mas não me faças isto! ;_; Eu quero saber mais sobre esta historia!
Acho que me vou colar ao PC só para ler outro capitulo!

Ah, agora um assunto há parte! O meu aniversário! Oh, Lol! Matreiro eu sou meia estranha no que toca a aniversários! Sou tipo Cecilia, apesar de não ter nenhum trauma, odeio esse dia! Quer dizer, tou a ficar mais velha! Incredulo' MAs o chocante é que quanto mais eu digo que não quero presentes (e não quero mesmo!), mais os meus amigos me dão! Há um ano foram chamar desconhecidos para ajudarem a comprar uma coisa que eu... Wow, achei uma loucura total! Anyway, cada um lá sabe, mas obrigada por me dedicares a atençãozinha especial, por acaso ninguém me desejou os anos no forum, mas eu não me importo! ;D

Se calhar, só para que saibas, vou publicar uma fic cá no forum que estou a escrever, mas primeiro vou andar com a historia para a frente antes de a postar. São capitulos pequenos (Sim, estou a reduzir, já disse que não gosto de fazer coisas grandes demais! Matreiro) e uma historia simples passada nos anos 50! O meu maior problema é arranjar sons da epoca, porque gostava de em cada capitulo adequar uma musica, mas depois logo vejo! Lembrei-me de falar desta fic porque os teus capitulos são gigantes e nestes momentos eu penso "OMFG, eu ando a escrever migalhinhas á beira desta rapariga!" o.O
Outra coisa (Eu hoje não me calo) também tenho muita curiosidade sobre o livro "E tudo o vento levou", ainda hoje usei essa expressão depois de a minha professora me dar um raspanete por eu afiar o lapis á janela, mas nem por isso conheço a obra ou sei do que trata! ^^'

Finalmente, não tenho mais nada a dizer para te massacrar, e espero ansiosamnete por outra capitulo! (Esta frase já é histórica! (E lá estou eu a falar! Matreiro) )
Fui!
Bjokas!

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por Bun em Qua 24 Nov 2010, 12:23

Olá Ana!

Ena pá, que capítulo! E ainda dizes que não gostas dele! Shocked
Tá incrível! Adorei!

Infelizmente não tenho tanto jeito para comments como a Lulumoon e ela claramente disse tudo!

O Eiji e a Linda são um casal mais... Digamos... Casal! Calminhos aparentemente, mas depois, pumbas, apanhados atrás da escola nas "indecências"! kekeke!

Lulumooon amei este comentário!

O meu casalinho preferido foi a Mari e o Kenji. Tá linda a cena na praia. Curiosamente parece o sonho que a Mari teve. Acho que aquilo era uma premonição.

Eu gostei de todo o capítulo. Foi muito engraçado ver as desventuras entre o Edward e a Coelha,loool. Que lhes aconteceu para ficarem tão diferentes....

Se a Cecily imaginasse de onde vem o nome,lool, o Kenji estava frito!

Fiquei com uma dúvida. Como sabia a Cecy que a Linda só entrava nos sonhos a dormir? E o que percebeu ela que está a esconder das amigas, perdi-me um pouco nessa parte...

Bem isto entre a Cecy e o Setsu já parece o Eddie e a Usagi! Hum...estes dois.....

E é verdade que escreves imenso, deve dar-te imenso trabalho, mas a mim dá-me imenso prazer ler e não há necessidade de paciência. Razz

Outra vez aquela voz misteriosa do Kenji....
E a questão do tempo a esgotar-se, algo de mau prestes a acontecer...
O Kenji nunca deixaria a Mari e é péssimo se acontecer algo que provoque isso.

Sei que já decidiste o final e quase aposto que um dos meus casais preferidos, Linda e Eiji vão acabar separados. Mas tenho imensa pena, tendo em conta o que aconteceu à Linda na vida passada, desta vez as coisas deviam ser diferentes...

Bem deixaste-me a morrer de curiosidade pelo próximo e isso não se faz!!!

Ficarei à espera!

Já agora Lulumoon parabéns atrasados. Smile

Bjo*


Última edição por Bun em Qua 24 Nov 2010, 12:50, editado 2 vez(es)

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por Bun em Qua 24 Nov 2010, 12:25

Lamento, publiquei a mensagem 2 vezes. Estava a tentar editar, não sei como foi enviada duas vezes. Desculpem.
Podem dizer-me como remover um double post? Tentei mas não consegui tirar.

Bun
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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por MoonSerenidade em Qua 24 Nov 2010, 13:06

Ai Aninha Esperancoso
Como é que podes dizer que não gostas do capitulo? Tá tão lindo Esperancoso E enorme... (São tão bons os capítulos enormes XD)

Bem eu não tenho jeito para comentários enormes e a lulumoon e a Bun já disseram tudo...

Adorei saber da história do Edward e da Coelhinha XD Mas agora ainda me deixas-te mais curiosa sobre o que se passou para eles tratarem assim a Linda...

Casal favorito... Mari e Kenji sem dúvida. A declaração dele foi tão fofa Esperancoso
A cena da Cecília e do Setsu está hilariante XD Agora é que ele já não a larga...

Se continuares a escrever assim os teus leitores começam a colar-se ao ecrã...
E agora, como diz a Lulumoon:

lulumoon escreveu:espero ansiosamnete por outra capitulo!

Beijinhos

PS- Parabéns atrasados lulumoon

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Qua 24 Nov 2010, 14:59

Ui.. tão bons comentários Esperancoso Assim sim, já me dá vontade de escrever mais um capítulo Matreiro

Lulumoon: Pois.. isso é um grande problema meu. Já nas composições de portugues sou daquelas que ultrapassa o limite de palavras bem depressa. Depois é chato, tenho que andar sempre a contar, a tirar palavras, a refazer frases, a contar outra vez... Matreiro
Ya, eu tbm não gosto muito do meu aniversário. Fico sempre deprimida nesse dia, por isso prefiro passa-lo como um dia qualquer. Mas claro que certas pessoas (nomeadamente uma amiga que é louca por festas, uma mãe que nunca esqueçe o dia do parto e uma irmã que faz anos no dia anterior Mal disposto) gostam de me lembrar disso constantemente. Sinto-me velha e cheia de responsabilidades para além de fazer anos no final de Agosto. A chegada o meu aniversário é o fim das férias (literalmente Matreiro).
Acerca do cap.. eheheh, baseiei-me estas ceninhas da Linda e do Eiji num casal que eu conheço na minha escola. São do género, super queridinhos e de repentes.. PASS, o vigilante da escola apanha-os e dá-lhes um raspanete Matreiro

A Mari e o Kenji tbm são dos que eu mais gosto. E acho que sei porque gostas muito deles. Este tipo de relação é muito semelhante ao de Usagi e Mamoru (mel, mel, mel e mais mel), enquanto Linda já é outra história.
Acerca dos outros casais: garanto-te que nos próximos dois capítulos vais descobrir (em parte) o que tornou aqueles dois tão diferentes. Já a Cecília... bem, é para esperar pelo fim da fanfic (que eu vou acabar, está garantido. Só me faltam cinco capítulos, porque haveria de estar agora a vacilar...)

Ui, nova fanfic O_O já estou curiosa! avisa quando postares sff ^^ quero mesmo ver aquilo que vai sair (e nos anos 50 ainda por cima. Tempo pós-guerra, e o aumento das classes sociais.. menos em Portugal que estava em censura Mal disposto)
Também tenho uma nova ideia. E acredita que adoro-a. Tem dois protagonistas em vez de um, apesar de a história estar mais centrada em... esqueçe, estou a falar demais. Nunca hei-de escrever esta história, apesar se estar com mais vontade de escrever esta do que a "Onde estás Endymion?". Mas paciencia. Depois de acabar estas duas, não volto a escrever.

A curiosidade é muita mesmo. Fico um pouco desanimada ao ver o tamanho do livro (do género, mais páginas = maior probabilidade de conter palha = grande seca... já dá para ver que jamais lerei o Eragon xDD) mas ainda assim hei-de le-lo.


Bun: Obrigada Smile
Era para neste capítulo a Linda chibar-se e a Cecy acabar por descobrir de onde vinha o nome, mas mudei de ideias. Ainda há mais capítulos para isso x)

Acerca da tua dúvida- Reli o paragrafo e por acaso não fui muito clara. A Cecília disse que a Linda entrava nos sonhos das pessoas quando ela estava a dormir porque era a coisa mais obvia. As pessoas só sonham quando dormem Matreiro
Mas a Li percebeu pelos olhares dos dois que "a dormir" não é a expressão mais correcta. Se não percebeste desculpa, mas no proximo vais entender Matreiro

O que te faz achar que a Linda e o Eiji vão acabar separados? ok, eu vou dizer um spoiler do final: Prometo que pelo menos um dos dois vai viver e ser feliz até ao fim dos seus dias, com filhinhos e netinhos a subir-lhe ao colo.

A Voz... ahaha, só teve uma frase neste capítulo mas ainda assim ficaste curiosa. Garanto-te que vai demorar um pouco até descobrirmos porque é que ela 'fala', mas acho que, quando descobrirem vão ficar: ai, que afinal...

Mais uma vez muito obrigada pelo comentário e assiduidade Very Happy

Moonserenidade: Obrigada Moon. Ainda bem que gostaste da declaração do Kenji. Nem sabes as voltas que dei à cabeça para afazer, mas decidi no final por uma luta na areia Matreiro


(OMFG que o meu comentário acabou por ficar do tamanho de um capítulo O_O)


Ok, só mesmo proque adoro por-vos a subir as paredes de curiosidade.

Próximo capítulo: No seu elemento
Neste capítulo, Linda vai ao palácio, mas coisas acontecem antes de ela sequer por os pés dentro do edificio.
Ela consegue finalmente controlar o seu poder, após uma ajuda preciosa e acaba por descobrir mais sobre a sua inimiga. Entretanto, reencontra os pais e estes têm muito para lhe dizer...

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por lulumoon em Qua 24 Nov 2010, 15:44

Ah!!! Mal posso esperar!agora que vem as ferias pode ser que consigas ser mais rapidinha! ^~
Obrigada pelos parabens a todas ^^' (este topico vai virar o local de me darem parabens! Matreiro)
Oh Ana, olha que eu quando acabei Angelical tambem dizia que nao ia escrever mais nada, e fui a ver, pronto! Matreiro
se me permites a pergunta, em que escola andas?

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Qui 25 Nov 2010, 09:57

(ás tantas ainda vai dar Matreiro)
Mas eu queria acabar o meu "tempo de escritora" antes de ir para a faculdade, porque aí deixarei de ter muito tempo para actualizar as fanfics e isso era uma pena para os leitores (detesto quando não acabam uma fanfic que eu adoro). Se conseguisse acabar estas duas bem depressa, vem que começava a outra, mas ás tantas não vai dar...
E quando é que vais postar a tua fanfic? Preciso de historinhas novas para ler Matreiro

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por lulumoon em Qui 25 Nov 2010, 12:09

Pois, eu tambem concordo, tambem nao queria estar envolvida noutra fic em tempo de aulas, mas enfim. Tipo eu ainda nao sei quando vou postar! Tenho ajustar umas coisas e adianta-la, porque se nao andar com ela para a frente nem sequer aqui a meto! XD

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Dom 02 Jan 2011, 11:32

Olá people. Tiveram um bom Natal? Entraram bem em 2011? Espero que sim. Comigo correu tudo bem, recebi umas boas prendinhas e estou feliz (e com a barriga cheia de doçes ).
Ora bem, aqui está mais um capítulo. Desculpem a demora, mas eu sofro de uma doença crónica incúrável, chamada Preguicite Aguda e, infelizmente, deu-me um ataque durante as férias. Mas lá apanhei o ritmo e cá estou eu de novo. Tenho o prazer de anunciar que apenas faltam quatro capítulos e, se conseguir continuar com a proeza de postar um novo capítulo por mês (mais coisa menos coisa), acabar antes de Abril.

Este capítulo é centrado na Linda e nos pais dela, apesar de Dawson e Kenji serem também muito bem mencionados. Espero que gostem, pois finalmente aparecem umas luzinhas sobre o que aconteceu quando a Linda nasceu.

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25-No seu elemento


Já dizia Einstein:Temos o destino que merecemos. O nosso destino está de acordo com os nossos méritos. Mas poderia homem tão racional pensar em detalhes tão subjectivos como o ‘acaso’? Um homem nasce sem saber nada, aprende e esquece, ganha ou perde méritos. Mas poderá um homem cheio de méritos ter um destino sorridente? Poderá uma rapariga que tem tudo para ser feliz… falhar só por causa do acaso?
Ninguém espera que, após uma vida condenada ao sofrimento, uma réstia de sol ilumine o rosto pálido de um homem, nem tampouco um homem brilhante espera que uma nuvem negra arraste todo o seu sucesso de anos em apenas escassos minutos. O destino é como uma teia de aranha frágil, que se pode quebrar apenas com um pequeno passo em falso.
O Homem não controla o destino, apenas vive. E, para uns, viver não é uma actividade tão interessante quanto parece. Uns procuram sair da monotonia, outros procurar aborrecer ainda mais a sua patética vida. Uns querem ser vulgares, outros não.
Talvez depois desta conclusão, as pessoas tendem a pensar “Mas afinal, controlamos o nosso destino, ou não?”. A resposta para esta pergunta é relativa, tal como a beleza de uma mulher ou de uma obra de arte. Uns dirão que ‘sim’, outros que ‘não’ e até dentro dessas respostas, encontraremos pequenas linhas que traçam diferentes opiniões do Homem.
Mas falamos do Homem vulgar, Homo sapiens, aquele que nasce, vive e morre. Não falamos de uma rapariga que, apesar de estar com os pés na Terra, a cabeça estava na Lua. Não porque estivesse distraída, mas porque pensava na Lua.
Para ela, o destino era uma rede de acasos que construía a linha da Vida, criando bifurcações, caminhos sem saída, rotundas e caminhos em linha recta, até que chega uma altura em que o caminho acaba, não se pode voltar atrás e vemo-nos perdidos. O destino acaba. A Vida acaba.
Os leves raios de sol entraram pela janela do seu quarto, iluminando a divisão. Ela estava sentada junto à secretária, as mãos a teclarem no seu computador portátil.
Finalmente, após uma leve reflexão, decidiu fechar as janelas abertas no computador e iniciar uma nova pesquisa. Havia começado a procurar mais informações acerca de Agnes, mas não tivera sorte nenhuma. Fora cantoras, actrizes e modelos, o máximo que encontrara fora uma santa mártir virgem, que morreu com treze anos por não querer casar.
Escreveu “Morfeu” no motor de busca. Milhões de resultados surgiram de imediato. Clicou no primeiro que viu.

“Morfeu é o deus grego dos sonhos. Tem a habilidade de assumir qualquer forma humana e aparecer nos sonhos das pessoas como se fosse a pessoa amada por aquele determinado indivíduo. Seu pai é o deus Hipnos, do sono. Os filhos de Hipnos, os Oneiroi, são personificações de sonhos, sendo eles Icelus (Phobetor), e Phantasos. Morfeu foi mencionado no Metamorphoses de Ovídio como um deus vivendo numa cama feita de ébano numa escura caverna decorada como flores.”

A rapariga suspirou. Caverna escura? Sim, verdade que ele uma vez a levara para uma caverna decorada com flores da Terra e uma cama de ébano, mas isso não provava que ele lá vivia. Morfeu sempre vivera em palácios, apesar de ser pessoa de passear pelos montes, vales, rios e campos. De que outro modo ele amaria tanto a Terra…
Perguntou-se aonde é que os gregos foram buscar aquelas informações, parte verdade, parte mito. Será que alguém escreveu aqueles relatos? Se sim, como teriam sabido? Aquela memória na caverna era… especial. Fora a primeira vez em que os dois se haviam tornado amantes e não havia forma de ninguém saber disso. Provavelmente adivinharam ou então juntaram alguns factos reais, criando uma história verosímil.
Linda abanou a cabeça, incomodada. Ainda era estranho ter memórias de uma vida anterior, completamente diferente da sua.
Releu as informações acerca de Morfeu. Logo a segunda frase chamou-lhe a atenção. Tem a habilidade de assumir qualquer forma humana e aparecer nos sonhos das pessoas como se fosse a pessoa amada por aquele determinado indivíduo. Essa era nova.
Tanto quanto Linda sabia, sempre que entrava nos sonhos das pessoas, era como um fantasma que pairava no ar. Poderia ela também tornar a forma de uma pessoa amada pelo indivíduo cujo sonho invadira? Ou teria ela já feito isso? Kenji com Mari, Hiroíto com Cecília e ela própria com Kenji.
Aquilo era muito confuso…

Linda desligou o computador e arrastou-se para fora do quarto. Na sala, as notícias do meio-dia informavam os espectadores dos acontecimentos mais marcantes das últimas vinte e quatro horas. Um acidente na auto-estrada ceifara a vida de dois homens e pusera uma criança em grave perigo de vida, uma mulher assassinara o marido a sangue frio só porque este insultara o seu chefe e o Governo da Áustria apresentava novas medidas para melhorar a taxa de desemprego, provocada pela soberania comercial da China no país.
Algumas notícias eram frescas, apanhavam o espectador de surpresa e este ficava mais interessado, curioso para saber o que acontecera. Outras eram consequências das decisões feitas em meses anteriores. No caso da Áustria, era isso mesmo. Linda lembrava-se de ver o primeiro-ministro da Áustria discursar para o Parlamento, a dezassete de Fevereiro, três dias depois da visita de Naomi e Seiji… faziam hoje quatro meses.
Ela dissera a Kenji e a Eiji que iria ao Palácio. Mas era mais fácil dizer do que fazer. Não por falta de coragem, mas por nervosismo, evitou avançar com a decisão o máximo possível. Passou Março e Abril, vieram as chuvas da Primavera e as temperaturas subiram um pouco, passando a ser possível passear pelas ruas sem cachecóis e camisolas de gola alta. Chegou Maio e Junho e com o último, veio o fim das aulas. Linda passara, assim como os outros. Mari quase que reprovara a matemática, mas logo no fim conseguiu uma boa nota no teste que garantiu a sua transição à disciplina. Os tempos livres foram passados normalmente. Não havia nada de errado. Dawson não atacara mais e não parecia haver mais nenhuma dificuldade na vida de Linda, a não ser a ida ao palácio. Namorara, passeara com os seus amigos…
Gozara uma perfeita vida normal.
Que irónico. Ela sempre sonhara com uma vida normal, sem ser princesa, tendo amigos, um namorado, tendo o irmão ao seu lado, podendo concentrar-se nos estudos. Agora tinha isso tudo. Não tinha oportunidades para ser navegante, nem princesa. Podia ser perfeitamente normal.
Que irónico. Uma pessoa apenas apercebe-se de quanto o vulgar é ridículo quando finalmente o invulgar desaparece das nossas vidas. Habituamo-nos a um rumo cheio de percalços, que nos sobem a adrenalina, a ira e a felicidade. Mas, num mundo vulgar e monótono, as coisas não eram assim. Ela agora pensava apenas no namorado, nos amigos e nos estudos. Pela primeira vez, tornou-se aborrecido estudar, tornou-se aborrecido estar sempre a sair aos fins-de-semana para ir ao cinema, discotecas ou outros sítios, tornou-se até chato poder passar o dia sem correr o risco de perder o temperamento.
Talvez porque agora tinha as coisas como garantidas. Não tinha que lutar para estudar, não tinha dificuldade nenhuma em coisa alguma. Estava tudo calmo. Demasiado calmo, pensou Linda, deitando uma olhadela à sua volta. Era domingo, Mari tinha saído com Kenji e Aiko estava a fazer o almoço, cantarolando uma música enquanto descascava batatas.
Suspirou, aborrecida.
-Aiko? – Chamou, dirigindo-se para a cozinha.
-Sim, querida? – Respondeu a senhora, sempre animada.
-Quando é que a Mari volta?
-Ela disse que hoje não vinha almoçar. Deve ir com o namorado a algum sítio.
Linda revirou os olhos. Então hoje não podia contar nem com a amiga, nem com o irmão. Logo naquele dia…
Sabia que Cecília tinha ido a Kyoto com o pai e que só voltava na Terça e que Setsu tinha ido… bem, ela não sabia aonde, mas sabia que ele tinha um encontro para o dia todo. Ou seja, restava-lhe a bomba.
A bomba. De que outra forma falaria do seu próprio namorado? Com uma série de temperamentos controláveis e olhos semi-cerrados, Linda podia ver que ele estava furioso com alguma coisa. E isso reflectia-se nas suas acções. Já não parecia mais carinhoso com ela. E, de certa forma, tinha toda a razão.
Sempre que estava com Eiji, falava para ele normalmente, mas aquilo que sucedera meses antes não lhe saía da cabeça e ele notava nisso. Ela estava a abusar da sorte. Desde que ele a ajudara a erguer-se depois da última batalha que lhe devia respostas e ela ainda não lhe tinha dado nenhumas. E o facto de todos menos ele e Setsu (que nem tinha vontade de saber) saberem de tudo, punha-lo ainda mais irritado.
E ela evitava-o. Evitava a ele e à ida ao palácio, feita cobarde.
-Raiva! – Disse ela, libertando fúria pelos poros da pele. Fúria hipócrita, de tão falsa que era. Ela não estava zangada com ele, mas sim consigo própria. Jamais conseguiria fazer as coisas direito. Haveria sempre algo a separá-la de Eiji, porque ela nunca lhe contava todos os detalhes. Seja o seu berço, seja um dom de nascença, seja a sua verdadeira personalidade. Escondia sempre algo dele e, no fundo, Linda entendia a situação do rapaz.
Fitou a parede da cozinha, enquanto Aiko deitava temperos no almoço. O tempo passava devagar. Linda viu-se de repente na rua, uma hora depois de ter almoçado com os neurónios a andar mil à uma. Percorria caminhos habituais, com as mãos nos bolsos do seu casaco de primavera e olhar preso ao chão. Estava tão distraída que passou pelo apartamento pretendido sem parar, seguindo caminho. Quando se apercebeu do seu erro deu meia-volta, desta vez mais atenta.
Cumprimentou o porteiro e subiu o elevador. Já no andar pretendido, pegou nas chaves. Estava tão familiarizada com aquela casa que o irmão achou importante dar-lhe as chaves, de modo a que ela entrasse sem interromper os rapazes caso eles estivessem a jogar playstation, a tomar banho ou até mesmo a estudar.

A casa estava silenciosa. Uma das janelas abertas deixava um pequeno burburinho do vento entrar na sala, ecoando um pequeno som semelhante ao soprar de uma garrafa. Estava tudo desarrumado (como devia ser, pensou Linda para os seus botões), com as roupas deixadas no sofá, no balcão da cozinha e nas cadeiras. Garrafas no chão, revistas espalhadas. Parecia quase a mesma casa que Linda visitara meses antes pela primeira vez.
Só havia uma diferença.
Por cima da televisão plasma, uma fotografia ocupava lugar de destaque, forçando o olhar de qualquer visitante a fitá-la. Era uma foto a preto e branco, do tamanho de duas folhas A3. Lá, mostravam-se os seis jovens que em poucos meses se haviam tornados nos melhores amigos. Fora tirada num parque em Osaka, cidade que visitaram nas férias da Páscoa. No fundo, via-se um coelho da Páscoa que distribuía ovos pelas crianças caído no chão. Kenji, Setsu e Eiji tentaram convencer o coelho a dar-lhe seis ovos, puxando todo o seu talento e charme para o persuadir. Mas o coelho era muito mais teimoso e acabou por empurrar Setsu. Este respondeu com outro empurrão e no final, acabaram por quatro por andar à pancada, acabando o coelho no chão. Aproveitando o momento, Eiji roubou a cesta e correu com o irmão e Kenji atrás para longe do felpudo. Setsu entregou os ovos às crianças no parque, que olhavam aflitas e ficou com a cesta, onde ainda estavam seis pequenos ovos de galinha com desenhos coloridos. Cecília ia filmando tudo, enquanto Linda e Mari riam-se feito perdidas.
Boas memórias, agora recordadas naquela moldura castanha pendurada na parede branca.

Linda sorriu e dirigiu-se para o quarto de Eiji. Nunca tinha lá entrado, devido aos olhares desconfiados do seu maninho e das bocas que tendia a ouvir das suas amigas e de Setsu.
A porta estava entreaberta. Linda bateu suavemente e entrou. Eiji devia ter acordado tarde, pois a sua cama estava desfeita e o seu cabelo dourado molhado. Estava vestido de cintura para baixo e procurava alguma coisa no seu quarto desarrumado. Linda entrou sorrateiramente, nunca tirando os olhos do namorado. Seis meses de namoro e ela ainda não tivera a oportunidade de admirar o torso de Eiji.
Ele era muito mais magro do que ela pensava e tinha uma pequena mancha roxa perto do umbigo, que estava longe de ser uma marca de nascença. Tinha ombros largos, mas não tão largos quanto os do irmão e os de Kenji e parecia ser daqueles rapazes que jamais teria um corpo exageradamente bem constituído. Linda conhecia Eiji suficientemente bem para saber que o metabolismo dele impedia-o de aumentar a massa do corpo. Mas a actividade física de Eiji dera-lhe massa muscular. Ele não era um deus, mas era bem agradável de ser ver.
Apesar de ter um namorado bem constituído à sua frente, Linda tinha um olho posto na mancha, que tinha proporções estranhas… mais parecia uma queimadura do que outra coisa. O outro estava fixado nos olhos de Eiji, que ainda não se tinham cruzado com os dela, apesar de ele saber que ela estava ali no quarto.
Ela tossiu dramaticamente, mas ele ignorou-a.
Está zangado comigo
Linda abanou a cabeça em tom de desaprovação. Tentou pensar em algumas formas de o chamar a atenção. Inúmeras lhe surgiram à cabeça, mas houve uma que a deliciou. Era ridícula, desnecessária… mas seria tão bom ver a cara dele… quem diria que brincar com as hormonas dos adolescentes seria tão divertido?
Ela avançou, sorrindo de uma forma sedutora. Ele olhou para ela de lado, mas não se mexeu. Linda aproveitou a deixa para desapertar dois botões da blusa devagarinho.
Se deres carne aos leões, eles irão devorá-la, pensou, não tirando os olhos do namorado.
Quando ele se virou, já sabia que o tinha na mão. De súbito ele agarrou-a e arrastou-a para a cama dele, beijando-a por cada canto que a sua boca conseguisse pousar. Linda tentou evitar a gargalhada que tanto queria sair. Deixou que ele tomasse a boca dela, de um modo furioso e animalesco, com profundo desejo expresso em cada golfada de ar que ele começava a evitar. Era como se beijá-la fosse mais prioritário do que respirar. Ela não se mexia, apenas sorria.
Finalmente, estando mais à vontade com o cenário da namorada deitada na sua cama com a blusa por desapertar, aproximou os dedos dos outros botões, a fim de os desapertar e…
Foi aí que ele parou.
-Demónio! – Amaldiçoou ele, saindo de cima dela. – Fazer isso a um homem devia levar a pena de prisão.
Linda teve que morder o lábio para evitar ter que se rir da cara do namorado, que mais parecia um miúdo de cinco anos a quem recusavam um brinquedo. Apertou a blusa, satisfeita pelo sucesso do seu plano:
-Podias ter continuado… - provocou ela.
Ele semicerrou os olhos.
-Pois devia… aí terias o que merecias. Não devias fazer isso. Tens sorte que eu parei. Se tentasses com outro…
-Mas não tentei com outro – cortou Linda, pondo-se de pé – mas sim contigo, porque sabia que jamais irias com esta adiante.
Ele fez uma careta.
-Sorte a tua que tenho maneiras – murmurou. De seguida, afastou-se dela e vestiu uma camisa. Ela ficou ali, a olhar para ele.

O quarto tinha um cheiro. Uma espécie de fusão entre perfume de homem e mofo. Era pintado de cores claras e, tal como qualquer quarto de rapaz, estava completamente desarrumado. Eiji apercebeu-se da bagunça e, um pouco embaraçado, arrumou as roupas espalhadas no armário e os livros da escola numa caixa junto à secretária. Mexeu tudo rapidamente, até que a secretária e a cadeira ficaram desocupadas e com um ar mais asseado.
Só quando ele mexeu nos estores da sua janela e a abriu, a fim de deixar o ar entrar, é que olhou para a namorada.
-Estás zangado comigo.
Não era uma pergunta.
-pois…
-Porquê?
Ele deu um passo em frente.
-Tu sabes porquê. Tens estado afastada de mim, a esconder-me coisas. Bem… - pôs a mão na cabeça. – É só isso. Mas já chega para me pôr com os nervos em franja. Pensei que confiasses em mim.
-E confio – disse Linda, calmamente.
-Então porque esse segredo todo? Até parece que só eu é que não sei as coisas.
-Achas que aguentas com a verdade? – Retorquiu ela, com profundo veneno nas palavras. – Ou será que já te esqueceste do que aconteceu da última vez que te contei um segredo meu?
Eiji congelou no sítio. Morde o lábio desconfortável. Sabia que ela tinha razão. Escondera-lhe um segredo importante e, quando lhe contara a verdade, afastara-se.
Andou um pouco pelo quarto, ponderando na situação. Linda seguia-o com o olhar, a íris dilatada de tal modo que os olhos dela mais pareciam roxos.
Minutos passaram-se, onde silêncio reinava no quarto. Ele sentia-se nervoso, ela confiante.
-Porque não me contas? – Perguntou ele finalmente, um pouco receoso.
-Porque não irias entender. Eiji, isto é bem mais sério do que eu ser princesa.
-Aí sim? Como?
Ela desviou o olhar.
-Não entenderias. – Repetiu, de vez mais calma.
Ele, vendo uma causa perdida, suspirou pesadamente, não tirando os olhos da namorada.
-O que vieste cá fazer?
-Dizer-te isto. – Respondeu ela secamente. – Não adianta estares zangado comigo por causa deste segredo, porque a melhor maneira de não saíres magoado é eu não te contar nada. Acredita, ficas melhor sem saber.
Linda não se atreveu a dizer que o principal motivo pelo qual não contava nada a Eiji era porque não se sentia muito ligada a ele. A sua avó não tivera escolha, pois o seu avô estava metido na alhada. Já a sua mãe deveria ter contado apenas após o casamento, quando não havia sombra de dúvidas acerca da confiança entre os dois.

Ouviu a porta da entrada abrir-se.
-Cheguei – soou a voz de Setsu. – A sério meu, aquela tipa não devia regular bem dos miolos. Mais um pouco e queria apresentar-me aos pais dela e casar. E olha que só estamos no segundo encontro. Eu nem sequer sei o nome dela.
Ele abriu a porta do quarto do irmão, para encontrar ele e a namorada a fitarem-se intensamente, como se nada mais houvesse naquele quarto. Claro que ele desconhecia que as causas eram tudo menos românticas. – Está tudo bem? Querem que feche a porta?
-Não – responderam os dois em uníssono.
-deixa estar – disse Eiji. Parecia ter pensado bastante naquilo que dissera a Linda nos últimos minutos, pois já não havia aquela raiva cega. O irmão encolheu os ombros e deixou-os a sós mais uma vez.
-Desculpa. – Disse ele, arrependido. – Não devia…
-Não peças. – Interrompeu ela, pondo um dedo nos lábios dele. – Tu tens razão para estar zangado. De certa forma, isto é falta de confiança. Mas isto não é um segredo vulgar e era apenas isso que te queria dizer. Para não ficares zangado ou inseguro, porque não é nada que tu gostarias de saber.
-E tu?
-O que é?
-Incomoda-te… esse segredo?
Linda não respondeu logo. Até porque nem ela sabia a resposta. Crescera sabendo que era uma navegante. Estava tão habituada à ideia que nunca lhe passara pela cabeça outra coisa. Ou melhor, passar passara, a ideia de que ela não era navegante por ter dezasseis e não ter demonstrado algum poder.
-Não – respondeu por fim. – Faz parte de mim. Incomodar-me era o mesmo que dizer que não gosto de mim.

-Vou sair
-Já? – Eiji desviou os olhos de Linda para o irmão. – Ainda agora chegaste!
-Sim, mas tenho que ir ao supermercado. A senhora Aiko convidou-nos para jantar na casa dela hoje e eu tenho que levar alguma coisa.
-Ela disse para levares?
-Não. Mas é regras de cortesia.
-Nem sabia que ele sabia ser cortês – sussurrou Linda, provocando uma gargalhada em Eiji.
De repente, lembrou-se de algo.
-Setsu espera! – Gritou, correndo atrás do moreno. – Podes levar-me á casa da Cecília?
-Claro, claro. Anda lá. – Disse ele, saindo em direcção à garagem.
Linda aproximou-se de Eiji e deu-lhe um suave beijo nos lábios antes de sair pela porta. Ele podia jurar que havia algo naquele beijo… estranho.

**
Dentro de uma luxuosa casa habitada, uma mulher lia passagens de um livro alheadamente. Não prestava atenção ao que estava lá escrito, pois a sua mente vagueava por memórias antigas que qualquer mulher nostálgica gostaria de recordar.
O mero som dos pássaros no exterior tranquilizava a mulher como se, após um dia cansativo, relaxasse perante uma energética aula de Ioga. As janelas estavam abertas, deixando a brisa do vento de Junho entrar pela divisão.
Piscou os olhos quando o som de sapatilhas rasas se aproximou. Ao virar o pescoço, Misaki viu a última pessoa que esperava ver na sua casa:
-Linda? – Perguntou, surpresa. – Que fazes aqui?
A adolescente hesitou, procurando as palavras certas, mas Misaki tomou a dianteira.
-Vieste ver a Cecília? Desculpa querida, mas ela saiu com o pai e…
-Não – cortou Linda. – Eu vim cá… para a ver. A empregada abriu-me a porta – acrescentou, como se achasse que houvesse necessidade.
Misaki não esperava tal resposta.
-Ver-me? Porquê? - Perguntou calmamente.
-Você… - Linda suspirou, tentando arranjar coragem para dizer aquilo que havia ensaiado minutos antes. – Vai amanhã a algum lado?
Misaki ergueu o sobrolho. Tinha agora uma ideia aonde iria o tópico de conversa.
-Vou ao palácio… ver a tua mãe – acrescentou, observando a reacção da morena atentamente. – Mas se quiseres eu…
-Leve-me consigo! – Disse Linda rapidamente, quase tropeçando nas palavras. Misaki fitou-a, sem saber o que dizer. – Isto é…
-Eu levo-te. Mas tenho que te perguntar Linda… porquê?
-Eu quero… vê-la antes de… e também preciso…
Não estava a ir a lado nenhum. Nem ela própria entendia o que estava a dizer. Era como se tivesse engolido um pedaço de cartão que a impedia de falar. As palavras, presas na garganta, acumulavam-se e um nó formou-se rapidamente, que se estendeu até ao estômago.
-Lembras-te quando te disse que não te conhecias?
Linda ergueu o olhar para a mulher, assentindo com a cabeça.
-Sim, depois da minha actuação. Eu achei que… - Por momento pensou que Misaki a fosse interromper, mas a mais velha abanou a cabeça para ela continuar. – Que tivesse a ver com o Eiji. Isto é, ele não sabia que eu era a princesa.
-Errado – murmurou Misaki, soletrando cada sílaba da palavra. – Não foi por isso que eu o disse.
Pousou o livro na mesa e aproximou-se de Linda, que a fitava paralisada. Talvez de medo ou apenas timidez, Misaki não sabia.
-Já notaste na mancha que o Eiji tem no tronco, presumo? – Perguntou calmamente, esperando resposta.
-Já. Não sei como é que ele a conseguiu.
-Não está em minhas mãos contar-te, mas digo-te que essa pequena mancha é o único ‘segredo’ que ele tem contigo. Não te conta, não porque confia em ti, mas porque perturba até os seus próprios pesadelos. – Os seus dedos tocaram na pele branca de Linda, rodando o queixo até que os olhos da rapariga ficaram frente a frente com os seus. – E tu tens um igual.
Não era uma pergunta. Misaki sabia do seu segredo e entendia porque ela o escondia.
-Mas quero que saibas… - continuou, afastando-se da jovem, querendo dar-lhe tempo para pensar. – Que não foste a única com esse problema.
Como sabe ela que eu…
-A Cecília passa pelo mesmo. Penso que contigo (que tens namorado) deva ser pior. – Respondeu Misaki, como que lendo os pensamentos da morena. – Fazes bem em escondê-lo. Admito que nem eu estava pronta para saber. Mas… era o melhor…
Linda sabia que ela se estava a recordar do momento em que ela e a sua mãe tinham visto Julianna pela primeira vez, o primeiro instante em que Misaki deu-se de caras com o mundo da fantasia que até à data apenas envolvera a família de Linda e da sua mãe.
-A minha filha precisava de mim. Contei ao meu marido mais tarde. – A voz de Misaki falhou, tomando uma pausa, onde mordeu a unha do dedo indicador. – Mas a tua mãe passou por um caso pior.
Linda abriu a boca para falar, mas fechou-a logo. Misaki não se apercebeu.
- Já dizia uma escritora brasileira, Clarice Lispector: É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo. Sabes o que isto quer dizer, Linda?
Esta abanou a cabeça.
-A tua mãe tinha as mesmas duvidas que tu. Aliás, é já uma fase comum a todo o ser humano. Quem sou eu? O que faço cá na Terra? Qual é a minha missão? Uns encontram a sua resposta, após anos de procura, outros preferem viver na ignorância, outros procuram… quando a resposta esteve sempre debaixo dos seus narizes. Era o caso da tua mãe. Os pais dela dera-lhe sempre muitas hipóteses para ela entender o mundo e a si própria, mas a chegada do teu pai fez com que novas perguntas surgissem. Eu própria vi-a a concentrar-se no desenho, em busca de uma resposta.
Linda lembrou-se do desenho que Kentaro lhe mostrara naquele dia no parque. Portas, chaves, corredores, dúvidas…
-Com esta busca, veio outro problema. Ela sempre esteve ciente da sua… herança… mas não sabia se a podia confiar aos amigos e namorado. A mim não teve hipóteses, mas o Edward revelou-se um problema. A tua avó nunca teve algo similar porque o teu avô já fazia parte da trama, mas o caso da Usagi era novo. Poderia contar segredo tão grande a um homem que ela não sabia se era o homem da vida dela. Digo isto quando eles ainda mal tinham começado a namorar. Mais tarde ela apercebeu-se de que o amava perdidamente, mas só lhe contou quando se casaram. Aí ela descobriu o que era. Aí ela… encontrou-se.
Misaki virou-se para Linda, que ouvira tudo atentamente e sem fazer o menor ruído.
-A diferença entre ti e a tua mãe é que ela nunca soube o que era. Mas tu sabes... Apenas ignoras esse pensamento. O teu subconsciente afasta essa ideia, levanto-te a afirmar outra. Acabas por te mentir a ti própria e aos outros. Espero que amanhã consigas encontrar algumas respostas para ti, Linda porque tu, mais do que ninguém, precisas de saber quem és. Não a navegante, mas a rapariga, a Linda que tem nome no cartão de cidadão. O resto… completas. Espero-te amanhã às 9h30.


Última edição por AnA_Sant0s em Qua 21 Set 2011, 11:30, editado 2 vez(es)

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Dom 02 Jan 2011, 11:34

**
O jantar passava a passo de tartaruga. Parecia que o esparguete no seu prato nunca mais desaparecia, ainda que ela desse uma garfada minuto a minuto. As conversas mudavam constantemente, desse desporto até planos de verão. Eles falavam de tudo e, no entanto, ela não os ouvia. Não conseguia parar de fitar o irmão, sentado à sua frente a conversar alegremente com Aiko e os irmãos Yamamoto, enquanto dava a mão por baixo da mesa a Mari, que mostrava um sorriso até às orelhas. Kenji estava no meio daquele assunto tanto quanto ela, no entanto… não era o mesmo. Ele devia sempre saber quem ele era desde pequeno, o que procurava, o que queria… A vida parecia sempre feita de confirmações e nunca de dúvidas. Oh, inveja…
A certa altura, Linda ouviu o seu nome.
-… não é Linda?
A morena fitou as caras, todas viradas para si. Ela não sabia quem tinha falado, nem qual era a pergunta, mas de momento era o que menos lhe importava.
-Está tudo bem querida? – Perguntou Aiko. Linda viu que os rostos de Eiji e Kenji estavam rígidos.
-Está. Apenas estou a pensar…
-No quê? Na morte da bezerra? – Perguntou Setsu, tentando quebrar a tensão instalada na mesa. Agora Mari juntara-se ao mar de caras preocupadas.
-No dia de amanhã. – Respondeu ela simplesmente.
-Amanhã? Oh, querida, o que tem o amanhã? Vais fazer algo de importante?
Linda assentiu com a cabeça, sem tirar os olhos do irmão. Este mantinha o rosto em branco, mas os olhos – idênticos aos da irmã – revelavam pensamentos e emoções remotas e sombrias. Devia estar a lembrar-se daquilo que Linda lhe dissera na praia.
-O quê? – Perguntou Mari devagar, olhando para Kenji e para Linda. Este soube a resposta ainda antes de a irmã abrir a boca.
-Vou ao palácio.
As pupilas dos olhos de Kenji dilataram-se e este ficou tenso. Abriu a boca para dizer algo, mas Mari foi mais rápida.
-Porquê?
-Tenho que ir. – Respondeu Linda, desesperada. Kenji diz alguma coisa! – É lá que estão todas as respostas para aquilo que eu procuro.
-Mas não faz sentido – protestou Mari. – Foi desse sítio que fugiste, não entendo porque queres lá voltar.
-Eu não quero voltar, Mari. Mas tenho… - mais uma vez, Linda tinha uma grande dificuldade em se expressar. Como podia ser tão difícil dizer aquilo que pensava. Tinha que saber mais sobre si, sobre o que era. Tinha que entender. As palavras de Misaki passeavam pela sua cabeça, pondo-a louca pela ignorância em que vivia. Ela queria saber que mal tinha o seu nascimento. Só encontraria as respostas no palácio. No mesmo sitio de onde fugira. Não poderia a sua amiga ver o quanto isso lhe era importante…
-Porquê?
Era óbvio a que assunto Mari queria puxar. Todos os argumentos que a loira tinha para aquela discussão vinham dali. Era disso que ela estava à espera. Que ela dissesse o seu outro motivo para ir. Teria ela ouvido a conversa com Naomi?
-Para ver a mãe, como é óbvio! – Disse Aiko, furiosa, antecipando-se a Linda. – Que pergunta ridícula. É isso que uma filha sensata faz. Vai ver a mãe antes que seja tarde de mais e não tenha outras oportunidades.
Linda viu Kenji semicerrar os olhos, para depois estes se expandirem. Não pode ser…
Aiko não parecia ter terminado.
-Fazes muito bem em lá ir. Apesar de tudo o que aconteceu, ela ainda é tua mãe e deves vê-la pelo menos mais uma vez. Se não o fizeres, irás de arrepender até ao fim dos teus dias. Dizem que ela apenas tem alguns meses…

Aiko não pôde continuar, pois Kenji levantou-se da mesa bruscamente e saiu da cozinha a correr, deixando o som das portas a abrirem-se e a fecharem-se ecoarem pela divisão.
Apavorada, Linda não esperou que Mari o seguisse. Levantou-se e foi atrás do irmão.
Não era difícil saber onde ele fora. Pegou no casaco e subiu as escadas em direcção ao terraço, onde viu Kenji a admirar a vista, o seu rosto completamente escondido pela escuridão da noite. A única coisa que Linda tinha para iluminar o seu caminho era a fraca luz do terraço, junto à porta. O céu estava completamente negro, sem lua nem estrelas. A brisa da tarde transformara-se num suspiro ruidoso que fazia tremer os corpos dos dois irmãos.
-Kenji? – Chamou ela cuidadosamente, a voz a tremer de mágoa e solidariedade.
Este não respondeu. Os olhos estavam fixos no horizonte, onde o palácio brilhava como um verdadeiro cristal. Tinha as mãos nos bolsos e os lábios formavam um ténue linha recta.
Aproximou-se, não tirando os olhos do irmão. Este permaneceu quieto e nem quando Linda pegou na mão dele, que saia desajeitadamente do bolso das calças, deixou-se levar. No entanto, ela notou que este tremia.
Linda sentiu uma súbita vontade de chorar. Pela primeira vez, tinha a noção de que a sua mãe ia morrer e, acima de tudo, que Kenji sofria com isso.
Este deixou escapar um soluço. Estaria ele a chorar?
-Não sabias… - sussurrou ela, a tremer de frio e de vergonha.
-Não. – Respondeu ele, também num tom baixo. – Entre os estudos e... tu e a Mari, não tenho tido tempo para ver televisão nem ler jornais e revistas. Além disso, os rapazes nunca me disseram nada…
-A Cecília e a Mari também não falam disso. Por respeito, penso.
-Pois...
Havia tanta amargura na sua voz que Linda espantou-se que ele ainda conseguisse controlar as suas emoções.
Silêncio instalou-se entre os dois, onde ambos pensavam na vida passada. Pelo menos Linda pensava nisso. Os pais haviam-na ignorado o tempo todo e agora sabia que a mãe ia morrer e, apesar de tudo, sofria com isso. Seria assim tão coração de manteiga? Ou talvez isso tivesse a ver com o facto de ela saber que tudo isto acontecera por culpa dela. Era culpa dela que o irmão não tivera os pais, que ela própria sofresse com a sua ignorância e talvez Edward e Usagi sofressem de igual modo. Pelo menos, de acordo com as memórias que tinha, deveriam sofrer da mesma forma.
De repente, Kenji gritou um palavrão, com todo o desprezo e raiva que um rapaz da sua idade podia mostrar. Ela não o criticou.
-Estúpido plano – amaldiçoou ele. – Estúpida estratégia!
Falava como se Linda não estivesse ali. Involuntariamente, esta apertou a mão dele. Que queria ele dizer com aquilo?
Kenji sentiu o toque da irmã e olhou para ela, surpreso. Falara demais.
-Que queres dizer com isso? – Perguntou ela, elevando os seus pensamentos. Kenji não respondeu. Apenas limitou-se a fitar a irmã, os olhos muito brilhantes. Passou a mão livre pelo rosto dela, num gesto carinhoso. Linda não pôde deixar de se perguntar de ele estava a pensar nela ou na mãe.
-Quero que saibas Linda… que eu amo-te, não importa o que aconteça. – Falou tão baixo que Linda apenas ouviu parte da frase, felizmente a mais importante.
-Também te amo.
Todas as perguntas que ela lhe tinha para fazer sumiram-se como vapor, todas as coisas que poderia ter falado com o irmão acerca da mãe e dos seus sentimentos acerca da notícia da sua tão próxima morte, ficaram escondidas num canto. O irmão não queria falar disso e ela própria tinha que admitir que, naquele momento, isso era o que menos lhe interessava. Quanto mais olhava para o irmão, mais via que, não importa o que acontecesse, qual fosse a sua decisão, ele iria apoiá-la a cem por cento, iria sempre amá-la sem hesitar. Ele cometera erros no passado mas estava agora disposto e recompensar.
Abraçaram-se, unidos pelo amor e carinho que tantas pessoas invejavam. Linda não conseguiu deixar de sorrir. Kenji não precisava de a recompensar. Ele já o fizera, só por estar ali, quando parte dela queria sumir do Japão.
Amanhã seria um novo dia e ela tinha a certeza que, embora fosse ao palácio sem ele, no fundo não estava sozinha.

**
Música country soava pela rádio do Mercedes de Misaki. Hoje ia ela a conduzir, deitando um olhar de relance minuto a minuto para a passageira ao seu lado.
Linda olhava para a janela, distraída, perdida em pensamentos. Pouco Misaki sabia, era que ela tinha a plena noção de que era observada e que Misaki estava tão nervosa quanto ela.
Chegaram à entrada. Misaki identificou-se e o guarda deixou-a passar. Linda pensou ter visto o guarda a olhá-la desconfiado antes de abrir a cancela, mas Misaki acelerara, impedindo-a de aprofundar a ideia.
Estacionaram o carro e saíram, ainda que Linda se demorara mais do que o suposto.
Não pôde deixar de deitar um olhar em redor. Ainda meses passeara por aqueles jardins, no entanto, algo estava diferente. A fantasia que antes cercava aquele conjunto de verde, amarelo, castanho e vermelho era agora mais realista. Antes era um jardim falso, semelhante aos dos contos de fadas que Linda não queria pertencer. Agora, era apenas um jardim.
Misaki trancou o carro e aproximou-se, vendo a adolescente a olhar para o palácio. Nada mudou…
-Vou ver a tua mãe – anunciou devagar, esperando que Linda tivesse a sua tenção. – Podias ver o teu pai primeiro.
Linda semicerrou os olhos em resposta. Misaki tinha a ideia errada da sua visita. O objectivo era ver a mãe, não Edward.
Mas a mulher adulta já se dirigira para a entrada, perguntando a um empregado sobre o paradeiro do rei.
-Ele está a passear pelos jardins, senhora. – Respondeu o homem, saudando Misaki com uma vénia e desaparecendo com outra. Mais uma vez, o homem tardou a desaparecer quando viu Linda, que evitou olhá-lo nos olhos. Até mesmo os funcionários, ela evitava nas suas andanças pelo palácio. Sempre entre as aulas particulares, o irmão, as ‘tias’ e os avós, Linda não dava hipóteses nem aos que lá trabalhavam de ver a sua cara. Aliás, a última vez que algum empregado falara com ela, tinha nove ou dez. Muito tempo passara entretanto.
-Milagre. – Disse Misaki, acordando Linda dos seus pensamentos nostálgicos. – Há dias que o Eddie não saí do quarto da tua mãe, um passeio deve estar a fazer-lhe mesmo bem.
Se não fosse o sonho que tivera meses antes, Linda teria achado estranho ouvir Misaki chamar ‘Eddie’ ao seu pai. Misaki virou-se para Linda:
-Vai ter com ele. Penso que sabes o caminho.
E sem dar hipótese a Linda de responder, desapareceu pela porta. Por momentos, pensou em ir atrás dela. Afinal, não era obrigada a ver o pai. No entanto…

Se ela não detestasse tanto aquele sitio, talvez colocaria os jardins do palácio na sua lista de “Os mais belos lugares para dar um passeio”. Desde pequena que se lembrava de ir para ali, calcando pedaços de terra, atirando pedras para a fonte, brincando na relva. As memórias mais doces vinham todas dali. O irmão a correr atrás dela, ela a esconder-se atrás de uma árvore, rindo baixinho, enquanto Kenji tentava lembrar-se que número vinha a seguir ao cinquenta e nove. Ela a comer doces roubados da cozinha, a treinar dança, a ler passagens dos vários livros que possuía.
Claro que não era por todo o jardim. Mal o irmão ficou demasiado crescido para algumas brincadeiras, ela refugiou-se num lugar só seu, que mais ninguém conhecia. Isto é, ela e a mãe, mas ela nunca contara a ninguém, portanto ainda era o seu lugar secreto.
Era perto dos eucaliptos e dos canteiros de flores, coberto de lírios, rosmaninhos, petúnias, amores-perfeitos e violetas. Era um canteiro lindíssimo, o preferido da avó, enquanto a mãe preferia as flores de cerejeira, que cresciam do outro lado. Como estava tão perto do pequeno número de eucaliptos, tinha um cheiro interessante no ar.
Mas, ao andar por entre as árvores verdes cheirosas, outro cheiro invadiu as suas narinas. Jasmim e limões. Quando era pequena, plantara um limoeiro ali perto, junto a um pequeno canteiro de jasmins, mais discreto, mas que ela adorava. Aquele cheiro fresco, suave e afrodisíaco deixava Linda nas nuvens e, de repente, sentiu-se feliz por estar ali, no seu canto.
Mas não estava sozinha.
Quando se chegou perto da sua árvore preferida, o limoeiro que plantou, viu que estava lá mais alguém.
Um homem, desajeitadamente vestido, encontrava-se ali, saboreando aquele cheiro com os olhos fechados. Os cabelos estavam um pouco grisalhos, como se anos tivessem passado desde a última vez que ela o vira e tinha a barba por fazer. De certa forma, Linda teve um estranho vislumbre do irmão.
Ficou parada a observá-lo, incrédula por vê-lo ali, para além das incríveis semelhanças.
Ele estava preocupado. Os olhos fechados mostravam algumas rugas da idade, ainda que ele não tivesse muito mais do que quarenta. O torso estava contraído, como se ele evitasse respirar. Sem duvida que tinha um daqueles nós na garganta que nos impedia de agir quando devíamos.
Linda desviou o olhar para o chão, onde viu os jasmins ainda em flor. Jasminum polyanthum, Jasmim-dos-poetas. Uma flor branca e simples, mas que sempre deitava um leve sorriso em Linda pela sua simplicidade e beleza. Eles simbolizavam a beleza e a tentação das mulheres. O sorriso de Linda aumentou. De certa forma era verdade, pois o seu irmão nunca conseguira resistir a mulheres que usavam perfume de jasmim… tal como Mari.
Quando voltou a levantar a cabeça, viu Edward a olhar para ela, o seu rosto impossível de ler. Apenas os olhos, ainda naquele tom de brandy que deixara a mãe louca na juventude permaneciam iguais, com um certo brilho que Linda nunca vira. Ou melhor, vira, horas antes quando estava no telhado com Kenji.
Ele não perguntou o que ela fazia ali. Linda suspeitava que ele não acreditava naquilo que via, preferindo pensar que era tudo uma alucinação. O que era compreensível, dado o estado em que ele estava.
-Como as coisas mudam – comentou ele, a voz tão afónica que parecia não ter sido usada em semanas.
-Quanto tempo ela tem? – Perguntou ela, não sabendo o que dizer.
Falara tão baixo que duvidava que Edward a tivesse ouvido. No entanto, este respondeu:
-Quatro, cinco meses… não sabemos ao certo. – Agora ele observava as folhas do limoeiro, onde, por entre os ramos castanho-claros, generosos limões amarelos floresciam.
-Quando começou? – Perguntou ela, receosa. Lembrava-se de a mãe a ter chamado antes de sair do palácio. Ela recusara-se a ouvi-la. Será que ela lhe iria falar da doença? Se o fosse, então parte da culpa de isto ter acontecido talvez fosse dela.
-Por volta de Agosto.
Linda tremeu desconfortavelmente. Fora tudo nesse mês. No mês onde ela fizera anos, quando o irmão saiu de casa, semanas antes de ela ter saído de casa.
-Eu… não sabia.
Algo na sua voz soou mais humano para Edward, pois este virou-se, como se tivesse pela primeira vez notado que a sua filha mais nova estava ali. Os seus olhos expandiram-se de espanto e os seus lábios formaram uma linha recta, como se ele tentasse controlar as suas emoções.
Finalmente, ela podia ler o rosto dele. E não era difícil saber o que é que ele estava a pensar:
-Vim ver…a mãe. Apesar de tudo, não lhe desejo nenhum mal. – Evitou olhar para ele, apesar de Edward não tirar os olhos de cima dela, sem sequer pestanejar. – E preciso de… respostas.
-Para quê? – Perguntou ele automaticamente.
-Para… tudo. Eu sempre tive dúvidas… de quem eu era. Porque não me encaixava aqui.
Falava agora de coisas que nunca tinha falado antes. Coisas que sempre a incomodaram, desde pequena. Estava tão nervosa, que para ela, aquilo que dizia era apenas um despejo dos sentimentos retidos durante anos. Nem notou nas expressões de Edward quando falou:
-Por vezes perguntava-me porque é que vocês me odiavam. Porque não me queriam como filha. Até me passou a cabeça a ideia de não ser… sua filha. Não tinha nada igual a si. A cor dos cabelos, os olhos, a minha personalidade, não havia nada em mim que se assemelhasse consigo. Para mim, era a ideia mais plausível. O motivo pelo qual vocês sempre me odiaram. Era uma bastarda.
-NÃO.
Ele quebrou a distância entre eles e agarrou-lhe no braço. O toque das carnes fez despertá-lo para a realidade. Ele tinha agora a noção que Linda tinha mesmo dito aquilo. Não fora imaginação sua. Os seus olhos explodiram de raiva e tristeza, parecendo que iria deitar fogo ao limoeiro e aos eucaliptos.
-Nunca digas isso! – Disse ele, raiva expressa em cada palavra. – Eu e a tua mãe nunca te odiamos. Tu não sabes como as coisas são.
-Vocês não me contam… - disse ela, mas Edward cortou-lhe o discurso.
-É porque achamos que tu não precises de saber. Há coisas Linda, que uma pessoa ficaria feliz sem saber.
Linda ergueu o sobrolho. Estaria ele a falar do segredo das navegantes?
-Eu tenho os meus motivos, a tua mãe tem os seus motivos mas NUNCA digas essas coisas. Tu és minha filha. Nunca duvidei, nem nunca tive motivos para duvidar. Tu és minha filha!
A última frase dissera com tanta convicção que Linda nunca poderia duvidar dele. Arrependeu-se do que disse mas, quando tentou dizer isso a Edward, este voltou a calá-la. Ainda tinha mais para dizer.
-Dizes que fisicamente não tens nada comigo. Pois, discordo. Olho para ti e vejo-me a mim em tanta coisa. Eu sou teu pai, Linda, segurei-te quando nasceste e a primeira coisa que vi em ti fora que eras a cara da tua mãe, mas tinhas o cabelo escuro e os lábios… um dia talvez entendas, mas um pai procura sempre semelhanças em si no seu filho recém-nascido e eu vi que tinhas os meus lábios. Apenas isso, mas só isso deixa-me feliz. Saber que te passei, de certa forma, o meu legado. E depois cresceste. Podes ser igual à tua mãe mas, sempre que abres a boca és igual a mim. A tua inteligência, a forma de tu dançares, a tua calma em situações stressantes, onde a tua mãe e o teu irmão arrancavam os cabelos com os nervos, o tique dos lábios… sim, Linda, eu sei desse tique, porque a tua mãe sempre gozou comigo por causa dele. Era por isso que eu evitava sempre mentir. Não conseguia livrar-me deste vício. A tua frontalidade, a tua determinação… isso tudo vem de mim. E podes não acreditar mas sinto orgulho disso. Em saber que tu, sendo minha filha, tens algo meu. Que possa olhar para ti e lembrar-me de mim quando era mais novo ou até mesmo dos teus pais. Porque garanto-te que a única pessoa que conheço que tenha uma personalidade fora do vulgar é a tua avó materna. De resto, garanto-te que os meus pais e o teu avô tinham personalidades semelhantes. Nunca duvides disso Linda, mas tens o meu nome e o meu sangue. Não me importo que me odeies pela forma como agi contigo todos estes anos, mas não admito que tu penses que eu fiz isso porque te odiava ou que duvides que eu seja o teu pai. Isso… - fez uma pausa, a sua voz agora rouca. Sem duvida que fora muito pouco usada nos últimos dias. – Não admito.

Linda estava paralisada, sem saber o que fazer. Edward ainda agarrava o seu braço e podia ouvir a sua respiração ofegante, algo que apenas a incomodava mais. Sentiu uma lágrima cair pelos olhos, mas logo a impediu. Não conseguia pensar em nada a não ser naquilo que ele lhe dissera. Tantos anos e, pela primeira vez, Edward agira como um verdadeiro pai. Um pai que dá raspanetes quando o filho diz algo que ele não gosta e que diz que está orgulhoso dele. Tantos anos… e ele falara para ela como ela sempre sonhara que ele fizesse.
Apesar de Linda ter conseguido controlar as suas lágrimas, Edward não teve a mesma sorte. A pressão que devia estar a sentir foi libertada em vários longos suspiros, enquanto lágrimas salgadas molhavam o seu rosto envelhecido.
-Não é fácil ser um cubo de gelo. – Sussurrou ele, não tirando os olhos de cima dela. Hesitava em largá-la, apesar de Linda começar a sentir uma leve dor devido à forma como ele a estava a agarrar. – Não é fácil.

Largou a filha e virou-lhe costas. Era já a segunda vez que um homem olhava-a nos olhos e mostrava-se possuidor de mais emoções do que ela imaginava.
-Porquê, então? – Disse ela, sem conseguir evitar. Edward virou-se para ela. Pela primeira vez, Linda viu algo mais nos olhos do pai, para além da mágoa, tristeza e raiva. Arrependimento.
-O quadro da tua mãe… Adónis. – Respondeu ele simplesmente. O cérebro de Linda começou a funcionar logo. Havia no seu quarto um quadro, que ela agora que fora desenhado pela mãe, onde o jovem Adónis postava e, ao seu lado, as duas mulheres que o disputaram: Perséfone, a rainha dos Infernos e Afrodite, deusa do amor e beleza feminina.
De súbito ela entendeu. Não entendia por onde a história fora até o agora, mas sabia como tudo começara. Com uma disputa. E, de certa forma, isso tinha algo a ver com ela. E só a ideia aterrorizava-a.
Edward não a impediu de se ir embora, nem sequer disse nada quando Linda correu, ela própria sem fôlego.
As lágrimas queriam sair, mas ela puxava-as para dentro, teimosa. Não, não iria chorar… tinha que ser forte. Não devia estar muito tempo no palácio, no entanto, já se tinha arrependido de ter vindo.

Não parou de correr até que se viu dentro do palácio, onde empregados passavam atarefados de um lado para o outro, alguns atrevendo-se e deitar-lhe um segundo olhar, perguntando-se quem seria ela, outros ignorando-a, como se Linda fizesse parte da decoração. Ela ignorou-os a todos.
Estava agora perto dos quartos reais. Parou junto do seu. O da mãe era já no fundo do corredor e ela não sabia se tinha coragem para lá ir. Não depois do encontro que teve com o seu pai. Rodou a maçaneta e abriu a porta.
O quarto dela estava exactamente do mesmo jeito antes de ela sair, rumo a novos horizontes fora do palácio. A cama dossel, o armário – que agora só tinha os seus antigos vestidos – a mesa de estudo, o espelho, a janela…
Linda deitou um segundo olhar na janela. Engraçado como a única coisa que ela sentia falta naquele quarto, onde dormira grande parte da sua vida, era a janela. Ao aproximar-se, viu os jardins e os eucaliptos. Não dava para ver o seu esconderijo, mas sabia que estava lá. Aliás, agora que Linda pensava melhor, de certeza que no quarto dos pais teria uma melhor vista do seu sítio. Devia ter sido assim que ambos tinham descoberto onde ela se metia em determinadas ocasiões.
Lembrava-se perfeitamente das vezes que ficava junto á janela a observar o jardim, a ver o irmão a sair de casa na calada da noite, os pais e avós a virem de festas, a observar a lua… memórias tão simples, mas doces que apenas a faziam sentir-se normal, a ansiar por coisas normais.
Olhou para o seu relógio de pulso. Eram já dez e vinte. O tempo passara tão depressa…
Saiu do quarto apressadamente. Não olhou para trás. Não havia necessidade para tal.
Apesar de o sol atravessar as grandes janelas do corredor, para Linda estava escuro. No fim do corredor, estava o seu objectivo. Todo o corpo dela tremeu de ansiedade.
Estava alguém junto à porta do quarto dos pais. Reconheceu a silhueta de Misaki de costas. Mas esta não estava sozinha. Uma mulher alta, morena e de olhar sombrio mas dócil estava ao seu lado. A diferença de idades era reduzida, mas Linda sabia mais do que as aparências mostravam.
Aproximou-se das duas. A morena notou nela, parando imediatamente de falar. Misaki virou-se para Linda:
-Ah, estás aqui. A tua mãe está melhor, mas gostava que não a preocupasses muito. Tenta ser… - Misaki fez uma pausa, tentando dar ênfase a aquilo que ia dizer – simpática.
Linda ergueu o sobrolho, gesto imitado pela morena.
-Eu sei ser simpática. – Retorquiu, a voz a fraquejar devido aos nervos.
-Com esse tom de voz, bem que me enganavas – comentou a morena.
Linda fitou-a, constrangida.
-Olá Linda. Não me reconheces?
-Claro que sim. – Respondeu e sorriu ao ver que a sua voz saiu mais suave. – Hotaru.
-Estava a ver que não te lembravas de mim. Já se faz um tempo…
-Sim…
Misaki clareou a garganta, quebrando o silêncio instalado.
-Vais? – Perguntou à jovem, indicando a porta.
-Vocês avisaram-na?
As duas adultas entreolharam-se, antes de Hotaru responder:
-Não. Ela não acreditaria em nós.
De certa forma, o último comentário soou menos frio do que Linda julgava. As palavras pareciam estar carregadas de desprezo, mas Hotaru falara com tristeza. Sem duvida que o estado em que a melhor amiga se encontrava a incomodava.
Elas afastaram-se da porta, deixando-a livre. Tal como uma criança perante a sua primeira vacina, Linda paralisou perante a maçaneta da porta. Inspirou e expirou antes de rodá-la e entrar no quarto.
As cortinas bloqueavam a luz, tornando o quarto num escuro santuário. Na cama, postava uma figura adormecida. Caminhou cautelosamente, evitando fazer barulho, mas foi ouvida:
-Que fazes aqui? – Perguntou uma voz ríspida. Um calafrio percorreu o corpo de Linda. Não tinham Misaki e Hotaru dito que a mãe não sabia que ela estava ali? Como poderia ela saber quem ela era?
-Saí! – Ordenou a voz, um pouco cansada mas firme. – Não tenho paciência para te ouvir. Estou farta… dá-me paz… - aí a voz fraquejou, perdendo som e forças.
Linda semicerrou os olhos. Ela deveria estar a falar com outra pessoa. Avançou para junto da cama dossel, as cortinas impedindo de ver a pessoa lá deitada. Conseguia senti-la tensa na cama, talvez ganhando forças para gritar de novo com ela. Achou que devesse dizer algo.
-Mãe?


Última edição por AnA_Sant0s em Dom 02 Jan 2011, 11:41, editado 1 vez(es)

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Dom 02 Jan 2011, 11:34

A sua voz ecoou pelo quarto e teve efeito imediato na outra ocupante. De súbito, o ar ficou menos tenso e Linda podia jurar que a mãe duvidava daquilo que ouvira. Mas o quarto só tinha duas ocupantes e era impossível imitar uma voz, tal como Small Lady começou a aperceber-se:
-Linda?
Esta aproximou-se e afastou a cortina.
Estava diferente. Muito daquilo que ela esperava. Antes de Linda abrir a porta rumo a um novo mundo, a sua mãe estava desleixada e com ar doente. Ironicamente, agora que estava realmente doente, parecia a jovem mulher que Linda vira nos seus sonhos. Claro que ainda tinha o ar doente. Pele terrivelmente pálida, ar de quem poderia cair a qualquer momento e cabelos todos despenteados. Mas havia algo nela, um ar aliviado, que impressionou a filha.
-Que fazes aqui? – Perguntou ela. Longe de ser rude, estava agradavelmente surpreendida. – Julguei que nunca mais cá voltasses.
-E era… mas você… tinha que a ver – acabou Linda, os olhos postos no chão. Quando os ergueu, viu a mãe a sorrir e a acenar-lhe para se sentar na beira da cama. Sentou-se, ainda que hesitante.
Suspirou, sentindo um estranho cheiro a alecrim entrar-lhe pelas narinas. A sua mãe olhava-a atentamente, tal como Edward fizera momentos antes. Também ela parecia duvidar da presença da filha mais nova. Sem dúvida que só ficaria convencida quando lhe tocar e sentir que ela era sólida, não um produto da sua imaginação ou alucinações de uma mulher doente.
Tal como Linda suspeitava, Small Lady pegou-lhe na mão cuidadosamente. Ao sentir a pele da filha na sua, um certo brilho percorreu o pálido rosto. Os seus olhos ficaram sem expressão por uns momentos, momentos esses passados em silêncio. Linda observava a mãe atentamente, receosa do seu próximo passo. Já Small Lady, sem largar a mão da filha, reflectia.
Pela primeira vez em anos, silêncio era a última coisa que Linda pedia. Pela primeira vez, estava farta dos pensamentos, das hesitações. Ela queria sair dali, mas aquilo atrasava-a.
-Eu julgava que eras outra pessoa – comentou a rainha, sem tirar os olhos do fundo da cama. – Pelo modo de caminhares.
-Sou assim tão sorrateira? – Perguntou Linda casualmente.
-Muito…
Algo naquele comentário não agradou à rapariga.
-Que quer dizer com isso?
Mas a mãe não parecia disposta a continuar aquela conversa.
-Viste o teu pai? – Perguntou, os olhos vermelhos cheios de preocupação. Linda assentiu.
-Como é que ele está?
Ela achou estranha aquela pergunta. Não estava Edward todos os dias junto da esposa? Como que lendo pensamentos, Small Lady respondeu:
-Mandei-o ir-se embora. Ele aqui está sempre deprimido e o que menos preciso é de o ver infeliz. Pedi-lhe que saísse e que respirasse ar puro. Aliás, tenho-lhe pedido isso há meses, ainda antes de lhe ter contado que estava doente. Foi por isso que ele foi ao torneio de dança. O torneio onde tu dançaste. – Acrescentou, com um sorriso. – Ele deu-me todos os detalhes da tua dança, apesar de eu não ter percebido metade daquilo que ele disse. Nunca o vi assim tão orgulhoso. – A sua face ficou sombria. – Mascaras de gelo são difíceis de conseguir, mas não impossíveis. – Disse, num sussurro. Linda ficou branca. Era a segunda vez que falavam daquilo. Apesar de Edward e Small Lady lhe terem tocado, havia algo nas expressões deles que ainda não estavam acordadas para a realidade. Uma realidade em que a filha deles estava ali a ouvi-los falar de algo que abalou a vida deles.
-Só duas vezes – continuou a rainha, completamente alheia ao choque de Linda – é que o vi mostrar as suas emoções para ti. E também foram duas vezes para o Kenji… – A primeira vez que o irmão era mencionado. Linda calculava que a mãe perguntasse como é que ele estava, mas enganou-se. Small Lady continuou o seu discurso. – Desde que nasceste – acrescentou, baixinho. Linda ouviu, mas tentou não mostrar emoções. - Quando o Kenji fez dez e conseguiu pregar uma partida ao duque da Holanda, um homem arrogante que o teu pai não gostava. O homem ficou todo verde, até no bigode. O teu pai não conseguiu controlar o riso e acabei por ser eu a castigar o teu irmão, apesar de não ter sido nada de grave. Nem eu gostava daquele homem. A segunda foi quando o teu pai vos levou a Inglaterra, lembras-te?
Linda lembrava-se perfeitamente. Tinha sete e divertira-se bastante a montar a cavalo e a passear pelos prados. Como os pais estavam muito ocupados com os seus deveres reais, os avós aproveitaram e levaram os netos numa viagem à Península Ibérica, onde visitaram Barcelona, Madrid e Santiago de Compostela em Espanha e Guimarães, Algarve, Porto e Coimbra em Portugal.
Assentiu com a cabeça. A mãe sorriu, os olhos ainda focados noutro ponto distante.
-O teu irmão fez umas maluquices quaisquer a tentar montar o cavalo dele. Não tinha sucesso nenhum. Aliás, nem eu e o Edward tínhamos jeito para os cavalos. Ele conseguia montar um por uns tempos, eu nem montar para cima de um conseguia. Tu foste a excepção é claro. Mas o teu irmão foi a coisa mais engraçada de se ver. Tínhamos que fazer aquela parada por Londres e o teu irmão não conseguia montar o cavalo. Eu e tu recebemos ajuda e o teu pai subiu ao seu, mas o teu irmão ainda estava em terra. Íamos chamar o instrutor quando o teu irmão disse para irmos indo que ele ia atrás. O meu pai ficou com ele. Depois estávamos na parada os três e chega o teu irmão atrás com o meu pai a montar o cavalo e o teu irmão num carrinho atrás, acenando a toda a gente.
Linda soltou uma gargalhada. Lembrava-se tão bem daquele dia. Os coches eram apenas para as mulheres, no entanto, apenas a avó e ela foram nesse coche, ela com a cara escondida dos fotógrafos. Já os homens tinham que ir a cavalo e Kenji não tinha hipótese nenhuma a não ser arranjar forma de subir para o seu cavalo. Mas teimoso como era, recusou toda a ajuda que lhe ofereciam. Linda lembrava-se de vê-lo a olhar para o cavalo e sussurrar: Diabo com quatro ferraduras, recusando-se a subir a um. Linda perguntara-se a si própria como é que o irmão conseguiria não subir ao cavalo. Por momentos pensara que o irmão iria suplicar ao pai para o deixar ir no coche, mas Kenji arranjou a sua própria maneira. Um simples carrinho de quatro rodas que era puxado pelo seu cavalo, que era montado pelo avô, que ria a altas gargalhadas. No coche, a sua avó também perdeu a compostura ao ver o neto a cumprimentar tudo e todos com um ar pomposo no seu carrinho e até a mãe tentara esconder as suas risadas. Na altura, Linda não prestara atenção ao pai, que ia à sua frente no cortejo.
-O teu pai quis matá-lo ai em frente a toda a gente e, ao mesmo tempo dar os parabéns por ter conseguido cumprir a sua promessa de não montar o cavalo e, ao mesmo tempo, ter cumprido o seu dever como príncipe… com originalidade, devo dizer. Os olhos do teu pai brilharam tanto naquele dia, apesar de mais tarde lhe ter dado um sermão valente.
Linda não conseguiu evitar um sorriso. Aquele tipo de atitudes era tão normal. Um pai orgulhoso da esperteza do filho mas, ao mesmo tempo, furioso pela sua irresponsabilidade.
-Contigo foi mais… fácil esconder. Mas também houve esses momentos. O da dança e o teu nascimento.
Falta um, pensou Linda. Quando o seu pai lhe tinha ensinado um truque para a dança. Ela vira-o sorrir quando ela lhe agradecera, os seus olhos a tilintarem de felicidade, ainda que na altura ela fosse cega a ponto de pensar que aquilo não era nada de mais.
-Espere aí… - disse ela de repente, confusa. – Disse, o meu nascimento?
Agora não entendia nada. Supostamente o seu nascimento fora motivo de depressão, não alegria... certo?
-Sim… - espondeu a rainha simplesmente, os seus finalmente postos na filha. Linda percebeu, para seu azar, que a mãe agora não se iria descuidar mais naquilo que dizia. Logo na parte que ela tinha mais curiosidade.
-Mas vocês… tudo isto começou comigo. Com o meu nascimento.
Os olhos da mãe fitaram-na, dando a Linda a sensação de estar a ser examinada a raio-X.
-Foi a meio da gravidez. – Murmurou ela, num tom pesaroso. – Todos temiam que eu fosse cometer uma loucura. Que eu… - desviou o olhar da filha, não conseguindo encará-la. – Sabotasse a gravidez.
Linda controlou a curiosidade de lhe perguntar “e tentou?”, pois não havia em Small Lady nada que mostrasse que ela não estava arrependida.
-Havia sempre alguém comigo dia e noite. Nem podia estar com o meu filho sem saber que uma navegante, os meus pais, uma empregada ou até mesmo o meu marido pudesse estar de olho em mim.
Linda ergueu o sobrolho. O seu pai queria que ela nascesse? Mais uma vez, a sua mãe respondeu-lhe aos seus pensamentos.
-O Edward já te amava ainda antes de tu nasceres. Eu achava que desejava uma filha muito mais do que toda a gente na minha família, mas estava enganada. O Edward queria-te e ti e ao Kenji muito mais do que eu alguma vez quis. Eu estava hesitante em ser mãe e fiquei em pânico nos primeiros meses de gravidez do Kenji. Já o teu pai ficou logo contente. Era-lhe natural. À segunda já não tinha medo nenhum. Estava preparada e desejava uma menina. Mas o Edward desejava mais. Vi isso logo após a ecografia, quando descobrimos que vinhas a caminho. Os sonhos que ele planeara. Nem mesmo quando… aquilo aconteceu… ele deixou de querer desistir do seu sonho de ser pai e ter uma família. Achávamos nós que haveria uma maneira… um outro caminho…
-Como assim outro caminho? O que aconteceu? – Interrompeu Linda, morta de curiosidade. Small Lady ignorou-a.
-O meu pai fizera anos no dia anterior e nós estávamos na nossa casa de verão. Os meus pais tinham várias reuniões de trabalho e não puderam estar comigo naquele dia. Estava tão aborrecida que o teu pai decidiu pedir à Minako que levasse o teu irmão ao parque de diversões do outro lado da cidade e que nos deixasse sozinhos. Mas meia hora depois o teu pai recebeu uma chamada. O meu pai precisava dele urgentemente. Eu ficaria sozinha. Então ele ligou para a Misaki, para a Hotaru, o Benjamim, o Hiroíto. Nenhum deles podia. Aliás, o teu pai perdeu quinze minutos a ligar para toda a gente. Durante esse tempo, eu dormia pacificamente. O teu pai lá conseguiu ligar para a Minako e pedir-lhe que viesse com o teu irmão. Saiu a pensar que eu estava a dormir.
-E não estava?
-Estava ele a pegar na mala quando me deu uma contracção. Depois ele saiu (ouvi o bater da porta) e veio outra. Não o consegui impedir de sair e ia a caminho do telefone quando a luz foi abaixo.
-Foi abaixo? Porquê?
-Por causa do tufão Mercury. Eu não queria nem o meu filho nem o teu pai na rua naquele tempo, mas não os pude impedir. Aliás, naquele momento só queria ligar para alguém, pois as dores eram insuportáveis.
«O meu telemóvel estava do outro lado da casa e era completamente impossível eu percorrer aquela distância. Acabei por ficar num canto da sala, virada para a porta a gemer de dores. A Minako tinha apanhado trânsito e tivera que fazer desvios por causa do tufão. Horas passaram-se e a certa altura via a tua cabeça. Eu entrei em pânico. Tinhas que nascer ou morrerias. Já não me lembro como fiz aquilo, a única coisa que me lembro são das dores que aumentava a cada segundo. Acho que me esqueci de tudo, apenas sabia que tinha que te ajudar a nascer ou morrerias. Fiz pressão na barriga, puxei… não me lembro do que fiz de errado, mas durante todo aquele tempo eu pensei que tinha feito tudo mal. Tu não gritavas. Peguei uma lima para as unhas e cortei o cordão umbilical e fiquei contigo nos meus braços. Tu não choravas, ou melhor, não respiravas. O teu irmão saiu de dentro de mim a gritar, não sabia o que fazer. Foi aí que me lembrei que, se te batesse, tu começarias a chorar. Foi o que fiz. Nem sabes o quando chorei quando te ouvi gritar, toda cor-de-rosa e pequenina. Mal cabias nos meus braços. Nasceras uma semana antes do esperado. Entrei em pânico. Tinha que te levar para o hospital. Mas estava tão fraca. Tinha uma grande poça de sangue à minha volta, que sujou toda a minha camisa de dormir. Tinha que chamar alguém. As luzes voltaram. Ao que parecia, o tufão mudara de direcção momentos antes. Nem sei quantas horas tivemos lá sozinhas. Penso que quatro ou cinco. Nunca ouvi falar de parto mais rápido. A Minako estava a ficar frustrada, o teu irmão estava assustado e não me conseguia ligar. Pelo caminho encontrou o teu pai, que voltava da reunião. Quando o teu pai viu a Minako com o Kenji, percebeu que eu estava sozinha. E sabes o que é que o parvalhão fez? Desatou a correr, deixando o carro no meio da auto-estrada. Correu até casa para quase arrombar a porta.»
Small Lady parou de falar, sem duvida que reflectindo sobre aquilo que dissera. Linda estava em silêncio. Não sabia o que dizer muito menos o que pensar daquilo que ouvira. Era tanto detalhe novo que ela não conseguia digerir aquilo com a mesma velocidade que digeria outros pensamentos. Parte dela ainda não estava recuperada do ‘quase-choro’ que passara momentos antes. Lágrimas queriam sair e desta vez Linda não as impedia.
A mãe observava-a, com um ar sonhador. Em seguida, pegou-lhe na mão e apertou-a à sua.
Várias imagens circularam por entre os olhos das duas.

**
Ele entrara dentro da casa a correr. Atrás de si, deixou a porta quase arrombada. Pânico subiu-lhe ao cérebro, ficou incapaz de se mexer. Gritou o nome da mulher, mas foi o som de uma criança a chorar que recebeu em troca.
Foi atrás do som, agora mais hesitante. Seria produto da sua imaginação aquele som tão natural de um bebé a chorar?
Encontrou a esposa sentada no chão no meio de uma poça de sangue. Estava terrivelmente pálida e os cabelos estavam todos despenteados e molhados. Toda ela estava molhada. A sua camisa de dormir estava toda manchada de sangue, mas ela chorava. De alegria. Segurava nos braços uma pequena bebé recém-nascida, toda cor-de-rosa, muito pequena, rosto um pouco amarelado e com um grande tufo de cabelo negro.
Ele não conseguiu controlar as lágrimas. Ficou ali parado, mesmo tendo consciência de que a mulher e a filha precisavam de cuidados médicos. Ficou imóvel, a olhar para a criança, que não parava de chorar.
Aproximou-se da mulher, que lhe estendeu a criança. Ele pegou nela cuidadosamente. Tinha tanto medo de a quebrar. Ela era tão pequena. Os seus braços pareciam os do King Kong ao segurá-la. Ao admirar a menina, só podia ver semelhanças com a mãe. Mas isso não importava.
Um pai fica sempre feliz quando segura o seu filho pela primeira vez. Sente-se capaz para o cargo em mãos. E isso acontecera com Usagi e Edward quando Kenji nascera. Uma mãe ama o filho incondicionalmente, principalmente depois daqueles meses todos com ele dentro de si. Mas para o pai, a história era outra. Ao segurar Kenji, ele sentiu-se um rei com o maior séquito da história, um vencedor da maratona, o homem mais feliz do Sistema Solar. Mas aquela menina era diferente. Era sempre diferente. Segurar uma filha não era a mesma coisa que segurar um filho. Os pais criam o rapaz para ser um vencedor, já as raparigas… era aquela sensação de que as iriam proteger até ao dia do Julgamento Final. Que aquela criancinha nunca iria crescer, seria sempre a menina do seu pai.
Ela estava coberta de sangue e sujou-lhe a camisa. Mas isso não lhe importava. Com um braço, segurou a pequena cautelosamente e com a outra mão pegou no telemóvel. Ligou para as urgências. Agora era só esperar.
Não conseguia tirar os olhos da filha, que começava a acalmar. A imagem estava um pouco desfocada, devido às lágrimas, mas ele não se atreveu a limpá-las. Não se atreveu a mexer-se. Era como se segurasse uma boneca de porcelana. Cuidado ou ela iria se partir.

Ela sabia que, quando os seus pais chegassem, nada voltaria a ser o mesmo. Uma aura negra cercava aquela menina tão inocente e inconsciente daquilo que lhe esperava. Usagi deixou cair uma lágrima, que se misturou com as outras. Mas aquela lágrima era diferente das outras. Aquela era a lágrima de uma mãe que não podia evitar o que aí vinha.

**
Linda deu um salto, quase caindo no chão.
-O que…
-Presumi que já soubesse até onde se estendiam os teus poderes. – Disse a sua mãe, num tom casual.
-Tinha… uma ideia… - Linda deu voltas pelo quarto, a sua mente semelhante a uma folha de papel em branco. Verdade que ela tinha suspeitas que ela podia ter acesso aos sonhos das pessoas acordada, mas não daquela maneira. – Como é que…
-Temos o mesmo sangue, poderes semelhantes. – Respondeu Small Lady calmamente. – Nada de anormal.
Só se for para si, pensou Linda para os seus botões. Ainda assim, tentou manter a mente em foco naquilo que acontecera e não naquilo que vira. Era bem mais fácil pensar num poder que tinha no que nas complicações que a sua vida levava.
-Aura negra… - ouviu-se dizer, sem conseguir evitar. – Aura negr…
-Pouco sei eu, pouco sabes tu.
Linda mirou a mãe, furiosa.
-O que raio é que vocês me escondem? Já pararam para pensar que isso ME DIZ RESPEITO? Se isso é sobre MIM, então eu não deveria ter o DIREITO de saber? Porque me escondem isto? E porque é que tudo o que se passa à minha tem a ver COMIGO? Porque é que o meu irmão perdeu os pais? Porque é que você e ele mostram provas de amor quando me IGNORARAM TODA A MINHA VIDA!?
-Linda…
-Você agora está doente e acabou por me fazer sentir-me culpada. Não é justo pensar mal de si TODA A MINHA VIDA para agora, quando VOCES ESTÁ A MORRER, me contar que sempre gostou de mim, que fora OBRIGADA a ser má para mim…
-LINDA!
A jovem parou de falar, apesar do seu temperamento ainda querer explodir mais um pouco. Small Lady estava de tronco erguido, a olhar para ela. Os seus olhos soltavam faíscas de ira, que Linda conseguia sentir esmo ao longe.
-Se deres uma volta à tua vida, vais ver que ALGUMA coisa nós te dissemos. Vais perceber que as coisas NUNCA foram o que pareceram. Não digas que eu e o teu pai fomos obrigados porque foi mentira. Foi voluntariamente. Mas tivemos os nossos motivos. Não te contamos nada porque… sinceramente Linda, qual seria a tua reacção? Tu nunca entenderias e, mesmo que entendesses, daria cabo de tudo. Era FUNDAMENTAL não saberes. Porque tu VIVERIAS MELHOR sem saber…
No que toca à minha doença… - fez uma pausa, a sua raiva a diminuir de intensidade. – Não pedi para ficar doente. Não pedi para ter este tumor inoperável. Não pedi nada disto. Não pedi uma sanguessuga sempre a infernizar a minha vida. Não pedi que o meu filho saísse de casa e não quisesse ter mais nada a ver comigo, nem que o meu marido sofresse tanto com isto. E, acima de tudo, não pedi para que viesses cá… mas estou feliz por teres vindo.
A última frase foi dita suavemente, apanhando a morena de surpresa. Esta olhou para a outra ocupante do quarto, chocada por vê-la a sorrir.
-A vida não é como queremos Linda. Mas espero que tenhas mais sorte do que eu. Eu não consegui evitar que uma sanguessuga se metesse na minha vida. E isso… custou-me tudo. – Acabou ela com um suspiro. Linda entendeu que era altura para sair, ainda que muitas perguntas tenham ficado sem resposta.

Não estava ninguém na entrada do quarto. Misaki e Hotaru deviam estar na sala. Percorreu os corredores, tentando evitar olhar para os quadros, janelas ou algo onde ela pudesse ver memórias distintas.
A certa altura parou. Aquela era a ala oeste do palácio. O mesmo sitio onde estava…
Hesitou perante aquela enorme porta. Poderia ela entrar? Afinal, ainda era uma herdeira ao fim de contas.
Abriu e entrou na sala. Teve que pôr a mão à frente dos olhos, devido à intensa luminosidade. A sala estava pintada de branco e aquilo que não era branco, era transparente como cristal. A única coisa que diferenciava-se um pouco do resto da decoração era uma almofada púrpura, que sustinha uma pedra cujo brilho dificultava a visão de Linda. O cristal Prateado.
A pedra mística que ela iria herdar mais tarde. Uma pedra que possuía uma enorme quantidade de poder. Jamais poderia cair nas mãos erradas. Claro que isso não impediu que tal não tivesse acontecido no passado.

Avançou até ao cristal, a sua vista já habituada à intensa luz. Estranhamente, sentia-se bem naquela sala. Como se estivesse no seu elemento. Uma sensação de paz e tranquilidade que ela nunca sentira em qualquer noutro lugar. Ali estava ela, princesa da Lua e da Terra, na sala onde estava a chave de toda a felicidade no Sistema Solar. Onde estava a chave para si própria. Era a única prova – para além de memórias – de que ela tivera uma vida anterior à sua. Uma vida que agora se cruzava com o presente. De repente, ela já não se podia contentar em olhar para o presente. Tinha o passado nas suas mãos e o futuro pendente das suas acções.
De repente, sentiu-se levemente sufocada. Alguém infiltrara-se no seu elemento, caminhando sorrateiramente. Não era preciso ter os poderes de Cecília para saber que era alguém com uma alma muito diferente da do cristal, que emitia uma luz pura.
Virou-se de imediato. À sua frente estava nada mais, nada menos do que Guinevere Dawson.

O efeito dos opostos manifestou-se logo. Linda jamais poderia imaginar que ela fosse semelhante, mas também o verdadeiro oposto de Dawson.
Dawson estava vestida com roupas escuras, enquanto Linda com roupas claras. Ambas tinham pele branca, e eram da mesma altura. No entanto a cor dos olhos de Dawson eram a cor dos cabelos de Linda e o azul que enfeitava os olhos da jovem, era o que mais chamava a atenção no cabelo de Dawson. Ambas eram magras e Linda ficou parva a ver que, ao fim de vários meses, conseguira finalmente ganhar curvas semelhantes a aquela mulher, considerada uma das mais belas e formosas. Ambas tinham traços delicados no rosto, mas os olhos de Linda brilhavam, os de Dawson não. Os lábios de ambas, pintado de um rosa murcho, formavam linhas curvas, mostrando o desprezo que sentiam uma pela outra.
Era a primeira vez em anos que via Dawson. E Linda estava muito contente com esse feito. Sempre detestara aquela mulher, arrogante, mesquinha, egoísta e egocêntrica.
O ar estava mais pesado. Linda pensou, estupidamente, que talvez a sala não tivesse oxigénio para as duas. Uma tinha que sair. Mas nem ela nem Dawson se mexeram. Ambas limitaram-se a fitar a outra. E poderiam ter ficado assim por muito tempo, não fosse a raiva que Linda sentia. Era aquela mulher que estava a ordenar aqueles ataques. Por causa dela, uma rapariga ficara em estado vegetativo, por causa dela outras pessoas haviam sido atacadas e retirado essência das suas vidas. Por causa dela…
Longe de querer tornar Guinevere o bode expiratório para todos os seus problemas. Linda sabia que ela era a causa daquilo tudo. E isso apenas a fez ficar com mais raiva. Parte dela queria correr dali para fora, a outra queria espancar aquela mulher e arrancar-lhe os cabelos pela raiz.

O chão tremeu um pouco, mas Linda não sentiu. Dawson deu um passo atrás, apanhada de surpresa.
-Estou a ver que cresceste. – Comentou, a voz ácida como limão. – Tens poder suficiente para provocar um tremor de terra.
-Sempre tive. – Retorquiu Linda, no mesmo tom. – E você sempre soube.
Os olhos de Dawson brilharam maliciosamente.
-Oh sim. É claro que soube. E foi por isso que achei melhor afastar-te do teu caminho.
-O quê? Que quer dizer com isso?
O sorriso de Dawson aumentou.
-Não sabes ainda? Que pena. E eu que julgava que eras esperta.
Acostumada aos comentários sarcásticos e arrogantes de Dawson, Linda nem pestanejou.
-O que faz aqui?
-Perguntava-te o mesmo.
-Você não é bem-vinda aqui. – Era verdade. Linda entendera de imediato quem era a ‘sanguessuga’ que a mãe falara.
-Se reparares melhor… - disse Dawson, dando um passo e frente, olhando Linda como um caçador olha a sua presa. – Tu também não és.
Mentira. Aquele era o seu lugar. Era o seu elemento.

Antes que tivesse noção daquilo que estava a fazer, Linda sentiu a sua cabeça a andar à roda. Aquilo que ela estava a ver não era pelos seus olhos, mas sim pelos da mulher que estava à sua frente.

**
Guinevere Dawson era filha de camponeses de Glastonbury, em Inglaterra. Bela desde pequena, arrogante desde nascença. Ansiava por uma vida melhor, onde não teria que trabalhar para ter que comer, tal como os seus pais fizeram toda a vida. Teve três irmãos, dois perderam-se para a gripe, o outro para a estrada, num acidente. Dawson chorou a morte de Daniel, seu irmão mais novo, morto pela gripe. Chorou, não por saudades ou tristeza, mas porque fora a morte mais desnecessária que ela alguma vez vira. Ao contrário do seu outro irmão, que não tinha salvação, Daniel podia ter sobrevivido se lhe tivessem dado medicamentos. Mas os pais não tinham dinheiro e nenhum hospital os aceitou. A partir daí, Guinevere prometeu a si própria que tudo faria para alcançar o topo. E durante anos fora isso que fizera. Quando fez dezasseis, conseguiu a confiança de um duque que se propôs a adoptá-la. Guinevere largou a sua humilde família num piscar de olhos e de repente viu-se num mundo maravilhoso de luxo e riqueza. Ele apresentou-a à nobreza como sua ‘filha adoptiva’, enchendo-a de jóias, vestidos, instrução. Em troca, dividia a cama com ele.
Guinevere queria, acima de tudo, ser superior às filhas dos nobres. Frequentou a escola e tentou fazer as ‘melhores’ amizades naquele campo. Fora aí que conhecera Edward, jovem príncipe, primo do Rei. Ele era tudo aquilo que ela sempre quis. Jovem, belo, inteligente e poderoso. Era o perfeito homem para ela. Aproximou-se da prima deste e do seu melhor amigo, Benjamim, ganhando assim um lugar no seu círculo de amizades. Mas Edward não tinha olhos para ela e, por muito que Dawson tentasse, a sua beleza não hipnotizava Edward como fazia com os outros homens.
Fora num workshop de Relações Publicas onde conheceu a sua competição. Edward conhecera a filha dos reis do Japão, Usagi, e apaixonara-se por ela. Guinevere viu que, para espanto de tudo e todos, nenhum deles tinha a noção dos seus títulos reais.
Apesar de Usagi ter-se revelado difícil, iniciando uma relação de ‘cão e gato’, era obvio que ela também gostava dele. Tentando evitar os seus avanços, aproximou-se da princesa e tentou arruinar a relação. Ela tinha agora dezanove e conseguira livrar-se do nobre. Agora os seus planos eram todos para Edward. Jamais quereria ela ficar junto de um homem que era dois anos mais velho que o seu próprio pai.
Por mais que tentasse afastá-los, ambos pareciam aproximar-se ainda mais. Guinevere persuadiu uma amiga da Rainha Small Lady a falar com a tal. No final, Usagi estava noiva com outro homem, tendo sido obrigada a pôr um ponto final na sua relação com Edward. Ela vira os dois pombinhos a despedirem-se. Edward achava que ela lhe escondia alguma coisa. Usagi nunca fora boa a mentir. Ver os dois a beijarem-se pela uúltima vez fez com que ela desse um salto de alegria.
O que ela não contava era que a Rainha-Velha fosse mais esperta do que ela pensava. Ao que parecia, Hotaru contava-lhe tudo, inclusive o namoro da filha com Edward. Guinevere não contava também que a ‘amiga’ da rainha era mais amiga dela do que ela pensava. Ainda hoje Rei Hino dava-lhe um sorriso de desprezo por onde ela passasse. As duas trataram do noivado de Usagi com o homem que ela queria. E assim estavam os dois casados.
Dawson viu-se agora com um problema em mãos. Não apenas Edward estava junto da outra, como também ela desenvolvera um profundo ódio a Usagi. Esta, Misaki e Hotaru não escondiam o desconforto de a ter por perto.
Tentou arranjar formas de superar Usagi. Soube que ela era herdeira do lendário cristal prateado. Isso indicava que ela tinha poderes. Mas como? Fosse como fosse, Dawson também queria ter esses poderes… e mais.
Pesquisou e pesquisou e entretanto nascera o primogénito. Ela vira a criança. Bonita e traquinas, fazia-lhe lembrar do pai. Sorria sempre que a criança estava por perto. Talvez o rapaz desses os seus usos no futuro.
Continuara a procura e pelo caminho descobrira a história do Milénio Prateado. E as Guardiãs da Esperança. Misaki descendia de uma e Usagi da outra, enquanto uma rapariga loira que começara a aparecer no palácio deveria ser a descendente da outra. Estavam as três grávidas de raparigas. Melhor dizendo, Usagi estava, pois a loira tinha dado à luz uma semana antes de a ter visto e a filha de Misaki tinha nascido em Fevereiro. Só faltava uma.
E quanto mais Guinevere pesquisava, mais descobria que aquela rapariga não podia nascer. Ou, se nascesse não poderia viver durante muito tempo.
Tinha que fazer alguma coisa. Tinha que impedir que a rapariga estragasse os seus planos.

**
Linda sentiu talvez a dor mais forte que alguma vez sentira. Era como se um camião estivesse a despedaçar o seu crânio em pó. A dor continuava e aumentava de intensidade a cada segundo. Era tortura, aquela dor não devia ser sentida por ninguém. Todo o seu corpo estava petrificado, as pernas moles e os braços rígidos. Deixou-se cair no chão, as mãos a apoiarem a cabeça, pesada como chumbo.
Não tinha noção do que se passava à sua frente. De repente, todo o ar tranquilo da sala desaparecera e ela era a intrusa, não Dawson. O que teria acontecido? Nem conseguia pensar direito.
A sua cabeça iria explodir se aquela dor não parasse. Sentiu-se inchada incapaz de respirar, incapaz de falar. Lágrimas secas caíram-lhe pelo rosto, enquanto ela gritava. O seu grito ecoou pela sala, como se treze Linda gritassem a mesmo tempo. Ajoelhou-se e tocou com a cabeça no chão. Mas doía tanto.
Desesperada, arrancou um pedaço de couro cabeludo e arranhou-se a si própria. Alguém que me mate, suplicou. De facto, a morte era uma hipótese mais agradável a aquela dor tão atroz.
Alguém aproximara-se, mas Linda não tinha noção das coisas. Apenas sabia que esse alguém ficara tão chocado com aquilo que vira que parou junto de Dawson, que nada fazia.
Voltou a gritar, desta vez com mais intensidade. Se alguém lhe espetasse uma facada no crânio, ela não sentiria de tão forte era aquela dor. Sentiu uns braços fortes a agarrá-la.
-Estás a ver Edward? – Gritava Dawson. – Não podes fazer nada para a proteger. Nem a ela, nem à tua mulher. Eu disse-te que esta criança deveria ter morrido ainda antes de nascer.
Linda mal ouvira aquilo que ela dissera. Apenas agarrou-se aos braços que a seguravam, chorando no ombro do seu pai. Este estava rígido como uma tábua, sem saber o que fazer.
-Diz-lhe Edward, que ela não sabe. Diz-lhe que ela é amaldiçoada!
Os gritos de Dawson fundiram-se com os de Linda, antes de se ouvir uma porta a fechar-se num estrondo.
Linda não tinha agora forças nem para gritar nem para se segurar. Tudo o que pode fazer foi agarrar-se ao seu pai como se não houvesse amanhã, soluçando nos braços dele.
-Ajude-me pai… ajude-me…
Edward não podia fazer nada e só esse pensamento fazia-o sentir-se inútil. Tudo o que podia fazer era agarrar a filha, tal como fizera quando ela nascera e abraça-la, esperando que a dor passasse.
-Se eu pudesse filha, se eu pudesse…

------------------------

Acabou. E agora espero grandes comentário, ouviram? Porque escrever custa, sabem? Sem grandes comentários, não sinto vontade nenhuma em escrever...
Fique apena sum aparte dito.
-Não foi coincidencia eu colocar Glastonbury como sendo a cidade natal de Guinevere Dawson. Glastonbury é conhecida pelo mito de Avalon, a cidade do Rei Arthur, cuja esposa se chamava Guinevere.

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Sex 07 Jan 2011, 10:24

Xii, que aconteceu ao pessoal? Anda tudo desaparecido. Matreiro

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por Bun em Sex 07 Jan 2011, 12:34

Olá.
Pois, na verdade vi o novo capítulo no próprio dia em que colocaste, mas só dei uma lida na diagonal. Do que vi gostei bastante e o final então...coitada da Linda.
Mas agora não tenho tempo para ler melhor. Sei que é importante teres comentários, é importante para qualquer escritor, mas não vou ter tempo durante este mês, estou em plena época de exames na fac...é uma seca.
Mas no mês que vem prometo comentário.
Beijinhos e até lá. Very Happy

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por lulumoon em Sex 14 Jan 2011, 15:48

Awhhhhh! O meu computador avariou! ;_; Só hoje é que pude vir ao fórum ler a fic!

Oh pá, gostei logo do inicio! Aquela introdução a falar do destino, do acaso, e a citação do Einstein, disseram logo "Capitulo Wonderfull. LER!" A partir daí foi sempre a desvundar!

Vê-se mesmo que és uma pessoa culta, Ana, eu leio os teus postes e em todos penso "esta rapariga percebe de ciência, de literatura e de Arte! Ah e dança!" Matreiro, porque nem toda a gente, por exemplo, se dá ao trabalho de ir buscar pormenores tão minuciosos como as relações entre deuses e os seus dons, e criar simultaneamente uma historia que se entrelasse com todos esses aspectos que muita gente nem conhece. Além disso a tua linguagem mostra mesmo que conheces um vasto vocabulário e utilizas expressões peculiares, mas que dão um certo gostinho a ti no texto, tornando-o diferente pela positiva, pois não existem os tipicos comentarios repetitivos que se encontram em tudo que é conto. Quem me dera a mim conseguir expandir-me tanto como tu nesse aspecto! Smile

Em relação ao capitulo em si, bem, como ja disse, gostei da intruduçao e fiquei admirada ao ver que o tempo passou de repente, assim como ao notar o tédio da Linda, coisa que nao esperava! Matreiro Gostei muito da visitinha ao quarto do Eiji (podes fazer mais cenas estas Matreiro), a Lindinha é uma marota e muito mázinha, por sinal! E o Eiji é um contido!... Errr... Vá, cavalheiro! Matreiro
Fiquei curiosa em relação á marca dele. Porque se Linda tem uma e enfim, aconteceu o que aconteceu no final, pergunto-me se ele tambem tem certos... problemas, digamos.
Felizmente, deu para eles ficarem melhorzinhos, q.b., no final daquela visita.

Uma cena que nao esperava ver era a fragilidade do Kenji, mas gostei muito, sim senhora, fiquei mesmo com pena do rapaz! ^^'
Em relação á conversa da Misaki com a Linda antes de irem ao palácio, achei muito misteriosa, assim como todos os acontecimentos seguintes, desde a conversa do Edward com a Linda nos fantásticos jardins do palácio, como as conversas com a Small Lady no quarto. Adoro estas memorias do passado que desvendam tanta coisa! Dão-me tanta pica de ler! ^^ Quando li a parte do parto "home alone" que acabou em lágrimas porque uma aura negra envolvia a Linda, fiquei aparvalhada já que a rapariga até é porreira! xb
Mas eis que surge Dawson! A historia dela estava mesmo ao estilo da personagem, é mesmo à Bitch! Agora pergunto-me que raio é que ela fez à Linda antes dela nascer, sim, porque de certeza que foi tudo obra daquela criatura! --'

Por fim, O final do capitulo deixou, como era de esperar, agua na boca, rios e mares de saliva! Aqueles gritos agonizantes, aquela dor, a Dawson a dizer que a Linda era amaldiçoada, e o Edward a lamentar que não podia ajudar, mataram-me!

Costuma-se dizer "Cozinheiro de mão cheia", no teu caso, é "Escritora de livro inteiro!". Quando publicares um livro avisa aqui a Je, que terei muito gosto em lê-lo!

Mal posso esperar pelo próximo capitulo! Esperancoso

bjokas! ^^

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Dom 16 Jan 2011, 14:45

Bun: Espero que os teus exames te corram bem. Eu tbm estou em fase de testes e já tou a dar comigo em doida. Não tenho tido cabeça para a escrita nem nada. Pois bem, mais uma vez, boa sorte Smile

Lulumoon: Hum... enganaste-te um bocadinho.. Eu não danço. O unico desporto que já pratiquei foi o ténis de mesa (cinco ou seis anos) e sempre adorei o basquetebol e a dança. Gosto muito do desporto e sempre que posso ligo a aparelhagem (ou vou ao YT no pc) e ponho-me a dançar em plena sala. Tenho é uma grande paixão pelas danças de salão. Tinha uma colega de turma que dançava e ficava maravilhada com os movimentos dela.
A melhor parte de escrever uma história é criarmos uma personagem (igual a nós ou que nos agrade) e pô-la num cenário que nós gostariamos de viver ou então simplesmente representar algumas vivencias do nosso dia-a-dia. No meu caso, decidi por a Linda a dançar, pois sempre gostei de aprender isso e, infelizmente, nunca tive professores nem ninguem para me ensinar.
Em relação ao vocabulário... não é nada de mais. Apenas ponho algumas expressões que vejo nos (muitos) livros que leio Matreiro E as partes filosoficas... bem, eu gosto de ler um livro onde aprendemos sempre algo, desde conhecimentos morais (daí as lições morais) até aos conhecimentos "gerais". os meus livros preferidos são os de Dan Brown, Katherine Neville (conhecimentos "gerais") e Torey Hayden (conhecimentos morais). Na minha escrita, gosto de passar um pouco disso, principalmente porque a minha história não tem nada "de novo". O mundo já foi criado por outro escritor (ou melhor, artista) e o máximo que posso fazer é criar personagem humanas que aprendem lições valiosas dentro do mundo já criado. (Não sei se me fiz entender...)

Em relação ao capítulo, ainda bem que gostaste. A marca do Eiji não é nenhum mistério sobrenatural, alias, é do mais humano possivel. Já a Linda não tem nenhuma marca fisica. Não vou conseguir comentar todos os pontos que mencionaste, mas gostie d esaber que a história da Dawson foi do teu agrado. Eu propria estava a ficar incomodada pela ausencia dela e, ao escrever a sua história, tudo fluiu facilmente. Vilãs deste genero são faceis de criar Matreiro

O próximo capítulo vai demorar (again, tou em fase de testes Mal disposto) mas prometo um antes das férias de Carnaval (e, para dar cabos das vossas esperanças, relembro que as ferias de carnaval este ano são em Março).

No próximo capítulo: O tempo está a acabar, Linda é colocada entre a espada e a parede e Dawson consegue mais uma Flor.

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por lulumoon em Dom 16 Jan 2011, 16:05

Fazes-me lembrar uma amiga minha. Ela tambem adorava aprender a dançar e sempre que pode procura por danças novas no youtube e tenta aprende-las. Ela não pára quieta! já eu, sou muito pacata. Dançar, definitivamente, nao é para mim, o que me entristece pois é algo que eu adoraria saber fazer bem.
Ao contrario de ti, eu pouco leio. Normalmente os meus pais não têm a boa vontade de me oferecer/pagar livros, portanto o maximo que leio sao fanfics, e infelizmente, quase todas em português do Brasil, já que não é fácil encontrar uma no nosso idioma que me satisfaça. Também tenho uma amiga como tu. Acho que és a junção destas duas amigas minhas: uma que adora ver dança e tentar fazer os passos, e outra que adora ler sobre cultura geral e também moral, e nao vive sem ler um bom livro de autores cultos que forneçam teorias e filosofias morais. Wink
Infelizmente eu tenho muito pouca cultura no aspecto literarico, e a foma como eu escrevo é do mais simples que há pela minha falta de hábitos de leitura. Deves ter-te apercebido quando leste a minha primeira fic que aquilo era gafanhoto atras de gafanhoto, e em "Angelical" tentei melhorar, mas da maneira como eu escrevo, para a maneira como tu escreves, vai um grande passo. Espero um dia vir a conseguir ser tão pormenorizada como tu! Smile

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por Bun em Sab 05 Fev 2011, 14:51

Olá Ana! Smile
Espero que os testes tenham corrido bem.
Devo dizer que quando leio os teus capítulos esqueço-me que estou num fórum, e para mim estou a ler uma fic escrita por escritores profissionais. Concordo com a Lulumoon, quando publicares um livro, avisa! Escreves mesmo bem.
Amo os teus capítulos. Lamento que só faltem 4, no entanto pra variar, Matreiro, fiquei a morrer de curiosidade pra ver como isto continua, por isso, inda bem que já falta pouquinho pra desvendar todo este mistério!
E para variar amei este capítulo!
Nem sabes quanto adorei a introdução, muito filosófica, fez-me pensar.
Aquela cena no quarto do Eiji, loool, bem a Linda é msm mazinha. Matreiro
E o Eiji um cavalheiro.
O que aconteceu ao Eiji para ter aquela marca? Porque o atormenta nos pesadelos?
A cena no telhado entre os dois irmãos está lindíssima.Mostra bem os sentimentos que os unem.
No palácio, nem sei o que dizer da cena com o Edward, está perfeita, era como se estivesse a ver tudo na minha frente enquanto li, a intensidade de sentimentos, gostei imenso.
Com a mãe da Linda, diverti-me imenso com a história do Kenji e do cavalo,loool. E o nascimento da Linda está absolutamente maravilhoso. A imagem do Edward a arrombar a porta e a correr pra Usagi, uau....
Realmente a história da Dawson veio deslindar algo sobre aquela mulher, e é pena que o irmão tenha morrido por falta de assistência, no entanto como dizem, os fins não justificam os meios, e o que ela fez não tem justificação possível.
Agora a grande questão é: porque é que das três raparigas só a Linda não poderia nascer, porque só a Linda lhe pode arruinar os planos? E porque tiveram medo que a Usagi sabotasse a gravidez? Afinal a Linda tem poderes pra destruir a Dawson, porque quereriam que não nascesse?
A cena final, horrível, pobre Linda. Mas a intrusa ali é a Dawson! Era ela que devia sentir aquilo! O que aconteceu à Linda pra ter dores tão lancinantes?
Antes do Carnaval postas, a sério? Que bom!!
Ficarei à espera!
Bjo**

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Qua 09 Mar 2011, 17:36

Bun: Obrigad apelo comentário. Fico muito contente que tenhas gostado.

Ok, parece que hoje estou com um pouco de azar. Acabei o capitulo, escrevi tudo aqui... e lá se foi tudo. Ou seja, os motivos pelo qual me demorei a postar.. foram-se, assim como os motivos de inspiração para este capítulo.
Enfim, conto-vos tudo amanhã, que agora estou cansada

[1] O vestido de Linda (http://www.modalogia.com/wp-content/uploads/2010/05/calvinklein-beauty1.jpg)
-------------------------------------------------------



26-Carpe Diem


- «Não vale a pena
Fazer um gesto
Não se resiste
Ao deus atroz
Que os próprios filhos
Devora sempre»

- «Colhe o dia
Porque és ele»
Ricardo Reis


O som de um violino pairava no ar, alastrando-se pelo espaço indistinto como uma pandemia fatal. O som de corações partidos e hesitações forçadas pesavam na mente de Linda. Esta abriu os olhos, perguntando-se onde estava.
Ao erguer o tronco com dificuldade, viu que ainda tinha as suas roupas, mas já não parecia estar no mesmo sítio onde sentira aquelas dores.
Pousou a mão na cabeça ao lembrar-se. Jamais tinha sentido tamanha dor e agora estava profundamente aliviada por esta ter cessado.
Tentou levantar-se e sentiu-se satisfeita ao ver que os seus músculos estavam relaxados o suficiente para realizar tal esforço. Tudo que sentira quando se viu de pé, foi uma leve dor de cabeça, que logo passou.
Olhou em volta.
Nada parecia estar ali, excepto uma enorme sala pintada de branco cintilante. Não havia portas, nem janelas, nada. Excepto uma sombra.
Linda caminhou uma dúzia de passos até poder visualizar a sombra sem problemas, esta sentada num sofá redondo. O que viu surpreendeu-a:
-Que bom ver-te, Linda. – Disse Agnes, com uma leve ponta de sarcasmo. Linda forçou corpo e mente para se controlarem. Olhar para Agnes era quase como olhar para um espelho. Mesmo cabelo, mesmo olhos, mesmo sorriso… as semelhanças ainda continuavam, mas Linda desviou os olhos da sua sósia, tentando manter-se calma. Ver Agnes não era bom sinal.
-Estou… - forçou-se a si própria a dizer a palavra, mas Agnes foi mais rápida.
-…morta? Não. – Respondeu ela, com um sorriso.
-Então porque estás aqui?
-Eu não estou aqui.
Linda ergueu o rosto para a princesa da Lua.
-Não brinques. Estou a ver-te.
-Eu não sou a Agnes.
-Mas…
-Eu pareço a Agnes – disse a outra, ignorando a interrupção de Linda. – Porque neste momento, sou a coisa mais próxima daquilo que tu queres ver.
-Mais próxima? O que é que eu quero ver?
Agnes encolheu os ombros.
-Tu é que sabes.
Seguiu-se um incómodo silêncio. O som do violino cessara e Linda começou a entrar em pânico.
-O que aconteceu? – Perguntou, de repente.
-Esforçaste-te demasiado. Não estavas preparada para abusar do teu poder.
-Poder? Que poder?
Agnes ergueu o sobrolho.
-Nem te apercebeste do que fizeste? – Ao ver o rosto confuso de Linda, suspirou – não me admira, tu nem sabes o que podes fazer…
Fitou o rosto da sua sósia. Ao observar melhor, Linda notou que ela não era tão semelhante a Agnes quanto julgava. Agnes era demasiado… perfeita. Um rosto de boneca, branco imaculado, com franca juventude e sem puberdade expressa e olhos brilhantes como safiras preciosas. Mais parecia uma máscara.
-Um iene pelos teus pensamentos – comentou ela, no seu tom provocante.
-Não pareces a mesma – sussurrou Linda, não tirando os olhos de cima da outra pessoa. – Que… a Agnes nas minhas memórias…
Agnes sorriu e ajeitou-se no sofá branco onde estava sentada.
-Como já te disse – explicou, calmamente. – Eu não sou mesmo a Agnes, mas sou aquilo que te liga a ela, portanto ajo como ela. Agora, porque sou assim… - aí, ela suspirou, com um olhar nostálgico e voz sonhadora. – Talvez… sempre fora assim. Mas apenas usei uma máscara para me proteger.
-De quê? E qual era a máscara?
-A resposta à segunda pergunta, é a resposta à primeira. Eu precisava de uma máscara a fim de me defender do mundo exterior. Só me libertei quando conheci o homem que completava a minha alma.
-Morfeu – sussurrou Linda. O rosto de Agnes ficou rígido por uns momentos até que ela retomou o seu discurso.
-Ele completou-me. Fez-me sentir eu mesma e consegui sair da carapaça em que eu me escondia. Ele sempre fora tudo aquilo que eu queria. Aquilo que me protegia. Aquilo que me… mascarava de todos. Com ele, não se tornou difícil ser eu própria com os outros. Após a nossa morte… - Agnes fez uma pausa. Linda julgou ter visto uma lágrima prestes a cair no rosto branco da sósia, mas esta desviara o rosto, podendo ter sido apenas um jogo de luz. – Os papéis inverteram-se. Eu tinha tanto para me esconder que ele, em vez de me ajudar a mostrar-me, ajudou-me a esconder de todos.

A mente de Linda corria à velocidade da luz. Aquilo explicava porque motivo ninguém na mitologia greco-romana conhecia Agnes como a deusa dos sonhos, mas sim Morfeu.
Aí, surgiu-lhe uma ideia. Uma ideia aterradora. Agnes parecia saber até onde o raciocínio de Linda chegara, pois sorria para ela.
Morfeu tinha um poder. Entrar na mente das pessoas e… manipulá-las.
-Eu tentei… manipular a Dawson? – Perguntou a Linda, com a voz a tremer.
-Sim. Inconscientemente, quiseste impedi-la de realizar os seus planos, apesar de isso ser impossível de momento.
-Porquê?
Agnes cerrou as pálpebras, abrindo-as com um suspiro.
-Porque ainda não estás pronta. Foi como… perder a virgindade, percebes? Não sabes bem o que fazer na primeira vez e… até pode doer.
Linda sentiu-se a ficar vermelha.
-Doeu para caraças – sussurrou. Agnes olhou-a num ar compreensivo.
-Também foi assim comigo. Quero dizer, não doeu quase nada. Foi como uma leve dor de cabeça. E isso foi apenas porque cresci a lidar com o meu poder. Apenas não conhecia os seus limites.
-Quem me dera ter tido a tua vantagem.
-A questão é, Linda… Mais ninguém sabe deste poder. A tua avó pode ter uma pequena ideia, mas fora isso… só tu sabes. E, no meu tempo, eu e Morfeu. Quando o conheci deixei-me entrar na mente dele, vasculhando os seus sonhos, em busca de algo que pudesse identificá-lo. Se uma alma pura ou alguém que usava máscaras, pois o poder das minhas irmãs nem sempre era eficaz. Principalmente naquela idade. Claro que, quando cresceram, ficaram imparáveis, mas isso agora não importa.
Agnes focou os seus olhos em Linda.
-A questão é que ele detectou-me. Nunca ninguém o conseguiu fazer, nem nenhuma outra pessoa o fará. Mas ele conseguiu. E deixou-me ler a mente dele.
-Ler a mente? – Perguntou Linda, aterrorizada.
-Depende tudo da importância que o nosso inconsciente tem no nosso cérebro. O nosso inconsciente é o que provoca os nossos sonhos. Nalguns casos, os sonhos são factos que acontecem na vida real ou são baseados nela. É o inconsciente que os cria. Uma pessoa com grande tendência a sonhar, tem um enorme dicionário de símbolos para entender. E nós podemos aproveitarmo-nos disso, enquanto aqueles que sonham pouco têm o inconsciente relaxado e, por norma, impossível de penetrar. E agora a melhor parte de tudo, Linda… - Agnes sorriu maliciosamente, provocando um calafrio na outra. – Nós não sonhamos.
-Isso não é verdade. Todos sonham. Apenas não se lembram.
-Pois… nós não somos normais. – Agnes levantou-se e deu um passeio pela sala, que tinha agora forma circular. – Somos as Guardiãs dos Sonhos das pessoas. O nosso inconsciente pode ter acesso a esses sonhos, mas nada mais. Uma Guardiã não sonha.
Linda sentiu o sangue a ferver de raiva.
-Isso não é o mesmo de tu dizeres que a Mari jamais terá fé nalguma coisa? Ou que a Cecília…
-Nada disso. – Cortou Agnes, erguendo a mão. – Verdade que a tua amiga jamais será uma mensageira da Paz, mas também não quer dizer que não possa ajudar os outros. Acho que te esqueces que eu e as minhas irmãs éramos… diferentes. Porque não consigo arranjar palavra melhor para nos descrever. Tu, a Mari e a Cecília, pelo contrário, têm tudo aquilo que nos faltava. Vocês são humanas.
-Humanas? Mas…
Agnes bufou, claramente aborrecida.
-Lembra-te que os Humanos habitam a Terra. Pelo menos os humanos inteiros. Aqueles que se ajoelham perante os perigos da caixa de Pandora. Os que têm esperança, raiva, ódio, felicidade, honestidade… Todos esses sentimentos habitam nos humanos. Os Habitantes da Lua eram também humanos, mas não tanto quanto os da Terra. Nós não tínhamos defeitos.
-Bem que me enganavas. – Sussurrou Linda obscuramente, lembrando-se de Cariocecus e das várias atitudes de Serenity e das três Guardiãs, principalmente a que estava naquele momento à sua frente. Agnes pareceu ter ouvido alguma coisa, pois olhou para ela desconfiada. O rosto dela era tão óbvio que Linda finalmente lembrou-se. Agnes podia ser assim, em parte, porque ela usava máscara, mas a outra parte era dela, de Linda. Afinal, aquela não era a verdadeira Agnes.
-Adiante. – Suspirou Agnes, não tirando os olhos de Linda. - Nós podíamos ter defeitos mas, entre nós, não havia defeito algum. A nossa definição de defeito era outra. Pessoas falsas ou vingativas, por exemplo. Fora isso, não havia muito na Lua ou nos outros Planetas e o que havia não chocava ninguém. Mas os Humanos tinham uma vista de valores morais mais vasta que a nossa, mais defeitos, mais qualidades. Era por isso que muitos tinham uma obsessão pela Terra. Lá era tudo belo e as pessoas eram maravilhosas. Até mesmo as horríveis. Imagina isso como… um programa de TV. Os vilões são malvados, sarcásticos e fúteis, por vezes. Mas os espectadores adoram-nos e desejam que o protagonista tenha uma grande vitoriosa luta com ele, pois é isso que o vilão merece. Estás a ver, ele cativa pelos defeitos, tal como o protagonista cativa pelas qualidades. Nós, sendo Guardiãs, tínhamos o nosso leque de defeitos e qualidades, mas não éramos abertas a aquilo que protegíamos. Porque nós o fazíamos para os humanos, principalmente. Desde quando havia alguém na Lua com problemas de Fé ou de Harmonia? E, principalmente, quem é que se importava em sonhar? Havia gente, como é obvio, mas não tanto quando as do planeta Terra. Era para elas que servíamos. Elas e as excepções do sistema Solar. Neste momento, só me lembro da minha sobrinha Serenity. Ela era uma excelente excepção. – Agnes sorriu nostalgicamente. Sentindo-se cansada, Linda sentou-se no sofá mas, ao ver-se com um enorme espaço à sua volta, deixou-se cair de costas, mirando o mar de branco acima da sua cabeça. Agnes ficou a observá-las por uns momentos e depois prosseguiu
-Belisa não tinha fé em nada. E Harmony podia ser tão fria quanto um cubo de gelo. E eu… não sonhava. Mas amava. E isso fora o suficiente para eu ter-me sentido feliz parte da minha vida. – Explicou, um estranho brilho a percorrer os seus olhos.
«Mas tu e as tuas amigas são filhas de humanos, Vocês podem acreditar em algo superior. Nós não podíamos porque… era irracional e até porque nós éramos de certa forma – algo superior. Vocês não têm nada disso. Vocês foram criadas mediante os valores das vossas famílias e até mesmo o vosso inconsciente foi influenciado por esses mesmos valores. Tu apenas não sonhas Linda, porque não queres.»
Ela podia responder, mas não tinha vontade nenhuma. Era como se já soubesse que argumentar levaria a outra discussão onde ela sairia de mãos vazias. E também, ela sabia porque não queria sonhar. Era o mesmo motivo pelo qual nem ela nem Agnes estavam contentes por estarem as duas a falarem uma com a outra. O mesmo motivo pelo qual Linda quase que desejava estar morta. Porque só assim é que ela poderia…
-Linda?
Esta ergueu o tronco ao ouvir o seu nome. Agnes estava sentada ao seu lado, à espera de perguntas. Linda havia pensado nelas por momentos e tomava agora coragem para as fazer:
-A Dawson tem alguma ideia do que aconteceu? – Perguntou Linda.
-Tem, mas isso é porque ela sabe dos teus poderes, não porque sentiu. Como já te disse, não há ninguém que te possa detectar na cabeça deles. Foi por isso que ninguém notou em ti de todas as vezes que entraste nos sonhos deles.
Linda assentiu, entendendo. Em seguida, fez a sua outra pergunta, talvez a mais temida.
-Eles têm medo de mim, não têm?
Agnes deitou-se, esperando que Linda fizesse o mesmo. Quando as duas semelhantes estavam deitadas, lado a lado, entreolharam-se. Linda perguntava-se no que ia na cabeça de Agnes, pois ela olhava-a de uma forma estranha.
-Não terias tu medo? – Perguntou Agnes, ao fim de alguns minutos de silêncio. – Se soubesses desse poder de manipular mentes?
-Talvez – admitiu Linda, fitando o tecto, agora num azul bem claro. Se súbito, era como se estivesse no campo. Conseguia ouvir o som dos animais rurais a pastarem e o som do vento na bater nas árvores. – Há mais qualquer coisa.
Era uma afirmação, mas Agnes assentiu na mesma, também ela olhando o céu. No entanto, ao contrário de Linda, mal pestanejava, olhando-o de uma forma obsessiva.
-Ela fez qualquer coisa… a Dawson… a maldição…
-Tu sabes o que é uma maldição, não sabes? – Perguntou Agnes, não desviando os olhos do céu.
-Sei. E sei que pragas não caem do céu de repente. É preciso uma pessoa que amaldiçoa e o amaldiçoado. A Dawson fez-me isso. Amaldiçoou-me. Mas com o quê? -Ora pensa, o que é que ela quer tanto?
-As Flores. – Respondeu Linda de imediato. Ao seu lado, quase podia sentir Agnes a enrolar os olhos.
-Na altura em que nasceste, ela ainda não tinha ouvido falar delas.
-Então ela quer… - aí a revelação atingiu-a com ácido no estômago. As suas pupilas dilataram-se e podia jurar que estava a tremer – A minha morte. – Sussurrou, pálida como um lençol. Agnes finalmente desviou os olhos do céu para a fitar. Linda tinha agora a certeza. Havia emoção naqueles olhos cor do céu nocturno.
-Sim.
Linda ergueu-se, as mãos a apoiarem a cabeça. Andou em voltas pela sala, agora novamente branca, com a sua sósia a olhar para ela curiosamente.

Então era isso que a Dawson queria. Mas porque raio estava a demorar tanto tempo? Para quando é que ela iria… morrer?
Linda virou-se para Agnes, fazendo-lhe essas mesmas perguntas com o olhar, esperando que Agnes tomasse a dica. Felizmente, a princesa da Lua tomou-a.
-Lembra-te que tinhas família disposta a ajudar-te. Eles tentaram salvar-te e acabaram por te dar mais tempo de vida, apesar de acreditarem que nada fizeram.
Linda fitou a sua sósia.
-Porquê?
Agnes suspirou.
-Pensa Linda. O que é que tu achas que uma pessoa, ao descobrir o dom que uma determinada criança teria e uma determinada maldição, o que é que elas pensariam?
-Para isso a maldição não podia ser muito explícita.
-Claro. O objectivo era contar uma história, mas fazê-los acreditar noutra. Eu não sei as palavras exactas. Ninguém as registou. Mas sei que morrerás nos ‘tempos murchos da Rainha’ e que ‘um mau interior te perseguirá até te tomar por inteiro, em festas alegres’.
Linda congelou. A primeira não fazia muito sentido, mas a segunda era bem clara. Os dois sentidos aliás.
Um, ela morreria nos tempos murchos da Rainha… fosse esse o tempo que fosse…
Dois, o Caos iria persegui-la a ela e ao seu dom até ela ceder e tornar-se sua seguidora. E Linda sabia o quanto esse assunto era delicado na sua família. A sua avó e ‘tias’ haviam lutado contra o Caos inúmeras vezes quando eram navegantes activas. Metálica havia sido uma parte do Caos e provocara a destruição no Milénio Prateado, e quase que repetia a façanha não fosse a sua avó. Pensar que a neta fosse tomada pelo Caos…
Todas as lições de moral, toda a atenção tinham agora sentido. E a desatenção dos seus pais também. Ainda que fosse difícil para Linda entender a ideia dos pais, todas as peças do puzzle começavam a encaixar. Apenas não fazia sentido que ninguém – principalmente pessoas como a Ami e o seu avô – não tivessem sequer pensado na outra hipótese. Que ela iria morrer.
Talvez fosse a opção óbvia. E também a mais provável. Como adivinhariam eles a importância de um poder daqueles a ponto de uma mulher fazer uma maldição? Era mais óbvio o receio de que o Caos – que estava em todo o lado – tomasse aquela criancinha, a herdeira do Cristal Prateado.
Agora tudo fazia sentido.
Os avós ensinaram-lhe tudo para sobreviver a batalhas, fossem elas quais forem.
As ‘tias’ ensinaram-lhe vários truques, para que não tivesse problemas de consciência.
Juntos, ensinaram-lhe a ser humilde.
Os pais… ensinaram-na a odiar o poder.
E isso era a chave de tudo. O Cristal nunca lhe fora nada importante porque a mulher que o guardava não queria saber dela. Se fosse o contrário, quem sabe, talvez fosse mais difícil para ela resistir a aquela tentação.
Explicava porque a tão tardia explicação de ela ser navegante. Quanto mais tarde descobrisse o seu poder, melhor.
E acima de tudo, tudo aquilo deu-lhe tempo de vida, de alguma forma. ‘Festas alegres’ explicava tudo. Quanto mais feliz ou completa se sentisse, mais vulnerável estava. Mais fácil era de morrer, fosse qual forma fosse.
E a ultima peça finalmente se encaixou. ‘Tempos murchos da Rainha’ tinham um significado bem específico. Juntamente com ‘Festas alegres’. Tudo se resumia a uma data. Ou, pelo menos, um ano. O ano presente.
O seu décimo sétimo aniversário.

À sua volta, Linda quase que conseguia ouvir o relógio a tocar, o tempo a passar lentamente, tempo precioso que ela tinha em falta. Linda acreditava que se havia passado dias desde o acontecimento com Dawson. Quase que podia jurar que passara um mês. Ou seja, a sua mãe e avó já deviam ter feito anos.
Mas ela não tinha a certeza. Apesar de ouvir as badaladas do relógio e os seus tiques incessantes, não tinha ideias das horas e dos dias. Ainda dormia pacificamente na cama de algum quarto, em algum lugar.
Ainda tinha Agnes a seu lado, ainda tinha a necessidade de acordar. Mas agora, tinha algo novo. Uma marca de morte.
-O que é que eu faço? – Perguntou-se, desesperada. Se ela fosse outra pessoa, provavelmente choraria com a certeza de que iria morrer em breve, mas nenhuma lágrima caiu-lhe pelo rosto. Apenas desespero. Não pensou em si, mas naqueles que iria deixar. E nas coisas que tinha que mudar.
De certa forma, entendia agora as pessoas que só começavam a aproveitar a vida quando a sentem a fugir ou quando quase perdem algo. Bem, ela estava prestes a perder aqueles que amava. Tinha que fazer alguma coisa quanto a isso. Por Kenji, pelos seus pais, pelos seus avós, pelas suas ‘tias’, por Mari, Cecília, Eiji…
-Não te preocupes. Ela não os vai magoar. Irás voltar. – Assegurou Agnes, com um sorriso fraco.
-Voltar. Ou seja, morrerei e voltarei só para impedir a Dawson de ganhar.
-Não. Não podes evitar uma batalha com a Dawson. Mas, se morreres antes de a conseguires derrotar, voltarás… como um desejo final.
-O que me trará aqui? – Perguntou Linda, desconfiada.
-O mesmo que trouxe a tua avó forças para derrotar os seus inimigos…. E eu.
Agnes ergueu-se e aproximou-se de Linda, pousando a mão no ombro dela solidariamente.
-Não temas Linda. É para isso que nós Guerreiras, existimos. Para proteger aqueles que amamos. É a nossa sina. Pensa nas vantagens disto tudo.
Linda ergueu o sobrolho. Como poderia ela encontrar vantagens na sua própria morte? Agnes riu-se ao ver a expressão da sósia.
-Oh Linda. Tu sabes do que falo. Sou parte de ti. Sei que farás de tudo para deixar tudo de pratos limpos antes de partir e depois de partires sentirás paz… garanto-te que isso são inúmeras vantagens. – Agnes sorriu, os olhos a brilharem intensamente. Linda não conseguiu evitar um sorriso sonhador.

O silêncio devorou o resto do diálogo, com Linda a pensar naquilo que faria quando acordasse e Agnes a fitá-la. À volta delas, surgiam portas de madeira escura, junto às paredes circulares da sala. A certa altura, Linda fez a sua última pergunta:
-Quem és tu?
Agnes sorriu misteriosamente.
-Eu sou o que te liga à Agnes. Sou parte ela, parte tu. Sei tudo o que pensas, sei tudo o que queres e o mesmo no que toca à Agnes. Sou parte da tua consciência, parte do teu poder. Sou um anjo da guarda. Um observador. Alguém que te guia, quando te abres para mim. Mas quando fechas uma parede, eu continuo lá. Faço parte de ti. Linda, sou a tua Voz.

Linda deixou de sentir Agnes no seu corpo. Começou a sentir um leve arrepio na espinha e uma súbita curiosidade em abrir as portas. De todas, uma dava-lhe maior curiosidade. Estava silenciosa, enquanto as outras tinham pequenos burburinhos do outro lado.
Chegou-se perto dessa porta, Agnes já tinha desaparecido. Rodou a maçaneta e entrou.
Era um hospital. Linda olhou em volta e viu cerca de meia dúzia de camas, onde seis jovens dormiam. Mas não pacificamente. Um a um, começaram a perder sinais vitais e enfermeiras e médicos apareceram de todos os lados a tentar socorrê-los. Mas todos eles morriam, todos eles desapareciam. Ao longe, ainda sobrava um. O único dos seis que ainda resistia. Começava a falhar. O coração não aguentava.
De súbito, Linda deu por si a correr. Aquele rapaz não podia morrer.
-Não… não… não te atrevas. NÃO TE ATREVAS A MORRER! – Gritou ela, sem conseguir evitar, mesmo sabendo que ninguém a ouvia.

De repente, abriu os olhos, erguendo-se violentamente. Ainda estava a ofegar e, pelo som que ouvia em volta, não estava sozinha no quarto.
Uma empregada olhava para ela assustada. Linda reconheceu-a como uma das empregadas do palácio. E, ao olhar em volta, teve a confirmação das suas suspeitas. Estava no seu quarto, no palácio. As cortinas estavam abertas, deixando os raios luminosos entrarem por entre a divisão. Linda tentou sair da cama, mas a empregada conseguiu arranjar coragem para se mexer, impedindo-a:
-Sua alteza tem que ficar na cama. É preciso que o médico…
-Sua alteza? – Cortou Linda, ao ter noção daquilo que a mulher estava a dizer. Olhou nos olhos da mulher. Esta pareceu vacilar, mas depois pestanejou os olhos violentamente, desviando-os da princesa:
-Sim. Sua alteza. E é melhor repousar, esteve muito tempo doente. O rei mandou que…
-O rei! – Exclamou Linda, ao lembrar-se do que acontecera. Edward estava com ela na sala. Fora ele que a abraçara e ficara com ela até que a dor passasse. E era ele que Linda queria ver naquele momento. – Que dia é hoje?
-Dois de Julho, menina.
Linda sentiu-lhe o ar faltar. Ficara cerca de duas semanas de cama.
-Onde está o rei? – Perguntou, sem dar conta do seu tom de voz.
-Eu…
Linda não esperou que a empregada acabasse. Saiu da cama e correu para fora do quarto, com a mulher atrás de si.
-Sua alteza espere! – Implorou a mulher, arrastando os pés atrás da rapariga, muito mais jovem e ágil do que ela. Linda ignorou-a, caminhando em passo rápido rumo ao escritório, onde saberia poder vir a encontrar o seu pai.

Foi só quando deu a volta a dois corredores que se apercebeu dos seus trajes. Tinha vestido uma camisa de dormir azul-marinho e estava descalça. Ao passar junto a um espelho, viu que estava pálida e com os cabelos todos desalinhados, caindo em cachos até os cotovelos. A única coisa que Linda gostou do seu reflexo foi do olhar determinado que lhe correspondia. Havia muito para fazer e muito pouco tempo.
O chão começou a ficar frio nos seus pés descalços, mas ela não abrandou até chegar à entrada. Aí, olhou para todos os lados, em esperança de ter um vislumbre do pai. No entanto, viu algo melhor.
A mota do Kenji.
A engenhoca do seu irmão mais velho estava ali, novinha em folha, estacionada junto do carro de alguém, que Linda só podia supor ser de Yvonne ou Hotaru.
O irmão estava ali. Aquilo não podia ficar melhor. Linda sorriu e voltou para dentro, ignorando os olhares que recebia. Por várias vezes, um empregado tentava impedi-la, mas bastava ela abanar o braço para eles se afastarem. Linda deu graças por ninguém que a pudesse contrariar se tivesse atravessado no seu caminho.

Foi então que o viu. Edward vinha do corredor contrário quando quase chocou com a filha.
-Linda? Com mil raios, o que fazes aqui? Devias estar na cama e…
-É bom saber que se preocupa. – Interrompeu ela, docemente. Edward suspirou profundamente, embaraçado.
-É claro que me preocupo. Eu…
-Já sei o que me fez. Qual era a sua estratégia. – Disse ela, querendo despachar o assunto. – Mas tenho que lhe dizer que foi uma jogada perigosa. Podia ter-vos saído o tiro pela culatra.
Edward não respondeu. Limitou-se a olhar para Linda, pensativo. Após um breve silêncio, que ela prolongara de propósito, ele pousou as mãos nos ombros dela:
-De certeza que estás bem? Não te dói nada?
Linda sorriu à atitude afectuosa, assentindo ao mesmo tempo.
-Estive duas semanas de cama, penso que é tempo suficiente para recuperar.
Edward parecia hesitante. Isso fez lembrar a Linda nas alturas em que ela estava doente ou quando tinha pesadelos. Lembrava-se de que, no dia em que a avó lhe contara sobre a Guardiã dos Sonhos, que alguém estava no fundo do quarto. Agora que todas as peças se encaixavam, tinha a certeza que os seus pais a tinham observado a vida toda. Ela, como vitima, tinha razão para estar magoada, mas eles também haviam saído magoados, obrigados a observar os filhos de longe, sem que pudessem fazer nada que estragasse os seus planos.
Mas hoje tudo aquilo iria terminar. Não para sempre. Linda não sabia se algum dia as coisas seriam normais ou se perdoaria os seus pais por irem por tais caminhos para a salvar. Mas isso não queria dizer que não pudesse deixar esses assuntos de lado temporariamente…
-Pai. – Linda notou num certo brilho nos olhos de Edward ao ser chamado por tal nome antes de continuar. – Eu quero que fale com o Kenji.
Edward afastou-se dela, incomodado:
-Porque me pedes isso?
-Porque não é altura para nos afastarmos. – Respondeu ela, zangada. – Além disso você disse que eu era igual a si. – Edward continuava de costas para ela, mas Linda sabia que ouvia cada palavra que ela dizia. – Por volta do Natal, eu zanguei-me com o Kenji. Agi que nem uma idiota, disse-lhe coisas que eu não queria dizer, mas que a raiva do momento me obrigou. Disse-lhe que não tinha irmão. – Linda esperou que Edward se virasse para ela, o rosto impossível de ler. – Eu não queria, mas disse. E isso faz-me pensar… você queria dizer-lhe isso? Queria expulsá-lo de casa e deserdá-lo? O seu próprio filho?
Edward lançou-lhe um olhar penetrante, mas Linda nem pestanejou. Pelo contrário, sorriu. Quantas vezes Kenji, Eiji e Setsu se haviam queixado daquele olhar que ela lhes lançava frequentemente?
Ele suspirou, derrotado.
-Manipuladora… - murmurou. – Ele nunca me vai perdoar.
-Devia conhecer o Kenji melhor.
-Não é não o conhecer. – Interveio ele, elevando o tom de voz. – É orgulho. Vais-me dizer que nunca hesitaste em perdoar, porque punhas o orgulho por cima do bom senso? Ele fará o mesmo.
Linda assentiu, os olhos postos no pai.
-Sim. Mas lembre-se de que eu passei pelo mesmo. E não o perdoei sozinha. – Linda suspirou, triste pelas memórias que começava a recordar. – Foi necessário o avô e a avó me obrigarem a estar com ele e a deixá-lo falar para que eu engolisse o orgulho e o perdoasse. E ele a mim. Ele perdoou-me. – Acrescentou ela, vendo o rosto do pai endurecer. Como Edward não disse nada, Linda sentiu-se a tremer:
-Peço-lhe – implorou ela, tentando manter um tom de voz digno. Edward olhou para a filha, estupefacto. Ela estava prestes a chorar, mas tentava conter as lágrimas. Mal sabia ele no que ela pensava.
Aproximou-se dela e envolveu-a num abraço. Era como abraçar uma pedra. Ela não se mexia, sem saber o que fazer. Era a primeira vez que o pai a abraçava. Um abraço verdadeiro.
Deixou a lágrima salgada cair, molhando o rosto pálido dela. Agarrou-se a ele, sentindo o perfume da sua camisa lavada.
Ela não disse mais nada, pois sabia que Edward tentava arranjar coragem para falar com o filho. Linda esperava que ele se decidisse.
Eu e a mãe não aguentaremos muito. Vocês não podem ficar separados.
Prolongaram o momento durante dez minutos, tempo esse onde ninguém passou pelos corredores. Nas janelas, o sol ia alto e o frio que Linda sentia nos pés há pouco cessara. Edward beijou o topo da cabeça da filha, mais baixa do que ele, sentindo-se decidido. Falaria com Kenji. Mesmo que este não o perdoasse, ao menos ficaria com a consciência limpa de que tentou emendar as coisas. No fundo, ele queria que o filho não o perdoasse. Desde que tomara uma decisão ao entregar a recém-nascida Linda aos braços dos avós que a culpa se acumulara na sua mente, jamais saindo, mesmo vendo os filhos a crescerem fortes, saudáveis, inteligentes e com carácter.

Já Linda vagueava pelos corredores, em busca de algo. Procurava um sonho, um único sonho. Algo que pudesse identificar o irmão no meio do aglomerado de gente que percorria o palácio de uma ponta à outra. Na sua mente, viu um sonho ridículo do cozinheiro, que passeava pelos pastos vestido de pastorinha e o da jovem criada da mãe, que sonhara no dia anterior que tinha filhos gémeos com o rei, mas era virgem. Vira também o sonho de uma empregada em ser bailarina, outro do jovem jardineiro que pretendia pagar os estudos para ir pagar a faculdade e ser arquitecto. Até que encontrou. Um sonho.
Estranhamente, parecia-lhe familiar. Cecília tinha o vestido branco da Marilyn Monroe e decidiu dá-lo a Setsu, para este cumprir uma aposta. Ele vestiu o vestido e pôs uma peruca loira e salto alto. No entanto, ninguém avisara Setsu que este tinha que ir ao mercado comprar moedas de chocolate para dar a Eiji, que estava na rua a pedir dinheiro. Então Setsu fora, vestido de Marilyn Monroe, até que chegou à baía de Tokyo e Linda (que aparecera vinda do nada) correu atrás de uma gaivota e obrigou-a a pôr um ovo. Depois, deu o ovo a Mari (que estava ali com umas calças púrpuras ridículas), que decidiu fazer uma omeleta com queijo para Kenji, que estava mascarado de urso. O sonho continuava, mas Linda forçou-se a não investigar mais, pois havia o risco de rebolar às gargalhadas nos braços do pai.
O irmão estava na sala. Na mesma onde ele e o pai tiveram uma discussão quase um ano antes.

Afastou-se, agarrando a mão do pai e puxando-o consigo em direcção à sala onde o irmão estava. Quando chegou-se perto da porta, podia jurar que ouvira vozes:
-Ela… - não precisava de dizer o nome. Edward sabia de quem ela falava.
-A Guinevere foi expulsa. Os guardas não a deixam entrar.
Até parece que isso alguma vez a parou, pensou Linda amargamente.
-Não te preocupes. – Disse Edward, ao ver a cara da filha. – Ela não te vai voltar a incomodar.
Se fosse assim tão simples…

Linda abriu a porta da sala. Um raio de luz incidiu nos seus olhos e quando cessou, Linda pôde ver Kenji e Mari no centro da sala a olharem um para o outro. Os olhos de Kenji iluminaram-se quando viu a irmã e deu um passo em frente rumo a ela, mas parou quando Edward entrou atrás de Linda.
Seguiu-se um silêncio de cortar à faca, onde Mari sentiu-se ligeiramente fora do lugar e Linda aborrecida. Mari tentou alcançar a porta, mas Linda travou-a:
-Fica aqui. – Ordenou.
Mari ergueu o sobrolho.
-Porquê?
-Porque és família. – Respondeu Linda, simplesmente.
-Só porque namoro com o teu irmão, não quer dizer…
-Mari – Linda quebrou contacto visual com o pai e o irmão para se virar para a amiga. – Ainda antes de namorares o Kenji, já eras da minha família.
O olhar penetrante que Linda lançou à loira, fê-la entender. Desde as vidas passadas até à forte amizade que as duas tinham construído, Mari, Linda e Cecília podiam ser consideradas irmãs, devido aos vários problemas familiares que as cercavam.
Mari suspirou e acenou afirmativamente para Linda. Esta sorriu e voltou a fitar Edward e Kenji, que não se haviam mexido.
-Por favor, digam alguma coisa! – Disse Linda, um pouco aborrecida. Os dois homens olharam para ela, os rostos sem qualquer expressão. Linda engoliu em seco. – Não me façam isto. – Pediu, um pouco nervosa.
Kenji abriu a boca para falar, mas voltou a fechá-la. Pareceu ponderar por uns minutos, até que finalmente quebrou o silêncio:
-Porque fazes isto? – Perguntou, mais para Linda, do que para Edward.
Pai e filha abriram a boca para responderem ao mesmo tempo:
-Kenji, eu… - entreolharam-se, surpreendidos. Edward deu um passo atrás, sinal para Linda continuar. Esta suspirou pesadamente:
-Kenji… - fez uma pausa, pensando em cada palavra que ia dizer. – Pensei muito enquanto estive… inconsciente. A vida é curta e nós podemos não nos aguentar por muito tempo. Temos que aproveitar cada momento. Carpe diem, sabes?
Kenji não respondeu. Os seus olhos saltaram da irmã para Mari e depois Edward para voltarem a pousar na irmã.
-Eu quero que o perdoes. Aliás, nem eu sei se algum dia o perdoarei por ter usado a pior estratégia. Sim – acrescentou Linda ao ver a cara do irmão e do pai – eu sei de tudo. Da maldição, do motivo pelo qual a nossa família se separou… e isso deixa-me frustrada. Um pequeno detalhe deu cabo da nossa família. Os nossos pais não tentaram o suficiente para me salvar. Acharam que o plano deles era o suficiente e... – Linda respirou fundo, tentando desfazer o nó que se começara a formar no estômago – de certa forma… funcionou. O ódio que tenho a este sítio é o suficiente para eu não ser malvada, mas também não desejar poder, mas sim amor.
«Não sei se o perdoo – virou para Edward, imóvel no meio da sala. – Mas sei que não vou continuar a agir como uma criança. A mãe está doente, ele está o sozinho e, no fundo, tu sabes que o que mais queres é estar com eles. Comigo. Com o teu pai. Ficaste magoado com aquilo que ele te disse mas vira os papéis. E aquilo que tu lhe disseste? Já paraste para te perguntar se não foste um pouco bruto com ele? Kenji… não peço uma família feliz, porque isso jamais teremos. Só peço que refaçam a conversa do ano passado e tentem dar-se bem. Pela mãe. Por mim.
Vocês em breve ficarão sozinhos, têm que estar juntos, acrescentou Linda para si própria.

Kenji suspirou, interessado na carpete da sala. Edward olha apara a janela, pensativo. Parecia que nenhum dos dois iria falar brevemente. Linda, sentindo-se fraca, apoiou-se na parede, com Mari a segurar-lhe no braço.
-O que te fez mudar de ideias. – Sussurrou ela ao ouvido de Linda. Esta sorriu.
-Já disse porquê.
-Mas não é apenas por isso. Eu conheço-te Linda, há mais algum motivo.
Linda fixou os olhos num ponto longínquo na sala, reflectindo por uns momentos.
-Carpe diem. – Sussurrou ela em resposta. E já dissera tudo. Dissera a verdade, mas também ocultara-a em apenas duas simples palavras. Mari ainda lhe segurava no braço e parecia hesitar por uns momentos ao ouvir aquelas palavras.
Finalmente, largou a amiga, em movimentos robóticos. A mão esquerda dela tremia e Linda apertou-a, sorridente:
-Não te preocupes. – Sussurrou ela, sem deixar de sorrir. Mari olhou para ela, os olhos vidrados de pânico.
-Será verdade aquilo que vejo?
-Talvez. – Foi tudo o que Linda respondeu, deixando a amiga apoiar a cabeça levemente no seu ombro. Ambas observavam os homens, que tinham dado um pequeno passo em frente cada um. A voz de Edward foi a primeira a ser ouvida:
-Eu não queria dizer aquilo. – Disse, a voz rouca como se ele tivesse gritado durante horas – fiquei irritado com aquilo que disseste e… perdi a cabeça. Acabei por dizer aquilo que a minha máscara tanto te queria dizer. Mas que eu não queria. Se quisesse, garanto-te que te teria expulsado do palácio quando fizeste os dezoito anos. Custou-me ouvir aquilo que disseste, porque eu e a vossa mãe fizemos um pacto. Evitar-vos, porque nós não conseguíamos ser maus pais. Ignorar era a forma mais fácil. Mas no meio disto tudo, com vocês a crescerem tão depressa e do modo que nós queríamos e criados por outras pessoas, acabamos por quebrar as nossas promessas. Começamos a observar-vos de longe, nas coisas que vocês gostavam. Ajudei a tua irmã na dança porque não conseguia ficar parado quando ela fazia algo que eu amava. Vi-te a apanhares varicela ou a teres pesadelos. Nós não fizemos nada, mas estávamos lá.
Edward parou de falar, sentindo-se como se tivesse acabado de correr a maratona. Kenji mordeu o lábio suavemente.
-Porque é que as coisas nunca são porque nós queremos? – Murmurou, triste.

A pergunta pairou no ar, os restantes ocupantes incertos do seu destinatário. Para surpresa de todos, fora Mari que respondera:
-Porque isso tiraria a vontade de viver. Quem é aquele mortal que quer viver num mundo completamente feliz?
-Ying yang – disse Linda, sorrindo para a amiga – há que haver equilíbrio em tudo. Uma vida com altos e baixos ou uma vida equilibrada. Felicidade e tristeza. Todas fazem parte de nós, não nos conseguimos ver livres delas. O máximo é viver em equilíbrio com cada uma. Mas nunca com uma vida cheia de felicidade ou de tristeza. Há excepções, mas essas são as vidas dos pessimistas e dos idiotas.
Os dois homens sorriram, ambos fitando o chão. Linda aproximou-se do pai, pegando-se na mão. Este segurou a mão da filha como se segurasse um tesouro, enquanto Linda pegava na mão do irmão e unia as mãos dos dois. Pai e filho apertaram as mãos maquinalmente, mas fora um gesto do coração quando Kenji cortou a distância que o separava de Edward e abraçou o pai, pequenas lágrimas caindo-lhe nos olhos. Linda sentiu uma lágrima correr o seu rosto, mas só a sentiu quando ela própria fora arrastada para o abraço dos dois homens. Pai e filhos abraçaram-se pela primeira vez juntos, em parte compensando tempo, noutra compensando os laços de afecto que lhe faltaram durante a vida.

Linda voltou para o quarto mais tarde. Mas não voltara sozinha. Apesar de tanto o pai como Kenji insistirem em acompanhá-la, Linda recusou a ajuda. Em vez disso, preferiu que Mari a acompanhasse, deixando os dois sozinhos na sala, fitando um o outro ansiosamente.
Mari deu-lhe o braço o caminho todo. Não porque Linda estava fraca. Não, era um motivo maior. Talvez, pela primeira vez, Linda estivesse a ver Belisa a segurar a irmã, guiando-a na escuridão que a cegava.
As mãos de Mari estavam frias, provocando a Linda um arrepio na espinha.
-Estás preocupada. – Afirmou Linda, quebrando o pesado silêncio que a perseguia pelos corredores.
-Essa história do Carpe diem… - murmurou Mari, sem se virar para a amiga. – Quem ta contou?
-Ninguém. Fui eu que tomei a decisão.
-Sozinha? – Mari ergueu o sobrolho. Linda teve a sensação de ver um flash verde nos olhos de Mari. Um verde diferente, mais perfeito… como o de uma deusa. – Duvido.
Linda mordeu o lábio involuntariamente. Sentia o olhar de Mari em cima dela, apesar de esta ainda se centrar nos corredores.
-Foi a Agnes, não foi?
Linda parou. Aquela não era a voz de Mari.
-Belisa?
Mari suspirou, os olhos verdes brilhantes focados na morena. Não pestanejava, não vacilava.
-Não. Ainda sou a Mari. – Disse, tentando sorrir para Linda. A sua voz tinha agora o mesmo timbre que a voz de Mari. Linda sentiu-se corar.
-Desculpa, eu achei que…
-Acabaste de confirmar a minha pergunta. – Retorquiu Mari, cruzando os braços. Linda podia jurar que a amiga ficara incomodada quando ela lhe chamara de Belisa.
Linda abriu a boca para responder, mas fechou um ápice. Lembrara-se de um ponto importante no assunto: como Mari sabia?
-Há quanto tempo sabes da nossa ligação às Guardiãs? – Perguntou, tentando dar outro nome à Voz que lhe falara antes. Mari fez uma careta, obviamente incomodada.
-Desde aquele dia na praia. – Respondeu, num sussurro. – Quando o Kenji me disse que… - Mari corou levemente e abanou a cabeça, ignorando aquela parte do momento. – Senti-me diferente. Como se já fosse mais que uma pessoa a pensar por mim. Essa Voz sabia sempre aquilo que eu queria e, por alguma razão… sentia-a mais forte quando estava perto do Kenji. Julgava que nunca me tinha acontecido antes mas depois, lembrei-me… num aperto do coração quando… - Mari parou de repente, tentando formular as palavras na sua cabeça. Linda não quebrou o silêncio, deixando espaço para a amiga ganhar coragem por si só. – No funeral da minha mãe, senti um aperto, como se mais alguém sentisse aquela dor comigo dentro do meu corpo, alguém que sabia o que eu passava e que me queria ajudar. Mas se havia coisa que eu estava farta era de pessoas a ajudarem-me, com pena da menina órfã de mãe. – Mari tremia, mas não parecia que ia chorar em qualquer momento. Linda sabia que Mari não era do tipo de raparigas que chorava facilmente e sentiu dor pela amiga. Chorar era um dos modos de expulsar a raiva e a dor. Mari acumulara dor durante anos, felizmente nenhuma tão grave quanto a morte da mãe.
-Chorei o dia todo e… quando mais chorava, mais sentia o aperto. Então parei de chorar, tentei expulsar aquela dor. E consegui… até agora.
Linda aproximou-se da amiga e abraçou-a. Mari aceitou o gesto de bom grado. Apesar de não chorar, era fácil de ver que o assunto ainda lhe era doloroso.
-Ela tem-te incomodado? – Perguntou Linda calmamente.
-Não. Sinto-a quando estou com o Kenji mas nada mais. Ou melhor… - Mari parou para reflectir um pouco. Afastou-se de Linda, as mãos nos ombros da morena, levemente mais baixa que a loira. – Às vezes… tenho pesadelos. Um homem da Terra a trazer o teu corpo. Eu sei que é a Agnes, mas sinto uma pontada tão forte quando vejo o teu corpo imóvel… parece que… que tu também vais desaparecer.
Linda engoliu em seco, evitando olhar nos olhos da amiga. Pela primeira vez, Mari tivera uma premonição adiantada. Uma que, se ela soubesse, conseguiria evitar.
-Tenho medo que seja real – se os corredores do palácio não estivessem vazios e fizessem eco, Linda não teria ouvido aquilo que Mari dissera.
Não lhe queria mentir. Melhor, ela não sabia mentir. Que fazer?
-Não pensemos nisso. Não adianta viver uma vida à espera da morte. Mais vale aproveitar cada momento como se ele fosse o último.
-Carpe diem – disse Mari, sorrindo.
-Sim, Carpe diem.


Última edição por AnA_Sant0s em Qua 21 Set 2011, 11:33, editado 2 vez(es)

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Qua 09 Mar 2011, 17:37

**

(http://www.youtube.com/watch?v=-opi1Qre8Cc)

Linda podia ter esperado os momentos finais junto à janela do seu quarto, mas algo lhe dizia que era a pior ideia que ela pudesse ter. Talvez fosse a Voz, Linda não sabia, mas seguiu esse conselho.
Nos dias seguintes, fora ter com os avós e as tias. Após abraços e conversas postas em dia, Linda pedira para ficar a sós com os avós, explicando aquilo que sabia. Não lhes contara acerca da sua própria conclusão acerca da maldição. Parte dela temia que os avós soubessem, apenas não quisessem acreditar e, no final, se fossem culpar pelo sucedido.
Só quando Kenji a levara para casa é que Linda sentiu-se a imaginar outra vida que ela poderia ter tido. Com os seus cabelos a esvoaçarem ao vento, desprotegidos pelo capacete, Linda agarrou-se ao irmão enquanto este a levava a passear de mota de volta ao palácio. Tanta coisa se sucedera para ela fugir daquele sítio. Do seu destino. Mas no final, voltara ao inicio. Seguira sempre um círculo sem fim. Porquê? Porque aquele era o seu lugar. Porquê?
Porque era uma navegante.
Não princesa, mas navegante. Linda tentara fugir do seu título real e provara isso ser possível. Mas voltara, porque não podia fugir às responsabilidades que a avó e a mãe lhe passaram.
Se tudo aquilo lhe estava a acontecer era porque era uma navegante. Porque Dawson temera os poderes de Linda. Porque era a reencarnação da princesa da Lua. Linda tentara ser normal, não ser princesa. Quando na verdade, ela devia era ter tentado fugir ao destino de ser guerreira navegante. Mas seriam esforços inúteis. A avó tentara fugir várias vezes da sua responsabilidade de navegante mas, no final, apercebera-se que não podia continuar a fugir. Era isso que ela era. Era a sua essência da vida.
Linda estava presa a aquela vida. Correntes invisíveis a impediam de ter a vida normal que ela sempre imaginara. Se ela não conseguia ser normal, era porque não o podia ser. Não porque não tentasse.
Que vida teria ela tido se controlasse o seu destino? Teria ela tido uma vida feliz com os pais e o irmão? Teria ido à escola, aprendido a ser princesa mas, ao mesmo tempo, ser normal como todas as outras raparigas?
Ela não sabia, nem nunca saberia. Ninguém pode fugir de um legado de família. E fora isso que os dois irmãos aperceberam-se na sua ida à casa dos avós.
Quando voltaram, os dois mais leves depois a viagem de mota, deixaram de lutar. Naquele dia, Edward sentou-se à mesa, onde costumava jantar sozinho desde que a mulher ficara de cama. Após uns quinze minutos depois de a sopa chegar, a porta abriu-se e Linda e Kenji sentaram-se em cada lado do pai, e pediram aos empregados que trouxessem comida para os dois. Edward ficara estupefacto, mas não conseguiu evitar um sorriso quando os dois começaram a falar das suas vidas fora do palácio. Falaram de Eiji, Mari, Cecília e Setsu e de todas as aventuras que passaram juntos. E daquelas que ainda viriam…

Porque era Verão e nada impediam jovens fortes e saudáveis de ficarem fechados em casa, fosse essa casa um palácio ou um apartamento. Se aqueles fossem os últimos dias de Linda, era estava grata. Os dias passavam-se rapidamente, com Linda e Kenji a almoçarem com o pai, visitarem a mãe e depois saírem o dia todo até à praia e outros lugares. Setsu pegara no seu carro e Kenji na mota e os seis passaram pelos vários sítios interessantes em Crystal Tokyo. Cecília conseguiu convencer os rapazes e Mari e irem ao Templo de Asakusa durante uma tarde e fazerem um piquenique num jardim lá perto. As idas à praia eram sempre no fim da tarde, quando as praias estavam quase vazias e onde eles podiam ver o pôr-do-sol em paz, indo depois até ao bar local jogar cartas na esplanada.
Os rapazes convenceram as raparigas a praticar desportos radicais. Se Linda se imaginasse um ano antes, nunca pensaria sequer em saltar de um ponte ou até pegar numa arma e encher Eiji e Setsu de bolas amarelas e vermelhas.
Mas talvez os melhores momentos foram as festas realizadas na casa dos rapazes. Cecília e os rapazes faziam karaoke de várias músicas e, no caso dos rapazes arruinavam as musicas e faziam as raparigas rir. Tudo isso, a somar as dormidas de Cecília e Mari no palácio ou na casa de Cecília e os passeios com o namorado, Linda deu-se feliz pela vida que tinha.
Mas os encontros da mãe faziam-na acordar para a realidade. E, de certa forma, a sua mãe também sabia. Sempre que a via, ficava pálida dos primeiros cinco minutos e receosa do que dizer.
Chegou a altura de Linda dizer a verdade à sua mãe. Esta não reagiu bem:
-Tudo aquilo que nós passamos… foi em vão? – Perguntou, os olhos a encherem-se de lágrimas.
-Nem tudo. Eu não me rendi ao Caos. – Disse Linda, tentando consolar a mãe. Mas não resultou.
-Antes uma filha má e viva do que uma morta. – Retorquiu Small Lady, pondo as mãos no rosto. Linda controlou uma inspiração, sentindo uma dor no abdómen.
-Mãe. – Disse, sentando-se na beira da cama. – Eu não me importo. Ou melhor, já deixei de me importar. Porque haveria a mãe de o fazer? Não diga nada! – Acrescentou, quando viu que a mãe ia protestar. – Eu sei o que estou a fazer. Garanto-lhe que vai ficar tudo bem. Só lhe peço… - Linda parou, sentindo ela própria cair em lágrimas. – Que não me lembre do que vem aí. Deixe-me viver.
As duas abraçaram-se, perdidas no destino incontrolável, rendidas a gotas de cloreto de sódio.

Fora assim que Edward e Kenji as encontraram mais tarde. A dormir pacificamente abraçadas.
A imagem que as duas faziam provocou sorrisos nos dois homens, que sentiram certa inveja daquela amostra de afecto. Entreolharam-se como que a pedir permissão um ao outro. Não foi necessária resposta.
Ambos aproximaram-se da cama e deitaram ao lado de Small Lady e de Linda. Kenji abraçou-se à mãe e Edward a Linda. Esta, ainda adormecida, ao sentir o calor do pai, abraçou-se a ele, tal como Small Lady aproximou o filho de si.
Os quatro ficaram ali adormecidos, pela primeira vez, unidos como uma verdadeira família.

Linda via tudo aquilo. Num sonho. Um sonho que, pela primeira vez, não era dos pais, nem do irmão, nem de outra pessoa. Era seu. Só seu. O seu sonho.
Se Linda pudesse subornar Plutão para a deixar voltar atrás no tempo… não o faria. Por muito curta que fosse a vida, se fosse bem aproveitada, valeria sempre a pena.
E para Linda, assim foi.


**

Estava tudo preparado. Não havia nada de errado no seu plano. Também era coisa bastante simples. Ela só precisava de fazer um ou dois encantamentos com os poderes do seu lacaio e então seria capaz de extrair os poderes das Flores do Universo que possuía. E uns outros encantamentos dar-lhe-iam os poderes das restantes.
Mercúrio, Vénus e Terra.
Os três primeiros planetas do Sistema Solar eram as únicas Flores que persistiam fora do seu poder. Mas não por muito tempo. Ela sabia onde estavam as três. Todas elas…
O encantamento que iria usar só dava para extrair uma das Flores à distância. Usaria na de Mercúrio. Já Vénus e Terra… Ela sabia onde podia encontrá-las a todas no mesmo sítio, na altura ideal. Quando ela concretizar a maldição premeditada anos antes.
Sorriu maliciosamente, contente com o rumo dos seus planos. Em breve seria a Rainha de Tokyo. Da família real, só um restaria. E a esse, daria mil e uma hipóteses de felicidade junto dela. No que tocava aos outros… Uma, a sua maior rival, morreria de desgosto. Porque ela faria questão de que ela visse o resultado dos seus planos. Tinha pena pelo príncipe, mas os seus planos vinham primeiro. Tal como Dawson havia afirmado anos antes, ele de facto daria os seus usos.
Vénus e Terra.
Ridículo como ambas estavam tão perto de si e ela nunca as pudera ver. Mas agora nada a iria parar.
Nada.

**

A noite de três de Agosto prometia ser atribulada. Os preparativos para o aniversário do Rei Endymion haviam se dispersado por toda a semana. Small Lady, temendo entrar em depressão, ameaçou os pais a deixarem-na planear a festa, caso contrário obrigaria Hotaru e Misaki a assaltarem a cozinha e roubarem todos os doces para a festa. Serenity teimosamente cedeu, receosa pelos seus chocolates. A estas atitudes, Rei, Endymion, Edward e Makoto reviraram os olhos e Ami, Minako, Misaki, Hotaru, Linda e Kenji soltaram altas gargalhadas, que ecoaram pela sala.
Small Lady perguntou aos filhos se eles queriam ajudá-la. Kenji fugiu como o diabo, deixando Linda sozinha para explicar à mãe que ela era uma rapariga das ciências, destinada a ficar num laboratório e não num salão a planear festas.
Espalhara-se pela corte que os Reis estavam muito animados por causa das festas. Que a Rainha mostrava melhorias devido aos ambientes festivos. Mas todos aqueles que moravam no palácio ou visitavam frequentemente sabiam que aquilo que os punham felizes eram as conversas constantes com os filhos. Kenji e Linda haviam conversado acerca das responsabilidades que tinham, sendo os únicos filhos dos reis. Um deles teria que reinar. E a resposta era óbvia.
Kenji nascera para ser Rei. Todo o treino que tivera em criança e os seus próprios valores morais e qualidades de expressão tornavam-no no melhor candidato. Linda não tinha nenhuma aptidão para tal cargo. O máximo que sabia era ser cordial e tratar de alguns negócios reais. Mas pouco mais.
Fora difícil, mas Kenji tomou uma decisão. Acabaria a faculdade e exerceria o curso por uns anos, depois tornar-se-ia rei de Tokyo.
Ao olhar o irmão, Linda viu que este não estava tão desiludido com a ideia quanto ela pensava. Ele nunca soubera o que era e se haveria de fazer alguma coisa de jeito. Ser médico fora o seu sonho. Mas eram junto de um parlamento a seguir as pisadas do pai que ele tinha jeito.
A decisão foi reconsiderada várias vezes. Linda queria ter a certeza que Kenji não iria desistir depois de anunciar a sua decisão aos pais.
Finalmente, apresentaram as suas ideias. Kenji como rei, mas Linda ajudá-lo-ia nos negócios e nos eventos reais, para além de ser guardiã do cristal prateado.
A reacção dos pais fora hilariante e, se o assunto não fosse tão sério, Linda teria perdido a compostura e desatado a rir na cara chocada que os pais fizeram:
-Pensei que vocês não quisessem nada com isto? – Perguntou Edward, ao conseguir arranjar cordas vocais para falar. Olhava para a mulher várias vezes, o que fez Linda questionar-se se ele não estaria com algum torcicolo.
Linda e Kenji inspiraram e expiraram ao mesmo tempo, como se estivessem a realizar um exercício de relaxamento.
-Querer eu não quero, mas não posso deixar o Kenji a reinar este grande reino sozinho. – Comentou Linda. – Ele anda o leva à ruína.
-Tens cá uma graça. – Retorquiu o irmão, perante as gargalhadas dos pais e da irmã. – Eu… acho que consigo. Acho que sou capaz.
A sua mãe sorriu para ele.
-Não queremos que te sintas forçado, Kenji. – Disse.
-Eu sei. Mas eu… há já muito tempo que pus a ideia de parte… mas não quer dizer que a ideia em si não me agrade.
Edward não dizia nada, limitando-se a olhar para Kenji atentamente. Este fitou o pai, na expectativa. Linda perguntou-se se Kenji estaria mais à espera de uma bênção do pai do que de todo o reino.
-Sempre soube que darias um bom rei. És teimoso e segues as tuas ideias. Não deixas que ninguém te manipule e formulas as tuas próprias opiniões. Apenas julgava que nunca quisesses… que ser médico fosse mais importante para ti.
-Eu gosto de ajudar as pessoas. Em ambos os cargos faço isso. Mas um é de sangue, o outro… é algo que posso ser, mas cuja ideia ainda é fresca. Ainda não me habituei o suficiente.
Edward largou um sorriso que se estendeu até às orelhas.
-Fico muito contente, filho. – Estendeu a mão, que Kenji aceitou.

Os preparativos eram cada vez mais ruidosos com o passar das horas.
Tic tac
Empregados de um lado para o outro.
Tic tac
Costureiros que a queriam vestir...
Tic tac

-não preciso. – Disse Linda ao alfaiate real. – Já tenho um vestido.
O homem foi-se embora indignado e Linda conseguiu finalmente fechar a porta.
Observou o relógio.
19h25
Tic tac
Tic tac
Tinha cerca de duas horas até o baile de celebração do aniversário do seu avô. E cerca de quatro horas e trinta e cinco minutos para o seu aniversário.
Linda foi até ao armário, onde pegou na caixa que recebera no Natal.
Linda despejou o conteúdo da caixa em cima da cama. Viu a tiara guardada numa caixa. Pousou-a ao lado, vasculhando o resto dos seus pertences. Viu os livros de Linda O’Connell. Havia passado grande parte do seu tempo de aulas a ler os livros, mas ainda não acabara o último. Por algum motivo, não conseguira ainda acabar esse livro. E as poucas linhas que conseguia ler, faziam-na parar para reflectir. Mas depois demorava a voltar a pegar no livro.
Leu a contracapa:
Fita de prata, por Linda O’Connell

Linda O’Connell, após uma entusiasmante saga acerca da sua personagem fíctida Andrea Sullivan, chega-nos com o último livro da saga que encantou leitores nos cinco continentes.
Neste último livro, Andrea está prestes a passar o Ano Novo com o seu irmão George, a sua mãe Julie e o seu noivo Andrew, quando alguém toca à porta ao soar das doze badaladas. É Michael Burrows, filho de um amigo do seu falecido pai e seu mais antigo amor. Este afirma que o seu pai, Philip Burrows, fora encontrado morto na casa de banho com uma fita prateada junto à porta. A mesma fita que o pai de Andrea lhe dera anos antes. Quando de repente vê a polícia no seu pé, Andrea trata procurar a verdade, querendo saber como é que a sua fita fora parar junto de um corpo, ao mesmo tempo que começa a recordar antigos sentimentos por Michael.
É neste último livro da saga que se conhece finalmente a verdadeira Andrea Sullivan. Leia a história de O’Connell que, pela primeira vez, explora o lado mais íntimo da sua personagem e dos motivos pelo qual esta resolve mistérios. Mas, acima de tudo, escolherá Andrea o amor do passado, ou o do presente?

Linda pousou o livro, subitamente deprimida. Quanto mais avançava no livro, mais temia as respostas que encontraria. De certa forma, Andrea envolvia-se em encruzilhadas semelhantes às dela. Tudo começara com problemas que o seu pai tivera com Philip Burrows, tal como Small Lady e Dawson e esses problemas determinaram grandes focos nas vidas das duas raparigas, um fíctida, outra real. Mas era a decisão de Andrea que deixava Linda a prender o fôlego. Qual escolheria ela? O passado ou o presente?
Alguém bateu à porta. Era a sua avó.
-Estás pronta Linda? Hum… vim muito cedo. – Acrescentou ao ver a neta ainda de jeans e com as coisas todas espalhadas na cama.
-Essa é nova. – Comentou Linda, tentando arrumar as coisas. Pegou na caixa que sabia estar o seu vestido e dirigiu-se para a casa de banho. – A avó espera por mim?
-Claro, querida. – Disse Serenity, com um sorriso.

Linda não se demorou muito a vestir. Era um vestido simples de seda com decote em V, cujas alças enrolavam-se à volta do pescoço. Mais semelhava-se a uma camisa de dormir do que a um vestido.
Quando saiu, viu a avó a admirar a tiara, com um ar longínquo. Esta virou-se para a neta e sorriu ao vê-la:
-Estás linda, querida.
Linda sentiu-se corar.
-Obrigada avó.
Serenity aproximou-se da neta e, agarrando na mão dela, levou-a até ao espelho, sentando-a num pequeno banco.
Pegou nuns ganchos e pegou em madeixas do cabelo de Linda e começou a trabalhar.
Esta não conseguia tirar os olhos do seu reflexo. A rapariga que lhe sorria em retorno era completamente distinta de Agnes. Bela sim, parecida com ela também. Mas Agnes não tinha o brilho calmo de Linda nem os lábios que tão facilmente se espalhavam em sorrisos e que foram tantas vezes mordidos pelos dentes brancos dela.
O cabelo dela estava extremamente comprido. Serenity fazia um ponche atrás, deixando grandes madeixas encaracoladas caírem pelas costas da rapariga. Pela primeira vez, os cabelos negros de Linda estavam controlados e até lhe ficavam bem.
Linda pôs um pouco de maquilhagem, enquanto a avó fora buscar a tiara. Pousou a mão no seu colar, onde o pendente brilhava com a luz do quarto, pendurada na corrente de prata que Eiji lhe dera no Natal. Dez pontos brilhantes, um ainda mais do que os outros. Pôs uns brincos de prata e calçou os sapatos. Levantou-se do banco onde se tinha sentado e olhou-se. Estava bem.
-Espera! – Disse a sua avó, pegando na tiara bem polida. – Ainda falta um detalhe. Talvez o mais importante.
A tiara de diamantes brilhava como mil sois e, quando pousou na cabeça de Linda, esta podia jurar sentir um brilho ainda mais forte.

Agora estava completa. Agora sabia quem era. Tal como Misaki dissera, ela sempre soubera quem era, apenas fugira da resposta.
Finalmente, encontrou-se.

**

Tic tac
Tic tac

-Estás a gostar da festa, Eiji? – Perguntou Cecília, bebendo um pouco de sumo. O rapaz deu um pequeno salto ao ouvir a morena.
-Ccomo?
Cecília controlou o riso.
-Já pareces a Linda com a cabeça na lua.
Eiji lançou-lhe um olhar penetrante.
-Estava a pensar.
-Em quê?
-Nisto tudo. – Respondeu ele, olhando em volta. O salão de bailes estava cheio de pessoas de todas as idades e classes da nobreza, cobertas por vestidos brilhantes e coloridos ou fatos negros e sapatos perfeitamente engraxados. Para qualquer lado que Eiji olhasse, apenas via riqueza e luxúria. – Não tem nada a ver com a Linda e o Kenji. Como podem eles viver neste mundo?
-Da mesma forma que nós não vivemos neste mundo, mas pertencemos. – Respondeu Cecília. Eiji olhou para ela fixamente, suspirando.
-Já a viste? – Perguntou ela, um pouco hesitante. Eiji encolheu os ombros.
-Eu não ando à procura dela no meio desta multidão, sabes? Há pessoas muito mais interessantes para se ver. – Disse ele, com profundo veneno nas suas palavras.
Cecília pousou o copo em cima da mesa. Pensou em pousar a mão no ombro de Eiji, mas hesitou. Sabia o quanto era difícil estar ali, mas ela tinha que admitir que era fácil evitar aqueles olhares mesquinhos com os amigos por perto. Talvez fosse por isso que os dois irmãos tivessem insistido para que os amigos viessem. Lá por viverem neste mundo, havia sempre algo nele que eles detestavam e tinham sempre que arranjar maneiras de ‘sobreviver’ até ao próximo dia. Cecília até nem estava mal, mas a partir do momento em que Setsu e Mari desapareceram no meio da multidão, sem dizerem para onde iam, deixaram os dois jovens completamente incomodados. Cecília detestava aquele mundo e Eiji também. Principalmente porque determinada pessoa estava ali, no meio daquelas pessoas todas. A sua mãe.
Os olhos de Cecília procuraram automaticamente Setsu. Viu-se no outro lado do salão a falar com uma mulher loira. Reconheceu-a de imediato.
Yvonne.
Rezando silenciosamente para que o amigo não a visse, Cecília observou a mãe dos irmãos Yamamoto.
Era magra e bela, mas baixa e com ar de quem tinha engolido um limão. Sorria para o filho mais velho, mas mais parecia um sorriso cordial do que um sorriso maternal. Cecília ficou espantada quando viu Setsu a agir de uma forma semelhante. Mais parecia que este estava a despachar conversa com a mãe do que a conversar com ela de bom grado.
Os olhos de Setsu cruzaram-se com os de Cecília. Agora tinha a certeza. Setsu estava apenas a pôr conversa cordial. Lançando mais um sorriso cínico à mãe, afastou-se, aproximando-se da amiga e do irmão:
-Então, tudo bem?
-Tudo – respondeu Eiji aborrecido. Cecília e Setsu entreolharam-se, concordando silenciosamente em distrair Eiji até os irmãos Natsumara chegarem.
-Queres ir apanhar ar? – Sugeriu o irmão mais velho. Eiji encolheu os ombros.
-O Rei não está a chegar?
-Sim, mas…
-Sabes onde está a Mari? – Perguntou Cecília de repente. – Achei que ela estivesse contigo.
-Não, ela foi com a avó ter com a Rainha Serenity e… olha, ali está ela – disse Setsu, apontando para a loira, que os procurava na outra ponta do salão. Quando os viu, correu o máximo que o seu vestido comprido lhe permitia. Quando chegou perto deles, Cecília notou que Mari estava um pouco ansiosa.
-Vem comigo – disse para Cecília, ignorando os outros dois.
-Aonde? Porquê?
-Elas querem ver-nos… - murmurou Mari. Eiji e Setsu entreolharam-se confusos. Cecília não estava em melhor estado.
-Quem?
-Elas!
Foi então que a morena percebeu. Almas estranhas encontravam-se junto à porta do salão, observando curiosamente. As navegantes, ‘tias’ de Linda.
Cecília assentiu e seguiu Mari para fora do salão.
Eiji bufou de aborrecimento, consultando o seu relógio.
20h56 Estava quase.

Tic tac
Tic tac

**

-Achas que estamos a fazer o correcto? – Perguntou Minako, não tirando os olhos das adolescentes que procuravam furar a multidão, rumo à porta do salão.
-Sim. – Respondeu Rei. – É o melhor a fazer.
-Não devíamos sequer avisá-las? – Perguntou Makoto.
-Não. – Respondeu Michiru. – Deixemos a Hotaru e a ChibiUsa fora disto. Já a Setsuna… ela deve saber, mas sabe que não nos pode impedir.
-E a Serenity e o Endymion?
-A Serenity conhece-nos. – Respondeu Ami, de braços cruzados olhar cabisbaixo. – Sabes que não podemos ficar quietas. Temos que as ajudar.
-Ainda assim…
-É o melhor, Minako. Elas vão precisar de todo o poder necessário para ajudar a Linda. Além disso… queres mesmo que os teus filhos fiquem com as tuas responsabilidades?
Minako abanou a cabeça.
-Elas vêm aí. Preparem-se, não temos muito tempo. – Disse Haruka, consultando o seu relógio.
Está na hora…

Tic tac
Tic tac

**

Linda sentiu uma súbita vontade a gritar com todo o mundo. Estava sozinha, junto à porta do salão, onde ela iria entrar, pela primeira vez, com um membro da família Real. Esperava o pai e o irmão, que se atrasavam.
-Tinha logo eu se ser a única da família que gosta de ser pontual – murmurou ela, aborrecida. No fundo, estava com medo do que viria aí. Depois disto já não haveria volta a dar. Seria para sempre a princesa de Crystal Tokyo.
Inspirou e expirou, tentando acalmar-se. Não era o fim do mundo.
Não, mas até pode ser o fim da minha vida, pensou com desprezo.
-Linda? – Chamou-lhe uma voz por trás. Esta virou-se, olhando o pai e o irmão. Estes fitavam-na de boca aberta.
-Uau. – Comentou Kenji, á falta de palavras.
-Estás maravilhosa – disse Edward, tentando formular algumas frases coerentes. Linda sorriu.
-Obrigada, pai.
-Majestade! – Chamou um empregado. – Está na hora.
Kenji olhou para o seu relógio de pulso dourado, que pertencera outrora ao seu avô paterno. Sim, estava na hora.

Tic tac

Que som é este? Perguntou-se Kenji.
-Kenji? – Chamou Edward. – Vens atrás de mim! – E entrou, ao ouvir o seu nome ser anunciado à multidão.
Kenji respirou fundo antes de prosseguir. Linda sentiu uma súbita vontade de desaparecer do mapa, mas já não havia volta a dar.
-Vossa majestade, a princesa Linda. – Alguém anunciou e Linda entrou dentro do salão.
A reacção que Kenji provocara ainda não tinha assentado de tal modo que as pessoas nem se deram ao trabalho de fechar as bocas para a princesa de Tokyo. A primeira vez que alguém via a cara dela desde que ela nascera. O príncipe surpreendera pela positiva e a princesa…
-É mesmo bonita… - comentou alguém.
-E diziam eles que ela se escondia por ser feia!
-Se é tão bonita quanto sua majestade, porque se escondia?
Linda ignorou os comentários e traçou um objectivo. Chegar ao fim do salão, onde o pai e o irmão cumprimentavam os seus avós, principalmente Endymion, o aniversariante do dia. Ao olhar em volta, Linda viu Setsu e Eiji a olharem para ela, estupefactos. Setsu exibia um enorme sorriso e Eiji olhava para ela maravilhado. Só por vê-lo a olhar para ela, Linda sentiu um pequeno rubor no rosto.
-Parabéns avô! – Disse, abraçando o homem mais velho quando chegou perto dele, este correspondendo o acto ternamente.
-Obrigada querida. Daqui a umas horas, dir-te-ei o mesmo. – Respondeu Endymion, com um sorriso e um piscar de olhos. Linda virou-se para a sua avó, que lhe sorriu e abraçou-a. Apesar de já a ter visto, actos carinhosos nunca eram em demasia.
A música começou e pares aproximaram-se da pista de dança, exibindo os seus dotes na arte.
Linda olhou para o irmão e viu que este procurara alguém. Foi aí que Linda notou na ausência das suas amigas.
Onde estão elas?
Soou uma valsa e Endymion estendeu a mão para a neta:
-Dás-me o prazer, querida?
Linda sorriu abertamente.
-Claro avô. – Respondeu, pegando na mão dele.
Juntos, foram para a pista de dança e começaram a movimentar-se em roda, com Linda a guiar o homem. Endymion sabia dançar, mas não era um profissional como o genro e os netos. Aliás, as suas técnicas de danças limitavam-se às mais simples valsas que dançava com a mulher desde os tempos de juventude.
Um passo para a frente, dois para trás.
Linda viu Serenity aceitar a mão do neto e, de repente, Linda viu-se obrigada a dividir a pista com a avó e o irmão. Este parecia querer procurar Mari, ao mesmo tempo que procurava salvar os seus pés dos desastrados da avó. Serenity sabia dançar valsa, mas já não conseguia dançar do mesmo modo que Linda e Kenji faziam. Apenas conseguia rodar com o marido lentamente, ao sabor da música. Kenji quase que pretendia fazer uma maratona na pista de dança.
Finalmente, a música acabou e Linda viu as suas amigas num canto. Mari de cinzento, Cecília de preto.
Kenji afastou-se para junto da namorada, mas Linda decidiu ‘brincar’ com ele:
-Kenji? - Foi ter com ele, junto às suas amigas. – Queres competição?
Pela cara que fez, Linda podia apostar que não, mas ele assentiu.
-Agarra na melhor dançarina que conheceres. – Disse, afastando-se dos amigos. Aproximou-se do pai:
-Quer dançar comigo?
Linda faria em horas dezassete anos e nunca antes se pudera rejubilar de ter tido uma dança com seu pai. O dom que ambos partilhavam. Ela sabia que Edward também pensava no mesmo, pois os seus olhos brilharam quando ela lhe fizera o pedido.
-Claro.

-Vens? – Disse Kenji a Cecília. Esta ficou sem palavras.
-Eu?
-Sim, tu danças muito bem. Mereces dançar comigo nesta ‘competição’.
Mari riu-se da cara da amiga, mas isso não acalmou os nervos de Cecília. Era uma honra dançar na mesma pista que o Rei, quanto mais competir contra ele.
-Sim… - aceitou ela, com voz fraca.

Os dois pares começaram a dançar. Kenji e Cecília tomaram a idade como vantagem, fazendo passos rápidos e precisos. Como as coreografias eram improvisadas, não lhes dava muito espaço para acrobacias, mas sempre conseguiam fazer uma dança extremamente agradável. Já Linda e Edward dançavam calmamente. Kenji apercebeu-se de que eles estavam a tentar ‘conhecer-se’, a conseguir coordenar as respirações, de modo a conseguirem ‘adivinhar’ os passos um do outro.
Edward e Linda não paravam de sorrir. Eles dançavam mais pela experiencia do que pela competição e estavam a divertir-se como nunca. Tanto que Edward fazia Linda rodar como se ela fosse uma bailaria.
A música chegou ao seu ponto mais alto e, enquanto os dois jovens estavam um pouco exaustos, Linda rodou os sapatos de salto alto e, tanto ela como Edward dançaram ao ritmo da música, cada passo, cada batida, um indo para um lado, o outro para o outro. A certa altura, já ninguém conseguia distinguir o par jovem do Rei.
A música parou e todos bateram palmas. Quem ganhara a competição, ninguém sabia, mas os dançarinos também não queriam saber. Cecília afastou-se para ir ter com os pais e Kenji aproximou-se do pai e da irmã:
-Dançaram bem, os dois. – Comentou.
-Tu também dançaste bem. – Respondeu Edward, sorrindo abertamente.
Os três ficaram ali, no centro da pista, completamente alheios a aquilo que se passava à volta. Excepto uma coisa…

Tic tac
Tic tac

Kenji olhou em volta. Outra vez aquele som…
Que significaria?

**

Estava tudo pronto.
Ela agarrou a mão que ele ofereceu voluntariamente. Sentiu o poder dele entrar nas suas veias, enchendo-a de prazer. Ela soltou um gemido, sentindo-se, pela primeira vez, completa. Invencível.
E agora... o primeiro encantamento.
Concentrou a sua mente naquilo que procurava. Numa cabana, uma rapariga de cabelos castanhos-claros escrevia à luz do candeeiro de mesa. Alheia a aquilo que lhe ia acontecer.
Ela murmurou umas palavras na língua Mística, a língua mais antiga de todas. Falada em todo o Sistema Solar e na Lua, caíra em desuso depois da queda do Milénio Prateado.
Longe, a rapariga caiu da cadeira, imóvel. Uma flor azul saiu do seu corpo e iniciou a viagem rumo ao corpo da mulher, que de bom grado a esperou para a absorver. Não demorou muito a viagem, pois a Flor era mais luz do que corpo sólido.
E agora, tinha a Flor de Mercúrio.
Só faltava o encantamento final. Se usasse a quantidade de poder certa, teria aquilo que sempre desejara.
Correntes de luz controlaram a sua silhueta, iluminando-a como um farol. Ela sentiu um aperto, por causa do seu corpo mortal, inapto para receber tal poder. Precisava de sangue. Sangue não humano.
Sorte a dela que agarrava a mão de alguém que possuía esse sangue. Ele não precisaria de saber. Ela tentara ter poder anos antes e o máximo que conseguira fora a ajuda deste ‘homem’ que viera de outra galáxia, em busca de algo. Esse ‘algo’ fora encontrado na América e o seu lacaio logo o eliminou. Mas ficara encantando pela beleza dela e, desde então, tem feito tudo aquilo que ela pedira.
E agora, daria a sua vida por ela.
Ele gritou, dores incontroláveis perfurando o seu corpo. Ela ignorou os sons, concentrando-se no encantamento. Ele tentou largar a mão dela, mas ela apertou-a ainda com mais força, sentindo-se perto do seu objectivo.
Finalmente, atingiu o limite. E uma forte luz saiu da figura baixa, deixando para trás o seu corpo reduzido a pó.
E ela poderosa, com sete novas luzes a iluminá-la. Sete almas. Sete Flores.
Jamais se sentira assim. E sabia que a sua rival jamais fora assim. A batalha estava quase ganha.
Agora, só faltava a princesa.

**

Linda suspirou, o seu rosto encostado ao tronco de Eiji, enquanto os dois dançavam uma lenta valsa. Este olhou para a namorada com um sorriso e, ao vê-la a olhar para o outro lado, virou-se. Linda mirava Kenji e Mari que dançavam não muito longe dos avós de Linda.
-Que pensas? – Perguntou, apesar de ter uma pequena ideia.
-Ficam muito bem juntos. – Respondeu ela, sorridente. Atrás de si, o relógio anunciava dez minutos para a meia-noite e, consequentemente, para o seu aniversário.
-Pois ficam - concordou ele, beijando o topo da cabeça dela.
De facto, Linda não podia deixar de invejar o irmão por ter nos braços uma rapariga que ele sabia ser o seu amor eterno. A forma como eles se olhavam era semelhante à dos seus avós, e todos sabiam que aqueles dois só seriam separados pela morte.
Já ela, não tinha certeza. A sua vida amorosa corria às mil maravilhas e, por culpa da maldição, Linda não pensava em nenhum ‘depois’ de Eiji. Mas era naquelas alturas em que ela se perdia a pensar…
-Vem comigo. – Disse ela, agarrando as mãos do namorado arrastando-o para fora do salão. Percorreram corredores desertos, Eiji perguntando-se onde ela o levava, até chegarem aos jardins. Linda caminhou calmamente, o seu vestido a rastejar na relva verde húmida, sem largar a mão de Eiji.
-Cheira a eucalipto – comentou Eiji, esperando parar ali. Em vez disso, viu a namorada sorrir e levá-lo mais para dentro das árvores.
Quando pararam, a primeira coisa que Eiji viu foram jasmins no chão, junto a uma árvore, que não era um eucalipto.
-Este é o meu lugar secreto… bem, não tão secreto. Os meus pais sabem dele – acrescentou ela, ao ver o olhar duvidoso dele. – Mas isso é porque eles vêm-no pela janela do quarto.
-Porque me trouxeste aqui? – Perguntou ele, com o seu sorriso sedutor.
-Este é o meu lugar preferido aqui. Queria mostrá-lo a alguém especial.
Ela aproximou os seus lábios dos deles, deixando o toque provocar um tremor nos dois corpos, que rapidamente fluíram um no outro. Ele agarrou nas ancas delas, chegando-a mais perto de si e ela pôs a mão esquerda nos cabelos deles, como já era hábito, enquanto a direita tocava no rosto dele, movendo o maxilar dele uns meros graus, a fim de aprofundar o beijo.
Quando se separaram, estavam um pouco ofegantes, mas ansiosos por mais.
-És muito especial, Linda. – Sussurrou ele. Ela sobressaltou-se, lembrando-se daquilo que ele lhe dissera no ano novo. As mesmas palavras, o mesmo efeito.
-Estás enganado. – A mesma resposta.
-Porquê? Sabes lá tu os meus sentimentos.
-É claro que sei. – Disse ela, constrangida. – Tu gostas de mim e eu gosto de ti.
Eiji controlou uma gargalhada.
-Linda, já estou contigo há tempo suficiente para saber que não apenas gosto de ti. Eu…
-não digas. – Cortou ela, incomodada.
Ele ergueu o sobrolho.
-Porque te faz tanto dilema que eu to diga, Linda. Não sentes o mesmo?
Ela perdeu o ritmo respiratório. Como lhe dizer… como lhe dizer que ela só estava destinada a amar um homem? Um homem que não era ele…
-Eu…
-Mas que lindo! – Disse alguém sarcasticamente, vindo por entre as árvores escuras. – Que romântico.
Linda virou-se, sobressaltada. Ali, tão perto dela e de Eiji, estava nada mais, nada menos do que Dawson.

**

-Amo-te. – Disse Kenji ao ouvido de Mari. Ela corou. – Já te disse isto?
-Já. – Ela ganhou um novo pigmento de vermelho. – Algumas vezes esta noite.
-Não me canso de repetir. – Disse ele, beijando a bochecha corada dela. – Até porque ficas com uma cara.
-Não é costume os homens dizerem que me amam. – Retorquiu ela.
-Habitua-te. Não digo isto a todas. Aliás. – Acrescentou ele, deitando um olhar nos avós, que falavam com o pai. – Sou como a minha avó nestas coisas. Quando amo, é único e forte.
Mari sorriu.
-Eu também. Mas somos tão novos…
-O amor não tem idade.
-Verdade – concordou ela. – Mas nem sempre é amor maduro. Inconsciente é o que é.
-Não comigo… - sussurrou ele, beijando-a ternamente. Ela sorriu, aceitando o gesto, deixando que ele possuísse a sua boca. A sensação de fogo-de-artifício explodiu na cabeça dela, quando ele afastou-se. Parecia preocupado.
-O que foi?
-Onde está a Linda?
Mari olhou em volta. Nem a amiga nem Eiji podiam ser visto no meio daquela multidão.
-Devem estar nos jardins. Porquê?
Kenji demorou a responder.
-Tenho um mau pressentimento. – Voltou a consultar o seu relógio. Era quase meia-noite. E, talvez por ironia ridícula do destino, Kenji apercebeu-se de onde vinha o som que o incomodara desde o inicio da noite. Do seu relógio.

Tic tac
Tic tac

Kenji deixou-se ficar parado, a olhar para os ponteiros do seu relógio a avançarem a cada segundo. As palavras que Linda lhe dissera no seu sonho ecoavam na sua cabeça.
O tempo está a acabar…
Qual tempo? O que é que o avô queria dizer com aquilo? E Linda?
-Kenji? – Chamou Mari, abanando-o no ombro. Mas Kenji não respondeu. Entendera finalmente a mensagem.
Eles sempre souberam. Ela sabia. O tempo…
E, de certa forma, Kenji sentiu que era tarde de mais.


**

-Linda, quem é ela? – Perguntou Eiji, agarrando o braço de Linda instintivamente.
-Tu. – Cuspiu Linda, furiosa, ignorando o namorado confuso. – Como entraste aqui?
-Achas mesmo que essa é a pergunta mais importante Linda? – Respondeu ela, sorrindo venenosamente. – Sabes muito bem quais são as minhas intenções para ti. Devias estar mais preocupada com o que eu vim cá fazer…
Linda ficou pálida, ao aperceber-se da sua situação. Não só estava ali, sozinha contra Dawson, como também tinha que se preocupar com Eiji, de modo a que este não saísse magoado. Mas Dawson parecia ter pensado adiante. Fechou o punho e deixou que uma luz dourada se libertasse da mão, ofuscando os olhos de Linda. Quando esta ganhou o poder da visão, viu que Dawson sorria. E, atrás de Linda, Eiji não fazia um único som.
Nervosa, Linda deu meia-volta e fitou, horrorizada, os olhos de Eiji transformarem-se negros como os de Dawson. Sem hesitar, ele agarrou-a e prendeu-a à árvore, forçando o seu corpo contra o dela. Sendo ele mais forte, Linda não podia fazer nada a não ser submeter-se à força que ele exercia sobre ela.
-Eiji…
-É inútil, ele não te consegue ouvir.
-O que lhe fizeste? – Gritou Linda, tentando libertar-se mais uma vez. Mas os braços fortes de Eiji impediam-na de se mexer. Para piorar, Eiji agarrou-a de modo a que a sua mão direita estivesse livre e o resto do corpo forçava Linda contra o tronco da árvore. – Deixa-o em paz!
-Usei o poder das Flores para o controlar. Sabes, querida. As Flores são poderes da alma, ligam-se à nossa mente e fazem aquilo que nós queremos. E não, não o deixo em paz. Preciso dele.
Linda sentiu raiva subir-lhe à cabeça, contrastando com a fraqueza que começava a sentir no corpo devido à luta que dava a Eiji.
-Vim cá para… cumprir o destino. Mas vi vocês os dois juntos e pensei… e que tal uma história romântica? Como Romeu e Julieta? Um mata o outro.
Uniu as mãos e, a partir de uma bola de luz, surgiu uma adaga de prata. Linda ficou branca quando Dawson deu a adaga a Eiji.
-Sua…
-É pena Linda, mas os meus esforços tinham que conseguir frutos algum dia não achas? Eu, que vendi o meu corpo para ser rica, que mudei de país e aprendi a falar uma língua que não era a minha só para poder ter hipóteses com o Edward e poder acabar com a tua mãe. Ela roubou-mo e tinha que pagar. Sorte a minha que ela ficou doente. A única coisa que precisava de fazer era acabar com a família dela. Matar a filha, os pais, roubar-lhe o marido e…
-E…? O que vais fazer ao meu irmão, sua louca? – Gritou Linda, sentindo cada vez mais dificuldade em respirar. Um dos seus olhos estava posto em Dawson, o outro na adaga, cuja ponta estava virada para ela.
A mulher fez uma cara pensativa, que durou apenas uns segundos.
-A principio pensei em mantê-lo vivo mas, descobri recentemente que ele me dará outros usos. – Olhou Linda nos olhos, um brilho vitorioso emitindo no mar escuro que vinha na íris.
Linda lançou-lhe um olhar sombrio.
-Vais-mas pagar Dawson. Prometo-te. Anos antes, amaldiçoaste-me e agora faço-te o mesmo. Garanto-te, eu vou voltar e vou acabar com a tua vida TAL COMO ACABASTE COM A MINHA!
As palavras de Linda ecoaram no jardim, ouvidas apenas pelas três pessoas que ali estavam. Dawson ficou imóvel por um segundo, antes de lançar um olhar penetrante e vitorioso a Linda.
Ao longe, soou a meia-noite do quatro de Agosto.
-Happy Birthday, Linda. – Sussurrou a sua inimiga, virando as costas aos dois jovens.
E depois, tudo aconteceu depressa. Num segundo Linda olhava Dawson com profundo desprezo, noutro sentia Eiji a espetar-lhe a adaga direita no seu coração, enchendo o seu vestido de sangue. Linda só teve tempo para olhar nos olhos daquele que a esfaqueara, antes de cair na escuridão, imóvel, sem vida.

Ao longe, o relógio de Kenji parou.

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por Lena_Dias em Qui 10 Mar 2011, 14:03

nao venho cá a tanto tempo Desiludido
devo ter TANTOS capítulos em atraso :s

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por Bun em Sex 11 Mar 2011, 07:08

Olá Ana. Smile
Novo capítulo!!! cheers
Quando vi no meu mail que tinha sido actualizado vim logo ler! Razz
Gostei imenso.
Desvendaste tanta coisa, agora tudo faz muito mais sentido.
Que bom que a família esteve finalmente junta, mesmo que por pouco tempo valeu a pena.
O kenji futuro rei é uma surpresa.
Relativamente à Voz que sempre me deixou curiosa, bem supostamente é a Agnes ou parte da sua consciência na Linda. No caso da Mari a Belissa. Mas e então o Kenji? Quem era ele na sua vida passada? De quem é a Voz? E o Eiji? Ele também a ouviu uma vez.
O Morfeu....então a Linda está destinada a amar só a ele. E isso fez surgir-me mais uma questão. Onde anda o Morfeu?
Adorei a música que escolheste. Dá sempre um toque diferente quando se está a ler.
Sobre a cena final que hei-de dizer? Tipo: Como pudeste matar a Linda?!!!!
LOOOL
Coitado do Eiji...quando voltar ao normal e se aperceber do que fez....
Mas gostei muito da cena, dramática, muito gira. Wink
Agora é esperar que ela volte....como a Agnes disse.
A Dawson já tem o poder das 7 flores, como? O Eiji tem a de Vénus mas ela não lha tirou. Pode usá-la mesmo assim? Foi assim que o controlou?
E afinal que quer ela do Kenji? Suspeito que é ele que a Linda viu morrer no hospital no sonho....

Francamente não tenho a menor ideia como tudo isto vai acabar. Conseguiste deixar-me na expectativa, a tua história está completamente imprevisível. Não faço ideia qual o teu próximo passo e isso é fantástico. Grande parte das vezes lês um livro e dás por ti a descortinar o final. Por isso é óptimo! Continua! E adoro sempre as músicas que escolhes.

Espero que não demores muito a postar.

Beijinhos*

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por lulumoon em Sex 11 Mar 2011, 10:19

OMG!OMG!OMG! Estou histérica!
*Mim Cai*
LINDDDAAAA!!!! ;o;
Oh... Nem sei o que dizer desta ultima parte... v.v Estou parva, nem sei o que imaginar! Tal como a Bun disse, eu nem sei o que esperar! esta fic é bastante imprevisivel!
Começando pelo inicio:
Agnes Versus Linda! Lol Me Gusta! Matreiro
Ficou tudo explicado, finalmente, ainda que nem todas as noticias tenham sido "simpaticas". Fiquei muito feliz por ver a Familia reunida outra vez, a viverem num verdadeiro "Carpe Diem". Pelo menos deu para compensar toda a magoa que guardaram durante toda a fic! Gostei muito da musica que colocaste! Adequou-se bem! ^^
O kenji só podia ser Rei! Acho que não o imaginava fora do posto! Matreiro E a Mari tem que ser a Rainha! Esperancoso Eles são tão amorosos! Esperancoso e acho que já não há duvida que a Mari já está enquadrada na familia! Razz
Gostei do vestido do baile da Linda! Esperancoso Muito simples, mas bonito! E foi fofo ter sido a "Bunny" a ajuda-la a preparar-se para o baile, que foi delicioso, desde as bocas abertas para a "princesa feiosa" até á competição de dança, e ás conversas apaixonadas dos casais! Esperancoso
Esta ultima parte é que bateu tudo, ora lá está! ;_; A Lindinha Levou com a Adaga no peito! Não!!!! ;_;
Mal posso esperar pelo proximo capitulo!
Estou Ansiosa!!!!

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Sex 11 Mar 2011, 10:38

Olá...
Vou começar por agradecer à Bun pelo seu comentario e, antes que o responda decentemente, acabarei aquilo que não acabei no ultimo dia.
Era para ter postado nas férias de carnaval, mas não sou a unica a utilizar o computador na minha casa e, ultimamente, o meu pai tem tido muitos trabalhos, assim como eu e a minha irmã. Outro motivo foi o facto de eu ser teimosa a ponto de insistir em postar um capitulo grandinho do que dividi-lo a meio e poupar a vossa tortura... (yup, eu sei que sou má...)
É este o meu molhe de desculpas. Digo isto porque gosto de ser pontual com os meus compormissos e, se digo que posto numa altura, é para o fazer. Como não o fiz, justifico-me.

Agora uns pontos mais interessantes. Começei a escrever o capítulo quando estava a dar Ricardo Reis e fiquei apaixonada pelo heteronimo de F.P. Ao ler alguns dos seus poemas na escola, achei que tivessem tudo a ver com o tema principal deste capítulo e, por isso, decidi basear-me nos poemas. As cenas do «tic tac» e da Linda estar sempre a dizer Carpe diem foram todas inspiradas em R.Reis. Se estão a ler isto é porque já leram o capítulo e, portanto, não vos posso dizer para não terem medo, que o meu plano não era dar uma aula de portugues Matreiro

E agora, uma resposta decente ao comentário da Bun:
Honestamente, acho que vocês exageram. A minha fic não é assim tão boa Matreiro. Mas agradeço o gesto. Acerca da fanfic, são Flores para cada Planeta do Sistema Solar. A Dawson tem sete, faltam duas: Venus e Terra. Conseguiu controlar o Eiji com os poderes do lacaio pelo mesmo motivo que muitos chefões de Sailor Moon o faziam. Mas não vou entrar em detalhes, até porque nem pensei nas razões para isso acontecer. Ele tinha poder e ela tirou-lho. É tudo Matreiro
A visão da Linda era do presente, não do futuro. Por isso, posso dizer que aquele não era o Kenji. Para além disso, se fosse ele, quem seriam os outros cinco?
No que toca a Voz... visto da minha prespectiva é bastante obvio do que a Voz realmente se trata e acho que acabei por dar pistas sobre as intenções de Dawson para Kenji... No final, vai fazer sentido, prometo.

Acerca do Morfeu. Bem, voces sabem quando uma pessoa está destinada a amar uma unica pessoa essa é lhe tudo na vida... e se essa pessoa não está cá? Morta, inexistente? O que acontece? Ama-se a pessoa em segundo lugar. Que isto vos fique na cabeça no próximo capítulo. ^^
Agora, se ele está vivo, morto ou que nem sequer chegou a reencarnar, isso não se descobre no próximo capítulo. Sorry --,

E finalmente, a Linda voltar... quero que me dêm as vossas ideias... como é que ela o fará? será um espírito? possuirá o corpo da mãe? Tornar-se-á na nova Messias, que ressuscitou para nos salar? Digam-me Matreiro (não fará diferença nenhuma na história, porque já está tudo pensado, mas bem que gostaria de ouvir as vossas opiniões.

EDIT: vi agora o comentário da lulu e aproveito já para responder Razz
lulu, obrigada pelo comentário. Divirto-me sempre a ler os teus comentários. Mostras sempre muita emoção e houve uma altura (num capítulo que eu já não me lembro) em que senti tanta raiva por uma das minhas personagens ter agido da forma que agiu (apesar de ter sido eu a escrever Mal disposto) por causa da tua reacção Matreiro
Pois.. eu matei a Linda.. e não me arrependo! Twisted Evil



Próximo capítulo: cabeças vão rolar e.... vai demorar para eu o postar... sorry Matreiro

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por Bun em Sex 11 Mar 2011, 12:21

Ah ok, faltam flores. Pois eu estava com a ideia que eram 7. Ainda fui ver os capítulos anteriores para confirmar isso, mas entretanto dispersei-me a reler a cena da Mari e do Kenji no Ano Novo,lool. Amei aquela parte e acabei por não encontrar.

E a 2a pessoa por acaso não será o Eiji?

Também me perguntei quem seriam os outros cinco...terá algo a ver com as flores, os que as transportavam...

Ah já percebi a tua pista sobre o Kenji. Ele tem a flor da Terra não é? Por isso é que não pode ficar vivo.

Sobre a Linda...eu na realidade prefiro esperar para ver o que tu decides.

Se ela voltar tipo nova Messias, no seu corpo em principio teria outra oportunidade para viver aquela vida, desta vez muito melhor. Em espírito penso que isso não aconteceria. Digo eu...

Achas que exageramos, não sei. Na minha opinião escreves bem. É bastante agradável de ler. Consegues cativar-nos. Para mim és uma boa escritora. Se não fosses acredita que não perdia tempo a ler o que escreves!

Gosto mesmo. Smile

vai demorar....hum...bem paciência....cá espero.


Beijinho*


Última edição por Bun em Dom 13 Mar 2011, 14:19, editado 1 vez(es)

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por lulumoon em Sab 12 Mar 2011, 16:01

Concordo com o que a Bun disse! Eu acho que tu escreves muito bem, Ana! És sem duvida a escritora que me dá mais gozo cá no forum! Se não fosse por ti, eu nem sequer vinha cá tantas vezes agora que não tenho uma fic cá publicada (saudades desses tempos! Esperancoso).
Por acaso também estava na ideia que eram 7 flores (isto deve ser influencia do numero 7! Uma pessoa está tão habituada que este numero lidere que até se confunde! --')
Ah!!! Eu vi logo que havia ali muito Ricardo Reis! Apesar de adorar os poemas de Alvaro de Campos, prefiro as Filosofias do Reis! ^^ e sem duvida que num momento destes para a Linda, ela tem mesmo que seguir uma filosofia deste tipo. se não fosse "carpe Diem" seria "Hakuna Matata" (O meu lema preferido! Esperancoso)
Well, eu imagino a Linda a voltar, inicialmente em espirito, a tentar arranjar forças para se erguer e para voltar á vida, e depois arranjar forma de o seu corpo regenerar geneticamente(acho que é assim que se diz), ou como acontecia sempre que as navegantes morriam! Esperancoso
No entanto, como eu não tenho uma visão muito definida quanto a esse assunto, tenho a certeza que ficarei agradada com o resultado que nos darás! Very Happy
Olha lá, estou curiosa em relação ao comentário que eu te fiz que te deixou revoltada! Por acaso isso também já me aconteceu com um comentário que fizeste á minha fic, mas também já foi há tanto tempo que nem me lembro! Mas agora acho que vou correr este tópico todo para ver o que disse! Até fiquei preocupada! eu ás vezes estou tão alterada que escrevo coisas sem nexo! Matreiro
Enfim...! Rolling Eyes
Tens data prevista para o próximo capitulo?

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Dom 13 Mar 2011, 15:45

Data? Bem... em principio não pegarei na fanfic por uns tempos, por causa dos testes (tenho montadas deles... e tbm trabalhos Mal disposto). Por isso, deve ser por volta das férias da Páscoa. Provavelmente na primeira semana Smile

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por lulumoon em Seg 14 Mar 2011, 13:28

Ah bom! É mais rápido do que estava á espera! Mal posso esperar! Afinal, são o capítulos finais, portanto estou mortinha por ler o desenlace desta fic! Vou ter saudades dela, quando terminar! v.v

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Ter 19 Abr 2011, 17:20

Olá people. Venho aqui com um novo capitulozinho. Espero que gostem mas, honestamente, dêm-me a vossa opinião. Não tenho muito jeito para cenas de luta e aqui isso é o que não falta
Devo dizer que estou muito aliviada por terminar este capitulo. Foi GRANDE de escrever (quase 30 páginas de word com arial, 12) e cansativo, pelos motivos que explicitei acima.
Agora só faltam dois. Um capitulo e o epilogo. Serão pequenos, por isso no final do mês um pelo menos estará escrito.

Mas agora deixo-vos com o capitulo. Mais uma vez, espero que gostem =)

P.S: Vou explicar tudinho sobre a Voz caso não entendam, no proximo capítulo. Ha um comentário da Linda que pode confundir-vos por isso achei melhor avisar.

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27-A Flor da Lua



Um trovão rompeu os céus, indício trágico para desastres futuros. O quarto estava coberto num silêncio mortal, fazendo com que o simples som rangente do trovão acordasse a figura deitada na cama.
Esta pousou a mão automaticamente no peito. Sentira uma forte pontada e podia jurar que o seu coração parara de bater por um milésimo de segundo. Algo estava errado.
A mulher tentou sair da cama, mas o seu corpo resistia. Estava fraca, não se conseguia mexer. A doença que a tomava estava prestes a ganhar a guerra. Talvez o fizesse, mas ela atrasaria o julgamento final. Primeiro, tinha que sair do quarto.
Quando se conseguiu ver de pé, sentiu uma outra pontada e o quarto começou a girar à sua volta. Pousou a mão na cabeça e, determinada, tentou alcançar a porta.
Aquele mau pressentimento…
Arrastou os pés pálidos e descalços em passadas lentas e dolorosas. De vez em quanto, lançava um olhar em volta, em busca de algo. Só as rosas lhe chamaram a atenção. Um vaso de rosas vermelhas pousado numa mesa a apenas treze passos do quarto dela. Small Lady podia jurar que as rosas eram brancas. Afinal, fora isso que ela pedira.
Suspirando com dificuldade, avançou mais uns passos quando viu outro vaso, desta vez maior. Cheio de rosas vermelhas, quando ela pedira brancas.
E todas essas rosas estavam junto ao quarto da filha.

Ela sentiu uma pontada no coração. Ela sabia. O seu coração de mãe o dizia. Algo acontecera à sua filha.
Deixou-se cair no chão, incapaz de permanecer em pé nem mais um segundo. O coração começava a acelerar e ela sentiu todo o seu corpo tremer. Não de frio, mas de choque. Choque físico e emocional. Felizmente o físico a mataria primeiro que a dor que sentia.
Ouviu passadas ao longe que pararam por momentos, para depois aproximem-se rapidamente:
-Usagi, Usagi – ouviu a voz de Misaki, enquanto a amiga pousada as mãos nos ombros da outra. Esta conseguiu erguer a cabeça e viu as suas melhores amigas a olharem para ela, os rostos pálidos de pânico.
-Deita-te. – Ordenou Hotaru, obrigando Small Lady a colocar a cabeça no colo dela. – Acalma-te. Vamos chamar um médico.
-Não. – Conseguiu dizer, por entre soluços. – Não adianta. Perdi.
-Não digas isso! – Das três, Misaki era a que estava mais perto de cair em lágrimas. Segurava a mão da amiga com força, pouco se importando se a estava a magoar. Apenas a queria sentir viva.
Mas ela já não se sentia viva. Morta, fracassada… a lista continuava para quem quisesse. Ela perdera esperança.
Olhou Misaki nos olhos, invejando-a. Ela ainda mudar as coisas. Ela ainda podia ter a sua filha. E em vez de estar com ela, estava ali, junto de uma amiga moribunda quando sabe-se lá o que poderia estar a acontecer com Cecília.
-Se fosse a ti… ia ter com a tua filha. – Disse Small Lady, os olhos vermelhos sem pestanejarem, fitando Misaki desesperadamente. Esta ficou ainda mais pálida.
-A Cecília…
-Não a deixes ir… tal como deixei a minha ir…
Small Lady calou-se, limitando-se a cuspir. Gotas de sangue sujaram a sua camisa de dormir. Hotaru perdeu toda a pigmentação da pele.
Misaki, sem saber o que fazer, olhou para a outra, perguntando instruções.
-Ela tem razão. Vai ter com a tua filha. Avisa o Edward. – Disse Hotaru, as mãos a tremerem enquanto segurava na cabeça da amiga doente. – Vai!
Misaki não esperou que lhe dissessem duas vezes. Correu o máximo que o seu vestido lhe permitia até ao salão, onde esperava encontrar todos a dançar, sem saberem que a Rainha estava prestes a morrer. E acima de tudo, onde esperava encontrar a filha sã e salva.
O quão enganada estava…

**

Ela ficara parada a olhar para o namorado, este com os olhos baços de emoção, perdidos. Temeu pela vida da amiga. Temeu por todos. Cerrou o punho, sentindo um fluxo de energia inesperado. Demoraria algum tempo a habituar-se, mas tinha que o fazer. Ela precisava daquele poder.
Pelo menos foi o que elas disseram…


Flashback


Ela tinha a garganta seca. No entanto, não ousou interromper as navegantes, enquanto estas murmuravam palavras na Língua Antiga. Tinham as mãos dadas, formando uma roda em torno dela e de Cecília, que parecia estar tão nervosa e confusa quanto ela.
Sentiu-se ridícula por estar ali no meio, sem saber o que fazer. Mas ela não estava à espera que, de repente todas elas começassem a brilhar.
Um brilho resplandecente inundou as navegantes, tornando impossível a Mari e Cecília de verem a sala onde estavam. Apenas viam as diferentes luzes que saiam dos corpos das mulheres, enquanto cada uma pronunciava agora palavras distintas.
Uma sensação de quente e frio percorreu o corpo da loira, fazendo-a fraquejar. Mas, conseguindo encontrar equilíbrio, olhou em frente vendo uma das navegantes - a de cabelos azuis - abrir os olhos.
Ela fitou o centro durante um eterno minuto, até que seus os olhos azul-cobalto focaram um ponto distinto. Mari virou o pescoço para ver Cecília a olhar do mesmo modo para Ami.
Mais um minuto passou até que o brilho que rodeava a guerreira de Mercúrio começou a cessar, formando uma bola de luz que se aproximou de Cecília. Mari entrou em pânico, mas a amiga estava calma, abrindo os braços e aceitando a luz de Mercúrio dentro dela.
Ami deixou de brilhar, mas continuou dentro do círculo. Depois, Mari tentou ver se conseguia enxergar outra navegante, querendo saber o que estava a acontecer, quando a navegante ao lado de Ami – de cabelos loiros compridos – abriu os olhos. Durante um minuto, não fez nada, até que os seus olhos focaram-se em Mari. Esta sentiu-se zonza, mas incapaz de desviar a atenção da mulher. De súbito, uma voz – a de Minako - percorreu a sua cabeça falando na língua Antiga, mas que Mari entendeu sem dificuldades:
-Guardiã da Fé
Aquela que traz aos humanos
Força para lutar
Contra a maré
Corpo quente como o planeta
Infernal do Sistema Solar
Amor e beleza
É tudo o que te posso dar
Mas aceita o meu dom
Que me foi dado pelo Fado
Sou a Líder das Inner
E a ti te passo o meu legado

Dentro dela, a Voz gritou com todas as forças: Aceita! Mari não ousou contrariá-la.

-Eu, Guardiã da Fé – ouviu-se dizer, também na Língua Antiga.
Aceito o legado de Vénus
Para mim, herdeira do luar
Serei líder e confidente
Mas piores marcas do desesperar


Tal como acontecera com Ami e Cecília, a luz que rodeava Minako cessou, formando a mística bola que entrou dentro do corpo de Mari, que a recebeu de braços abertos.
O ritual repetiu-se, desta vez com Rei e Cecília. Quando a luz da navegante de Marte cessou, Mari sentiu os olhos da navegante mais alta postos em si.
-Tu, Guardiã da fé
Estarás pronta para entender
O legado do trovão?
Eu, descendente de Júpiter
Rei superior dos deuses
Tenho um raio na minha mão
E pretendo passar-te para ti
Será o teu coração
Forte o suficiente para tal?
Eu, a rainha da força
Entrego-te as armas
Do deus fatal

-Eu, a Guardiã da Fé
Aceito o poder superior
Que de Júpiter me foi dado
Força nunca me faltou
Sendo o meu estado à prior
Comprometo-me a líder
E respeitadora do trovão
Poderosa e destemida
Limitada ao poder da união

Só faltavam duas. A navegante de Neptuno passou o seu legado a Cecília até que a ultima – uma loira de cabelos curtos – fitou Mari com um olhar brusco.
-Guardiã da fé
Não é qualquer um
Que tem a minha força
E de Úrano, pai dos deuses
E de mortal nenhum
Consegues ser forte o suficiente
Para entender o poder da luz
E do seu raio incidente?
Terás não só que ter poder
Mas ser forte
Pois Úrano pede sempre o melhor
Só assim o seu legado poderá vencer

-Guardiã da Fé, eu sou
A minha força reflecte-se nos homens
E assim sempre será
Não me tomes como uma tola
Pois quem tola me chama
Tola ficará
Fibra não me falta
E modéstia que se dê ao demo
Pois batalhas ganham-se com uma espada
Não com um remo

A guerreira de Úrano pareceu satisfeita, pois sorriu abertamente, deixando que o seu poder fosse para Mari, que o aceitou, sem hesitação.
Haruka deixou de brilhar, dando o ritual por terminado.

Os olhos de Mari demoraram a habituar-se à ausência da intensa luminosidade até que um burburinho no seu lado direito obrigou-a a desviar o olhar da luz que se dissolvia, permitindo à rapariga poder distinguir as arestas dos objectos na sala onde se encontrava.
-Ainda não percebi… porquê nós? – Perguntou Cecília no seu lado esquerdo, tão baixo que a loira quase que não a ouvia. – Sailor Moon tem uma filha com os seus poderes.
-Não… - interrompeu Makoto, de braços cruzados. – Ela tem uma filha com poderes. A Usagi ainda tem os seus poderes iniciais. O ritual que praticamos é extremamente antigo. Talvez ainda mais antigo que o próprio Milénio Prateado.
Realiza-se quando se pretende ofuscar a linha de sangue. Impedir o renascimento de novas navegantes e promover a força de outras que recebem o poder.
-Porque o fazem? – Perguntou Mari, sem tirar os olhos de Minako, que a fitava intensamente, sem pestanejar. As outras navegantes ignoraram a interacção das duas, entreolhando-se levemente.
Foi a guerreira de Marte que respondeu, soltando um longo suspiro.
-Porque não queremos que os nossos descendentes carreguem o nosso fardo. Os seus poderes só poderiam ser activados caso vivêssemos em ameaça, no entanto, quando isso aconteceu, foram os vossos que despertaram. Já é tarde para os nossos netos e seria injusto exigir isso dos seus descendentes. Uma nova linha de navegantes surgiu. A vossa. – Acrescentou, olhando primeiro para Cecília e depois para Mari. Esta continuava a achar a guerreira de Vénus extremamente interessante. – A Linda apenas continua com o legado da família dela. E tão cedo não se livra dele… Mas vocês são diferentes. As vossas mães não eram navegantes, nem tampouco os vossos pais. Vocês iniciaram algo novo, um legado que não se pode quebrar.
-Foi só por isso? Para nos pôr mais responsabilidades? – Acusou Cecília, furiosa.
-Mais valia termo lhes explicado antes de prosseguirmos com o ritual – murmurou Makoto.
-Mas assim elas não consentiriam. – Intercedeu Haruka, lançando um olhar feroz às duas raparigas. – Vocês deixariam? – Perguntou, num tom desafiador.
-Não. – Respondeu Cecília, decidida. Fora aí que Mari desviara os olhos de Minako.
-Eu sim.
A sua resposta ecoou no ar, antes que Cecília retorquisse:
-Porquê? Desejas ter assim tanto poder?
-Não. Ora pensa bem… A Linda foi amaldiçoada por uma mulher que a quer matar. A mesma mulher que nos deu os nossos objectos de transformação. Essa mulher usou-nos como meros peões num tabuleiro de xadrez. Só conseguimos dar a volta por cima porque a Linda se juntou a nós. Caso contrário não seríamos aquilo que somos hoje… - fez uma pausa, tentando fazer senso na amiga que, ironicamente, era a que tentava sempre pôr-lhe senso na cabeça – A Dawson quer as Flores e não irá parar até as ter a todas. Não podemos evitar uma batalha. A Linda não pode evitar a batalha. E aquilo que eu quero neste exacto momento é poder ajudar uma das minhas melhores amigas a ganhar e até eu própria fazer parte disto. De ganhar uma batalha e provar que sou uma guerreira navegante. Elas passaram-nos os seus poderes porque sabem que, um dia, iremos lutar e teremos que encontrar todas as nossas forças para sobreviver mos as três. Para a nossa irmã sobreviver.

Cecília olhou para o chão, embaraçada. O quanto Mari estava certa. Elas haviam deixado que a sua irmã morresse uma vez. Não podiam permitir uma segunda. Mas… toda aquela responsabilidade… e se elas não fossem capazes.
Mirou os olhos verdes da amiga, vendo-a sorrir para ela. Mari conseguia lê-la como um livro aberto. Sabia exactamente o que a amiga estava a pensar naquele momento:
-Vamos conseguir. – Disse, apesar de a sua voz ainda ter um registo de incerteza.
-Vão pois. – Disse Minako aproximando-se de Mari. – Vocês precisam destes poderes. Só assim conseguirão evoluir para novos estados de navegantes. Nós precisávamos sempre de ajuda exterior, mas agora transmitimos essa ajuda para vocês. Vocês terão que evoluir para o vosso estado de Guardiã, que vai para além do Super e do Eterna e que nós não possuímos. Daí que somos três para cada uma.
Minako pousou a mão no ombro nu de Mari.
-Guerreiras ouçam a canção da esperança. A batalha está a chegar e vocês as três estarão na frente sem poder vacilar. Precisam de toda a força possível. E, acima de tudo, terão que manter o portal seguro. A crença de que o portal está protegido enquanto o Caos está à solta é ridícula. Se a esperança acabar, o Caos liderará para sempre, sem que ninguém o possa deter. Contamos convosco.

Fim de Flashback


Última edição por AnA_Sant0s em Ter 19 Abr 2011, 17:35, editado 2 vez(es)

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Ter 19 Abr 2011, 17:20

Aquele poder era tão novo. Ela bem que podia sentir aquela corrente de electricidade percorrer o corpo todo, provocando uma grande intensidade de adrenalina espalhada pelo seu ser, fazendo os seus olhos ficarem mais intensos, mais atentos… mais perigosos.
Mas ele não via nada disso. Kenji não parava de olhar para o relógio, como quem olha para um cadáver.
Aborrecida pelo estado de apatia do namorado, Mari pegou-lhe no pulso e olhou para o relógio dourado.
Ela sentiu a corrente de electricidade espalhar-se na sua mão direita, enquanto o resto cedia a uma súbita sensação de frio, como se ela tivesse entrado temporariamente numa arca frigorífica.
-Queres saber as horas? – Perguntou com voz tremule, sem esperar resposta. Precisava de acreditar que as horripilantes imagens que invadiam a sua mente não eram reais. Que Kenji olhava fixamente para o relógio não porque entendera o sinal de que algo estava errado, mas porque ele queria mesmo saber que horas eram.
Mas ela estava errada. Ela sabia.
Tic Tac
Tic Tac

Ao longe, soou a meia-noite. A intensidade do vento aumentou e um relâmpago rasgou os céus, mas Mari não viu isso. Apenas viu o relógio de Kenji parar no exacto momento em que o ponteiro dos segundos se encontrava com o dos minutos e das horas no número doze.
4 De Agosto
E, de certa forma não era uma data feliz.
-Não, não… - sussurrou ele, desviando os olhos do relógio para ela, pedindo-lhe silenciosamente que negasse aquilo que ele pensava. Aquilo que ele sentira que acontecera. Mari sentiu-se inútil por não lhe poder negar algo que ele tanto desejava.
As imagens pararam. A única coisa que Mari conseguia ver era uma enorme poça de sangue. Nada mais.
Kenji olhou em volta, procurando a irmã desesperado. Mas Mari sabia que ela não estava ali. Estava no jardim, o seu corpo inerte disperso serenamente na relva húmida e verde escura como se ela estivesse a dormir. Mas, se a enorme mancha de sangue que cobria o vestido e tingia a relva de vermelho não denunciavam o seu estado decadente, eram os olhos, abertos e sem brilho algum que o faziam.
Sentiu a sua respiração faltar. A dela e a de Kenji, que parecia ter chegado à conclusão que o seu instinto não estava errado. Linda estava morta.

**
(paralelamente, escassos minutos antes da meia-noite)

Cecília viu a mãe a conversar com Hotaru, Yvonne não muito longe, junto a um canto. Aborrecida e farta de cumprimentar nobres desconhecidos mas que, estranhamente, todos a viram nalguma vez na sua ainda curta vida, fez o seu caminho para junto da mãe. Tinha que admitir que a sua relação estava a melhorar. Tanto ela como a mãe já não sentiam aquele vazio que sentiam antes, devido à morte do pai. Os seus poderes tinham unido as duas, e isso apenas provara a Cecília o quanto a sua mãe a amava. Jamais Misaki deixaria a sua filha quando ela mais precisava.
Sorriu, não reparando num jovem que se aproximava dela.
-Cecília? – Ouviu uma voz familiar chamá-la. Esta virou-se para dar-se de cara com um muito preocupado Setsu.
-Que se passa? – Perguntou, ficando subitamente preocupada.
-Sabes onde está o Eiji?
Cecília abanou a cabeça, confusa.
-Ele não está com a Linda?
Setsu suspirou, tentando acalmar-se.
-Também pensei nisso, mas ela também desapareceu. E, não sei como nem porquê, o avô dela ficou pálido que nem um fantasma quando lhe perguntei se os tinha visto. Acho que… algo se passa.
Cecília ia apenas dizer a Setsu que Linda e Eiji deviam estará a namorar nos jardins quando o relógio anunciou a todos a chegada do quatro de Agosto.
E ela deu-se por si a acreditar nele.

**

O vento soprava para este, batendo nas árvores do jardim, fazendo um som semelhante ao soprar de uma garrafa. Mas a paisagem harmoniosa estava longe de permanecer daquele estado.
Nuvens negras surgiram no céu, como se os deuses tivessem conhecimento da alma pura e inocente que fora ceifada e um trovão rasgou os céus, mostrando a sua fúria.
Todavia, nada fez Dawson arrepender-se do que fez. Finalmente, uma das pessoas que ela mais odiava estava morta. Mas ainda faltava uma. E a essa, Dawson daria uma morte lenta e dolorosa, ao contrário da jovem cujo corpo apodrecia atrás de si, que tivera morte rápida mas sem deixando de ser tão doloroso. Ser assassinada pelo próprio namorado! Era sem dúvida uma experiencia que nenhuma adolescente de dezasseis - não, dezassete - teria que experimentar.
-Vem… e trás o corpo. – Ordenou ao rapaz, ainda no seu controlo. Dawson podia jurar que os olhos dele haviam ficado mais claros, mas deixou esse pensamento para o lado. Aquilo apenas indicava que ele sabia o que fizera. Que ele havia morto a mulher que ele supostamente amava. Como seria bom, ela fazer o mesmo com Edward e Small Lady.
Respirou fundo, saboreando o ar selvagem à sua volta. Caminhou em direcção ao palácio, com o rapaz a trazer a rapariga ao colo.
Em breve, teria as Flores que lhe faltavam. Vénus estava mesmo atrás de si e Terra estava lá dentro. Juntamente com as navegantezecas, a Rainha-Velha, Edward e um bando de desgraçados que iriam sofrer às suas mãos.
Sim, a quanto a vingança era boa.

**

Dentro do salão, Misaki e Hotaru pousaram os seus copos em cima da mesa e dirigiram-se à porta, a fim de ver Small Lady. Assim que saíram do salão e viraram no corredor, as portas fecharam-se atrás de si com um estrondo que ecoou em toda a divisão. Todas as janelas abriram-se e as cortinas voavam até onde a última linha do tecido as permitia.
Silêncio percorreu a divisão. Alguns atreveram-se a sussurrar ao vizinho sobre os motivos para aqueles acontecimentos insólitos. Mas logo se calaram, pois viram algo aterrador junto a uma varanda, com escada para o jardim.
Quase todos reconheceram a mulher como sendo Dawson, mais bela e perigosa de que nunca.
Mas só quando ela avançou da escuridão, deixando visível a pessoa que estava atrás é que algum som despertou das gargantas das pessoas.
Muitos gritaram e ofegaram em choque e horror, outros de raiva e medo. Só alguns de mantiveram calados. E esses fitavam Eiji Yamamoto a aproximar-se da luz, os olhos mais negros que o basalto e a depositar o corpo da princesa de Tokyo no chão de mármore branco suavemente, os olhos dela ainda abertos.
De todos, dois atreveram-se a avançar. Edward e Kenji deram passos em frente, um não tirando os olhos do corpo de Linda, outro de Dawson.
Ninguém se pronunciou. Todos fitavam ora a vitima, ora a assassina. O Rei e o Príncipe pareciam homens perdidos no meio do deserto, sem qualquer esperança de salvamento. Dawson não desconfiava que Linda fosse o pilar daquela família. O motivo principal para a reconciliação de todos.
Era com se todos soubessem o que iria acontecer a seguir. Que aquela mulher iria matá-los a todos. Um brilho estranho ostentava em torno dela. Era brilhante, mas negro se tal fosse possível.
Um cheiro abafado entrou nas narinas das várias pessoas que se encontravam no salão. Incenso cujo cheiro ninguém conseguia identificar. Apenas sabiam que tornava a respiração de todos extremamente mais difícil.
Uma mulher desmaiou, o sorriso frio de Dawson aumentou, como quem tem prazer em ver o sofrimento dos outros.
-Boa noite. – Disse, sedutoramente. Pousou os olhos na Rainha-Velha, emitindo um brilho vitorioso. Ficou ainda mais alegre quando viu a cara da Rainha Serenity. Parecia que a fonte da juventude onde ela se banhava se havia esgotado. Parecia tão velha quanto a idade deveria mostrar. Ao seu lado, Endymion fechava os punhos num acesso de raiva. Ironicamente, Kenji e Edward faziam o mesmo.
-Não… - sussurrou Kenji, não desviando os olhos da irmã. Parecia esperar que Linda começasse de repente a respirar e se levantasse, rindo-se da mentirinha que fizera. Mas Linda nunca faria algo do género. Aquilo era real.

A sua irmã estava morta.

-Não… - repetiu, desesperado, o corpo a tremer para todos os lados. Dawson divertiu-se a observá-lo.
-Que pena que não tenhas podido fazer nada. Nenhum de vocês – acrescentou, virando-se para as navegantes, os reis e Edward. Este parecia que ia explodir a qualquer momento. De raiva ou em lágrimas, ninguém sabia. – A vossa princesa está morta. O fim de uma vida, o início de outra. Ajoelhem-se perante mim. Pode ser que tenha misericórdia e vos poupe. – Disse, arrogantemente. No fundo do salão, alguns parvos fizeram pequenos movimentos para se ajoelharem, mas alguém próximo deles impedia-os.
O sorriso de Dawson desvaneceu-se lentamente, os olhos enchendo-se de malvadez e loucura.
-Idiotas. Não sabem ainda o quão forte eu sou? Terei que vos mostrar? Não vos chegou a morte da princesinha? – Disse, rispidamente.
Ninguém se atreveu a comentar. Eram demasiadas emoções dentro de um corpo só e ninguém estava a salvo. Entre o medo, o choque, a surpresa, a tristeza e o que restava do êxtase da festa atordoava cada ser dentro do salão, alguns ainda confusos se aquilo não era um espectáculo de entretenimento.
E então, no meio da multidão, ouviu-se uma voz fraca, rouca, ofegante:
-Assassina!

Seguiu-se uma tensão de cortar à faca. Cecília quase que podia sentir um piano a tocar no pano de fundo, marcando o clímax do momento. Temeu por si, pelos seus amigos e, acima de tudo, por aquele que falara quando todos se haviam calado.
-Assassina. – Repetiu, a voz cada vez mais próxima de Dawson. Cecília sentiu uma lágrima escapar. O homem estava mesmo ao lado dela. Sempre estivera. Passara uma boa parte da noite a dançar com ela, a falar com a família, com Linda, Mari e Kenji e a procurar o irmão.
E então, naquele momento, Cecília viu Setsu Yamamoto com outros olhos. Apesar de ser mais fraco que o irmão a ponto de não possuir a Flor de Vénus, não deixava de ser um homem forte. E ela temia ser tarde de mais para se aperceber disso.
Guinevere lançou um sorriso trocista ao reconhecer o rapaz:
-Querida Yvonne – disse suave e cruel, tomando a sua atenção na mulher loira mais distante - devias ter cuidado. Não querias que o teu filho prodígio perca a cabeça.
Involuntariamente, Cecília agarrou o braço de Setsu, impedindo-o de dar um passo em frente. Olhou para Mari desesperada. Esta viu a amiga perto de lágrimas, depositando toda a sua mágoa no braço de Setsu, apertando-o fortemente, enquanto olhava para todo o lado menos para o corpo da amiga. Já Mari agarrara a mão de Kenji, que parecia ter ele próprio morrido, enquanto observava a multidão. Os Yamamoto, em choque por ver Eiji sob controlo de Dawson, Aiko não evitando as lágrimas, o Rei e a amiga da avó.
Esta parecia estar prestes a ceder ao aperto que deveria estar a sentir. Mari sentiu compaixão e compreensão pela mulher. Ela própria sentia aquele aperto de quem sabia mas não conseguiu evitar que o Destino tecesse as suas linhas.
Serenity apanhou o olhar de Mari. Ambas choravam por dentro, mas nenhuma soltou uma lágrima.
O olhar da antiga guerreira da Lua não descolou sob o de Mari, fitando-a intensamente, como quem entrega uma mensagem. Mari, sem saber como, compreendeu:
-Dawson. – Chamou Serenity, dando dois passos em frente. – Esta luta não é com eles, mas sim comigo e com a Mari e a Cecília. Deixa-os ir.
A vilã ergueu o sobrolho.
-Inacreditável que mesmo nestas alturas só pensas nos outros. Viste no que deu teres pensado primeiro neste reino? Viste? – Apontou o braço para Linda. A Rainha engoliu em seco, sentindo um nó na traqueia. Por momentos, encontrou dificuldade em respirar mas forçou-se a prosseguir. Não deixaria mais ninguém morrer.
-Vi… Mas isso não queira dizer que mais pessoas tenham que morrer. São pessoas inocentes que até tu devias ter alguma compaixão, Dawson. Isto é, se tiveres coração…

Os olhos de Dawson ficaram ainda mais escuros se isso fosse possível. Uma deliciosa e cruel ideia espalhava-se pela sua mente, chocando com os seus planos iniciais. Era um desvio, mas não deixava de alcançar aquilo que queria ainda assim. Apenas levava a outro caminho. Oh, o quanto ela desejava mostrar a eles o seu domínio. Para isso seria necessária a humilhação pública da família real. No entanto, havia uma vozinha dentro de Dawson que exigia algo do fórum mais privado. O povo, quando mais ignorante ficar, melhor. Dawson sairia mais a ganhar se esta derrotasse os seus inimigos sem mostrar como. Assim, os seus poderes ficariam na obscuridade e todos temeriam os seus verdadeiros poderes.
Ah, a mestria da ignorância e do medo…
-Que o seja. – Disse, a sua voz ecoando por todo o salão. – Saem todos menos aquelas duas, o rei e o príncipe. – Disse, apontando para Mari e Cecília.
Sons aliviados, confusos e indignados encheram a área, tornando-se impossível distinguir vozes ou palavras. Endymion, vendo uma grande algazarra e temendo uma mudança de ideias por parte de Dawson, gritou:
-Se querem salvar as vossas vidas, sugiro que saiam agora!
De imediato, pessoas correram para a saída, Yvonne a liderar. Mas muitos, ainda confusos, ficaram para trás. As navegantes entreolharam-se, perguntando-se sobre o que fariam. Fora o olhar decidido de Serenity que as esclareceu:
-Vão. Já nada podem fazer.
Acabariam por se perguntar como Serenity sabia da decisão das navegantes em entregar os seus poderes às mais jovens. Mas o tempo escasseava e bastava um olhar para o corpo de Linda para que todos se entendessem. As navegantes assentiram e dispersaram-se pela sala, reunindo os mais assustados e esperando que os outros viessem atrás deles.
-Vai, eu fico aqui. Protege-te. – Disse Serenity, enquanto o marido lhe segurava as mãos, ternamente.
-A nossa filha… os nossos netos…
-Eles vão ficar bem. – Disse Serenity mais para si do que para o marido. Ergueu o queixo e beijou os lábios do marido uma ultima vez, antes de este partir com os outros.
Antes de cruzar a porta, Endymion olhou para Kenji. Este segurava a mão de Mari, que tentava convencer Aiko a ir com os outros. No meio da algazarra, Setsu e a sua família teimavam em ir:
-E o Eiji? O que é que ela vai fazer com ele? – Perguntou Setsu, olhando ora para Dawson, esguia, sorridente e fria, ora para Eiji, cujos olhos ainda estavam opacos de emoções. Nervoso agarrou a mão de Cecília, que estava à beira de lágrimas – e tu? Porque tens que ficar?
-Não te posso dizer, Setsu. Mas acredita, tens sorte por ser o único dos seis a poder sair daqui esta noite. Não desperdices esta oportunidade!
-Não vos posso deixar. Tu, o meu irmão, os meus melhores amigos…
Cecília sorriu, tocando na face dele gentilmente.
-És muito mais forte do que eles pensam. Agradeço aos céus por o Eiji ser ainda mais forte do que tu. Sabe-se lá se eu aguentaria ver-te no lugar dele. – A última frase ela sussurrou, mas ele ouviu perfeitamente. Ambos deixaram cair duas lágrimas de impotência para o que ai vinha.
-Vai. – Disse ela, decidida. – Salva a tua família e, por favor, leva o meu pai contigo!
Setsu, a todo o custo, assentiu. Ia virar costas a aquela rapariga por quem se tinha tornado num grande amigo nos últimos meses quando se apercebeu de que talvez fosse a última vez que a visse. Sensação estúpida, mas racional. Aquela mulher tinha morto Linda e procurava o sangue de Mari e Cecília.
Aproximou o rosto dela do dele e beijou-a calorosamente, os corpos fluindo livremente, como se já estivessem habituados a aquelas sensações. Uma enorme dor de estômago atingiu Setsu mas este ignorou-a, concentrando-se no toque macio dos lábios de Cecília.
Afastaram-se, ambos sem palavras, sem fôlego. Ambos sabiam que, se tudo corresse bem no final, esqueceriam aquele beijo. Todavia, isso não os impedia de desfrutar da sensação e do prazer instantâneo.
Ele virou costas e afastou-se com a família, pelo caminho arrastando o padrasto de Cecília, que olhava em volta confuso em busca de Misaki. Cecília mordeu o lábio, preocupada. Onde estaria a mãe? Porque é que ela e Hotaru não estava ali?

-Mari, querida…
-Avó, não perca tempo! – Disse Mari, tentando libertar-se da sua querida avó, que sempre tomara conta dela. – Eu não a posso perder.
-E então eu? – Aiko não disfarçava as lágrimas, que borravam o seu rosto maduro com leve maquilhagem. – Já perdi uma filha, não posso perder a minha neta…
-Dou-te a minha palavra que a tua neta sairá daqui viva. – Disse uma voz por detrás de Aiko. Serenity postava, calma e com um olhar distante. – Podes confiar em mim.
-Por favor, avó! – Implorou Mari, apertando as mãos da avó, que tremiam severamente. Algo nos olhos de Serenity fez Aiko decidir-se. Chorosa, dirigiu-se para a saída, onde Endymion a levou, também ele num ar pesaroso.

Kenji desviou os olhos da avó, aflito com a mensagem encriptada neles. A avó planeava alguma coisa. Algo que ela não tivera em mente até aquele exacto momento. E, infelizmente, isso apenas significava uma coisa. Dawson não iria cumprir a sua palavra. Muita gente morreria naquela noite.
Aproximou-se do pai, que estava mesmo em frente ao corpo da filha mais nova, sem qualquer tipo de reacção.
Quando voltou a olhar em volta, só ele, Mari, Cecília, Edward e Serenity se encontravam no salão.

-Ficas? – Perguntou Dawson, sorrindo desdenhosamente para Serenity.
-Não deixarei a minha família! – Disse a antiga guerreira lunar, de queixo erguido. – Ao contrário de ti. – Acrescentou, friamente.
Atingira um nervo. Num acesso de raiva, Dawson focou-se em criar uma bola de luz que surgiu nas suas mãos imaculadas e lançou-a à rainha. Esta, apesar de mais velha, conseguiu desviar-se. No entanto, tropeçou e caiu.
-Avó! – Gritou Kenji, aproximando-se da mulher madura, caída no chão. Esta recusou o braço do neto.
-Não lhe vires as costas! – Sussurrou avó para neto. – Isso pode custar-te a vida numa batalha.
Serenity ergueu-se e deu três passos em frente.
-É isso tudo o que vales? Oh, Guinevere, o quanto és ingénua. Esse poder jamais te funcionará correctamente. Ele não te pertence.
-Enganas-te. – Retorquiu Dawson, cheia de veneno. Por momentos, todos viram os olhos dela ficarem vermelhos. Mas num segundo lá estavam, noutro voltavam a ficar negros.
Uma luz turquesa iluminou as arestas de Dawson, dispersando-se em seguida pelo salão. Todos colocaram as mãos sob os olhos, impossibilitados de ver naquela grande clareza. Quando a luz cessou, as navegantes foram as primeiras a ouvir os rugidos.
Uma dúzia de monstros verdes de olhos vermelhos encontrava-se ali frente a frente com dois homens, duas jovens navegantes e uma antiga guerreira não tão ágil como nos velhos tempos.
-Porque é que os monstros dela são sempre verdes? – Perguntou-se Mari, não tirando os olhos das criaturas. Não esperando resposta, transformou-se.
-Pelo poder que me confere, chamo a Guardiã da Fé.
Ao seu lado, Cecília fez o mesmo:
-Pelo poder que me confere, chamo a Guardiã da Harmonia.
Perante brilhos cósmicos que apenas duraram segundos, as duas guardiãs estavam prontas para atacar.
Faith, sem perder tempo, lançou Moon Treasure para todos, aproveitando-se dos inúmeros espelhos que enfeitavam a sala para que os raios prateados se reflectissem e atingissem todos um a um. Uns caíram, outros avançaram para eles, lançando raios verdes cortantes.
Harmony, desviando-se dos ataques, pensou em abrir a porta por onde a sua mãe tinha saído momentos antes. Assim daria oportunidade aos outros três de fugirem.
Sem pensar mais, correu para a porta, aproveitando-se de um dos monstros, tão feio quanto os outros, andassem longas passadas atrás dela, mandando jactos de luz, agora encarnada.
Harmony baixou-se, deixando o raio destruir a porta, deixando um enorme buraco. Rapidamente, rodou a maçaneta e utilizou um das portas como escudo do segundo ataque do monstro. Este, não conseguindo ver o seu inimigo, ficou confuso por uns momentos.
Ainda bem que os monstros dela não têm inteligência, pensou Harmony para os seus botões. Aproveitando-se daquele momento de distracção, correu para o outro lado, tendo uma leve mira do seu alvo:
-Hope Star – gritou, deixando o poder do seu ataque fluir pelo seu corpo, sendo libertado pelas suas mãos. O seu ataque atingiu o alvo, que rugiu de dor até que desapareceu.
Aí, Harmony notou que algo estava errado. Dos doze monstros que Dawson inicialmente lançara, só restava um, que Faith destruía sem problemas. Algo estava errado.
A própria vilã divertia-se a mirar a rainha, que ficava parada no meio do campo de batalha.
-Achavas que me ganhavas, Rainha-Velha? Estas tuas guerreiras são muito jovens e verdes. Nunca me conseguirão vencer.
-Subestima-as demais, Dawson. Afinal, foste tu que lhes destes os objectos de transformação.
Os lábios de Dawson formaram uma linha recta.
-Mais uma das tuas manipulações.
-E depois eu é que sou tola.
Harmony não sabia qual era o objectivo da rainha em irritar Dawson mas, fosse qual fosse, estava a resultar. Ela sentia a aura negra de Dawson ficar mais negra até que…

Tudo aconteceu de repente. Tão depressa que nenhum dos cinco se apercebera de tal até que acontecera.
Dawson deixara de existir. Tal como Beryl, ela deixara-se domar pelas trevas em troca do coração de um homem. Pedira poder e esse poder custara-lhe caro.
Num segundo, tudo mudara. Dawson deixara de ser a mulher gananciosa que sempre fora para se tornar num receptáculo do Caos, inimigo lendário das Guerreiras do Sistema Solar.
Os seus cabelos ficaram exageradamente compridos e os olhos ficaram completamente vermelhos e pontiagudos, lábios negros como o carvão e a pele sem qualquer tipo de pigmentação. Um autêntico monstro.
Não houve tempo para reagir, porque Dawson erguera os braços e deixara raios de luz negra emergirem dentro de si. Esses raios percorreram todo o salão, todo o palácio…
Ao longe, gritos de pessoas chegaram aos ouvidos dos cincos, que só podiam ver, com horror, Dawson rir-se maliciosamente, toda a sua antiga beleza já extinta.
Mari e Cecília sentiram-se doentes. Todo aquele poder era demais para elas as duas. Sem Linda jamais conseguiriam derrotá-las.
Pela primeira vez, as Guerreiras da Esperança, sentiam-se a perdê-la.
Serenity, por outro lado, sentiu os olhos encherem-se de lágrimas. O ataque do Caos fora pessoal. Não tinham sido as pessoas inocentes atingidas pelos raios. Algumas talvez, mas só mesmo porque estavam demasiado perto dos alvos.
O seu marido e as suas amigas…
Ela sabia que Dawson faria algo semelhante, daí a pressa para fugir, mas não contava com o Caos a possuí-la. Isso mudara tudo. Agora eles estavam mortos.
Só havia uma coisa para ela fazer. Salvar a filha e a neta.

Edward fora o único a notar. Talvez porque os seus olhos mal saíram do corpo da filha, fez com que ele fosse o primeiro a notar nas alterações do rapaz que trouxera o seu corpo. Enquanto Dawson se perdia para as trevas, Eiji mexera-se lentamente, sem que ninguém o impedisse.
Só dois segundos antes de Eiji atacar Kenji pelas costas é que Edward percebera:
-Kenji! – Berrou, apavorado. O filho virou-se e enfrentou um Eiji que ainda segurava a mesma adaga com a qual assassinara a irmã.
Seguiu-se uma luta voraz entre os dois, em que ambos utilizavam o corpo para se protegerem, para além da adaga de Eiji, que várias vezes se encontrou próxima do tronco de Kenji.
Das duas navegantes, a primeira a agir fora Faith, mas o ataque de Harmony fora o primeiro a atingir Eiji, que caiu para trás, gritando cheio de dor.
Dawson, irritada, lançou um pequeno raio sob Harmony, mandando-a contra a parede. Severos cortes podiam ser vistos no corpo da Guardiã da Harmonia, agora desmaiada.
Faith entrou em pânico. A amiga estava magoada, outra morta, tinha dois homens que não se podiam defender na sala, um amigo sob as garras do inimigo, o próprio e uma mulher que olhava para ela curiosamente.
Mais uma vez, Serenity passava uma mensagem para Faith, desta vez com mais urgência. E, mais uma vez, Faith viu-se a entendê-la sem problemas:
Separa-os. Distrai a Dawson, enquanto o Kenji e o Edward fogem.
A mensagem era clara. Mas… como fazê-lo?

Fora a voz de Misaki que respondera às várias perguntas de Faith.
A mulher não conseguira evitar um berro quando viu a filha caída no chão como um soldado morto numa batalha. Tal chamara a atenção de Dawson, dando tempo a Faith de se aproximar do rei:
-Fuga, majestade. Leve o Kenji e a Misaki consigo. – Ordenou, tentando manter a voz forte.
-Nem penses. – Disse Kenji, a mão direita pousada no ombro esquerdo, que saíra magoado na luta contra Eiji. – Não te posso perder.
-Nem eu a ti. Por favor, Kenji, não percas tempo.
Os olhos de Faith já não eram tão verdes como dantes. O brilho fora-se. Isso fora sinal suficiente para Edward, que se levantou rapidamente.
-Vamos, filho. – Disse, correndo para a entrada, arrastando o filho com um braço e uma histérica Misaki com o outro braço. Dawson, ao se aperceber da fuga, tentou atacá-los, mas um pequeno raio de luz vindo de trás chamou-lhe a atenção.
Faith correu em direcção ao outro lado do salão, amaldiçoando pela primeira vez as suas botas de cano alto, que a atrasavam. Conseguiu chegar à porta a tempo suficiente para evitar ser atingida por um outro raio.
Dawson estava fora de si.
-Não escapas… - silvou, possuída. Decidida a acabar com aquela corrida, virou-se para Eiji e atacou-o sem misericórdia. Os berros do rapaz foram ouvidos por todo o palácio, devido ao efeito eco do salão. Uma linha mostrando a vida do rapaz surgiu, seguida pela lendária Flor de Vénus, que Dawson rapidamente recolheu. O corpo de Eiji ficou junto do de Linda, os olhos fechados junto dos pés da princesa.
Lançou um último olhar nos corpos, ignorando a mulher de vestido branco e foi atrás da outra guerreira.

Sailor Harmony sentiu dor por todo o corpo, mas uma onda de adrenalina fê-la acordar do sono agradável. Os berros de alguém ecoavam pelo salão, soando a gritos de tortura. Desta vez, Dawson não fora cuidadosa com a sua mercadoria. Harmony temeu os efeitos que aquele ataque teria em Eiji mais tarde.
Abrindo as pálpebras, viu Dawson olhar para os corpos, sem notar em Serenity, que olhava-a cautelosamente. Depois a vilã saíra, indo atrás de algo que corria rapidamente na direcção oposta.
Levantou-se, agradecendo a toda a adrenalina que sentia, abando-se um pouco, ainda mole de dores.
-A tua amiga precisa de ti. – Disse Serenity, sentada junto aos corpos de Linda e Eiji. Harmony não respondeu, confusa. – Vai ajudá-la.
Ela percebera a mensagem. Mas… e então a rainha?
-O que vai fazer? – Perguntou, receosa.
-Vai – ordenou, ignorando a sua pergunta. Harmony sabia mais do que responder a uma ordem da rainha de Crystal Tokyo.
Correu, guiando-se pelos sons e pelas auras sentidas nos corredores. Só estavam lá duas. Faith e Dawson.
Agora tinham as duas de lutar contra ela. Será que conseguiam?

**
Small Lady sentia a sua respiração falhar. A sua hora estava próxima. Em breve, estaria com a sua filha. Estaria em paz.
Da janela, ouviu mais um trovão. Abanou a cabeça para o outro lado a tempo de ouvir passos apressados vindos do corredor, enquanto Hotaru ergueu a cabeça em direcção do som:
-O que aconteceu? – Ouviu a amiga perguntar. Sentiu Edward ao seu lado e sorriu. Ao menos tê-lo-ia por perto quando chegasse a hora.
Ninguém respondeu. Misaki chorava e Kenji aproximou-se da mãe, pegando-lhe na mão livre. Só os olhos dele, azul profundo, denunciavam as suas emoções. Small Lady teve apenas a confirmação das suas piores suspeitas. Mas, de certa forma, sentiu-se bem. O pouco que sabia de Linda era o suficiente para saber que ela era neta de Sailor Moon. Não seria algo tão banal como um inimigo poderoso que a mataria.
Apertou a mão dos homens que ela mais amava no mundo. Rezou para que o sue pai e sua mãe estivesse bem. Rezou pelo filho, pelo marido. Rezou pela filha…
Minutos passaram-se em silêncio. Todos sabiam que ela iria morrer, mas a ideia só desabrochou na cabeça de pai e filho quando, finalmente, a respiração dela falhou de vez. A voz dela saia ofegante e fina:
-Lamento muito… pelos erros… que… cometi… perdoem-me.
-Mãe? Querida? – Gritaram os dois, confusos.
A dura e crua realidade atingiu os dois homens como um pesado tijolo. E, antes que eles pudessem digerir o pensamento, já a Rainha fechava os olhos, não sem antes emitir um último suspiro.

**
Ele cometera um erro. Um erro terrível. Ninguém o culpava, claro. A esposa tinha morrido nos seus braços pouco depois de a filha ter sido assassinada pela mulher que sempre o desejara. A juntar isso com o facto de estarem em plena fuga no palácio, temendo a morte, provocou em Edward uma terrível distracção.
Mas o sentimento de culpa corroía-o. Porque ele devia ter olhado por ele. Devia ter pensado que ele faria algo tão estúpido. Afinal, ele teria feito o mesmo por Small Lady se pudesse. Devia ter olhado por Kenji. O último membro da sua família.
Mas não o fez. Ninguém notou em Kenji que, após limpar as lágrimas às mangas da sua camisa branca, deu passos para trás até que começou a correr.
Primeiro a sua irmã, depois a sua mãe e ele sabia que os avós também não tinham grande esperança de vida. Ele estava a perder todos aqueles que amava. Não podia perder Mari.
Ele próprio nem sabia porque estava a fazer aquilo. Ele seria tudo menos uma utilidade naquela batalha. Mari lutava, talvez sozinha, e ele nada podia fazer. Não podia ser como o avô e lançar rosas vermelhas aos monstros, a fim de salvar a sua amada. Só podia ver e amaldiçoar a sua isenção de poderes. E, acima de tudo, a morte da irmã.
O quão miserável ele se sentia. Por perder a irmã e, de certa forma, toda a esperança possível de vitória. Cecília e Mari não conseguiriam lutar sozinhas. Acabariam por perder. E era isso que Kenji mais temia.

Estava lá. Dawson atacava as duas navegantes, que apenas tinham tempo para se protegerem por detrás dos pilares do palácio. Os ataques sucessivos da inimiga destruíam os seus escudos de protecção, causando pânico nas duas raparigas, que temiam não poder fazerem mais nada. Faith lançou um ataque, mas Dawson desviara-se facilmente.
Kenji ficou pálido, estático junto à parede. Mal conseguia respirar devido ao pânico que assombrava corpo e mente.
Involuntariamente, deu um passo atrás, provocando um pequeno ruído. No clímax da batalha, nenhuma das navegantes reparara.
Mas o inimigo sim.
Dawson lançou um sorriso sinistro para Kenji, como se esperasse a sua vinda. Faith entrou em pânico:
-KENJI, FOGE!
Desesperada, atacou Dawson incessantemente, de modo a distraí-la. Mas esta mal fora afectada pelos seus ataques e parecia mais interessada no rapaz no que nas duas navegantes, que agora atacavam-na sem hesitar. Sentiam-se ficar mais fracas até que o corpo de Harmony, ainda aleijado do último ataque, a traiu, fazendo-a cair no chão de mármore. Faith parecia também não aguentar, mas a teimosia impediu-a de cair ou até mesmo de desistir.
Kenji estava paralisado. Não se conseguia mexer. No fundo, já sabia o que Dawson queria com ele. A Voz assim o contara.

Faith gritou, mas já era tarde de mais. Dawson lançara-se sobre Kenji, utilizando os seus braços isentos de cor para estrangular o jovem. Kenji lutara, mas Dawson, apesar de possuir braços magros, era muito mais forte do que ele. Sentiu o ar a faltar-lhe e a sua pele a ficar mais azulada. Soltou um grito abafado quando Dawson lhe lançara um raio directamente no seu coração.
Ele sentiu-se a morrer. Mal sabia que passava por algo pior.

**

Daí a semanas, faria um ano desde que Mari e Cecília tiveram conhecimentos dos seus poderes. Do quanto eram especiais. De quando conheceram Linda. De quando Mari vira Kenji pela primeira vez. De quando tudo começou.
Nenhuma dela teria adivinhado nessa altura que os irmãos Natsumara seriam a resposta para todas as suas perguntas. Quem eram, o que faziam ali na Terra e que futuro poderiam ter. Mari apaixonara-se e encontrara uma grande amiga. Cecília fizera grandes amizades. Nenhuma delas esperava que os dois fossem ainda mais especiais.
Talvez tivesse sido essa, uma das mensagens que Serenity tinha passado a Mari. E ela, feita parva, não entendera.
Linda e Kenji eram descendentes de Sailors e do Milénio Prateado por parte da mãe. Por parte do pai, da família real.
O quão essa linha andava para trás, elas não sabiam.
Até agora.
Até a aquele exacto momento em que, por entre os gritos angustiados de Kenji, uma belíssima Flor saiu do seu peito. Era a mais bela que as duas alguma vez tinham visto. Não era de uma só cor, mas sim de várias. Linhas douradas, castanhas emitiam sons da vida do rapaz enquanto circulavam a Flor, naturalmente verde-esmeralda e azul-cobalto. Tinha a forma de um cravo e irradiava energia branca.
A Flor da Terra.

Não demorara muito até que Dawson absorvesse a Flor para dentro de si, deixando o corpo imóvel de Kenji cair no chão duro.
Ambas gritaram. Harmony porque agora as hipóteses de elas ganharem eram quase nulas. Faith porque perdera algo muito mais importante do que a sua própria vida.
Não notou que, pela primeira vez em anos, estava a chorar.


Última edição por AnA_Sant0s em Ter 19 Abr 2011, 17:29, editado 1 vez(es)

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Ter 19 Abr 2011, 17:21

**
(longe dos prazeres terrenos)

O que era aquilo?
Que sons são estes?
O que é isto?
Uma voz na sua cabeça respondeu: O Nada.
Porque nada era tudo e tudo era nada. E aquilo que ela via era tudo, mas nada.
Confusa, abanou a cabeça. Não distinguia cores, nem formas, nem sons. Apenas sentia.
Não havia ar, mas ela não precisava de respirar. Não parecia haver comida, agua, calor ou frio, mas ela não pensar vir alguma vez voltar a sentir essas sensações.
Uma pequena luz iluminou os seus corpos, podendo finalmente distinguir o seu corpo ao tacto e um corredor mesmo à sua frente.
Avançou lentamente. Não tinha pressa. Naquele lugar, não havia tempo.
A cada passo que dava, mais certa estava de que, à sua volta, as paredes eram decoradas com espelhos. Porque ela podia jurar ter visto o seu reflexo várias vezes.
Prestou melhor atenção. E teve certezas.
Sim, era ela.
Mas também…

A primeira rapariga que vira era jovem, provavelmente catorze anos. Vestia calças de ganga, um t-shirt azul bastante larga, tinha o cabelo negro amarrado e usava óculos de aros negros.
Linda Tsukino, a princesa fugitiva.
A rapariga sorria para ela, fazendo-lhe sinais para continuar.
A segunda tinha dezasseis anos. O cabelo estava apanhado. A roupa assemelhava-se ao estilo marinheiro.
Sailor Dream.
Esta sorriu e, tal como a outra, fez sinais para que continuasse o caminho.
Ela não hesitou e prosseguiu caminho até encontrar a terceira rapariga.
Esta era a única com a qual se familiarizava. Cabelos encaracolados soltos, olhos azuis isentes de óculos, roupas normais, corpo mais formoso, pele um pouco mais morena, sorriso confiante.
Linda Natsumara.
Engoliu em seco e ficou espantada ao aperceber-se do que acabara de fazer. Parecia que ali ainda tinha corpo. Bem, corpo ela tinha. Como é que andaria caso não tivesse?
Suspirou e continuou. Algo dentro de si dizia para o fazer.
Encontrou uma última pessoa. Mas esta já era uma mulher. Trazia vestido trajes longos e negros, os cabelos apanhados do mesmo modo que Sailor Dream e os olhos estava opacos, sem vida.
Agnes, a Guardiã dos Sonhos.
Era como se aquele lugar tivesse desfragmentado a sua alma em pedaços. Pedaços esses que mostravam agora as diferentes fases da vida e da alma dela antes de sucumbir à dura morte. O objectivo para tal talvez fosse para dar-lhe paz. Mostrar-lhe aquilo que ela fora em vida antes de ela prosseguir viagem. Afinal, a morte era só o virar da estrada.
Como que adivinhando pensamentos, o fundo do corredor tornou-se visível, assim como uma porta negra.
A porta do Além. Isso significava que ela ainda estava no limbo. Assim que atravessasse aquela porta, estaria morta para sempre.
Atravessou o longo corredor até á porta. Tocou na maçaneta. Sentia estranhas mas agradáveis sensações do outro lado. Talvez do outro lado, estivesse os seus avós paternos que ela nunca conhecera. Não havia mais ninguém que ela tivesse perdido.
Rodou a maçaneta. A vontade de ir era tão forte. Abriu a porta e…

Alguém a fechou com força.
E esse alguém agarrou-a, meio brusco, meio gentil e puxou-a para longe do corredor. Ela sentiu a pele dele queimar-se na dela.
-O que estás a fazer? – Ouviu a sua voz gritar para o estranho.
-É que nem te atrevas a fazer-me isso… - silvou o homem, a sua voz estranhamente familiar. – Não vais desistir agora, pois não?
Aquela voz…
-Morfeu? – Perguntou ela, a voz trémula de emoções. Ele não respondeu. Apenas levou-a para fora dali, até um outra porta, desta vez castanha e abriu-a.

Os campos eram verdes, o céu azul claro, as arvores escuras… Era lindo.
E ela pôde então ver a figura que a trouxera. Alto, de cabelos compridos, era um dos homens mais belos que ela alguma vez vira.
Morfeu sorriu para ela, os seus olhos azuis-claros brilhando intensamente.
Aproximou-se dela e segurou o rosto dela com as suas grandes mãos.
-Não te posso perder outra vez. – Sussurrou, inclinando-se para beijar a testa dela. O toque dos seus lábios quase que fizera-a derreter, de tão doce e forte que era. O cheiro dele era intoxicante e ela sentiu a besta dentro de si a acordar, exigindo comida por entre mares de desejo carnal e espiritual.
Não se conseguiu controlar. Aproximou os seus lábios dele e beijou-o apaixonadamente, tão forte quanto podia ser, vindo de dois amantes reencontrados.
As bocas exploraram-se, a dele sabendo a mel, provocando grandes picadas na barriga dela. Parecia que um exame de abelhas assassinas a picava, ao invés das borboletas habituais. Os corpos uniram-se, cada aresta do corpo dela perfeitamente encaixada no dele, as mãos procurando um lugar do corpo ainda por explorar. As mãos dela ficaram-se pelo cabelo dele, comprido e extremamente castanhos, como o chocolate. As deles, alternava entre as ancas dela e o seu maxilar, aprofundando o beijo. As bestas soltaram-se e os dois caíram na relva, consumindo todo o desejo que sentiam um pelo outro.
A armadura dele caíra, mostrando um corpo perfeitamente musculado. O corpo de um guerreiro. Parecia tão jovem quanto o dia em que se conheceram.
Ele moveu as mãos por entre o vestido branco dela, até que parou ao notar na grande mancha vermelha.
Ele ergueu-se sem, no entanto, deixar de tocar nela. A mancha estendia-se por grande parte do vestido, estando mais escura por entre o peito dela. Junto ao coração.
Ambos olharam nos olhos um do outro. Ela viu medo e sofrimento nos olhos claros dele e talvez fora por isso que não impedira a mão dele de tocar no tecido do vestido, desviando-o, mostrando o peito dela. Fosse outro homem, ela teria corado e tapado imediatamente, mas ele já a conhecia. Fora o único homem que alguma vez a conhecera.
Ele fechou os olhos de repente, apavorado. Ela olhou para o seu próprio peito nu, querendo ver aquilo que ele vira.
A marca da adaga ainda lá estava, negra e feia, e pequenas gotas de sangue coagulado escorriam dali.
Horrorizada, tratou de se tapar rapidamente, tentando controlar as lágrimas e a vergonha de ele ter visto aquilo.
-Não podes desistir. – Disse ele, mirando-a intensamente.
-Para quê? Estou melhor aqui.
-Essa é atitude de cobarde. Fizeste uma promessa. Tens que voltar.
-E se ela voltar a ganhar? Que farei? – Perguntou ela, deixando-se levar pela tristeza e pelo medo.
-Não perderás. – Disse ele, com a maior confiança que podia demonstrar. Segurou o rosto dela com as mãos, admirando aqueles olhos tão azuis que o fizera perder a cabeça milhares de anos antes. – Tu és especial. Tens que voltar para a tua família. Para ele.
Apesar de ela saber de quem ele falava, não pode deixar de sentir uma súbita raiva subir-lhe pelas veias. Levantou-se, indignada:
-Jamais amarei outro. É por isso que não sonho. Faz parte da promessa. É a única forma de a cumprir sem perder a visão. Eu prometi-te – disse ela, apontando o dedo indicador para ele, que também se levantara. – Jamais verei outro homem como te vejo a ti. Eu não o amo.
-Amas sim. – Respondeu ele, calmamente.
Ela soltou todo o ar preso nos pulmões, tomando consciência do quão real aquilo era. Era como se estivesse viva.
-Talvez. Mas ele não é o homem da minha vida. Tu é que és.
-Mas, se eu não estiver por perto, que farás? Seria egoísta da minha parte impedir-te de víveres a tua vida com outro homem, que te adora.
-Não estás? – Perguntou ela, de repente. Morfeu fez um semblante confuso.
-Como?
-Não estás perto de mim? Não… reencarnaste?
Morfeu abriu a boca para responder, mas as palavras ficara presas na garganta. Silêncio pairou no ar, ela esperando por uma resposta e ele sem a dar.
-Tens que voltar. Não podemos repetir os erros do passado. – Disse ele por fim, aproximando-se dela. – Tens que ser feliz, meu amor.
-Não consigo… o nosso filho…
Para sua surpresa, Morfeu sorriu.
-Que tipo de pai esperavas que eu fosse. Achavas que eu não protegeria o meu próprio filho? Ele viveu, querida, sempre viveu. Longe de ti, mas sobreviveu. Teve filhos e netos, sobreviveu às batalhas. Teve descendentes… -aí ele fixou os seus olhos da cor do céu diurno nos dela, semelhante ao céu nocturno. E ela entendeu. Ela era a descendente do seu próprio filho. O seu filho que sobrevivera.
-Tu fizeste uma promessa de me amar para sempre. Eu fiz uma de vos proteger para sempre. E assim o fiz. Agora, vou voltar a cumpri-la.
Ele sorriu, provocando um pequeno sorriso nela.
-Vais voltar e vais viver. Promete-me. – Pediu ele, segurando nas mãos dela. As mãos dele tinham calos e raspavam nas mãos suaves dela, mas a sensação não deixava de ser quente e boa. Não deixava de a fazer sentir-se no Céu.
-Prometo. – Respondeu ela, com um sorriso, selando a promessa com um beijo apaixonado.

**
(na Terra)

Era agora. Estava só. Pois agora fazer aquilo que planeara. Um ritual, para salvar a sua filha e a neta. Porque o seu coração de mãe a traíra há pouco. A sua filha tinha partido. Amaldiçoando-se por não ter sido rápida, Serenity ajoelhou-se perante o corpo da neta, agora mais distante do de Eiji. Nas suas mãos, estava o cristal prateado, brilhando como mil sois.
Ela sabia o que estava a fazer. Afinal, não era a primeira vez que o fazia. Mas era de certo a última.
Concentrou-se, fechando os olhos e deixando que o brilho do cristal iluminasse todo o salão, até que Serenity pudesse apenas ver o corpo da neta. O brilho aumentou, enquanto a Guerreira Lunar usava todas as suas forças para concluir a sua missão. Era a sua última batalha. A sua ultima luta.
Contente, abriu os olhos e, pela primeira vez, viu-se a si própria antes de ser navegante. A rapariga que atirara o seu testes de 30% para o ar, atingindo o homem que seria o seu futuro marido. A rapariga de odangos compridos e uniforme de colégio. A rapariga normal que ela há muito deixara de ser.
Fechou os olhos e não os voltou a abrir.

**
(num lugar fisicamente longínquo)

Ela atravessara uma outra porta que Morfeu lhe indicara. Agora a mancha tinha desaparecido e ela sentia-se mais pesada, como se toda a massa do seu corpo tivesse retornado.
A sala era – para seu desagrado – cor-de-rosa claro. Um cheiro estranho, semelhante a algodão doce, espalhara-se pela sala tal pandemia para quem odeia o doce.
À sua frente, estava uma figura. Não notou que, ao seu lado, outra figura caminhava na mesma direcção. Quando reconheceu a figura, não disfarçou o espanto:
-Avó?
Serenity sorriu para ela e para a pessoa a seu lado. Linda virou-se e viu a sua mãe.
-Mãe? Não entendo…
-Morremos. – Disse Small Lady simplesmente. Não tirava os olhos da mãe, como se duvidasse da sua presença. – O que é que a mãe fez?
-Algo que garanta a vossa segurança. – Respondeu Serenity, com um sorriso puro e satisfeito. Linda e Small Lady entreolharam-se.
-A mãe não devia ter feito isso. Não estava nas suas mãos o nosso destino.
-Estava sim – cortou Serenity, severamente. – Eu sabia que havia algo de errado com a maldição, que devia haver um segundo significado. Quando o descobri, entrei em pânico. Mas não deixei de tentar evitar todos os dias que isto acontecesse. Protegi a Linda e o Kenji o máximo que pudesse mas falhei… tal como falhei a ti.
-A culpa não é da avó. – Disse Linda, sentindo uma lágrima cair na sua bochecha. – Mas sim da Dawson. Foi ela que provocou isto.
Serenity assentiu.
-Eu sei. E é por isso que faço isto. Ela é muito forte e só vocês conseguem derrotá-la. Além disso, a batalha é vossa. A Morte foi injusta em impedir-vos de lutarem pelas vossas vidas.
Os olhos de Small Lady aumentaram de tamanho ao aperceber-se dos planos da mãe:
-Mas a mãe… o que vai acontecer? A mãe não pode…
-Não farias o mesmo pela Linda e pelo filho dela? – Não foi necessário ouvir a resposta, os olhos da filha diziam tudo. Serenity sorriu. – Eu já estou velha, tive uma longa vida. Mas vocês ainda têm uma vida para recuperar. É justo para todos.
As outras duas queriam contrariá-la, mas sabiam mais que fazê-lo. Se Serenity estava ali, era porque já não havia volta a dar a não ser que as duas recusassem seguir em frente. E Linda podia sentir os olhos da mãe postos em si, pronta a obrigar a filha a aceitar o acordo. A vida de uma guerreira por outras duas.
-Não posso lutar mãe. – Disse Small Lady para Serenity. Esta assentiu.
-Já reparei. E não te preocupes. A Linda, a Mari e a Cecília são o suficiente. Apenas quero que protejas os outros que não podem lutar.
A filha assentiu. Serenity virou-se para a neta, esta ainda com dúvidas.
-Avó…
-Querida… - Serenity pousou as mãos no rosto dela, tal como Morfeu fizera antes. – Tudo está dependente de ti. És a minha descendente e a ti te passo todos os meus poderes. Usufrui deles como quiseres, pois sei que farás a melhor decisão de uso deles. E não se esqueçam as duas. – Virou-se também a filha, passando a mão esquerda pelo rosto pálido de Small Lady. – Que eu amo-vos às duas e ao Kenji. Se não fizerem isto por vocês ou por mim, façam-no por ele. Ele é o que terá mais a perder se vocês não voltarem. Ele e o Edward.

Mãe, filha e neta abraçaram-se uma última vez, sentindo o toque e os leves aromas de cada uma nas peles, ambas brancas. Três mulheres de personalidades diferentes, mas que pareciam as mesmas. Três gerações diferentes, mas com o mesmo sangue.
Quando se separaram, filha e neta foram em frente, de mão dada, unidas como nunca estiveram. Já a mãe, antiga guerreira navegante, protectora do cristal prateado e do Santo Graal, aquela que possuía a semente de estrela mais pura da Galáxia, seguiu em frente, rumo ao Além, onde sabia que as suas amigas de uma vida e o seu amado esperavam por ela. Para trás, ficaram esperanças de que nada tivesse sido em vão.

**
Mãe e filha abriram os olhos ao mesmo tempo. Felizmente, apenas a mãe tinha audiência:
-Usagi? – Ouviu a voz de Misaki, apavorada. Ao seu lado, sentiu o marido, também ele pálido e sem palavras. Apenas Hotaru tinha algo a dizer.
-A tua mãe?
As duas amigas de longa data entreolharam-se e a rainha assentiu.
-Sim, ela sacrificou-se por mim e pela Linda. Talvez assim tenhamos hipótese nesta batalha.
-Mas… e a doença? – Perguntou Misaki, ainda confusa. Por muito que soubesse acerca do mundo das navegantes, haveria sempre algum coisa que ela não entenderia.
Small Lady pousou a mão na cabeça. Não sentia nada, nem nenhum aperto. Respirava normalmente, não lhe doía o corpo e a mente. Estava sã.
-Foi-se… - respondeu, com um sorriso. Olhou para o marido, este ainda hipnotizado com o que via. Lágrimas caíam naqueles olhos que a deixaram louca nos tempos de juventude. E que ainda deixavam.
-Edward?
Chamá-lo foi como um estímulo, pois ele reagiu aproximando os lábios dos dela, beijando-a apaixonadamente. Apertou-a contra si, como se temesse voltar a perdê-la:
-Amo-te tanto. Que seria de mim sem ti…
-Está tudo bem, querido. Está tudo bem…
Ele sorriu, pela primeira vez, acreditando nas suas palavras. Small Lady sabia que ele ouvira cada palavra do que ela dissera, tendo consciência de que também a filha estava viva. Ao olhar em volta, viu que Hotaru também entendera e explicava a uma perplexa Misaki tudo o que lhe escapara. Foi então que notou em algo.
-As meninas e o Kenji? – Perguntou. Sabia que o filho estava junto dela antes de ela morrer e que as raparigas estavam a lutar. Temeu que a mãe tivesse agido tarde de mais.
-Não sabemos. O Kenji fugiu logo após tu… - Misaki não terminou, ficando perdida em soluços, mas ela entendeu.
-Ele perdeu a irmã e a mãe na mesma hora, temeu perder também a mulher da sua vida. – Murmurou Edward, tristemente. – Foi apenas há uns minutos.
Small Lady ergueu-se e olhou para o fundo do corredor, por onde o filho fugira em busca da amada.
Só esperava que não fosse tarde de mais…

**

A primeira coisa que notou foi no elegante candelabro pendurado no tecto, com as lâmpadas fundidas quase a cair. A segunda foi no tempo negro vindo do exterior. A terceira foi o pesado silêncio.
Ergueu o tronco. Não estava lá mais ninguém a não ser ela e…
-Eiji. – Aproximou-se do corpo do namorado, vendo a sua pulsação. Os olhos dele estavam abertos, pestanejavam um pouco, fitando um ponto fixo na parede. Estavam no tom de avelã que ela conhecia, mas mortos, sem brilho. O corpo respirava, mas Eiji bem que podia estar morto.
Ela suspirou pesadamente:
-Prometo que te devolvo a tua Flor. Voltarás a ser o que eras. – Disse, decidida.
Levantou-se e sacudiu as roupas. A mancha de sangue desaparecera, mas o vestido continuava sujo. Não interessa, pensou. Tenho maiores prioridades.
Pegou no colar ao de leve. A décima pedra estava ali, colada com fita-cola, extremamente próxima de um outro ponto. Foi aí que Linda notou que os nove pontos simbolizavam os planetas do Sistema solar e o décimo a Lua. Uma estranha coincidência se era isso que Linda lhe podia chamar.
Inspirou o ar que vinha da janela da varanda. As cortinas brancas esvoaçavam ao longo do vento forte e um aroma fresco provinha dos jardins. Linda olhou para as mãos e sorriu, dando graças por estar viva. Desta vez, faria as coisas direito.
-Pelo poder que me confere – murmurou, mas a sua voz estava mais forte, mais madura. – Chamo a Guardiã dos Sonhos.
Algo de diferente aconteceu naquela transformação. Ela já não era uma Sailor, mas uma Guardiã. Trazia um vestido com cortes de marinheiro, mas preto em quase todo o sentido que batia no joelho. O penteado era o mesmo mas a diferença mais significativa era o bastão enorme, negro com uma lua de prata na ponta.
-É agora. – Sussurrou Linda para ninguém. Antes de sair, voltou a olhar para Eiji. Morfeu tinha razão. Ela amava-o. Mas até que ponto?

**

Faith caiu no chão, derrotada. Estava cansada, sem forças para continuar. Dawson conseguira. Ganhara. Estava tudo perdido.
Ao seu lado, Harmony ainda não desistira. Todo o seu poder estava esgotado, mas ainda tinha o das guerreiras navegantes. Poderia usar esse. Mas como?
A resposta surgiu-lhe com um bastão. Só ela notou na figura, enquanto Faith tentava levantar-se, sem tirar os olhos de Dawson e esta ria-se a altas gargalhadas, sentindo-se vitoriosa:
-Vocês pensavam que me conseguiam deter? Nem sequer com a vossa Guardiazinha dos Sonhos conseguiriam. Eu, que possuo a maior fonte de poder do Universo?
-Queres apostar? – desafiou uma voz, por trás de Dawson. Esta virou-se rapidamente, querendo ver a nova inimiga. Esta saiu das sombras, mostrando-se.
-Tu! Mas como é que…
-Subestimas o poder da minha família Dawson. E pensava eu que sabias as histórias. Uma guerreira só morre quando quer. – Retorquiu Linda, com um sorriso malicioso. Fitou as amigas, que olhavam para ela, estupefactas. Sorriu amavelmente para as duas. – Elas não estão sozinhas. Têm-me a mim e nós as três conseguimos derrotar-te.
-Aí sim? Não és nenhum gato princesa. Se te matar agora, morres definitivamente. PREPARA-TE! – Gritou, lançando uma bola de gás a Linda. Esta desviou-se facilmente, correndo para Mari.
-Canaliza os teus poderes. – Disse, desviando-se de mais um ataque.
Mari sentiu vontade de dar um estalo a si própria. Pois claro, as pedras. Se as usassem, poderiam utilizar os poderes das guerreiras navegantes sem problemas e até mesmo evoluir.

As três correram, desviando-se dos ataques. Dawson, furibunda, criou monstros para as atacar. O seu plano era livrar-se de Linda. As outras que ficassem com os monstros.
No meio da corrida, Linda notou no corpo do irmão junto a um canto.
-O que…
-Flor da Terra! – Disse Cecília, correndo para junto da amiga, vendo-a aterrorizada. – Ela tem-nas a todas.
Momentos antes, esse factor teria preocupado Linda, mas agora não. Estava confiante que conseguiria vencer e salvar o irmão e Eiji. Determinada, ergueu o seu ceptro para o monstro que atacava Mari:
-Mystic Light. – Murmurou, a voz ecoando pelas paredes como um canto de sereia. Uma luz intensamente brilhante preencheu o espaço, tornando a Dawson impossível de ver o quer que seja.
Estranhamente, as três guardiãs conseguiam. Mari ergueu-se e foi para junto das companheiras.
-Como canalizamos os poderes? – Perguntou, tentando apanhar o fôlego.
-Voltem a chamar as vossas Guardiãs. No entanto, pensem em algo superior do que a uma simples guerreira.
Elas fizeram o que a amiga pediram e de repente, duas Guardiãs ocupavam o espaço onde duas guerreiras estavam antes, com trajes semelhantes aos da sua companheira. A diferença estava apenas nos penteados e botas.
Linda sorriu e apontou o ceptro para Dawson, que conseguia agora ter um vislumbre delas.
As três dispersaram-se, prontas a atacar. Dawson, vendo a rapidez dela dividiu-se em cinco.
Nenhuma das três teve tempo para pensar quando, de repente, Mari e Cecília ficaram a lutar contra duas Dawsons e Linda com uma, sem dúvida a original.
Muitos raios de luz foram lançados e Mari deu graças pela sua forma física, caso contrário jamais conseguiria escapar. Poder não era sinónimo de força e a jovem navegante era o verdadeiro exemplo da regra. Muito mais rápida que as duas Dawsons, conseguiu desviar-se de um ataque mortífero de uma, deixando que o ataque atingisse porem a outra. Só faltava uma e Mari deu uso da sua flexibilidade de guerreira navegante para desviar-se de um tremor de terra provocado pela cópia. Saltou, rodopiando no ar, aterrando graciosamente. Rindo-se na cara da cópia, mandou um flash de luz cinzenta, destruindo-a.
Por outro lado, Cecília tinha mais dificuldade em derrotar as suas. Uma cópia imitava os movimentos da original, que lutava com Linda, tornando-se extremamente difícil defender-se de dois tipos de ataques e responder a esses mesmos ataques.
Escondendo-se atrás de um pilar, Cecília decidiu utilizar um elemento. A partir do seu ceptro, conjugou água doce e água salgada, provenientes dos planetas de Mercúrio de Neptuno. A corrente de água voou rumo às duas cópias, que se afogaram no meio dos mares da corrente. Longe de ser suficiente, uma cópia apressou-se a libertar-se. Cecília aproveitou a água doce que rodeava a cópia e congelou-a, tendo o cuidado de a separar da água salgada. A cópia deteve-se, tentando libertar-se da camada dura de gelo que a rodeava, gastando todas as suas forças. Quando o gelo se partiu, a cópia apareceu exausta e perdida. Cecília aproveitou para acabar com ela com uma chama de fogo, muito semelhante ao ataque da navegante de Marte.
A cópia berrou de dor, até que se desfez em cinzas. A outra estava ainda presa no inferno aquático de água salgada. Cecília apressou-se a extreminá-la.

No entanto, a batalha mais difícil era entre Linda e a original. As cópias tinham apenas fragmentos dos poderes de Dawson, logo Cecília e Mari nadavam numa piscina em comparação ao trabalho que Linda tinha.
Desviando-se de mais um raio da inimiga, não pôde deixar de notar que esta estava pouco ou nada cansada, enquanto ela estava lentamente a perder as suas forças.
-Tontinha… - disse Dawson, o seu sorriso macabro alastrando-se até aos olhos. – Ninguém me pode vencer.
-Enganas-te – silvou Linda, com raiva.
Ergueu o seu ceptro e tocou a base no chão com força, provocando um segundo tremor de terra. Dawson tremeu e, ainda sorrindo, desapareceu.
Linda mal teve tempo para pensar quando a vilã surgiu atrás dela, atacando-a pelas costas. Linda apenas teve tempo para se virar, não conseguindo impedir o ataque de a atingir.
Dawson gritou vitoriosa, mas Linda ainda tinha alguns truques na manga. Apertando o bastão com força, deixou uma corrente de luz e fumo a proteger o ataque negro. Conseguiu ficar quieta no mesmo sítio, mas não conseguiu evitar que algo de maravilhoso se mostrasse.
Algo saia do peito de Linda. Uma maravilhosa Flor prateada semelhante a uma flor de pitaia [1] com um caule recto e com pequenos ornamentos brancos. Pequenos brilhantes ostentavam em torno da Flor, tornando-a magnífica.
Confusa, Linda ergueu a mão direita, fazendo com que o fio de fumo ténue e brilho se espalhasse pelo braço até à extremidade da mão voando em linha recta até Mari e Cecília. Chegada aos corpos, brilhara ainda mais fazendo também com que elas também mostrassem belas Flor prateadas.
Um triângulo de Flor de prata rodeava Dawson, deixando-a encurralada:
-A Flor da Lua. – Murmurou, irritada.
-Dividida por três. – Sussurrou Linda, incrédula.
-Vocês só possuem uma Flor. Isso não é nada contra as várias que eu possuo.
-Não... mas é uma vantagem Guinevere. – Disse Cecília, dando um passo em frente. O laço de prata que as unia ficou mais forte, qual era a harmonia da Guardiã. Mari sorriu e, confiante, deu outro passo em frente. O laço ficou ainda mais forte, pressentindo a fé da Guardiã.
Linda sorriu, sabendo o que tinha que fazer. A vida que a esperava era magnífica. O seu sonho de ter uma família tinha-se realizado, mas havia ainda muito para fazer. E ela queria casar e ser mãe. Fosse o homem Morfeu ou Eiji ou outro qualquer…
-Acho que agora... Posso dar-me ao luxo de sonhar. – Disse, sorrindo serenamente.
O laço atingiu o limite de forças. Agora o triângulo era mais forte e enfraquecia Dawson, não lhe dando qualquer hipótese de escapar A não ser uma…
-Julgas que me consegues deter, rapariga? – Gritou, virando-se para Linda. - Tu não és nada em comparação a mim! Tu, que sempre foste mas instável que uma tempestade. Tu, que trouxeste desgraça para a tua família. Presente e passado.
Algo quebrou-se dentro de Linda. O link estava instável.
-É mentira! – Gritou para uma Dawson completamente louca.
-Oh, que sabes que não é – a voz de Dawson alterara-se por completo. Era agora tão forte que não se distinguia o sexo. A voz do Caos. – Por tua causa o teu filho morreu. Devias ter tomado conta dele, como uma boa mãe sempre faz. Mas não o fizeste e ele morreu por causa disso. E o teu lindo marido morreu a tentar salvá-lo.
-Não….
-Linda! – Chamou Mari, vendo o elo a ficar mais fraco. – Não lhe ligues!
-Pois não ligo. O meu filho não morreu. Ele está dentro de mim. É a minha Flor. – Apesar de berrar e acreditar nas suas palavras, Linda chorava, sofrendo com a dor que elas provocavam. Mesmo que o seu filho tivesse sobrevivido, ficara perdido, sem a sua mãe.
-Acreditas mesmo nisso Linda? Tu és a ovelha negra da tua família. Causaste a destruição dela no passado e causarás agora. És uma intrusa.
-NÃO!
Uma forte onda de energia negra saiu do corpo de Linda, que largara o ceptro no chão. Esta tinha os olhos completamente brancos e fitava Dawson com um olhar de morte. Esta pôs as mãos na cabeça e gritou de dor, como se Linda a estivesse a torturar por dentro.
-Linda! – Gritaram as suas companheiras mas temeram quebrar o elo caso se mexessem. – PÁRA!
Quanto mais Linda utilizava o seu poder, mais fraca se sentia e mais demente Dawson ficava. Mari, temendo voltar a perder a irmã, abandonou o elo, que se quebrou, correndo para junto de Linda:
-Li, tu não és assim. Sabes as consequências do teu poder. Não o uses. És mais forte do que isto.
Cecília correu atrás e segurou na mão de Linda, que não parava de chorar.
-Tu és forte, amiga. Sempre o foste e sempre serás. Não deixes que ela te mate. Não lhe dês razão.
Linda, ouvindo as palavras das amigas, sentiu forças e quebrou contacto com Dawson, fechando os olhos violentamente, ainda a chorar.
Silêncio predominou por uns segundos, onde tudo o que se ouvia era os lamentos de Dawson e as lágrimas de Linda.

Limpando as lágrimas, Linda pegou no ceptro e virou-se para a sua inimiga, agora mais humana. O Caos tinha-a abandonado:
-Não Dawson, tu é que és a intrusa!
Não tentou manipular os seus sonhos, não tentou curá-la. A sua alma era demasiado negra para ser salva. O seu ceptro brilhou e o poder forte e brilhante do cristal prateado cegou as três jovens difundindo-se com as luzes que provinham dos candeeiros, das velas e dos ceptros das outras guardiãs.
Quando Linda voltou a ter o poder da visão, Dawson não era nada mais que um monte de cinzas espalhadas no chão, que o vento rapidamente espalhou pelo chão.
Lá fora, a tempestade parou e desapontou a aurora, reiniciando o ciclo da vida que, tal como as vidas das três jovens, podia desaparecer, mas acabaria sempre por voltar.

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[1] A pitaia é um fruto do género cacto cuja flor floresce à noite. A Pitaia é também designada por Flor-da-Lua

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por Bun em Qua 20 Abr 2011, 05:51

Olá Ana. Smile
Fiquei muito feliz quando me apercebi que já havia um capítulo novo. Só o esperava daqui a uns dias.
Não consigo ser tão emocional quanto a Lulumoon nos seus comentários aos capítulos, mas vou tentar descrever o melhor que consigo.
Eu confesso que amo esta história e já te tinha dito, e são inúmeras as cenas que tenho vontade de ler e reler porque gostei verdadeiramente delas. Mas desta vez....deixaste-me mesmo com um nó na garganta, fiquei mesmo emocionada.
Quando descreves a Serenidade a juntar-se ao marido e amigas no Além, bem....a sério, fiquei mesmo triste. Foi lindo.
Eu amei as cenas de luta, estiveste muito bem Ana! E dizes que não tens jeito, ora imagina lá se tivesses!
Eu francamente nem sei que te dizer, acho que qualquer comentário que faça não faz jús ao que acabei de ler. Eu gostei de tudo, mas mesmo tudo, não tenho nada a acrescentar. É daqueles capítulos que provavelmente ainda hei-de voltar para ler mais vezes. Está perfeito.
A Linda com o Morfeu, bem que cena linda. Então o Morfeu não reencarnou....em princípio, certo? Porque ela parecia convencida que sim...esta deixou-me a pensar...Question
Que bom que no final do mês já teremos outro capítulo. Fico contente. Mas já está quase no fim, e isso, bem, é com pena que vejo a fic acabar. É das minhas preferidas. Se algum dia decidires continuar a escrever já tens uma leitora de certeza.
Beijinhos Ana *

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Seg 09 Maio 2011, 15:54

Ora bem people. Mais um capitulo. Um dos mais pequenos da fanfic, devo dizer
Não sei quando posto o Epílogo, mas é para breve.
Já sabem, quero comentários Wink

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28-As últimas páginas


Os raios de sol iluminavam a Terra com luz luminosa e pura, escapando por entre uma ou outra nuvem negra que surgia no céu matinal.
De repente, o ar ficou respirável. Já não havia tensão, não havia perigo. Alguém podia dar um passo seguro sem ter medo de retroceder.
E acabara tão depressa. Em poucas horas, o reino enchera-se de medo para agora estar tudo acabado. Os seus piores pesadelos apenas duraram uma noite. Era o fim.
Havia paz.
O leve canto dos pássaros podia ouvir-se ao longe, pobres animais que reconheciam o perigo fora do caminho devido aos seus aguçados instintos e sentidos. Para os humanos, fora necessário luz.
Nove luzes brilhantes emergiam das cinzas, propagando-se em direcção ao céu. Cores vivas e cheias de emoções sobressaltaram as três navegantes, que deram um pequeno salto para trás.
Após atingirem uma altura de dois metros, dispersaram-se nas direcções da rosa-dos-ventos à velocidade da luz, uma delas indo directamente para o peito do corpo do jovem jazido a poucos metros. Assim que a Flor entrara no seu corpo, ouviu-se uma respiração mais profunda e os olhos do rapaz abriram-se.
As raparigas, esgotadas, nem notaram que os seus poderes tinham desaparecido e que agora tinham vestido as suas roupas de baile. Deram um passo em frente, receosas. O rapaz ergueu o tronco, tentando respirar calmamente, ao mesmo tempo que focava a sua visão.
À sua frente, postavam três raparigas com vestidos de cor diferentes. Uma, de cor preta, estava toda despenteada e tinha vários arranhões nos braços, a outra, de cinzento, também estava despenteada e tinha um leve corte na cara mas a sua presença iluminou o espírito dele. Ia sussurrar o seu nome quando notou na terceira rapariga. Vestido branco, cabelos despenteados, muito pálida e olhos brilhantes.
Não era possível… ela estava morta…
-Linda? – Ouviu-se dizer, num sussurro. A rapariga soltou uma lágrima e assentiu. Antes que o irmão arranjasse palavras para formular uma frase de dúvida, ela correu para os braços dele, lágrimas pesadas caindo pelo seu rosto cansado. A adrenalina fora-se e agora ela via as consequências claramente. A avó estava morta, assim como o seu avô e as tias. Os seus parentes mais próximos tinham desaparecido para sempre. Tudo para que ela vivesse. Quase que perdia o irmão, quase que perdia as amigas, quase que perdia o namorado…
Ele hesitou por uns momentos mas depois, reconhecendo o cheiro e o toque da irmã, respondeu ao toque afectivo. Juntos, os dois irmãos choraram, cada um pelos seus motivos, apenas ligados pela culpa.
Linda apenas largou o irmão de modo a que Mari pudesse abraçá-lo. Ao ver os corpos dos dois fluírem-se livremente, não pôde deixar de sentir inveja daquele amor tão certo. Ao seu lado, soube que Cecília sentia o mesmo.

Apesar de o ar ter estado puro desde que as cinzas de Dawson tinham desaparecido, Linda deixou escapar um suspiro que nem sabia que tinha prendido.
Tudo estava bem.

**
Estava encostada à parede, evitando algum incómodo. Médicos passavam de um lado para o outro curando os feridos, enchendo o jardim de branco. Ela evitava falar com alguém conhecido e explicar porque motivo tinha voltado à vida. Os ignorantes afirmavam que ela era a nova Messias, pois ressuscitara e salvara-os a todos. Ao ouvir essa teoria, ela riu-se livremente, o seu riso contaminando a sala onde estava. Em poucos segundos, todos riam-se com ela e descartavam a ridícula ideia.
Falara com Mari, Cecília, Aiko, Misaki, Hotaru e Setsu, tendo sido o último mais complicado. Ele não sabia nada acerca dos poderes sobrenaturais que a sua família possuía havia já três gerações e era difícil explicar porque, de todos, apenas ele e o irmão nada sabiam do assunto. Seiji e Naomi vieram abraçá-la, os três chorando a morte das suas avós, para depois partirem solenemente, para junto dos seus pais chorosos.
Agora ali, apenas queria falar com duas pessoas.
-Olá – não pôde dizer mais nada e já a mãe e o pai a abraçavam ternamente, os dois quase afogados nas suas próprias lágrimas. Afastaram-se, mas Edward não tirou o braço do ombro da filha, temendo que esta fugisse. Já a mãe tinha a cabeça no tronco do marido e tentava inutilmente parar de chorar.
-Oh Linda… pensei que…
Esta sorriu levemente.
-Devíamos ter desconfiado. A avó nunca foi de deixar aqueles que ela amava sofrerem.
-Será que eles já tinham isto planeado? – Perguntou Edward.
Linda e Small Lady assentiram.
-Não me surpreenderia nada. – Murmurou a mãe. – A minha mãe foi sempre de arriscar para ajudar os outros. Muitas vezes a invejei em criança.
Linda voltou a assentir, compreendendo o sentimento. Small Lady entendeu o gesto e mordeu o lábio severamente:
-Edward podes deixar-nos sozinhas por uns momentos? – Perguntou ao marido suavemente. Este hesitou um pouco até que assentiu e afastou-se para falar com Aiko, que não largava a neta.

As duas mulheres fitaram-se em silêncio, tentando arranjar forma de melhor se expressarem. A mais velha tomou a iniciativa:
-Quem me dera que me tivesse idolatrado a mim como eu idolatrei a minha mãe. Era isso que as filhas deviam fazer e eu estraguei tudo. – Disse, por entre leve choro. Linda abraçou a mãe automaticamente, a sua parte bondosa ameaçando dar-lhe um pontapé se não o fizesse.
-Isso agora não importa. – Disse, tentando consolar a mais velha. – Está tudo acabado, podemos recomeçar tudo de novo.
-É tarde de mais.
-Talvez – admitiu Linda. – Mas mais vale tarde que nunca. Ainda deve haver algo que se possa fazer… e haveremos de tentar…
Sorriu para a mãe, que limpou as lágrimas com a mão, correspondendo o gesto.
-Tive medo… mas a minha mãe… ela não merecia uma filha como eu. Não digas nada! – Acrescentou, ao ver que a filha ia protestar. – Nunca fui para ela nem metade daquilo que foste. Falhei na única parte que eu não deveria falhar. A minha mãe perdoar-me-ia se tivesse cometido algum erro na juventude. Engravidar de um professor, meter-me nas drogas, roubar, fugir de casa… ela aceitaria tudo contando que eu me arrependesse e fosse forte. Não que eu fosse a melhor filha para os pais se vangloriarem com orgulho e depois falhar no papel de mãe por motivos ridículos. Por ser fraca quando sempre fora forte. Desapontei os meus pais, Linda, e isso ninguém pode negar. Todavia, tu compensaste os meus erros. És uma excelente filha e foste uma maravilhosa neta. Tenho muito orgulho em ti, filha.
Tenho muito orgulho em ti, filha.
As palavras ecoavam na cabeça de Linda. O quanto significado tinham aquelas palavras… Ela, que sempre sonhara com elas, ouvia-las agora tantas vezes. Era como um sonho tornado real.
Abraçou a mãe e, suspirando fundo, procurou outra pessoa com o olhar. Não o viu. Presumiu que estivesse no seu esconderijo.
Tais pensamentos trouxeram-lhe dúvidas. O que é que ela faria agora? Conseguiria sonhar como qualquer pessoa? E se conseguisse, que é que isso significaria? Por que lado deveria optar?

-Sabes qual é o meu livro preferido de Linda O’Connell? – Perguntou a sua mãe, sorridente. Linda teve a leve sensação de que ela sabia o que a filha estava a pensar.
- Vício japonês? – Arriscou, sabendo que fora daí que a mãe tirara os nomes para os filhos. Surpreendeu-se quando a mãe abanou a cabeça negativamente.
-Fita de Prata. Já o leste?
-Quase. Faltam as últimas páginas…
-Porquê? – Agora Small Lady exibia um enorme sorriso que se estendia até às orelhas.
-Porque… tenho medo do que ela irá decidir. Sinto-me como se…
-Tu fosses ela? Ter que escolher entre o amor do passado ou o amor do presente?
Linda assentiu, evitando contacto visual com a mãe. Esta suspirou.
-Querida, não devias ter medo. Toda a gente passa por decisões destas. Decisões em que temos que optar por entre o que já passou e o que está a passar, de modo a podermos gritar ao Destino que nós escolhemos o nosso futuro. Sabes o que Andrea fez?
Linda voltou a abanar a cabeça, desta vez mais interessada.
-Rompeu o noivado com Andrew e fez uma viagem com o irmão para o Japão. Disse aos dois que precisava de um tempo para pensar e que só depois iria decidir. No epílogo, ela aparece no Rio de Janeiro de mão dada com um homem, mas não se chega a saber quem ele é. Apenas se sabe que é ou Michael ou Andrew e que Andrea ficara com um deles porque o Destino assim quisera. Sempre que os mortais tentam controlar o seu destino, magoam-se porque, sendo mortais, nem sempre tomam as decisões acertadas. Ela deixou que o Destino a governasse e o amor que um deles sentia por ela era muito mais forte que tudo. E acabou assim.
-Assim? Não sabemos com quem ela fica? – Perguntou Linda, estupefacta.
-Sim. Sabes lá tu o que o Destino nos reserva. O futuro é um segredo, Linda, nunca sabemos o que vem aí. Até podias achar que ela ficava melhor com o Andrew mas… e se o Destino não voltara a pôr o Michael no seu caminho para que ela visse a razão? Ou então o Michael apenas apareceu para que ela se apercebesse do quanto amava o Andrew? Há infinitas respostas para estes dilemas, mas só uma é verdadeira, a única. Neste caso, foi vago e um perfeito fim. Todos os leitores adoraram, porque podiam imaginar que ela estivesse com qualquer um deles.


Linda entendia agora. Não era tão difícil. Preparava-se para ir em direcção ao seu esconderijo quando alguém a parou. Virou-se para conformar os olhos azuis do irmão. Este, mesmo sabendo que tinha a atenção da irmã, não a largou. Aliás, quase todos aqueles com quem ela falara tinham a necessidade de lhe tocar, querendo ter provas de que ela não era uma miragem. Ela sorriu.
-Olha, estava aqui a pensar…
-Novidade… - brincou ela, querendo pôr um pouco de humor no ambiente. Foi bem sucedida. Kenji lançou uma gargalhada pura e alegre, largando-a.
-Podes não acreditar Lindinha, mas eu também posso ser profundo quando quero.
-Acredito. Que me queres falar?
O rosto de Kenji ficou mais sério.
-Sabes as Vozes?
Linda suspirou, divertida.
-Oh Kenji, só tu para te preocupares com isso agora…
-Não critiques, que isto para mim foi um puzzle bem difícil de resolver. – Protestou o loiro, fazendo um leve beiço. Os dois irmãos riram-se da naturalidade da cena. E pensar que horas antes, nenhum deles conseguia sorrir.
-Eu estava a pensar. Tu ouves, certo? Eu e a Mari também e ouvi uns zunzuns que a Cecília e o Eiji também a ouvem.
-E então? – Perguntou, apesar de já ter uma ideia até onde a conversa iria.
-As Vozes são as Flores. – Disse ele, claramente satisfeito com a sua conclusão. – Por isso é que a minha Voz me quis juntar com a Mari.
-Sim, as Vozes reconheceram-se telepaticamente e interligaram-se aos vossos sentimentos humanos. Elas quiseram juntar-vos porque são almas gémeas, tanto as Flores (sendo Terra e Lua corpos espaciais irmãos) como os corpos mortais.
-Tu já sabias? – Perguntou Kenji, surpreendido. Linda riu-se.
-Não, inventei agora mesmo esta teoria. Mas até faz sentido.
-Parva. – Murmurou o rapaz, para depois rir-se mais uma vez com a irmã. O momento foi estragado por Mari e Cecília.
-Que falam? – Perguntou Cecília, dando o braço a Linda e Mari a Kenji.
-Do amor eterno do meu irmão com a Mari. – Respondeu Linda, fazendo com que os loiros em questão corassem profundamente.
-Caluda! As duas! – Silvaram os dois para as morenas que quase caíam no chão de tanto rir.
Linda calou-se, mas Cecília nem sequer tentou parar. Infelizmente para ela, tanto Mari como Kenji tinham uma forma de a fazer calar.
-Oh Cecily…
O rosto da rapariga em questão ficou com um semblante mortífero.
-Parem com isso…
-Ah, assim já não gostas, pois não?
-Vocês sabem o quanto eu detesto esse nome…
-É um nome tão bonito. – Disse Mari, provocando a amiga ainda mais. – Tenho que dar um prémio à tua mãe por se ter lembrado dele.
Linda e Kenji entreolharam-se, a primeira abafando uma gargalhada. O irmão olhou para ela confuso por uns momentos até que se lembrou. Com a cabeça, implorou à irmã, mas esta ignorou-o.
-Podes agradecer aqui ao Kenji. Foi ele que deu a ideia à tua mãe. – Disse, apanhando as outras duas de surpresa. Os olhos de Cecília saltaram de Linda para Kenji, fixando-se nele. De repente o jardim pareceu muito quente para Kenji, que teve que libertar a gola da camisa, em busca de ar.
-Então a culpa é tua de eu ter este nome ridículo? – Perguntou Cecília, num murmuro perigoso. Os olhos dela lançavam faíscas verdes, provocando um leve arrepio em Kenji.
-A culpa não é minha que tu tenhas um nome complicado de se dizer, Cecily.
Fora a coisa errada de se dizer.
-SEU…
E antes que Linda e Mari os pudessem impedir já Cecília corria atrás de Kenji, este esquivando-se por entre as árvores e as pessoas, que ficam confusas por tamanha correria.
As duas raparigas foram deixadas num mar de gargalhadas, que desapareceu quando Kenji fugiu para dentro do palácio, com uma furibunda Cecília atrás dele.
Linda fitou Mari. Esta ainda estava um pouco corada, mas o pequeno rubor nas suas bochechas tornava-a encantadora. Já não parecia a rapariga refilona que conhecera quase um ano antes. O irmão mudara-a… e para melhor.
-Eu não estava a brincar. – Disse. Mari apenas mirou-a.
-Aí sim? – A voz dela tinha alguma dúvida escondida.
-Sim. Vocês completam-se de uma forma que eu apenas vira uma vez antes. Ou melhor duas. – Acrescentou ao ver a mãe ao longe a beijar o pai, os dois unidos no bem e no mal, tal e qual casamento perfeito. Aproximou-se de Mari e pegou-lhe nas mãos. – Sei que o farás feliz.
Mari sorriu e apertou-lhe as mãos.
-E tu? Quando serás feliz?
-Já sou. – Respondeu Linda, simplesmente. Ela percebera o segundo significado da pergunta de Mari, mas limitou-se a não responder. Até porque nem ela própria tinha resposta para isso. Limitar-se a uma escolha era-lhe extremamente difícil, porque ela nada sabia das questões do coração. Sabia lá ela quando amaria. Agora ou nunca?

Enquanto fazia o caminho por entre os eucaliptos, só pensava nisso. Passado ou Presente? Fosse qual fosse que ela escolhesse, o seu Futuro vinha aí e ela podia controlá-lo. Mas, será que ela queria que tal acontecesse? O mistério faz parte da vida humana e sem ele tudo é previsível e mortal. O mistério salvaguardava a curiosidade humana e a capacidade dos humanos em guardarem as suas emoções e as suas verdadeiras personalidades. Uma vida sem mistério estava ligada a conflitos e falsidade. Porque todos procuram mudar. Todos procuram dominar o seu destino.
Quando chegara ao local pretendido e o vira, Linda já tinha tomado a sua decisão. Junto ao seu pescoço, estava o seu colar, que usaria para apagar as memórias daquele momento fatal que ela não queria que ele se recordasse.
Ele virara-se, a luz solar iluminando os olhos dele, fazendo parecerem quase dourados. Ele sorriu, fazendo-a tremer. Mas ela sabia que não era um sorriso verdadeiro. Ela viu os seus olhos ficarem sombrios, como se ele recordasse aquilo que fizera. Não era culpa dele mas, como explicar?
E ali mesmo, os dois fizeram diferentes promessas em silêncio, não tirando os olhos um do outro. No final, Linda canalizou a energia do seu colar de modo a apagar as memórias de Eiji e aguardou. Este ficou confuso e zonzo por uns momentos, pousando a mão na cabeça em busca de apoio. Mas tudo passara em minutos. Linda suspirou. Tinha muito que lhe explicar. Explicações que lhe devia faziam meses.
Aproximou-se dele, decidida e beijou-o ternamente. Ele respondeu o gesto, pondo a mão na face dela, aprofundando o beijo.
E durante muito tempo, Linda lembrar-se-ia daquele momento. Daquele dia, quando tudo mudara. Os cheiros, os sons, o toque, todas as memórias significantes vinham daquele dia, dia de grandes decisões. Não só por parte dela mas também dos seus amigos.

**
Não muito longe, os habitantes de Crystal Tokyo reuniam-se junto ao palácio, com velas acesas em nome dos seus Reis perdidos na batalha. Muitos vestiam preto, outros branco, outros as roupas do dia anterior, que não tiveram oportunidade de mudar.
Oraram, cada um dentro da sua religião, mas todos tinham o mesmo propósito. Chegar a um Ser Superior. Mas, neste caso, a mensagem ia para as Guerreiras do Sistema Solar que tanto lutaram em vida e agora recebiam a tão merecida homenagem, para os Reis, que trouxeram paz e harmonia para o Reino e para as poucas pessoas que perderam a vida com os Reis.
Uma pomba branca voou pelos céus e só desapareceu quando um pequeno bloco cinzento no céu o cobriu.
Muitos pensaram que fora até à Lua.

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por Bun em Ter 10 Maio 2011, 12:50

Capítulo novo!!!

LINDO, LINDO, LINDO!!!

Quando comecei a ler o texto parecia mesmo que estava a ver um episódio da Sailormoon, depois das grandes batalhas. Smile

Adorei a parte inicial, as luzes a dispersarem-se no céu, a Linda e o kenji a abraçarem-se. Está tudo tão bonito. E claro, o sempre querido casal do Kenji e da Mari.

Aquela conversa entre mãe e filha foi mesmo emocionante. A Linda já esperava por aquilo há tempos e merecia.
Foi uma conversa muito filosófica, gostei muito. Wink

Hum....deixaste-me desconfiada....não me digas que vais acabar como o livro "Fita de Prata", e deixar-nos imaginar com quem a Linda fica?
Eu gostava imenso que ela ficasse com o Eiji. Razz
Bem mas tu é que sabes.

As vozes eram as flores, pois claro! Como é que nunca me lembrei dessa? Sou mesmo dah.... loool

Finalmente a Cecily descobriu a pessoa que causou a alcunha que ela mais detesta! LOOOOL
Pobre Kenji....looooooooool

Fiquei curiosa, sobre como o Eiji irá reagir depois da Linda lhe contar toda a verdade.

O final com a pomba a voar pelo céu, as pessoas a rezarem. Está lindo, lindo!

Só uma crítica: é pequeno!!!! Queria mais! Razz

Que pena que o epílogo será o último.

Mas só tenho de agradecer por teres decido compartilhar esta fic connosco. Diverti-me muito a lê-la. Passei bons momentos.

Beijinhos grandes.

Espero ansiosamente pelo final. Smile

Bun
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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Qua 11 Maio 2011, 15:03

Oh Bun, e eu que achava que irias adorar a ideia de um capítulo pequeno e pouco maçador... estou a ver que me enganei Matreiro

Como o Eiji irá reagir não se sabe porque o Epílogo não será sobre o dia seguinte mas os anos seguintes, onde se poderá ver o fim das personagens. Mas no Epílogo deixarei uma pequena ideia de como ele irá reagir.

E digo-te que não irá acabar como Fita de Prata. Saberão tudo acerca de cada personagem principal. Por isso, se a Linda ficar com o Eiji, saberão x)
Não esperava que ninguém apanhasse a ideia das Flores e a das Vozes. Os meus capítulos têm grandes intervalos de envio entre si, o que faz com que as pessoas tenham tendenciaa esquecer-se. Além disso, ninguém suspeitava que o Kenji fosse uma Flor, daí que podia ter sido outra coisa facilmente. Há que lembrar, isto é uma fanfic Sailor Moon.

Ainda bem que esses momentos te agradaram. Tentei dar ao momento um tom agridoce, em que por um lado celebram, por outro lamentam a morte das vidas perdidas. A pomba veio-me à cabeça no momento em que escrevia e achei que fosse o toque final para este capítulo.

Tenho que admitir que ficarei com saudades. Ainda me lembro quando, há dois anos atrás, postei o primeiro capítulo desta fanfic. Estava toda nervosa porque nunca tinha escrito nada na net para ninguem e as unicas pessoas que elogiavam a minha escrita eram os meus professores, daí que tinha medo das reacções dos outros, se iriam gostar e tudo. A partir daí, fui sempre melhorando e agora tenho mais confiança na minha escrita. Costumo escrever poemas nos tempos mortos (aka aulas de portugues quandoostorfaladepessoaeeunaoquerosaber) e anoto todas as minhas ideias de histórias no pc, para o caso de algum dia querer passá-las para o papel (ou melhor ecrã).
Mas ficar-me-á sempre as memória de ir aqui e ver comentário, poucos mas bons, acerca daquilo que escrevi, comentários que sempre me puseram a sorrir ;_; (oh pó raio que já tou toda sentimental e a fanfic ainda não acabou Mal disposto)

Mas, acabo este comentário como acabarei os próximos: Obrigada, por que é isso que vocês merecem mais do que uma vez, tal como eu precisei de ouvir (mais do que uma vez) que eu tinha uma boa escrita e que alguém gostava das minhas histórias Very Happy


Obrigada!

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por lulumoon em Sab 14 Maio 2011, 10:47

(deixa ver se é desta que consigo postar comentarios)

;_;
Ai!!! :'{ Estou muito triste só de pensar que este foi o ultimo capitulo antes do epilogo... Vou ter tantas, mas tantas saudades desta historia! Sem duvida que esta é a fic de sailor moon que mais me agradou, pelo simples facto de não conter o cliché "depois da batalha com a galaxia, a Bunny blá, blá, blá". Foi uma forma inovadora de aproveitar a historia de Sailor Moon! Estás de parabens por isso, Ana.

Este capitulo foi esclarecedor, especialmente no que toca ás vozes! Nunca pensei que fossem as flores! :O Gostei de descobrir este pormenor! xb
Como já referi, a morte da Rainha foi tocante, e sem ela sem duvida que mundo fica diferente! Estou mortinha por saber como vão ser os proximos anos, como vai ficar a relação dos nossos casais maravilhosos. (Já referi que virei super fã do casal Edward & Small Lady? Amoro-os! Esperancoso).
Gostei muito da descrição destes acontecimentos finais pós-batalha, especialmente as familias a chorarem a morte das guerreiras e dos reis (Meu deus, acabei de me aperceber que o meu Gonçalinho foi-se! ;_; ;_; ;_; Nãaaooooo! :'O Gonçalo da minha vida, volta amor! o_o)
*Ok, já recomposta*
Espero que nao aconteça mesmo o que aconteceu nos Livros de Linda O'connel! eu quero saber quem a Linda escolhe, mas já tenho um palpite ;D

Aninhas, tens luz verde para postar o epilogo ! Estou á espera!
bjokas

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Dom 05 Jun 2011, 14:36

Ora bem people, aqui está o último capítulo desta fanfic que durou cerca de dois anos e meio a terminar. Considero isto um feito e sinto orgulho de mim própria. Dei asas à imaginação e, de certa forma, cresci com isto tudo.
Terei saudades =)

Alguma dúvida digam. Ah... e espero comentários gigantes com isto. Imaginei o Epílogo em três prespectivas, mas esta foi a mais apelativa de todas. Tem duas musiquinhas porque apaixonei-me pela minha ultima personagem original (Luchia)

P.S As falas da Luchia são mesmo assim. Lembro-me de ver pequeninhos a "comerem" letras em cada frase

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Epílogo


O ar estava pesado. Desde cheiros afrodisíacos até nuvens opacas, semelhantes a algodão doce, o ar parecia impenetrável para a vista. Nem um único som, nem um único movimento podia ser feito. Ela não via nada. Era como um dia de nevoeiro.
Inspirou, saboreando a fragrância de limões e pinho, misturado com um leve odor marinho. Os olhos estavam fechados e ela não ouvia nada. Tudo dependia do cheiro e do toque. E das sensações…
E ela estava tão feliz.
Alguém agarrou-a por trás, recolhendo-a num abraço. Uma das mãos fortes dele agarrou a anca dela e a outra traçou a linha do pescoço dela com o dedo indicador, fazendo-a arrepiar-se. Os dois braços rodearam a sua cintura, enquanto a boca dele procurava a pele do pescoço dela, branca e suave como seda. Ela revirou a cabeça ao toque, involuntariamente, as pálpebras ainda fechadas.
Ele rodou-a, obrigando-a a fitá-lo. Ela abriu os olhos, sendo a primeira coisa que viu um mar de azul claro cheio de brilho. As mãos dele não a largavam, ora traçando as linhas do corpo dela, escondido por detrás de uma túnica azul, ora tomando o rosto dela em concha beijando cada detalhe precioso dos traços dela. Quando por fim os seus lábios se encontraram, ela sentiu-se a flutuar num mar de fantasia, sendo ele o marinheiro. Os lábios dele, doces e selvagens, afundavam-se na boca dela, enchendo-a de prazer. O mínimo toque, provocava calafrios e choque de electricidade. Calor e frio. Sensação seca e molhada. Real e fantasia.
Ele afastou os lábios dela, emitindo um sorriso que se estendia até às orelhas. Ela, sendo extremamente curiosa, teve que perguntar:
-Porque estás tão feliz? – Perguntou suavemente. O sorriso dele aumentou ainda mais.
-O tempo está próximo. – Respondeu ele, a voz grave e naturalmente rouca. – Ele vem aí.
E antes que ela tivesse tempo para processar a informação recebida, já ele tomava a boca dela, tal dono privilegiado daquele corpo de mulher.
As mãos dele remexiam-se constantemente, contornando cada curva, por vezes até locais em que ela tinha que tremer gravemente para ele se afastar, antes que ambos perdessem o controlo. Mas ele não precisava. Parecia que o objectivo dele era apenas provocá-la.
Finalmente, aproximou-se do único pedaço de corpo que ele ainda não tinha tocado. E fora aí que ela percebera porque é que ele estava tão feliz. Era a mesma razão pelo qual ela estava feliz.
As mãos deles rodearam a barriga dela, já um pouco saliente.
Em breve, o filho deles nasceria. Já faltava pouco.
-Amo-te – disse ele, num sussurro. Depois ajoelhou-se, o topo da testa tocando no ventre fecundado dela. – Amo-vos.
Ela sorriu e sentiu-se fechar os olhos. Podia até ouvir a gargalhada de uma criança…

-Tia Li? Tia Li?

Linda acordou ofegando, apanhada desprevenida. Ao seu lado, a sua sobrinha sorria entre risadinhas, como quem apanhava um adulto numa má posição. O que até era o caso.
-Luchia? O que aconteceu? – Perguntou, erguendo o tronco e massajando o couro capilar. Luchia soltou mais uma risada.
-A tia dormiu na relva. – Disse, forçando a sua vozinha de quatro, quase cinco anos a tomar um tom sério, sem sucesso. – Isso não se faz.
Linda sorriu, levantando-se.
-O Eiji já chegou? – Perguntou, espreguiçando-se.
-Hum hum… - responde a pequena, abando a cabeça várias vezes, caso a tia fosse duvidar dela. – Mas ele e o amigo decidiram deixá-la a dormir. Disseram que a tia parecia uma princesa a dormir.
-Idiota! – Murmurou Linda, sacudindo as suas roupas. Depois, olhou em volta. Estava no meio de um bosque, com vegetação densa, mas relva bem tratada. Os caseiros deviam ter passado por ali de madrugada, porque a relva ainda estava um pouco molhada e, consequentemente, as roupas de Linda e de Luchia.

Tinham-se passado quase dez anos desde a morte dos seus avós e navegantes e Crystal Tokyo pouco tinha mudado. Tudo continuava na mesma, com excepção de um mural dedicado aos seus avós junto aos portões do palácio. Palácio agora onde morava os pais de Luchia.
-Vamos. – Disse Linda para a sobrinha, num tom exausto. Sabia bem porque tinha adormecido à espera de Eiji. A sua pesquisa de trabalho estava quase no fim e era a primeira vez em meses que Linda conseguia algum tempo de descanso. Mas, mal pôs os pés em Tokyo, Eiji pedira-lhe para ir para a Herdade da Família, perto dos montes, a fim de lhe dar a conhecer o seu amigo. O famoso Liam Andersen.
Liam e Eiji eram amigos desde o primeiro dia na Universidade, tendo partilhado o dormitório e até mesmo algumas festas e namoradas. Quando se licenciaram, arranjaram os dois, emprego no mesmo Instituto de Georgetown, em Washington D.C – ironicamente o mesmo onde Linda trabalhava – no laboratório de Engenharia Química, enquanto Linda estava no de Bioquímica.
Apesar de Eiji ter tentado fazer os dois se encontrarem mais do que uma vez, a verdade era que em vários anos o melhor amigo e amiga de Eiji nunca chegaram a conhecer-se. Liam apresentara Eiji a Suri, que se tornara sua mulher dois anos mais tarde. Talvez por partidas do destino, Linda não pudera estar no casamento de Eiji, quando este trocara alianças com Suri sob o olhar do Deus Católico da noiva e quando chegara, Liam já se tinha ido embora devido a uma emergência familiar. Setsu e Cecília não paravam de gozar com o assunto, dizendo que o Destino não queria que os dois se conhecessem. Linda fazia orelhas moucas e combinava com Eiji mais um jantar. Mas havia sempre algo…
E agora fora ela que adormecera…
-Parvalhão. Custava-lhe muito me acordar?
-Ele dixe que a tia parecia muito canxada. – Respondeu Luchia, agarrando a mão da tia. Linda suspirou, aborrecida. Deitou um olhar na sobrinha, que divertia-se a olhá-la. Dizer que a menina era estranha, era um elogio. Luchia era uma menina muito fora do comum. Adorava correr descalça e falava de coisas que nunca existiam. A mãe dela dizia que era amigos imaginários mas Luchia parecia falar com alguém muito real. Várias vezes, ela mencionara pequenos fragmentos de conversas que tivera ou de coisas que vira. Nada fazia sentido. Até ao momento em que as mesmas coisas se concretizavam. Os médicos diziam que a pequena era médium e quiseram fazer testes para confirmarem as suas suspeitas. Mas os pais da menina fizeram orelhas moucas e deixaram a filha como estava. Linda secretamente discordava com aquela acção. Quanto mais aquele poder de Luchia se desenvolvia, menos “criança” ela parecia. Já tinha desenvolvido um olhar maduro, de quem já vira tanta coisa e parecia saber tudo aquilo que os adultos cochichavam nas suas costas. Mas Kenji não se importava. Pelo contrário, amava a filha por ser tão invulgar.
Infelizmente, também a aparência de Luchia se destoava das outras crianças. Os cabelos dela eram extremamente dourados e compridos, lembrando a muitos a falecida Usagi Tsukino e todas as feições dela vinham do pai, com excepção do nariz e dos olhos, pintados num poderoso verde que Linda só vira na própria mãe de Luchia. Os pequenos detalhes de Mari dotavam a pequena de uma rara beleza que chamava a atenção de todos no infantário. Juntando isso à sua invulgar inteligência, Luchia Natsumara facilmente ganhava o prémio de rapariga mais estranha e adorável do reino.
Naquele dia, os cabelos dela estavam presos em pequenos odangos e os olhos brilhavam intensamente, como se soubesse de algo que a tia desconhecia. Linda desviou o olhar da sobrinha. Era difícil olhar para ela e não se lembrar da avó e do avô. A mais bela fusão de duas pessoas que ela tanto amava, mas com olhos verdes.
-Como comexou? – Perguntou Luchia, largando a mão da tia e dando vários passos à frente da tia, os seus pequenos pés completamente descalços.
-Tudo o quê?
-Tudo…
Linda não fazia a mínima ideia do que Luchia falava. No entanto, conhecendo a sobrinha, decidiu tentar mais uma vez. Ao puxar a sua memória, encontrou uma resposta.
-Agora que penso nisso… acho que foi numa aula de matemática.

Tinham chegado ao prado, ficando a vegetação atrás da menina e da mulher. Alguns cavalos eram vistos a cavalgar pelo prado, com pessoas no seu torso, em direcção ao horizonte, onde o sol teimava em desaparecer,
Luchia suspirou.
-O tempo ‘tá próximo. – Disse a pequena, numa voz solenemente. Linda sobressaltou-se. Era a mesma frase que Morfeu lhe tinha dito no sonho. Mas… como saberia Luchia? Nem mesmo Mari, que tinha premonições, conseguia saber destas coisas. Coisas que só ela via nos sonhos das pessoas.
Luchia parecia ter-se apercebido do sobressalto da tia, pois olhou-a curiosamente:
-Tia?
Linda abanou a cabeça.
-Não é nada, querida. Onde é que eles foram? Disseram quando chegavam? – Perguntou, ansiosa por mudar o rumo da conversa.
Luchia assentiu, não desviando os olhos da tia.
-Foram aos aviões. Já foi há muito tempo.
-Ao aeroporto? – Porque é que Eiji e Liam iriam ao aeroporto, deixando-a a dormir na relva? Será que o chefe deles vinha mais cedo?
-Hum hum, o Eiji dixe que tinham que ir busxar o anjinho.
Anjinho?
-Anjinho? – Perguntou Linda meio curiosa, meio divertida. – Isso é código para quê?
-Não sei. Mas ele tem nome de anjo.
Linda não percebeu de quem Luchia falava, mas não questionou mais. A sobrinha voltara a fitar o prado.
-Poqê? – Perguntou, com a sua vozinha fininha de menina.
-Porquê o quê? – Por vezes Linda sentia mais facilidade em falar com um alemão – cuja língua Linda não entendia nem um pouco – do que falar com a sobrinha.
-Poqe comexou na aula de matmatica?
Linda suspirou, pacientemente.
-O teu pai teve uma discussão com o avô e fugiu de casa nesse mesmo dia. Eu estava na sala ao lado. Ouvi a porta bater. Acho que foi aí que a vontade de fugir, de começar uma vida nova aumentou, a ideia fervilhou na minha cabeça até que eu própria agi.
-Teve medo?
-Não. – Linda sorriu. – Mesmo sabendo que estava num sitio estranho nunca tive medo. Não sei porquê. Acho que no fundo sabia que estava protegida. Que alguém me protegia as costas.
Luchia fez uma careta. Devia ter assimilado aquilo que a tia dissera de uma forma literal. Linda soltou uma gargalhada.
-Não, querida. Falo de alguém olhar por mim… mas ao longe. O tempo passou e aprendi muitas coisas, ganhei amigos, um namorado…
-O Eiji? – Perguntou Luchia, muito sorridente.
Linda perguntou-se onde a rapariga fora buscar aquela pequena informação. Ninguém mencionava a antiga relação amorosa que ela e Eiji tiveram na adolescência porque causaria cenas de atrito. Haviam namorado até que Linda fora estudar para Inglaterra. Fora uma separação amigável e até hoje nenhum deles de arrependeu da decisão. Amavam-se, mas não como parceiros. Depois do incidente dez anos antes, Eiji tornou-se muito protector de Linda, substituindo Kenji quando este não estava presente. Tal irritava Linda profundamente, mas cedo aprendeu a não protestar. Em vez disso, aceitava que Eiji olhasse cada namorado dela de acima a abaixo antes de formular a sua opinião acerca dele. Opinião que convinha a Linda seguir, porque quando Eiji não gostava de um tipo, Kenji também não gostava e, de algum modo, nem Setsu e as suas amigas gostavam.
-Sim, o Eiji. Quem te contou? – Perguntou, curiosa.
Luchia encolheu os ombros, dando mais alguns passos em direcção ao prado. A certa altura começou a correr, o vestido branco esvoaçando ao sabor do vento. Os odangos desfizeram-se e o cabelo loiro dela esvoaçou livremente. Linda correu atrás.
-Luchia espera! – Gritou para a sobrinha, que se deitara no meio do prado, de braços estendidos, fitando o céu. A tia, ofegando um pouco, deitou-se ao seu lado, sentindo a relva húmida debaixo de si.

http://youtu.be/DDDlxmsciqY?t=17s

Luchia começou a cantarolar, a sua vozinha doce e serena pairando no ar. Fora o vento que batia nas árvores e o constante som de pássaros a cantar o seu hino de primavera, só a voz de Luchia preenchia aquele espaço.
Quando cantava, Luchia parecia outra pessoa. A sua voz elevava um octano e ela já não tropeçava nas palavras. Parecia mais adulta.
Aquela música era bem antiga, mas era das poucas que Luchia sabia de cor. E era também das poucas que Linda gostava de ouvir. A voz harmoniosa da sobrinha era como um poderoso relaxante depois de um longo dia de trabalho.
Cecília ensinara a Luchia a cantar, obrigando a pequenina a expandir o seu dom. Linda ainda se lembrava de ver a mãe e Aiko a chorarem quando ouviram a neta e bisneta cantar pela primeira vez. Mari só não chorara porque estava demasiado chocada e orgulhosa para o fazer. Por outro lado, os homens não paravam de sorrir. Edward e Kenji trocaram olhares. Fora talvez aí que Kenji sentira que estava a fazer um excelente trabalho como pai.
Quando Luchia nascera, Kenji estava com tanto medo que fora o último a segurar na recém-nascida. Mari revelara-se uma natural, tomando conta da filha como se nada fosse. Apesar de ter terminado o curso como Relações Publicas, abandonara o emprego quando se casara com Kenji e engravidara no mesmo ano. Kenji terminara a faculdade e exercera medicina pediátrica até o ano anterior, quando ele e Mari foram coroados Rei e Rainha de Tokyo. Edward e Small Lady sorriram para os dois novos soberanos, entregando-lhes uma nova responsabilidade. Agora moravam em Inglaterra, visitando os filhos, neta e nora ocasionalmente. Não tinham uma relação muito próxima, mas a parede de gelo já não existia.
Linda estava agora a tomar conta da sobrinha, enquanto o irmão desfrutava de umas pequenas férias com a esposa antes do nascimento do seu segundo filho. Cecília apostava num rapaz e Setsu concordava com ela.
Bem, no que é que Setsu não concordava com Cecília…
Cecília contara às amigas acerca do beijo mais tarde. Nem Mari nem Linda atreveram-se a pronunciar, até porque Cecília dissera que iria esquecer que aquilo acontecera.
E assim fora… mais ou menos.
Cecília tornara-se artista e Setsu cirurgião plástico, mas nenhum dava muito valor às suas profissões. A única altura em que ambos pareciam ter orgulho do que faziam era quando a pequena Luchia falava com eles acerca do assunto ou quando Cecília ensinava Luchia a cantar.
Os dois tiveram várias relações, todos fracassos. No meio de tanta frustração, apoiaram-se um ao outro, tornando-se melhores amigos tal como Eiji e Linda. Mas estes últimos não tinham uma elevada tensão sexual de cada vez que estavam na mesma divisão. Finalmente, desistiram e cederam às tentações. Infelizmente, em vez de definir a relação deles como um compromisso, afirmavam serem ‘amigos com beneficências’. Mari quase que saltara para cima de Cecília quando esta contara a ela e a Linda. Não era preciso ter-se premonições para se saber que eles estavam apaixonados.
Mari conspirara com Linda um plano maquiavélico que envolvia... Bem, coisas que nenhuma mulher sã devia pensar. Linda culpou as hormonas da gravidez.

Estava tão distraída a ouvir a sobrinha e a recordar tempos antigos que nem ouviu o som dos cascos de um cavalo a aproximar-se e parar diante delas. Linda ergueu o tronco, Luchia continuou a cantar.
Um cavalo de pelagem castanho dourado postava à sua frente, o cavaleiro fitando as duas curiosamente. Parecera hipnotizado pela voz de Luchia. Linda ergueu-se, sacudindo a erva da saia e aproximando-se do cavaleiro:
-Posso ajudar? – Perguntou, meio atordoada. Havia algo naquele homem que a fazia tremer. Este desviou os olhos de Luchia para Linda.
Seguiu-se um longo mas calmo silêncio em que ele olhara para Linda como se nunca a tivesse visto.
-Pode – respondeu por fim, o seu sotaque inglês a traí-lo numa única palavra. Saltou do cavalo e tirou o chapéu.

Ela já adivinhara o que iria acontecer. Já o seu coração a traia ainda antes de ele responder, a sua voz tão familiar. A mesma voz que a incentivara a continuar anos antes, a mesma voz que invadia os seus sonhos constantemente.
Já não ouviam Luchia, que cantava para eles, sorrindo abertamente. Fitaram um ao outro com um meio sorriso nos lábios, prontos a dar o próximo passo. Recuara anos, milhares deles até aquele dia no baile, quando ela o conhecera pela primeira vez. O seu cabelo castanho estava mais curto e, consequentemente, extremamente desalinhado. Mais parecia que ele nunca o penteava. Os olhos azuis-claros brilhavam intensamente e o seu sorriso mortífero fazia as pernas dela tremerem como varas.
Ele deu um passo em frente, agarrando nas mãos dela:
-Nunca pensei que fosses real. – Se ele falava inglês ou japonês, Linda não sabia. Estava demasiado habituada a falar as duas línguas para perceber a diferença. – Achei que fosses um sonho.
-Um sonho?
-Sim. Achei que a Agnes nunca existira e que era tudo fruto da minha imaginação. Mas… ela é real… tu és real.
-Viste-me? – Linda não conseguia formular mais do que uma palavra na sua cabeça. Ele sorriu, apertando as mãos dela. E, tal como milhares de anos antes, ela conheceu-o antes mesmo de saber o seu nome.
Dez anos antes ele tivera um acidente de carro a caminho do baile de finalistas, juntamente com cinco amigos. Quatro morreram no mesmo dia e tanto ele como o seu amigo James ficaram em coma. Dois dias depois ele acordara, saindo do hospital uma semana depois sem qualquer lesão permanente, enquanto James ficara em coma até que, dois anos depois, desligaram as máquinas que o ligavam à vida.
Nessa altura, ele sentira-se em baixo, a entrar numa depressão. A única coisa que o salvara do destino cruel fora Agnes, que invadira os seus sonhos desde o primeiro dia no hospital. Ele quase que seguira em frente, rumo ao Além, mas ela o parara.
Tal como ele a impedira de seguir em frente…

-Olá. – Disse Luchia, elevando-se da relva para junto da tia e do homem. Este baixou-se para cumprimentar a pequena:
-Olá sou o…
-Eu sei. – Interrompeu ela, muito querida. - És o anjinho. Sou a Luchia.
Algo soou na cabeça de Linda. Não tinham Eiji e Liam ido buscar alguém com um nome de anjo?
Ele sorriu, maravilhado com a loirinha.
-Sim chamo-me Gabriel. Prazer em conhecer-te
Fora aí que Linda o reconhecera. Gabriel Andersen, o irmão mais velho de Liam.
-Mas não devias estar no aeroporto com o teu irmão? – Perguntou a Gabriel, nervosa.
Os olhos de Gabriel escureceram um pouco.
-Eu tinha avisado o Liam que vinha mais cedo. Fui transferido para o Instituto em Tokyo e tinha que chegar antes de segunda. Quando cheguei ao aeroporto, o Liam não estava lá. Mandara-me mensagem a dizer para vir para aqui.
Linda assentiu, ainda que algo lhe soasse mal naquela história. Luchia pensava o mesmo mas, tendo apenas quatro anos e plena inocência, elevou os seus pensamentos:
-Não goxtas do teu maninho?
Gabriel não esperava aquela pergunta. Ficou um pouco sobressaltado, desviando os olhos das duas Natsumara.
-Luchia! – Ralhou a tia, zangada. Luchia baixou a cabeça.
-Decupa. – Lamentou-se a pequena, fitando a relva verde. Gabriel sorriu para ela.
-Não te preocupes, pequena. Eu e o Liam não nos damos bem, é só. Temos muitas diferenças.
-O papá e a tia Li também são diferentes mas gostam muito um do outro. – Retorquiu Luchia, olhando Gabriel nos olhos.
-Depende do caso. – Respondeu o homem, pensativo. Linda ajoelhou-se perante Luchia, abraçando-a.
-Querida, às vezes os irmãos têm uma relação difícil por vários motivos. Ciúmes, raiva de um determinado momento. Às vezes a única coisa que liga esses dois irmãos são os laços de sangue. No meu caso e o do teu pai, tínhamos algo mais. Tínhamos uma vida partilhada, com momentos bons e momentos maus e fomos fortes o suficiente para ultrapassar esses mesmos momentos. Anos depois, continuamos os mesmos. Mas nem todos são assim.
-O meu mano… - sussurrou Luchia. Gabriel ajoelhou-se perante as duas.
-O que tem?
-Ela deve ter medo de ficar zangada com o irmão. – Respondeu Linda, aproximando a sobrinha para si. Ia confortá-la, mas Gabriel fê-lo primeiro:
-Tu e o teu irmão serão muito chegados se tu quiseres. Eu e o Liam afastamo-nos por nossa causa. Não lutamos contra as nossas diferenças, nunca tentamos ficar mais próximos do que já éramos. Esse foi o nosso erro. E, se tu quiseres, não será o teu.
Luchia olhou para ele, os seus olhos verdes lutando contra algumas lágrimas teimosas. Linda sorriu maravilhada com o efeito que Gabriel tinha na sobrinha. E vice-versa.
-És muito bonita, sabias?
Luchia corou um pouco.
-A mamã ‘tá sempre a dizer isso.
-E não concordas? – Perguntou ele, com um sorriso.
Linda sorriu, os seus olhos saltando entre Luchia e Gabriel.
-Não. Acho a mamã e as tias mais bonitas.
Gabriel olhou automaticamente para Linda. Esta sentiu-se corar.
-Nós somos mais velhas, Luchia. É diferente. – Argumentou Linda, sentindo-se ficar mais vermelha a cada olhar de Gabriel.
-Tens mais irmãos? – Perguntou a Linda. Esta abanou a cabeça.
-Não. Só tenho o Kenji. Ela está a falar da Cecília Tamura, uma amiga da família.
-Cecília Tamura, a pianista da Orquestra Nacional?
-Sim.
Gabriel assumiu um semblante pensativo, até que assentiu para Luchia, colocando um braço em torno dela
-Sim, tens razão. Já vi a tua mãe e posso dizer que o teu pai é um homem de sorte. Também já vi a tua tia Cecília…
-Cecily. – Interrompeu Luchia, novamente sorridente. Linda abafou uma gargalhada. Até hoje Cecília ainda não perdoara Kenji por ter ensinado a filha a tratá-la por Cecily. Gabriel sorriu.
-Cecily. Já a vi e ela é muito bonita. – Depois virou-se para Linda. – E a tua tia também é muito bela.
-Linda. – Disse Luchia.
-É mesmo. – Murmurou Gabriel, não tirando os olhos de Linda. Esta corou profundamente.
-Não. O nome dela é Linda.
Agora era a vez de Gabriel corar e de Linda soltar uma risadinha, juntamente com Luchia.
-Linda tem origens latinas. Como sabes o significado? – Perguntou a mais velha, afastando uma madeixa de cabelo negro da cara.
-A minha mãe é interprete do Governo e ensinou-me a mim e ao Liam a falar várias línguas. Mas até hoje só consegui aprender as latinas e o japonês, sabe-se lá porquê.
-Quais latinas? – Perguntou Linda, os dois adultos levantando-se com Luchia a olhar para eles.
-Português, espanhol, francês e italiano.
-Ou seja, todas. – Concluiu Linda, com uma risada. Uma leve rajada de vento fez com que o cabelo dela fosse para a cara. Gabriel aproximou-se e colocou algumas madeixas atrás da orelha dela. Quando a mão dele tocou na sua pele, Linda sentiu uma corrente de electricidade percorrer o seu corpo, deixando uma forte pontada no estômago, como se um exame de abelhas o tentasse perfurar.
-O tempo está próximo. Ele vem aí. – Proferiu Luchia, olhando para os dois adultos. Ambos congelaram nos seus sítios. Aquilo era familiar...
-O verdadeiro amor espera sempre. Até mesmo noutra vida. Almas gémeas nunca podem ser separadas.

http://www.youtube.com/watch?v=9caTclKNXnw&feature=related

Os dois apaixonados nem notaram no que faziam. Não notaram nas mãos entrelaçadas, nos olhos brilhantes e na súbita sensação de toque que sentiram. Ambos não conseguiram formular frases coerentes, devido a nós na garganta. Ela mal o conhecia, mas sentia que o conhecera a vida toda. E ele sentia o mesmo. Qual seria o nome para este fenómeno? Almas gémeas, se era que isso existia. A Voz assim concordava, após tantos anos de silêncio. Linda sentiu uma súbita vontade de mergulhar nos braços dele e experimentar os lábios do homem que atormentava os seus sonhos.
Luchia entendera e começou a cantar junto do cavalo, que comia relva fresca alheio ao que se passava, ao som de uma melodia imaginária, muito semelhante ao som do piano de Cecília.
Linda sentiu os lábios de Gabriel juntarem-se aos dela e a elevarem-na aos céus, tal como Morfeu fizera a Agnes em tempos passados. O coração palpitava fortemente mas, estranhamente, de uma forma relaxada. Ele aproximou-a do seu peito, dando-lhe a oportunidade de sentir o coração dele bater ao mesmo ritmo que o dela.
Afastaram-se, ofegantes. Linda sorriu:
-Jamais verei outro como te vejo a ti.
Gabriel correspondeu o gesto:
-Proteger-te-ei para o resto da minha vida.
-Já o fizeste.

Juntos, afastaram-se para junto de Luchia. Gabriel pegou nas rédeas do cavalo e juntos, foram os quatro pelo prado fora, o sol batendo ao de leve nos corpos, iluminando a pequena imagem familiar. Gabriel com uma mão nas rédeas, o outro braço em torno de Linda, enquanto Luchia corria livremente pelos prados cantando com Gabriel, em italiano. Porque cantava em tal língua, ela não sabia. Talvez fosse devido às origens da música. Por seu lado, Linda ouvia e sorria.
Desde que Kenji fugira de casa até á morte dos seus avós, Linda passara por muitas dúvidas, aventuras e medos que nenhuma adolescente comum deveria passar. Tal como qualquer ser humano, ela procurou o sentido para a sua vida e a sua felicidade. Naquele ano, provara inúmeras experiências novas, conquistou amizades que duraram anos, namorou com um rapaz especial, tanto que ainda hoje está presente na sua vida, sendo Linda a futura madrinha do filho de Eiji e Suri, fortaleceu os laços com o seu irmão e pais e descobriu-se a si própria. E depois de saber quem era, Guardiã de Sonhos dos Mortais, faltava conquistar a felicidade. Preencher a sensação de vazio que Morfeu lhe deixara no passado que nem uma vida reencarnada lhe tirara. Ela esperara e agora tinha aquilo que pedira.
Os seus sonhos eram constantes. Desde sonhos idiotas, como qualquer mortal tem até sonhos românticos e até um pouco eróticos com Morfeu, Linda não pôde deixar de se sentir normal, pela primeira vez. Normal, mas ao mesmo tempo, invulgar.
Ajudava Kenji nos seus deveres de rei, tinha um trabalho que adorava, nos tempos livres, estava com as melhores amigas, os amigos, irmão e até a estranha sobrinha que ela amava como uma filha, tal como Agnes amara Serenity.
Ao longe, o crepúsculo chegara e um pequeno ponto prateado brilhava no céu. Eiji e Liam estavam completamente esquecidos. Linda agora só podia pensar no que o futuro lhe traria.
Gabriel beijou-lhe a orelha e Linda não conseguiu evitar dizer, pela primeira vez, a palavra mais dura e profunda de uma mulher apaixonada:
-Amo-te.

Luchia sorria, como se soubesse que tudo aquilo iria acontecer. Talvez soubesse, Linda não sabia. Afinal, seu poder consistia em guardar os sonhos dos sonhadores, garantir que nunca faltasse sonhos para guiar a vida e o destino dos mortais. E para ela… bem, ela não controlava o seu destino. Talvez porque ela já sabia o que ele lhe traria.
Levou a sua mão livre ao ventre, pela primeira vez, ansiosa por viver o futuro.
Desta vez, a Guardiã não estava sozinha. Suas irmãs, sobrinha, pais, irmão e amigos estavam com ela. Mas, mais importante, o seu Guardião estava com ela.

Ao longe, apareceu a fazenda da Herdade. Mas nenhum deles tomou consciência do horizonte, se não fosse o ‘aqui’ muito mais importante do que o ‘ali’. Não fosse a fantasia tão importante quanto o real. O amor tão importante quanto a amizade.
Os sonhos tão importantes quanto a esperança.

FIM

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por Bun em Dom 05 Jun 2011, 17:06

Olá! Very Happy

Bem, último comment né....vou ficar com saudades. Lagrimas

Tenho passado por aqui nos últimos dias para ver se tu postavas e hoje finalmente cá estava o ansiado capítulo! Fiquei contente.

Começando pela Luchia, que dizes que te apaixonaste por ela, bem eu também! Que cuuuteeeee! Linda e muito esperta. Mas ela com todos aqueles poderes, hum, fiquei a pensar que tipo de pessoa seria ela no futuro..

E o Kenji, pai e rei, uau ele cresceu mesmo. E com mais um bébé a caminho. O que foi imperdível foi o facto de ele ter ensinado à Luchia a chamar Cecily à Cecília! Lool. Aquele rapaz deve ter vontade de morrer!

As músicas que escolheste ficaram mesmo bem, encaixam perfeitamente nas cenas. Ficou magnífico.

Amei a introdução, com a Linda e o Gabriel, Razz. Ele foi tão querido a por a mão na barriga dela. Ele é mesmo fofo... Esperancoso

Mas a cena da Linda a acordar na relva,looool. O Eiji é mesmo idiota! Devia tê-la acordado!

Fiquei com imensa pena da Linda e o Eiji terem só ficado amigos. Gostava mesmo que tivessem ficado juntos. Mas pronto, foi giro saber que ele passou a ser um protector dela. Pelo menos ficaram mesmo bons amigos.

Mas gostei de teres desvendado como seguiu a carreira de cada um deles.

E a Cecy e o Setsu realmente...amigos com beneficiências...tss tss. Tou com a Mari e os planos dela (que aparentemente ninguém são teria Brincalhao)

Agora a cena da chegada do Gabriel, bem só faltava o cavalo ser branco! Que entrada!

E que dizer do que se seguiu, deve ser só das cenas mais cutes e românticas que li. Que queridos! Realmente foram mesmo feitos um para o outro.
Ficou tão giro teres feito o final entre ele a Linda e também a Luchia. A sério gostei mesmo muito.

E é mesmo triste ver a palavra FIM.

Mas enfim a vida é mesmo assim.

Gostei muito de ler e comentar esta tua história e ainda bem que te conseguimos finalmente convencer, lol, que tu até escreves bem.

Vou sentir saudades.

Bem então beijos e abraços muito grandes e até qualquer dia Ana.

Só uma coisa, se decidires voltar a escrever um dia destes, mesmo que seja daqui a imenso tempo, manda mp a avisar ok? Wink

Terei todo o gosto em voltar a ler o que escreves.

Boa sorte para ti. Simpatico2

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Sex 10 Jun 2011, 16:47

Olá Bun.
Antes de mais, quero agradecer-te pela assiduidade de leitora. E depois, pelo teu comentário que me provocou um sorriso na orelha só de ler.
Acho que o mais importante a dizer é acerca do fim de Linda. Admito que o Morfeu não fora imaginado desde o inicio, mas nunca pensei que a Linda acabasse com o Eiji.
Há que ver os motivos:
1. Ela dá-se melhor com ele como amigo e, quando são melhores amigos, a transição na relação chega a ser dificil. (Conheço um caso na vida real). Das duas uma: ou ela perdi-o como amigo ou namoravam mas eram amigos acima de tudo.
2. Ela é uma miuda racional de 16 (no inicio da historia), ao contrário do irmão e de Mari que são romanticos (ainda que o recusem a admitir). Melhor dizendo, ela não procura o amor da mesma forma que os outros dois. Custou-lhe mais a admitir que gostava do Eiji e ainda mais a apaixonar-se verdadeiramente (27 anos - fim da história)
3. Qual é a probabilidade de a Linda casar-se com o primeiro namorado que tem, depois de anos em "clausuras", sem conhecer verdadeiramente o sexo masculino, estando dentro de uma relação muito forçada (Pelo menos a meu ver. O Eiji é o primeiro rapaz que a acha bonita e que admite gostar dela. Viveu uma vida amada pelos avós, mas ignorada pelos pais e, ocasionalemente, pelo irmão. Fora o avô, não teve nenhuma companhia masculina no seu crescimento. Isso pressa um pouco uma pessoa ansiosa por amar e ser amada, não? Matreiro) e sem conhecer verdadeiramente o rapaz? Porque eu gosto de criar personagens com defeitos (ok.. a Luchia é excepção... Matreiro) e o Eiji também os tem. Na fanfic, esses defeitos chocaram com os segredos de Linda e a própria disse a verdade: Não se conheciam verdadeiramente.

Daí que tenha tentado colocar o Eiji em primeiro plano e toda a fanfic, mas reservar-lhe um plano obscuro no epílogo, porque não o queria com a Linda no final. E como sou romantica, vei a história de Morfeu e Agnes.

(alguma duvida desta explicação, avida Wink)

No que toca ao resto, obrigada. A Luchia foi feita para agradar, apenas. Queria que as músicas dessem um toque mágico à cena e estou a ver que consegui esse efeito. As músicas são religiosas, mas são tão famosas que eu aprendi a tocar a primeira na flauta e a segunda é um das minhas favoritas (versões distintas cantadas pelas Celtic Woman e Celine Dion).

Era para pôr as ideias da Mari, mas mudei de ideias. Fica ao vosso critério o que ela iria fazer...

No que toca à escrita, estou triste. Adoro escrever e tenho tido montes de ideias. Versões de contos de fadas, fanfics de Sailor Moon, Swan Princess e Harry Potter e até mesmo originais me vêm à cabeça e uma subita vontade de escrever. Estou neste momento e tentar ver que acabo pelo menos um dos contos até ao fim do verão. Se sim, posto (mandando pm, primeiro Smile) e cruzo os dedos para ver se gostam.
Destas ideias todas, há dois tipos que nunca voltarei a escrever. As de Harry Potter (muito complexas) e uma sequela de A Guardiã dos Sonhos. Como viram, deixei muita coisa em branco para uma sequela. O que acontecerá a Setsu e Cecília? Correrá tudo bem na segunda gravidez de Mari? Que poderes tem Luchia? Porque é que a figura baixa queria matar Gabriel? Qual é o papel de Liam nisto tudo? Terá Gabriel ciumes da proximação de Linda e Eiji? Enfim, não pdoerei voltar a escrever, mas se alguém quiser... por mim tudo bem Smile

Mais uma vez origado. Também a mim me entristece ler a palavra FIM mas, ao mesmo tempo, dá-me orgulho porque começei este projecto e acabei e, pelo caminho passei por várias experiencias agradáveis que só o forum de SMPT me podia oferecer.

Até mais (por enquanto...) Smile

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por lulumoon em Sab 11 Jun 2011, 07:58

*Vem a Histérica*
ACABOU!!!!!! ;_; Nem acredito. Venho há semanas ver se já estava aqui o epilogo e agora que ele aparece escrito eu não quero que acabe! :{
Owh.. u_u Esta fic deu-me tanto gosto em acompanhar. Valei a pena, de verdade. Eu sempre disse (e falei verdade) que tu escreves imensamente bem. Foi a escrita mais rica e envolvente que eu encontrei cá no forum e seria um atentado não to dizer!
Antes de falar na fic em geral, vou falar deste Epilogo.

Sinceramente nao sei se fiquei admirada ou não por a Linda e o Eiji não ficarem juntos. No final do ultimo capitulo algo me disse que não era certo eles serem um casal. Talvez por toda a quimica que existia entre o Morpheu e a Agnes e que estava ausente entre o Eiji e a Linda. Como tu propria disseste, havia sim amor entre eles, mas era mais de amizade, de irmãos, não de paixão. Era isso que faltava para eles serem feitos um para o outro e seria uma pena que não tivesse aparecido a reencarnação do Morpheu. Seria sem duvida um historia incompleta. Ia ser muito frustrante ver a Linda a acabar sozinha e sem a sua alma gemea.
A entrada do Gabriel foi mesmo à principe. E vivam os cavalos! Yei! Matreiro E aqui sim deu para ver toda a paixão sobretudo no contacto visual e fisico entre ele e a Linda. Esperancoso

A Luchia é a coisa mais fofa! Esperancoso Linda!
Gostei tanto da descrição fisica e psicologica dela. Imagino-a como sendo um verdadeiro anjinho! Esperancoso e Toda a sua densidade psicologica e os poderes que a envolvem tornaram-na ainda mais querida e adoravel. É uma personagem que dá curiosidade para ser explorada! Mas vá, não vamos expremer o leite todo á vaca, senão a magia e misterio perdem-se.

Gostei tanto de saber da Mari e do Kenji! Gostei tanto deste casal! Esperancoso Vou ter tantas saudades deles! ;_; A sério, eu gostei mesmo deles os dois, são mesmo... qual é a palavra... Apaixonados? Talvez! ^^' Fiquei feliz por o Eiji e a Linda manterem uma relação forte após o seu caso. E é bom saber que o Eiji conheceu alguem que o completasse tambem! ^^

Hahaha, em relação à Cecily e ao Setsu, eles são mesmo cabeças duras! Matreiro A relação deles fez-m lembrar um filme (que eu nao vi mas queria ver) chamado "Sexo sem compromisso"! Matreiro Acho que se adequa na perfeição! Matreiro era engraçado ver a historia deles por um prisma mais profundo. Acho que dava uma comedia! Matreiro

A small Lady e o edward tambem deixaram a marquinha cá no coração. <3

Enfim, esta fic vai deixar tanta, mas tanta saudade! ;_; Vou perder um dos principais motivos para frequentar o forum. ;_; Acho que tão cedo nao encontro uma fic como esta por aqui.

Aproveito para dizer o que achei da historia em geral.
Foi, como já disse, uma abordagem completamente nova ao mundo de "Sailor Moon" e a mais original que encontrei pelo simples facto de se centrar numa nova geração de guerreiras. Deu muito que pensar, o misterio dos inimigos, dos poderes de cada guerreira, o romance das personagens, os acontecimentos, as mortes (Gonçaaalllooo!!! :'{), as relações da familia real, tão densas e apesar de tudo bonitas, e algo que sempre adorei, os flashbacks, especialmente da historia da Small Lady e do Edward.
Adorei todos os capitulos, especialemnte aqueles mais dedicados ao Kenji e à Mari, como o do Ano novo, o de quando eles se conheceram oficialmente, e nunca poderemos esqueçer aquele fanatismo das raparigas pelos universitarios. No fundo foi aí que tudo começou... ! Awh! Vou chorar! ;_; Nem consigo aceitar que já acabou!

Aninhas, quando voltares a criar uma fic, tens mesmo de avisar por MP. Eu tenho que lê-la!
Bem, e já agora aproveito para dizer "Não abandones o forum" porque eu estou a criar uma fic nova (como já te tinha dito), é uma historia diferente das que costumo escrever, não existe fantasia, não está escrita na primeira pessoa, não é tão grande como angelical, e no fundo é uma experiencia da minha parte por experimentar coisas novas. Ainda estou a ponderar se coloco as personagens de sailor moon num mundo pararelo, ou se uso personagens completamente novas e por conseguinte ela fica na secção de fanfics gerais. Já a começei a escrever á bastante tempo, é uma escrita muito simples e sem complexidade, e pronto, se tu te mantiveres aqui no forum, seria uma honra que a lesses! ^^' Sem compromisso, obviamente! Matreiro

Por fim, mim vai ter muitas muitas, muitas, muitas saudades! ;_;
Esta fic ficará para sempre no meu coraçãozito! :')
Nunca deixes de escrever, que isto ainda vai valer milhões! Matreiro
bjinhos

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Qui 23 Jun 2011, 08:24

Oh Lulu nova fic Esperancoso Tenho que ler! Quando postares (e espero bem que postes) avisa-me, sff. Já estou curiosa e ainda nem li a sinopse.

Fiquei assim... emocionada com o teu comentário. E agora que me lembro, tiveste assiduidade 100%. Desde o primeiro capítulo até ao fim! Nem sabes como fico feliz de cada vez que leio um dos vossos comentários (e parto-me a rir com os teus Matreiro). Faz-me pensar se vale a pena seguir a carreira de escritora (tou a brincar... xDD)

A entrada dos cavalos não foi de propósito. Precisava de um meio de transporte que desse pouco tempo à Linda para se aperceber da chegada do Gabriel. Se ele fosse a pé, lá se ia a magia toda x)
Se há coisa que detesto nas escritas são clichés. Coisas romanticas que se repetem várias vezes. No entanto, uma das coisas que mais gosto no desenvolvimento de uma história é a "alteração" de um cliché. Pega-se numa ideia gasta e extremamente obvia e distorce-se a nosso belprazer.
Isso faz com que chegue a ser cada vez mais exigente nas histórias que leio. Quando li a tua primeira história, ainda estava dentro dos clichés. Já a segunda foi outra coisa. Foi a primeira que li acerca de anjos e adorei a tua história e a forma como a desenvolveste. Se as ideias gerais eram clichés, não reparei. Nunca li história do genero.

Estou a escrever uma história. Adaptação de um conto de fadas (se bem que pretendo tirar o "fadas" a este conto) com fantasia, como todos os contos de Grimm. Ainda vou no segundo capítulo porque começei a escrever dias antes do fim das aulas e depois vieram os exames ( e ainda estou em fase, infelizmente Mal disposto) e não pude escrever mais do que dois paragrafos por dia. Azar o meu, o segundo capítulo é um dos mais compridos desta pequena história.

Planeio acabá-lo e postá-lo. Só não sei se posto aqui no forum, ou vos mando por pdf.



E, mais uma vez, obrigada pela assiduidade, comentários e interesse na história que nasceu de um dia para o outro (verdade!) e que acabei por desenvolver em algo mais.

Até breve!

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por lulumoon em Qui 23 Jun 2011, 13:31

AnA_Sant0s escreveu: Nem sabes como fico feliz de cada vez que leio um dos vossos comentários (e parto-me a rir com os teus ). Faz-me pensar se vale a pena seguir a carreira de escritora (tou a brincar... xDD)

Ai nem brinques mulher!!! Se virares escritora bem que abandono Barcelos e vou dormir á porta da tua casa para te pedir autografos! muhahahaha! Matreiro

A sério, seria um gosto. E eu que compro poucos livros (isto é, praticamente nenhum Desiludido) ia dar-me ao luxo de convencer a minha mãe a oferecer-me livros teus! Very Happy Hehehe!

Eu posso dizer que não, mas gosto de clichés. Depende deles, mas adoro sempre um continho lamechas! ^^ Alguns enervam-me, porque eu tou a ler / ver e penso "agora vai acontecer isto" e acontece! Mal disposto' Isso odeio! É por isso que adoro Vampire Diaries, acontece sempre alguma coisa que não se está à espera! Esperancoso

Quando eu escrevi a minha primeira fic (Aquele atentado à lingua portuguesa o_o') tambem foi uma coisa que nasceu de um dia para o outro. Na altura nunca tinha pegado num livro, nunca tinha sequer ponderado em escrever, e quando dei pro mim, enrolei-me tanto, que começei a desenvolver um gosto que não conhecia e que se prolongou até agora e me ajudou a melhorar a linguagem escrita. No teu caso, notou-se que já sabias o que estavas a fazer e isso é optimo porque estás sempre a subir de patamar! ^^

A razão pela qual não consideraste Angelical um cliché, foi porque na altura só se falava em Vampiros. Anjos nem vê-los. Mas passados cerca de 4 ou 5 meses começaram a ser lançados imensos livros sobre o tema, como o "Hush, Hush", o "Fallen" e por aí (até fiquei revoltada -_-'). Ainda assim cada história é diferente.

Em relação a essa nova historia, quero ler! Esperancoso Vai ser longa como esta, ou é uma versão curta, tipo one-shot? Ai estou mesmo curiosa. Se puderes diz qual vai ser o conto adaptado! Esperancoso
por mim é-me igual se postas ou mandas por MP. Quero é ler! Very Happy

Ah, e a que eu estou a escrever devo postar agora nas férias de verão. vou deixar acabar a maré de exames e coloco aqui no forum. Smile Mas por favor, não tenhas grandes expectativas. Jà estou a escrevê-la há algum tempo, mas não é nada de mais. Desiludido

bjokas

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Sex 24 Jun 2011, 13:11

lulumoon escreveu: Em relação a essa nova historia, quero ler! Vai ser longa como esta, ou é uma versão curta, tipo one-shot? Ai estou mesmo curiosa. Se puderes diz qual vai ser o conto adaptado!
por mim é-me igual se postas ou mandas por MP. Quero é ler! Very Happy

Ah, e a que eu estou a escrever devo postar agora nas férias de verão. vou deixar acabar a maré de exames e coloco aqui no forum. Smile Mas por favor, não tenhas grandes expectativas. Jà estou a escrevê-la há algum tempo, mas não é nada de mais.

bjokas

Mentirosa! Toma toma
Aposto que, se continuares o teu tipo de escrita e descrições e apenas alterares as bases da histórias (melhor dizendo, não acontecendo cenas semelhantes a Angelical - porque repetição é o pior inimigo de um escritor... não contanto os erros ortograficos xDD), a tua história vai-me dar imenso prazer em ler. A sério!

Espero ansiosamente pela tua história! Smile

Se algum dia publicar um livro, eu digo-te. Se bem que, se criares uma história que capte a atenção o publico, basta mandares o manuscrito para uma editora e rezar.... pode ser que um dia faça isso. Acredita, ideias não me faltam.

Acerca do meu conto. Não é one-shot. Não consigo escrever histórias assim Matreiro Mas vai ser mais curto que A Guardiã dos Sonhos (metade dos capítulos pelo menos).


Acerca do titulo. Vou dizer isto agora, que eu achei engraçado as coincidencias do teu caso dos anjos com o meu.
Há cerca de dois anos, no forum Disney Portugal, uma utilizadora comentou o seu desgosto pelas adaptações da Disney para a história Cinderella (e outros, mas principalmente este) e que, na sua opinião, só havia uma versão que ela gostava: Ever After. Eu fiz-lhe umas perguntas, fiquei curiosa e vi o filme (com a Drew Barrymore). Adorei. Cinderella sem magia "fantástica" mas ainda com a essência do conto de Grimm. Nesse mesmo ano, vi também uma adaptação do conto Branca de Neve (mas história de terror) chamado Snow White: A Tale Of Terror e fiquei maravilhada Esperancoso o que achei mais engraçado foi que, em certa altura, fiquei com a sensação que a Lilli (Branca de Neve) estava a apaixonar-se, não pelo principe, mas pelo Zangado xDD
Misturando isso com os animes (andava naquela de rever mais animes que Sailor Moon, como Zorro e Cinderella Monogatari ), veio-me duas histórias à cabeça. Uma era muito complexa e muito prevísivel., visto ser um conto de Cinderella A outra não. E é essa que estou a escrever.
Ironicamente, agora o que não falta são versões de contos (Capuchinho Vermelho, Bela e o Monstro...). Pergunto-me quanto faltará para aparecer a versão do meu conto. Mal disposto

Branca de Neve e a Rosa Vermelha.

Já ouviste falar? Se não diz ^^ A história é bastante diferente da Branca de Neve original, apesar de uma das protagonistas ter o mesmo nome.

A história vai-se chamar As rosas De Roquette e as protagonistas são (obviamente) as duas irmãs. Vai haver o mínimo de romance, com excepção do amor de irmã e alguma fantasia (melhor dizendo, duendes/anões, magia, animais falantes...).

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por lulumoon em Seg 27 Jun 2011, 15:33

Ah esse não conheço essa historia da "Branca de Neve e Rosa vermelha", mas pelo nome, acho que já ouvi falar, só não sei onde.
De facto, desde o ano passado para cá estão a criar-se muitas adaptações dos classicos animados. Um que eu até gostava de ver era "a rapariga do Capuz vermelho" porque achei que a realizadora arranjou uma forma interessante e moderna de jogar a historia. Infelizmente não vi, mas assim que tiver oportunidade vejo.
Já vi o Ever after! Esperancoso Várias vezes, chegou até a dar no Disney channel e eu adorava. Achei a adaptação lindissima e os personagens bem explorados. Puseram lá um Leonardo Da Vinci! *_* E em parte ele conferiu o toque mágico que supostamente não existe na adaptação, pelas suas ideias (nunca me esqueço de ele caminhar sobre a água calçado com uma especie de barcos Esperancoso )
Tambem já vi uma adaptação da Branca de neve, mas era um pouco estupida, porque o principe transformou-se num urso e tal :/ Porém, a atriz que fez de Branca era linda para o papel (A kristen não sei quê, que dava em Smallville e fazia de Lana)
O que não falta mesmo são adaptações modernas da "Gata borralheira", mas essas não aprecio tanto, apesar de gostar o suficiente para ver, como é o exemplo de "a cinderella Story" com a Hillary Duff, "Another Cinderella Story" com a Selena Gomez, e por aí.
Agora os produtores andam todos virados para as Brancas de neve, pelo que vai estrear, ou já estreou, um filme chamado "A Branca de Neve e o Caçador" (Se calhar até é esse que viste) e um que é simplesmente "Branca de neve".
Pessoalmente, adorei quando começaram a fazer estas adptações, e tenho todo o gosto em vê-las, não tenho nada contra e dão-me imenso prazer, mesmo! Smile
Tens é de me falar um pouco dessa história que vais adaptar porque não conheço, e isso fez-me lembrar, que no forum Disney Portugal, tambem cheguei a ler comentarios de alguns usuários a falar de uma qualquer coisa Rose (?), que se não me engano era qualquer coisa relacionado com a bela adormecida, mas não entendi. Matreiro
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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Seg 27 Jun 2011, 15:49

Não gosto das adaptações da Disney com as malta teen (Selena,a Hillary...). São muito paozinho sem sal, sem originalidade nenhuma.
Das mais recentes irei ver todas porque como não são teen acabo sempre por ver. Uma sei que vai ter uma actriz conhecida e talentosa (não sei o nome), chama a atenção. Outro deverá ter a Kristen Stewart. Esse já não sei se verei Matreiro
Acerca do Capuchinho... foi uma desilusão. Uma boa ideia mal aproveitada, mas não te quero influenciar. Mais vale tar calada xDD

Ah e esse filme da Branca de Neve foi o mais esquisito que já vi. A Kristen não devia ser Branca de Neve. Nota-se a maquilhagem e os olhos... ela não convence. E os anões é mesmo brincadeira Mal disposto
Acerca da Bela Adormecida. Na história, a rapariga esconde-se na floresta sob o nome de Briar Rose. É daí que vem o nome Smile

Spoiler:
Branca de Neve e a Rosa Vermelha fala das duas irmãs e das suas aventuras.
Uma mulher que morava na floresta, plantou duas roseiras de rosas brancas e vermelhas e desejou ter duas filhas iguais. Daí que tenha nascido a Branca e a Rosa. Elas eram muito bonitas, amiguinhas de todo o mundo (bah já sabes a história Toma toma)...
Num dia de inverno, um urso pediu-lhes abrigo. Apesar do medo, as meninas ajudaram-no e, quando se aperceberam que ele não lhes fazia mal, ficaram amigos. Brincaram com ele todo o inverno até que ele partiu no inicio da primavera. Ele disse, quando as meninas perguntaram porque é que ele ia embora, que tinha que resgatar o seu tesouro, roubado por um malvado duende.
As meninas passam o tempo a passear pela floresta e por duas vezes encontraram um duende em sarilhos. Em todas as vezes, a unica forma de o salvar era cortando-lhe a barba. Apesar de salvo, o duende é muito mal agradecido e maltrata as meninas.
À terceira vez que se encontram, o urso aparece e mata-o, reclamando o seu tesouro... e mais do que isso. O duende havia-o transformado em urso anos antes. Ele era na verdade um principe (foi daqui que vieram buscar o urso da Branca de Neve com a Kristen...).
Final da história. O Principe casou-se com a Branca de Neve, a Rosa com o irmão dele e as meninas - mais a mãe - mudaram-se para o castelo. A mãe trouxe as roseiras consigo.

Ok ok, não sou lá muito boa a contar este conto. Mas é mais ou menos isto. Claro que eu vou mudar muita coisa...

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por Bun em Seg 27 Jun 2011, 16:16

Olá!
Bem gostei bastante do que li por aqui. Já estou cheia de curiosidade para ler a tua adaptação!
Aposto que vai ficar bem giro. Também não conhecia a história, nem sequer tinha ouvido falar.
E Lulumoon também quero ler a tua! Ainda não tive tempo, ando há meses, literalmente, Matreiro, para ler a Angelical. Li os dois capítulos finais há já um bom tempo e fiquei cativada, mas devido ao tamanho,lol, deixei para ler agora no Verão, quando finalmente me livrar do suplício dos exames, Mal disposto''.....

Vou ficar à espera das vossas histórias. Smile

Beijinhos*

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por Telma-chan em Seg 11 Nov 2013, 11:01

Aninha ( posso te chamar assim, não posso? ) eu confesso que achei a tua história um poco confusa, quer dezer, isto é a minha forma de dizer que gostei.
Memo assim, eu acho que ela tá ENORME mas linda!
Eu já tinha lido esta Fic já há algum tempo, mas só agora me lembrei de escrever um comentário. Tipo: Tou no Chrome e olho pro marcador do Fórum, dps lembro-me da tua história e clico lá! Matreiro

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Re: A Guardiã dos Sonhos

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