A Guardiã dos Sonhos

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Qui 10 Jun 2010, 16:37

**

Os dois primeiros pares apostaram nas danças de salão tradicionais. O primeiro par, da escola de Juuban, dançara cha-cha-cha sem erros, se bem que não fora uma actuação brilhante, na opinião de Linda. O segundo dançara tango.
De acordo com as regras, qualquer tipo de dança era bem-vindo, principalmente um novo estilo que agora denominava, que unia vários estilos de dança num só. Dança Moderna, chamam uns, enquanto os outros ignoram o seu nome. Linda partilhava a mesma opinião. Não achava importante o nome da dança, apenas os seus movimentos. Sabia dançar quase todo o tipo de dança no mundo e sentia-se orgulhosa desse feito, se bem que nunca o demonstrara a ninguém.
A dança acalmava-a não só dos desastres diários como também das suas insónias. Infelizmente, nem o simples pensamento de que iria dançar em frente a uma dúzia de escolas conseguiu acalmá-la. Pior, colocou-a num pior estado de ansiedade.
E isso, bem como a ira que sentia, poderia estragar a sua actuação. Estragaria a conexão que tinha com Eiji, fazendo-a dançar uma coreografia fria e monótona, como se ela fosse um mero robô. Não, gritou para si própria mentalmente. Edward não lhe estragaria a actuação. Já lhe tinha arruinado muita coisa ao longo da sua vida, mas a dança não. E muito menos a sua relação com Eiji.
Linda evitava olhar nos olhos do parceiro. Estava tão cega de raiva que quase descarregara as tensões negativas em cima do amigo. E Linda nunca se perdoaria se tal tivesse acontecido.
Desde que descobrira que o pai tinha renegado o irmão, deixara de sentir qualquer compaixão pelos pais. Ou pelo menos de pensar neles como parentes de todo. Linda ficara sempre do lado de Kenji em qualquer discussão com os pais, mas parte dela sempre esperara o melhor de cada conversa. No fundo, esperava que eles pedissem desculpas e que tudo ficasse bem. Pelo menos quando era uma menina que cariciava de atenção dos pais.
Agora o passado já lá fora e Linda gostava de pensar que aquele mundo podia ser chamado seu. E o outro onde ela vivera toda a sua infância uma simples miragem.
Infelizmente, o destino decidiu dar-lhe um pontapé nas canelas. Linda nunca imaginaria que sentiria tanta raiva ao ver o pai no mesmo espaço que ela e Kenji. Não imaginava que estava longe de deixar de se importar.

Eiji agarrou a mão dela e, juntos, avançaram para o centro da pista. Um leve momento de silêncio foi tudo o que Linda teve para organizar os seus pensamentos e focar-se apenas na coreografia que iria realizar.
A música iniciou. Tal como na aula de Educação Física, era uma música calma que, por volta dos vinte segundos, acelerava o ritmo.
Ela rodou, sentiu os pés a enrolarem-se para a frente e para trás, sob o risco de tropeçar. Fez os movimentos muito rápidos e precisos, sem uma única falha. Tentou mostrar graciosidade nos seus movimentos. Rodou uma outra vez, com a ajuda do parceiro. Satisfeita, olhou para o colega e foi então que notou em algo para seu choque. Eiji parecia um pouco perdido naqueles movimentos. Teria ela exagerado? Ele não se enganara nos passos, mas dava para ver que tempo não faltava para que tal acontecesse.
Virou-se de costas para ele e deixou o seu corpo roçar contra o dele, dando assim uma pequena desculpa para a perda do ritmo, de modo a que ele a acompanhasse. Ele sorriu para ela, agradecido. Ele tinha as mãos nas ancas dela e o rosto parecia pousar no pescoço dela, a fim de lhe dar um leve beijo. Pelo menos fora a impressão que toda a gente no pavilhão tivera. Cabeças moveram-se e os olhos de ambos cruzaram-se. Azul e castanho emitiam um brilho estranho que não escapara a nenhum deles.
Agora os corpos deles não se separavam. Sempre que eram obrigados a seguir a coreografia e a separarem-se para cada um para o seu lado, sentiam uma febre insuportável e tinham que voltar a estar juntos. Linda deixou que Eiji percorresse o tronco dela com as mãos, até chegar às mãos dela, pousadas junto às ancas e a levasse a uma pequena valsa apaixonada.
Os rostos de ambos estavam agora muito próximos e a tentação começou a ser difícil de aguentar.
Nenhum deles notou que estavam muito bem sincronizados com a música e que já não seguiam a coreografia dada pelo Sensei Amadeus. Agora era uma coreografia mais complexa e com muito mais paixão que Linda não sabia de onde vinha, tanto que um membro do Júri teve que fazer um leque com uma folha de papel com tanto calor que aqueles jovens transpiravam naquela dança.

A música parou. Eiji e Linda recuperaram o fôlego, sem nunca tirarem os olhos um do outro.
Ouviram-se palmas. Os dois jovens deram uma longa expiração, aliviados.
A primeira parte estava terminada. Ambos sentiam-se extremamente satisfeitos com a sua apresentação.
Mas havia algo mais que Linda não podia negar. Naquele momento que os rostos estiveram tão próximos, ela esqueceu-se onde estava e tudo o que queria era encostar os seus lábios aos dele. E podia jurar a pés juntos que ele queria o mesmo.
Mal esconderam-se nas sombras, Linda e Eiji foram logo interceptados por Amadeus, que discutira furiosamente pelo facto de eles não terem seguido a coreografia imposta. Mas eles não se importaram com o sermão, que quase nem chegava a sermão, pois o Sensei estava deveras satisfeito com a participação de ambos. Linda só conseguia escutar as palpitadas rápidas do seu coração e sentir o cheiro a suor que emanava dela e de Eiji.
Quando o Sensei se afastou, eles voltaram a estar sozinhos. Pelo menos, sem ter ninguém no raio de cinco metros.
Linda sabia que ainda tinha estampado no rosto um sorriso idiota. Felizmente, também Eiji sorria.
Alguém os interrompeu. E não puderam dizer mais nada um ao outro.

**

Se Kenji achava que já tinha visto de tudo, então ainda não tinha visto a irmã a dançar com Eiji. Achava que os dois seriam bons dançarinos e fariam uma boa prestação. Mas aquilo fora demais. Fora perfeito. Ambos mostraram os dotes de dançarinos profissionais que possuíam e ainda tornaram aquela dança verdadeira e única.
Kenji sabia que Eiji gostava de Linda, sentimento que ele não sabia se era correspondido. Pela forma como o companheiro falava com Linda, parecia que ele gostava mais dela do que ela gostava dele. No entanto, mais recentemente, ele pôde notar em alterações no comportamento da irmã, mas achara que era apenas uma grande amizade a desabrochar. Afinal, era um sentimento mais forte.
Não sabia como se sentia acerca desse assunto. O facto de um rapaz gostar da irmã deveria preocupá-lo, considerando o desastre que ocorrera da última vez com Setsu, mas não queria intrometer-se na vida dela. Protegê-la, mas ao longe.
Os seus olhos encontraram Mari. Esta passava a mão pelos seus cabelos apanhados num totó. O quanto enervava-o ver raparigas de cabelos apanhados e com roupas parecidas com as dos rapazes. Parecia que se queriam esconder.
E isso deu a Kenji que pensar.
Foi o único a notar que Mari se levantara, com um ar tonto e adoentada, de quem parecia que ia desmaiar. Não deu por si a correr para junto dela, amparando-a nos seus braços.

**

Mari sentia-se mal. Doía-lhe a barriga, doía-lhe a cabeça e sentia a visão turva. Tentou levantar-se, mas perdeu o equilíbrio. Sentiu o seu corpo a cair para o lado esquerdo, ate que uns braços fortes a agarraram. O som da respiração dele já lhe parecia natural e único como uma impressão digital.
Kenji.

Era a segunda vez que ele impedia Mari de dar uma grande queda. Parecia que ele estava sempre lá para a salvar.
-Mari, querida! Estás bem? – Ouviu a voz da avó junto de si, pegando-lhe no braço. – Obrigada Kenji por a apanhares. Podes sentá-la aqui?
-Não, não! – Protestou a loira, tentando afastar-se de Kenji, que a elevou do chão. – Eu estou bem.
Kenji tornou-a para si, examinando-a. Mari sentiu uma sensação esquisita no estomago, como o olhar azul dele estivesse carregado de algum tipo de radiação.
-Não me parece. – Disse Aiko, pegando em qualquer coisa que tinha na mala. Tirou um pequeno embrulho com bolachas e um sumo. – Toma, estás pálida.
-Estou bem avó! Apenas sinto-me um pouco tonta. – Respondeu a loira, tentando libertar-se de Kenji. Contudo, não recusou o lanche.
-Eu levo-te lá fora se quiseres. Tens mesmo cara de quem precisa de apanhar ar. – Ouviu Kenji oferecer-se, o tom de voz um pouco apressado. -Setsu vens connosco?
-Ok, ao que parece a filha da Misaki ainda vai demorar, por isso… que tenho a perder...
Mari semicerrou os olhos, lembrando-se da mãe da amiga. Ao seu lado, o lugar outrora ocupado por Misaki estava vazio. Mari não se deixou preocupar muito com isso. Todavia, o olhar nervoso de Kenji a inquietou. Porque é que ele ficaria tão incomodado com o súbito desaparecimento de Misaki?

**

Linda agarrou a mão de Eiji instintivamente. Uma voz dentro de si exclamava que aquela era a hora. De todas as pessoas, não esperava ver aquela pessoa ali no pavilhão, tão perto dela. Primeiro o pai, agora ela? Deveria esperar a mãe também? O desmascaramento total?
A ideia parecia plausível assim que Misaki sorriu para os dois jovens, Eiji cumprimentando-a como uma velha amiga. Misaki tornou-se para ela.
Era agora…


Última edição por AnA_Sant0s em Dom 30 Dez 2012, 16:34, editado 1 vez(es)

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por lulumoon em Qua 23 Jun 2010, 15:30

OMG! OMG!! OMG!!! Até tropeçei para ligar a luz! (sim, eu leio coma luz apagada! Matreiro) Ok, este capitulo foi uma dádiva dos ceus! andava desesperada por ler qualquer coisa decente, principalmente agora que acabei os exames (weee! ^^ ), mas sinceramente nao encontrava nada... Até Agora!
OMG! (outra vez) Este capitulo foi dos melhores sem duvida!Fiquei mesmo vidrada!
Vou por partes:
1º - Gostei muito daquele momento filosofico com que começa o capitulo! As duvidas da Linda fazem sentido, e realmente é verdade (Só agora é que me apercebi), a Linda nunca desmonstrou qualquer sonho! Gostei de saber que a dança já é um começo, senao o maior desejo que ela tem!
2º - concurso + competiçao = Nervosismo! Eu fiquei nervosa! Pelo menos em alguns momentos! Toda aquela agitaçao em torno do cabelo, a multidao a assistir, o amigos ansiosos...! Hum, e depois ainda deixas o pessoal com a pulga atras da orelha por causa dos expectadores invulgares! Nem brinques, quando a Cecilia disse que a Mae podia assistir até fiquei com medo! Eu sei lá o que é que a mulher podia fazer! Mas tu ainda conseguiste dar-me mais medo! Edward?! Edward no concurso?! Oh Santa! Eu imaginei logo um escandalo e uma discussao entre ele e a linda a altos berros em frente a toda a gente, mas depois reflecti, e vá, sao da realeza, devem ser discretos! Matreiro
3º - OH MY GOD!!! A dança do Eiji e da Linda! Caí da cadeira! Nem acredito! Toda aquela furia afinal resultou em algo bom! ^^ Ela está in love! que lindo! Esperancoso Nao era mau eles beijarem-se! eu deixo! Eu até incentivo! Eu sou viciada em Romance, sim? Nao me faças sofrer! ^^ Kekeke Ah e o Kenji e a Mari tambem tem de se envolver! Obrigatoriamente!
Por fim, o que é que vai acontecer?! mal posso esperar! o.o
Quanto ás mudanças a nivel escrito e da Historia, sabes que para mim a tua escrita já era interessante, mas assim tambem nao está mal! Toma toma

Quanto ao tu odiares a Linda, eu sinceramente gosto dela, é calma e sabe o que faz! Isso nao é mau! Fazem falta pessoas dessas por aí! (Olha eu dar-te graxa! Matreiro) Na minha opiniao, as personagens que criamos têm sempre algo de nós! Cada um delas tem uma semelhança connosco, quer seja um traço fisico, psicologico, ou até mesmo uma necessidade de encontrar alguem com determinadas caracteristicas (Tipo o Eiji, talvez!)
Claro que podes mudar algumas coisas na Linda, mas ela vai ser sempre ela com novas virtudes/defeitos! Agora, muda apenas o que precisas, nao aquilo que queres porque nao gostas! Wink
Bom, acabei por hoje!
Gostei muito do capitulo, blé, blé, blé, quero mais! Matreiro

bjokas

PS: Eu devia ter atenção aos acentos nos comentários, mas nao me apetece! Matreiro Sorry! Matreiro

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Sex 25 Jun 2010, 08:20

Muito obrigado pelo comentário lulu Esperancoso Adorei lê-lo, até porque foi um comentário em peras.
Sinceramente não sei quando sairá novo capítulo. Fiquei desiludida porque passaram-se duas semanas e apenas tu comentaste. Ás tantas paro de escrever, pois estou a ver que as minhas historia não interessam a ninguém. Enfim, estou muito desmotivada :/

Em relação ao comentário, nunca, JAMAIS poria a Linda aos berros com o pai à frente de todos. Fazia mais sentido pôr a Chibiusa e o Kenji, mas pai e filha não. Não faz parte da natureza deles Matreiro

Não sei quanto tempo vai demorar até voltar a postar, mas até meados de julho está garantido um novo capítulo Smile


P.S A relação Mari-Kenji é baseada numa musica sem querer. Digo sem querer porque já imagina a relação de um determinado modo e, de repente, conheço esta música que encaixa perfeitamente na relação dos dois.
http://www.youtube.com/watch?v=PglsdjKvYcY
Caso não tenhas entendido o porque, eu explico-te, mas acho que dá para entender porque esta música combina tão bem com o Kenji e a Mari. xDD

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por lulumoon em Sex 25 Jun 2010, 12:29

Eu já gostava do casalinho Kenji e a Mary, mas depois deste video ainda gosto mais! Realmente é perfeitamente notavel a associaçao que fazes da musica á relaçao entre eles . Nao me digas que te inspiraste na Taylor Swift para criar a Mary? Por acaso ela é a unica personagem que nao consigo desenhar na minha cabeça por causa da personalidade! Desiludido
REalmente imaginei logo que a Linda e o pai nao tivessem perfil para uns berros, mas estou curiosa por saber o que tens em mente em relaçao ao reencontro deles!
Agora, por favor, nao deixes de escrever! ;_; Nem que seja só para mim! Eu acho que esta historia é a melhor de SM que tem cá no forum, e seria um desperdicio nao a continuares! Estou farta de ler fic's sobre o que acontece depois da destruiçao do caos e blá blá bla! É muito mais interessante ver uma geraçao totalmente renovada, com novo enredo, mas que ainda assim mantem a essencia de Sailor moon! Acredita que lamento ser a unica a comentar neste momento, até porque vejo muitos comentarios feitos á toa por aí e isso deixa-me meio parva!
Por favor, nao desistas de escrever! Nem que seja só para ti (Ou para nós! o.o), é tao bom ler estas coisinhas! É da maneira que saimos um pouco da realidade e sonhamos! (espirito da Guardiã do Sonhos! Matreiro)
Se eu tivesse visto a actualizaçao mais cedo podes ter a certeza que ja tinha comentado! Este foi um dos melhores capitulos, só tens de continuar!
bjokas

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Sex 25 Jun 2010, 13:39

Obrigada lulu. Sabes mesmo como por um sorriso na minha cara x)
Não me baseei na Taylor para criar a Mari. Alias, a relação Kenji-Mari já estava bem pensada quando ouvi esta música. Apenas achei uma extrema coincidencia e, inspirada pela musica, decidi criar determinados momentos entre estes dois. A sério, já imaginava a Mari a jogar futebol com o Kenji para este depois largá-la para ir ter com a namorada e a coitadinha ficar sozinha com a bola na mão.
Digo já que as personalidades da Cecília e da Mari estão baseadas nas navegantes. Queria que a Mari fosse um pouco como a Urano, a Júpiter e a Venus (no sentido de lider e tal..) e a Cecília a mais calma em situações de risco, tal como a Neptuno, a Mercurio e a Marte. Mas tenho que admitir que a minha irmã tem um pouco a ver com a Mari, com a excepção que a minha maninha não é tão desconfiada e tem olhos azuis. Já o aspecto da Cecília baseei-me em várias colegas de turma.
O Setsu veio ao calhas (como ja sabes, ele nem era para aparecer muitas vezes Matreiro) e o Eiji... bem, é o tipo de rapaz que sonho.

engraçado como nós pedimos sempre o contrário de nós. Tenho uma amiga morena cujo 'homem de sonho' é loiro de olhos verdes. Eu, sendo morena de olhos azuis-esverdeados, contento-me com um loiro de olhos castanhos. É estranho.. xDD

Sendo assim, continuarei a escrever. Também eu gosto muito desta fanfic. Não sou muito boa com personagens canon (a outra fanfic é a prova disso Mal disposto) e escrever algo pós-batalha e ainda por cima com a relação lamechas da Usagi e do Mamoru é uma daquelas ideias para esqueçer. Preferia uma Usagi mais racional. E daí nasceu a Linda.

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por lulumoon em Sex 25 Jun 2010, 15:54

Ia gostar de ver o kenji a deixar a Mari com a bola na mao! Já imagino a cena! lol
Por acaso sempre associei a Mari á Rita, por ser mais... coiso! Mas realmente a Urano, sobretudo, faz sentido. Nem me tinha lembrado dela, mas é verdade! A cecilia tambem associo á neptuno e á mercurio!
Olha que essa coisa dos gostos contrarios é bem verdade! O meu pai é loiro de olhos azuis e sempre me disse que os loiros preferiam as morenas e vice versa ( o caso da minha mae que é morena de olhos castanhos), e eu tenho uma certa tendencia a venerar loiros de olhos azuis (Darien e Gustavo, sao a prova disso! Matreiro)
Tambem já estou farta de Bunny/Gonçalo (em certos pontos). Quando começei a ler esta fic nao entendia quem era a Linda, porque já estava á espera de outra versao da bela vida dos reis de Cristal Tokio Mal disposto' mas acho que foi o facto de ser diferente que mais me atraiu! acho que tambem nao consigo adoptar personagens já criadas. Ficam... estranhas!
É por isso que esta historia tem de continuar! ^^

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Sex 09 Jul 2010, 07:39

Eu sou uma desgraçada. Afinal tenho que dividir o capítulo em três. Tudo isso porque estava a escrever a segunda parte e, de repente, já vou em 14 páginas escritas em arial, tamanho 12. Ou seja, é muita coisa... (cerca de cinco/seis posts +/-)

EDIT: Afinal só chegam para três xDDD

E com isto posto mais um. Estou em andamento com a outra fanfic, apesar de estar um bocado 'empacada' em relação ao capítulo que tenho entre mãos.
Neste capítulo, não avancei muito. O mais importante ainda não aconteceu (ás tantas ainda vai haver uma quarta parte Mal disposto), mas eu tinha que escrever determinadas cenas. No final do capítulo, haverão algumas notas, pois há coisas que tenho que acrescentar (mas não faz sentido, enquanto ainda não se leu o capítulo Matreiro)

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(actualizado a 23/02/2013)

Capítulo 20. Os dançarinos | A Flor de Mercúrio parte 2


Linda sempre se perguntou quais eram os limites do cristal prateado sob a família real. Poderia ele impedir a família de envelhecer precocemente ou então adiar o envelhecimento em si? Poderia impedir a morte?
Ela não sabia. A avó nunca se dera ao trabalho de lhe contar. Tudo o que Linda sabia era que o cristal permitia que a avó, com mais de sessentas, aparentasse os quarentas, assim como o avô e as navegantes. Permitia que eles se mantivessem conservados perante o tempo.
Os seus pais também pareciam terem sido abençoados por esse poder. Edward, com os quarentas já assentes, ainda aparentava os trintas. Já Small Lady era outra história, que não interessava a Linda naquele momento.
Apenas lhe interessava saber se o cristal poderia de facto impedir que ela morresse jovem. Sim, porque Linda sentiu como se tivesse morrido e depois ressuscitado uma e outra vez. Podia jurar que o seu coração parara assim que Misaki se aproximara dela e de Eiji, com um meio sorriso nos lábios.
Podia jurar que os seus pulmões pararam de repente, sem hesitar, sem exigir oxigénio.
Em suma, Linda congelou. O seu corpo não se moveu um centímetro e até as suas pestanas permaneciam imóveis, espalhando o ar aterrorizado de Linda pelo seu rosto, agora pálido como um cadáver.
O seu corpo pedia uma inspiração. Os seus olhos pediam água. O seu coração pedia perda de ritmo. A sua mente pedia um buraco para se esconder, ou então um passaporte para Istambul.
Ali estava a mulher que lhe poderia arruinar tudo. Que iria deitar tudo aquilo que ela tentara alcançar por terra. Não era a rapariga mais popular e não tinha muitos amigos, mas era livre e não estava tão só quanto no palácio. Poderia Misaki mudar isso?
Esta ergueu o sobrolho, os olhos piscando entre Eiji e Linda. Linda olhou para o lado e viu que Eiji estava bastante pálido, ainda que tivesse cumprimentado Misaki com um sorriso.
-Omedetô! Dançaram muito bem vocês os dois. Estou a ver que a minha filha finalmente ganhou parceiros à altura. – Tornou-se para Linda e esta podia jurar que encolhera sete centímetros. – Especialmente tu, Linda.
-Conhecem-se? – Perguntou Eiji, curioso. Lançou um olhar de relance à companheira, que mordeu o lábio.
-Sim, já nos encontramos uma vez ou outra vez. – Respondeu Misaki, com um sorriso misterioso. Linda não gostava da situação em que se encontrava metida. Misaki tinha as cartas todas na mão e, ainda que não pensasse mal dela, sabia que ela era uma mãe e amiga da sua. De certeza que acreditava que ela, como menor, deveria estar junto dos pais. – Conheço os pais dela.
Misaki não dissera mais nada, mas também dissera tudo.
-Então a Kiara tinha razão. És filha de nobres. – Disse Eiji. Linda expirou de alívio. Ele não descobrira.
-Pode-se dizer que os meus pais são mais abastados do que nobres. – Linda esperava que Misaki entendesse o segundo significado da frase e que entendesse que as últimas pessoas que ela queria ouvir mencionadas eram os seus pais. – Mas sim, frequentam círculos semelhantes ao da…
Calou-se, não sabendo se tinha permissão para tratá-la pelo nome próprio ou pelo nome de casada. Sempre ficara confusa com os nomes de Misaki, pois ela casara duas vezes, era também tratada pelo nome de solteira e a filha tinha o nome do primeiro esposo.
-Misaki, Linda. Todos os amigos da Cecília me tratam assim, não é Eiji?
A mão de Eiji endureceu como pedra.
-Sim.
-Vi o teu irmão lá em cima, Linda. – Comentou Misaki calmamente, o olhar subitamente sério. – Espero que esteja bem.
Linda assentiu, não querendo dar mais detalhes. A mãe poderia não querer saber da existência de Kenji, mas Misaki contar-lhe-ia tudo o que sabia de qualquer maneira.
-E o teu parece que está a ganhar barriga. Podias dizer-lhe para ele começar a dançar como tu.
Eiji rasgou um largo sorriso.
-A Misaki não podia fazer-me o favor de esperar que eu arranje um gravador e que repita o que disse? O Setsu iria delirar!
Misaki soltou uma gargalhada.
-Não disse mais do que a verdade.
-A Misaki também conhece o Setsu? – Perguntou Linda, ainda um pouco desconfortável. A sua mão largara a de Eiji e tentava compor as peças da pequena conversa que ocorria. Não sabia porque Misaki estava ali, era difícil imaginar que viera apenas para dar-lhe os parabéns. Não quando Cecília ainda não atuara.
Quase que conseguia cheirar a tensão no ar e teve a sensação que Eiji escondia-lhe alguma coisa. Daí que a pergunta saíra tímida e baixa, como quem não queria ser uma autêntica hipócrita.
-Sim, eu conheço a mãe deles. Dá as melhores festas de todas, até a Rainha comparece nelas. – Misaki parecia estar a jogar um pequeno jogo com os dois jovens, largando pequenas pistas por terra. Naquele momento, acabara de revelar a Linda que a mãe de Eiji era uma outra amiga da mãe de Linda. Uma doida por festas. Só restava uma. Mas essa só tinha um filho, com quem não se dava muito.
Certo?
-És filho da Yvonne Tachibana? – As palavras saíram da boca de Linda antes que esta pudesse evitar. Engoliu em seco, olhando para Eiji com caução. Este sorriu, mas Linda podia ver o amarelo.
-Só de sangue. – Respondeu curtamente, os olhos isentes de brilho. E Linda lembrou-se então do dia em que se conheceram e de como Eiji dissera detestar a personalidade da mãe biológica. Ela sabia que ele dava-se bem com o pai, a madrasta e a irmã mas ele raramente falava da mãe. Nisso eles tinham algo em comum. – Como sabes dela?
Seguiu-se um silêncio de cortar à faca. Misaki partilhou o olhar entre Linda e Eiji, os contornos do rosto alternando para uma expressão preocupada.
-Vocês estão bem? – Perguntou, suavemente.
-Sim. – Respondeu Linda fracamente, mordendo o lábio inferior o mais ligeiramente possível. Eiji não pareceu ter notado, mas o seu tom de voz denunciara-a de qualquer maneira. – Está tudo bem. Ia apenas dizer que a minha mãe adora as festas da Yvonne Tachibana, é daí que a conheço.
Tinha que despachar conversa, tinha que sair dali. Felizmente, foi abençoada pela mais pura das sortes. Linda avistou Cecília ao fundo, tentando encontrar o seu olhar. Esta, assim que os viu, tratou logo de ir ter com eles.
-Mãe? Que estás aqui a fazer?
-A divagar… – cortou Misaki, fixando o par de dançarinos. Molhou os lábios secos, aproveitando a tensão no ar e soltando uma lufada de ar. – A divagar se eles sabem quem são.
Linda sentiu uma gota de suor escorrer pelo rosto. Mordeu os lábios repetidamente, sentindo a sua respiração acelerar. Sentia o olhar de Eiji inserido nela, tão forte e desconfiado como Linda esperaria depois do que Misaki dissera.
-Venha comigo, está quase na hora da minha vez. – Disse Cecília, agarrando o braço da mãe de uma forma pouco discreta.
-Sim vamos andando. Tudo de bom para vocês. – Disse Misaki com um sorriso misterioso, antes de virar costas aos dois jovens.
Linda esperava as várias perguntas de Eiji. Mas deu-se ao direito do silêncio. Contava que Eiji respeitasse a sua decisão de nunca falar dos pais pela mesma forma como ela sempre respeitara o desprezo de Eiji por Yvonne.
Pelas conversas que haviam tido, a madrasta de Eiji era a verdadeira mãe dele. Com quem conversava acerca de desporto, política e problemas de adolescente. Fora ela que lhe dera conselhos para lidar com uma paixoneta que Eiji tivera. Da mãe biológica pouco ou nada ouvira falar. Detestava-a e era tudo o que sabia. E Eiji sabia que Linda não queria falar dos pais. Mas a sua personalidade desconfiada por vezes metia-se no caminho. Linda esperava que este fosse o momento.
-Oh bailarino! – Os dois viraram os rostos em direcção da voz. Viram Setsu, junto de Mari e Kenji, ao longe, aproximando-se descontraidamente. – Então, já pensas que és famoso o suficiente para não falares aqui com o povo? Omedetô a vocês os dois!
Linda sorriu.
-Arigatô, Setsu! – Aceitou o curto abraço de Setsu, um sorriso cordial colado ao rosto, como sempre fora ensinada no palácio.
-Querem ir apanhar ar. A Mari está a precisar. – Perguntou Setsu, apontando para a loira. Esta mandou-lhe um olhar penetrante.
-Não é preciso, já lanchei e sinto-me melhor. – Protestou a loira, preparando-se para fugir, mas Setsu agarrou-a antes que o conseguisse.
-Não te atrevas. Não vais cair no chão outra vez!
Mari revirou os olhos, soltando-se bruscamente.
-Foi só uma tontura. E eu não cheguei a cair, o Kenji apanhou-me.
-Kenji ajuda aqui!
Kenji suspirou, um pouco incomodado.
-É melhor Mari. É para o teu bem. – A resposta de Mari foi um olhar furibundo. – Não sejas infantil.
-Não estou a ser infantil. Eles mais depressa precisam de ir apanhar ar do que eu. – Protestou a loira, apontando para Linda e Eiji. Só aí Linda notara que os dois haviam ficado calados e imoveis desde que Linda agradecera as felicitações de Setsu.
Tentativamente, Linda procurou o olhar do irmão, tentando chamá-lo à parte. Precisava de falar com ele sobre o pai, Misaki, tudo. Felizmente, anos de experiência permitiram que o seu irmão mais velho entendesse a mensagem rapidamente.
-Setsu leva-a lá para fora. A teimosia dela ainda a faz desmaiar. – Disse Kenji, ignorando o olhar de morte de Mari. Setsu fez um som esquisito com os lábios.
-Queres que a force? – Perguntou o moreno, indeciso.
-Vá lá, és um homem adulto e ela é uma trinca-espinhas! Não é uma tarefa difícil.
Fora a coisa errada de se dizer. Kenji não conseguiu antever a tempo um pontapé de Mari, que o atingiu em cheio na canela. Chorando de dor, baixou-se e segurou a zona ferida, praguejando para si e para a loira que lhe virava costas. Linda abafou uma gargalhada. Já Eiji e Setsu não se controlaram.
-Não tem graça! – Resmungou Kenji, massageando as canelas.
-Já devias saber que não devias sobrestimar a Mari. Ela é das que ladra e morde. – Contrapôs Linda, com um sorriso maroto.
-Já deu para ver. – Murmurou Kenji, sombriamente. Linda riu-se.
-É bem-feita!
-Grrr, onde está ela?!
-A trinca-espinhas? Já se foi. – Disse Eiji, apontando para a saída. – Aproveitou-se.
-Pois bem, se alguma coisa lhe acontecer eu não me responsabilizo.
-E nós? Ficamos aqui? – Perguntou Setsu. Eiji olhou para Linda por uns momentos, como se reflectisse se essa era a melhor ideia.
-Vamos lá para fora. – Disse, mas Linda estava convencida de que aquele brilho nos olhos dele iria retornar, pois Eiji era muito observador e tinha de certeza percebido que Linda queria falar com Kenji a sós. Logo após a conversa com Misaki.
Kenji continuou a soltar pragas de determinadas loiras com olhos verdes por uns segundos, até que Linda agarrou-o no ombro, obrigando-o a levantar-se.
-És mesmo um bebé! – Reclamou entre dentes. Sentou-se num banco próximo e esperou que Kenji fizesse o mesmo.
-Ela tem mais força do que eu imaginava. – Defendeu-se o jovem.
-Pudera. Eu sou mais magra do que ela e sempre consegui levar a melhor de ti!
Kenji fitou-a, o sobrolho erguido.
-Isso era por causa dos avós e das tias. – Disse, num tom seco. Em seguida, fez uns gestos excêntricos com as mãos e alterou a voz para que ficasse mais fina e estridente como a de uma rapariga histérica. – Aí de mim se eu magoasse a menina!
-E com razão. Sempre foste um bruto.
-E ainda assim aquela loira conseguiu dar-me um pontapé.
-Devias era levar um pontapé na boca, para ver se páras de dizer o que não deves.
Kenji não respondeu. E Linda não se deu ao trabalho de o provocar. Alimentou o silêncio breve, até que falou:
-Porque é que ele está aqui? – Perguntou serenamente, ainda que as suas estranhas pareciam estar a arder.
Kenji suspirou, o olhar perdido num ponto fixo no horizonte, onde um par dançava uma valsa animada.
-Não sei, mas ele sempre foi um fã de dança.
-Também nós e nunca viemos a estes torneios, como bem sabes. – Retorquiu Linda, lembrando-se da falta de liberdade que tinha. Uma ideia floresceu na sua mente. – Poderia ter vindo ter com alguém.
Kenji fitou-a.
-Quem? Nenhum dos seus amigos próximos é de cá. Além do mais, nada o traria a este sítio.
Linda não respondeu logo. Ela não gostava daquela ideia, mas parecia-lhe plausível. Ela descobrira o pai na multidão apenas por mero acaso, quando ele baixara os óculos escuros por uns segundos. Não fosse isso, achá-lo-ia um homem qualquer. Ele estava vestido muito casualmente e não parecia tão interessado no torneio quanto as pessoas no seu redor.
-Uma mulher.
Não se atreveu a olhar para Kenji para ver a reacção dele, mas não fora boa.
-Que estás a dizer? – Perguntou Kenji, estupefacto.
-Provavelmente tem uma amante. Um homem como ele facilmente arranja.
-Não digas disparates, Linda! – Grunhiu Kenji, estranhamente zangado.
Linda semicerrou os olhos. Parecia-lhe a ideia mais plausível. Não conseguia ver a mãe e o pai juntos como os seus avós. A ideia de um casal amoroso parecia-lhe ridícula. E a indiferença por parte do pai para com ela, tratando-a por vezes como um objectivo de uma lista de coisas a fazer numa tarde... A ideia da sua ilegitimidade sempre estivera presente na sua cabeça, mas nunca a dissera a ninguém. Tinha um certo medo da resposta.
-Vais me dizer que nunca pensaste nisso? Ou achas mesmo que aquelas esculturas de gelo se amam? Isso explicaria tudo, não achas? – Disse, tornando-se para o irmão.
Kenji parecia querer discordar de tudo aquilo que Linda dissera mas, como um advogado de defesa sem provas, calou-se.
-E não será que ele veio cá para te levar?
Linda empalideceu. Não pensara nessa hipótese. Poderia ele realmente fazer isso?
-Não, não pode. – Sussurrou, falando mais para si do que para Kenji. – A avó disse-me… eles não podem vir-me procurar. Não podem.
-Eles podem exercer poder paternal sobre ti.
-E eu farei um escândalo. De certeza que eles não querem isso.
-Sim, mas tu também não. – Contrapôs Kenji, calmamente. – O pai é esperto, ele saberia que estarias a fazer bluff.
-Então o que queres que faça? – Perguntou Linda, preocupada.
-Reza para que ele haja como o nosso pai de sempre.
Seguiu-se um silêncio pesado que nenhum dos irmãos se atreveu a quebrar, estando os dois perdidos nos seus próprios pensamentos. Linda sabia que a desonra do pai magoara Kenji. O que a espantava era a lealdade de Kenji para a honra do pai. A descrença de que os pais de ambos tinham vidas duplas, defeitos piores que serem maus pais.

Kenji tinha mil e uma coisas para pensar, a sua instável família sendo o tópico principal. Passou a mão pela canela. Já não doía. Deu por si a perguntar-se onde Mari estaria e se estava bem. É claro que está. Se não, não te daria um pontapé na canela com tanta força. - Disse uma vozinha sarcástica na sua cabeça. - Mas ela é teimosa. Pode sentir-se mal mais tarde. E desde quando te preocupas tanto com ela? - Perguntou a voz, num tom malicioso. - Desde que… desde que… - Se fosse possível corar em pensamento, então era isso que Kenji tinha acabado de fazer - Raios Kenji, pára de falar com a tua consciência! Eu não sou a tua consciência. Então és o quê?
-Kenji?
Este acordou dos seus pensamentos invulgares. Linda olhava para ele, um pouco confusa.
-Ah… - Foi tudo o que a sua mente inteligente conseguiu proferir.
-Estás bem? – Perguntou Linda, lentamente, como quem fala para alguém de comportamento instável. - De repente ficaste…. vermelho. Estavas a pensar numa rapariga?
-Ah? Que disparate! – Hum... a tua irmã é esperta. - Lá estava a voz de novo. - E supostamente não devias saber disso visto seres… bem, eu? Estou a ver que a inteligência da família foi toda para a tua irmã. Quando perceberes quem eu sou, avisa-me. Ah?
-Kenji? – Linda voltou a chamá-lo.
-Ah?
-Não consegues expandir mais o teu vocabulário? – perguntou Linda, com um sorriso divertido.
-Gomen, eu estava… - Kenji levou o punho à testa, tentando acordar. – Vou ter com os rapazes. Queres vir?
Linda pareceu pensar no assunto mas, um olhar em direcção das bancadas, onde Edward se encontrava, pareceu decidi-la.
-Não. Eu fico aqui a descansar. – Disse, a voz um pouco incerta. Kenji encolheu os ombros e afastou-se da irmã, saindo do pavilhão.

Linda tremeu um pouco. Não havia nenhuma corrente de ar. Deveria ficar preocupada? O seu instinto dizia que sim. Tinha a estranha sensação de que estava a ser observada.
Deitou um segundo olhar no pai. Edward conversava com a Directora da sua escola. Prendeu a respiração só de imaginar naquilo que poderiam estar a falar. A Directora falara bem do pai, mas falaria ele dela? Claro que não, pensou para si. Ele nunca mencionaria os filhos. Deveria estar a falar de vários tópicos em nada relacionados com ela ou Kenji.
Ainda assim, uma pequena parte da sua mente não descansou. Uma estranha sensação a percorria e Linda não gostava nada dela. Alguém a observava.
Mas quem?


-----------------------------------------------------------------------


Omedetô – Parabéns
Arigatô - Obrigada
Gomen - Desculpa


(algum erro no vocabulário japonês, avisem!)


Última edição por AnA_Sant0s em Sab 23 Fev 2013, 15:10, editado 2 vez(es)

AnA_Sant0s
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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Sex 09 Jul 2010, 07:49

***

Ele não ficara muito surpreendido. Como podia? Só um cego não veria talento na menina que costumava treinar nas salas do palácio. Anos depois, o brilho ainda lá estava. O rapaz lá se arranjou, mas ela fora magnífica. A sua agilidade, técnica e graciosidade eram imbatíveis. Linda era uma excelente dançarina, sem dúvida. Tinha um grande talento, que ia para além da idade e do ensino.
Era estranho pensar que, em dezasseis anos de desinteresse pela mais nova da família, num único episódio da sua vida demonstrara um interesse nela que qualquer bom pai demonstraria em qualquer ocasião.
Mas ele não era um bom pai. E era suficiente humilde para o admitir. Sempre definira a sua vida em planos e ter uma família sempre fora um deles. Mas depois tudo mudara. Os seus planos foram arruinados. Ele fora um fracasso como marido e pai. Apenas como rei não falhara, mas isso talvez fosse por o talento lhe correr nas veias.
Edward sentira o seu estômago apertar-se num nó quando viu a sua filha mais nova dançar, destacando-se de todos os outros pares. Agora tinham dançado cerca de sete, contando com ela, e nenhum mostrara a sua perícia. Iria ver a filha da Misaki e sabia que esta tinha talento. Mas comparado com a sua filha era apenas uma dançarina vulgar.
Poderia nunca admitir isto a mais ninguém mas, naquele momento, Nastumara Edward olhara Linda com olhos orgulhosos.

**

-Estou a ver que trouxeste a tua mãe. Onde é que ela está?
Cecília quase que dava um pequeno salto no ar ao ouvir a voz áspera da melhor amiga. Tentando controlar o seu temperamento impulsivo, tornou-se para Mari.
-Não trouxe. Ela é que veio. Foi agora para as bancadas, está quase na minha vez. – Respondeu, impaciente. – E se queres saber, ainda bem que ela veio.
-Eu sei que sim. – Disse a loira, calmamente. – O que não entendo é porque, de repente, decidiste contar a toda a gente o teu segredo. Os detalhes que te ligam a aquela vida de finório, da qual sempre tentaste fugir.
-Talvez porque ela não pára de me perseguir. – Murmurou Cecília sombriamente, lembrando-se de Linda.
-Como?
-Mari, por favor, não me apetece falar disso. – Disse Cecília, aborrecida.
-Cecília? – Mari aproximou-se da amiga calmamente, os braços cruzados junto ao peito e o rosto sério. - Eu não sei o que se passa contigo. Estás a esconder-me alguma coisa. Desde aquela aula de dança que estás estranha.
Se tu soubesses, pensou Cecília tristemente, desviando o rosto para o lado. Não podia trair Linda, mas também sentia-se mal por mentir à sua melhor amiga.
-Mari, eu…
-Somos amigas ou não somos?
Cecília fitou a amiga. Mari estava terrivelmente pálida e o seu rosto estava moldado numa expressão desfalecida.
-Mari, tu estás bem? – Viu Mari fechar os olhos e depois voltar a abri-los. Estavam levemente embaciados. A própria rapariga mexia a cabeça sem saber. Era fácil de entender que Mari sentia dor. Mas não era dor psicológica. Era dor física e das bem fortes.
-Estou. – Respondeu a loira, com a mão esquerda pousada na cabeça.
-Isso para gente normal é um ‘não’. Queres sentar-te?
-Isto. Não. É. Normal. – Disse Mari de repente, com os olhos fixos no chão. As suas mãos tremiam e, ao sentar-se num banco próximo, todo o seu corpo tremeu.
-Mari? MARI!

**

Não demorou muito a Kenji encontrar os rapazes. Estavam junto ao passeio da rua, do lado de fora das grades, junto de um grupo de rapazes que estavam a fumar. Inspirou o ar, agora dominado por uma leva camada de nevoeiro e brisa nocturna que lhe gelava os ossos. Chutou uma pequena pedra que estava no seu caminho e caminhou devagarinho pelo passeio, as mãos escondidas nos bolsos das calças.
Notou que Eiji parecia distraído, mas não o suficiente para lhe deitar alguns olhares de relance. Já Setsu fazia barulhos esquisitos com a boca, apenas para quebrar o silêncio.
-Não entendo a tua irmã. – Disse Eiji de repente.
Kenji sorriu.
-Isso, meu caro amigo, é uma das muitas coisas que temos em comum. Para a Linda e para as outras.
-Pois é. – Concordou Eiji, encostando-se ao mesmo muro que o irmão. Setsu parecia dividir as atenções entre os amigos e o grupo de rapazes, pois o seu olhar saltava de um lado para o outro. Kenji parou.
-No dia em que entendermos as mulheres, ir-se-ão descobrir as curas para todas as doenças incuráveis. O Homem chegará a Plutão e o Setsu irá conseguir soletrar o alfabeto de trás para a frente. – Disse Eiji, em tom de gozo.
-Mas por acaso ele já o sabe soletrar direito? – Perguntou Kenji, num tom divertido, os seus olhos fixos em Setsu. Eiji riu-se e virou-se para o irmão, esperando uma resposta.
Setsu desviou os olhos do grupo de rapazes calmamente, o rosto sempre passível, e fitou Kenji.
-Diz-me Chiba, ainda te dói a canela?
Eiji soltou uma alta gargalhada, apoiando-se na parede para não cair. Kenji sentiu o pescoço a aquecer, ainda que estivesse frio.
-Estúpido!
-Yabu wo tsutsuite hebi wo dasu! [1] – Citou Setsu, com um sorriso vitorioso.
Sabendo que saíra derrotado, Kenji calou-se e afastou-se um pouco dos irmãos, deixando-se levar pela corrente de pensamentos que inundava a sua cabeça.
Desde os pais, o inimigo que atacara uma rapariga no parque até ao medo de a sua irmã ser forçada a retornar para o palácio. Tudo parecia preencher os recantos vazios da mente de Kenji, fazendo-o sentir-se cansado e velho.
Disparates, ainda estás fresco! - disse a mesma voz que ouvira há pouco, mas agora num tom mais animado. Kenji abanou a cabeça. Aquilo nunca lhe tinha acontecido. Pelo menos que ele se lembrasse. Ouvir vozes imaginárias era muito, mas muito mau sinal. Estaria ele doente?
Mas verdade que não podia negar que a sensação de ter um conversa privada na sua cabeça até nem era má. Era como se aquilo já lhe tivesse acontecido.
Será que alguém me anda a possuir? Tu tens a noção do quanto estás a ser ridículo? – Disse a misteriosa Voz, retornando ao seu tom sarcástico. Kenji murmurou um praguejo, que não passou despercebido a Eiji e Setsu. Este último ignorou-o, mas Eiji olhou-o desconfiado. Vês! Até chamas a atenção das outras pessoas. Quem és tu?
-Kenji?
Desta vez, Kenji não se deu ao trabalho de responder, sabendo que não tinha uma resposta muito coerente para dar.
-Tu estás…. – Começou Eiji.
-‘tou. Eu estou bem. – Cortou Kenji, levemente aborrecido pela constante pergunta. Mas também, quem é que o manda falar com vozes imaginárias?
-Não é isso. Eu queria perguntar-te se tu estás aqui.
-Ah?
-É que a tua irmã também costuma ter esses momentos apáticos. Uma pessoa fala para ela e ela… nada. – Agora Eiji sorria, se bem que era o único. Setsu continuava a prestar atenção ao grupo ao lado, que falava alto e sem preocupações.
Kenji forçou uma gargalhada:
-Por acaso estava em Vénus.
-E porquê Vénus e não outro sítio? – Inquiriu Eiji, sorrindo levemente.
-Ora, Vénus é a Deusa do Amor na mitologia grega. – Disse o loiro sénior, como se dissesse a coisa mais óbvia do mundo.
-Mitologia Romana, parvalhão. Na grega é Afrodite. – Argumentou Eiji, com os braços cruzados e o seu belo sorriso desenhado no seu rosto.
-É tudo a mesma coisa.
-E depois eu é que sou burro. – Disse Setsu, que afinal também prestava atenção à conversa entre o irmão e Kenji.
-Mas tu também és burro. Aliás, todos os irmãos mais velhos o são.
Setsu tornou-se para o irmão, com um sorriso semelhante de quando conseguira levar a melhor a Kenji.
-Deixa-me recordar-te, caro Eiji, que tu tens uma irmã mais nova. Logo, tu também és um irmão mais velho.
Eiji fez beiço e tornou o rosto para o lado para entretenimento dos mais velhos, que riram-se às custas do rapaz.

Kenji sorriu ao ambiente descontraído que partilhava com os irmãos Yamamoto. Morar no mesmo apartamento, dividir a mesma máquina de lavar e os trocos para o preenchimento da despensa contribuía para aquela amizade.
Gostava de pensar que tinha um dom para falar com as pessoas, pô-las alegres e confiantes em si próprias. Era uma das suas grandes qualidades. Quando conhecera os dois irmãos, ficara surpreendido pelas grandes diferenças entre os dois. Setsu era um daqueles rapazes descontraídos que uma pessoa nunca tomaria por um crânio, mas era bastante inteligente. A sua preguiça e distração era o verdadeiro contraste de Eiji, um grande observador do mundo e um rapaz trabalhador. Pelo menos o mais trabalhador que um adolescente de pais abastados podia ser.
Mas claro, todos tinham os seus segredos. O sangue real de Kenji bem como a mãe dos dois rapazes. Kenji vira Yvonne Tachibana poucas vezes, mas sabia que era o género de mulher extravagante que olhava mais para o próprio umbigo que o dos outros. Alta, loira e extremamente elegante, não parecia uma mulher com instintos maternais. E Kenji descobrira logo nas primeiras semanas que falar de Yvonne era ultrapassar uma linha invisível que Kenji nunca imaginara que existisse. Não sabia o que separara os filhos da mãe mas, o quer que fosse, era um segredo que ele respeitava. Afinal, também tinha um segredo parecido.
Várias vezes se perguntara o que teria sido dele se não fosse Setsu. Mal saíra do palácio na sua mota, sentira-se livre e estranhamente aliviado, como se a discussão com o pai lhe tivesse tirado um peso de cima. Mas assim que parou a mota descobriu que estava enganado. Estava sozinho no mundo, sem dinheiro nem formas de se sustentar. Lembrou-se em ligar para Yamamoto Setsu, um dos poucos amigos que fizera nas suas escapadelas discretas e que desconhecia da sua identidade. Na altura ele passava o fim-de-semana na casa do pai, o que foi a sua salvação. Yamamoto Takeshi era o Chefe da Segurança Interna e Externa do palácio e, portanto, era dos poucos que conhecia a identidade do príncipe. Contactara os avós de Kenji e assim os seus problemas desapareceram. Kenji conseguiu obter equivalência para o curso de medicina na faculdade de Setsu e, após muita teimosia da sua parte, deixou que o avô lhe pagasse metade da renda da casa, juntamente com Takeshi, mais uns extras pessoais. Em troca, Kenji lutava para se manter na faculdade como bolseiro e terminar o curso o quanto antes sem se dar a conhecer por nenhum Sensei, não querendo ser alguma vez acusado de nepotismo. Ainda que Setsu fosse esperto e Eiji um excelente aluno, nenhum dos irmãos entendia a necessidade dele em estudar. Detestava fazê-lo, mas parecia ser uma das poucas maneiras de ele parar de pensar na sua família.
Distraia-se do consciente erro em abandonar a sua irmã no palácio com lições de anatomia, escapava-se do tormento psicológico que as palavras duras do pai e da indiferença da mãe lhe davam com grandes textos acerca da criação de fármacos e das suas específicas utilizações e cuidados. E, acima de tudo, tentava afugentar o medo de estar numa cidade sozinho e sem paredes para o defender pensando no futuro. Em ser médico. Já havia pensado nisso, quando a ideia de ser Rei lhe pareceu ridícula e ofensiva. Ser uma réstia de sol para os mais necessitados. A ideia era tão brilhante que chegava a queimar, mas ele faria o esforço. Não para ser um cirurgião frio e metódico como Setsu, mas um médico que ligava-se às pessoas e que se relacionava com elas, dentro do sigilo profissional. Principalmente às crianças.
Desde pequeno que definira um plano na sua vida. Ter um emprego estável e ter uma família. O sonho difundira-se com o tempo, talvez porque o pai também pensara assim antes de se casar. E fracassara.
Hoje, a ideia de ser pediatra e pai de família por vezes ainda dançava na sua mente e ele tinha que abanar a cabeça para não se entusiasmar demasiado. Pediatra ainda podia ser, mas pai de família não tinha muitas esperanças. Não quando ainda tinha que se acostumar a encontrar um lugar naquele mundo para ele. E também porque ele sabia que o pai casara com a sua mãe por amor. E só isso não bastara.
O medo de cometer os mesmos erros do pai e ficar como ele ainda persistia e não havia uma única Voz que conseguisse calá-lo.
-O que é eles disseram? – Ouviu Eiji perguntar a Setsu, ríspido. Olhava para o grupo de rapazes raivosamente, sendo a sua atitude apenas respondida por gargalhadas. – Não te faças de parvo, que eu sei que ouviste!
Setsu parecia ter antevisto aquele momento desde que ali chegaram, mas era óbvio que não contara com a atenção de Eiji.
-Fala! – Insistiu o irmão, soltando um pequeno rugido involuntário.
-Não vais gostar…
Isso já tinha percebido, pensou Kenji para os seus botões, antevendo o desastre que se iria seguir.

**

Linda entrou devagarinho na enfermaria, deitando um breve olhar no seu redor. Era uma sala bem iluminada, com alguns bancos e duas camas de metal cor de pérola, separadas por um biombo. Atravessou a divisão sorrateiramente, sob o olhar atento e desconfiado da enfermeira da escola e afastou o biombo ligeiramente.
Viu Aiko sentada numa cadeira junto à cama, onde Mari dormia pacificamente. Suspirou pesadamente, atraindo a atenção da mulher:
-Ela está bem? – Perguntou num sussurro, enquanto afastava o biombo suavemente, mantendo a privacidade.
-Não sei. – Respondeu Aiko, cansada. – Ainda não sei o que lhe aconteceu. Estava tão bem e de repente desmaia. Ela é saudável, pratica desporto e come bem. Nunca foi de ficar doente. Não sei o que se passa…
Linda sentiu um aperto no estômago perante a angústia de Aiko. Não sabia o que dizer para a consolar. Nunca fora boa nessas coisas.
Mas o que mais a incomodava encontrava-se deitada numa cama. Por momentos, imaginou como seria dormir e acordar num sítio diferente. Linda duvidava que Mari fosse fã de enfermarias, mas também sabia que a loira não iria entrar em pânico.
Contudo, ficaria frustrada e tentaria sair da cama o mais depressa possível. Sim, isso sim era atitude de Mari Nakamura.
Não aquilo que ela testemunhara minutos antes.
O som de uma respiração acelerada despertou-a dos seus pensamentos. Mari acordara. A rapariga abriu os olhos lentamente, tentando assimilar o local onde se encontrava. Linda previu correctamente a atitude da jovem:
-Onde estou? – Perguntou fracamente, ainda que uma pequena nota da sua voz revelasse medo.
-Estás na enfermaria, querida. Ainda bem que acordaste. – Disse Aiko, pousando a mão sob a de Mari. Sorriu para a neta e foi aí que Linda notou nas rugas de expressão cravadas no rosto de Aiko e que esta nunca conseguiria disfarçar. Marcas que provavam a vida trágica que a mulher vivera desde que o seu esposo morrera.
-O que aconteceu? – Perguntou Mari, levemente confusa. Pousou a mão na cabeça, provavelmente sinal de uma dor de cabeça.
-Penso que foi uma tontura. Espero que tenha sido uma tontura. – Murmurou Aiko, mais para se acalmar do que para esclarecer a neta. Linda sabia que Aiko só tinha Mari no mundo e que ficaria devastada se alguma coisa acontecesse a ela.
Aiko aproximou-se da neta e deu-lhe um beijo na testa. Mari teve o bom senso de não se afastar do toque carinhoso da avó, deixando que ela ajeitasse a pequena manta que a cobria.
-Descansa, que a enfermeira já vem ver-te.
-Avó, eu estou bem. Como disseste, foram apenas tonturas. – Disse Mari, tentando levantar-se. – Como vim aqui parar?
-A Linda e a Cecília trouxeram-te.
Os olhos de Mari encontraram os de Linda. Esta esperava que Mari dissesse alguma coisa mas a rivalidade das duas estendia-se até momentos como aqueles. Mari ignorou Linda e perguntou por Cecília.
-Já foi dançar há algum tempo. Era a vez dela. Deita-te Mari, tens que descansar! – Insistiu Aiko, quase que empurrando a neta contra o colchão.
-Mas estou cheia de energia. – Protestou Mari mas foi uma batalha de curta duração, pois Mari podia estar bem no corpo, mas a dor de cabeça deveria estar a corroê-la por dentro pois assim que fechou os olhos, relaxou.
Linda olhou atentamente para uma adormecida Mari, mal prestando atenção ao comentário de Aiko em ir buscar qualquer coisa para beber e o pedido desta em ficar de olho na neta. Pareciam coisas supérfluas depois daquilo que acontecera antes de Mari chegar à enfermaria.
Teria ela visto aquilo que viu? Ou teria sido apenas fruto da sua imaginação?

--------------------------------------------------------------------------

[1] - ‘Yabu wo tsutsuite hebi wo dasu’ – Proverbio japonês que significa literalmente “Quem procura no arbusto, de lá sairá uma cobra”. Melhor dizendo, “Quem procura, acha”. Não tenho a certeza se este proverbio aplica-se apenas às situações ‘normais’ (procurar afincadamente uma coisa, para depois conseguir encontrá-la) ou se pode aplicar-se a uma situação de estupidez (Quem procura sarilhos sempre os encontra). Tomei a liberdade de aplicar o segundo sentido.


Última edição por AnA_Sant0s em Sab 23 Fev 2013, 15:43, editado 1 vez(es)

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Sex 09 Jul 2010, 07:56

** Flashback **

-Mari? MARI!

Linda ouvira a voz exaltada de Cecília apenas por acaso. Sem pensar duas vezes, correu em direcção do som, até que parou perante a imagem de uma Mari desmaiada e uma quase-histérica Cecília de joelhos a tentar reanimá-la. Cecília virou-se para Linda, acalmando ligeiramente:
-Linda ajuda-me. Ela desmaiou de repente. Não consigo acordá-la.
Rivalidades à parte, Linda não iria deixar Mari caída no chão sem auxílio. Ajoelhou-se e pegou no pulso da loira, contando as palpitações.
A pele de Mari estava muito quente e Linda sentia a pulsação dela extremamente acelerada, como se o corpo de Mari fosse palco de uma maratona. A mão que segurava tremia ligeiramente, os dedos abanando freneticamente. Seria um ataque cardíaco?
Cecília erguera-se, a fim de procurar ajuda. Um segurança ali perto ofereceu-se para chamar a enfermeira da escola.
Linda parou de contar, mas não soltou o pulso da loira. Aquilo era tudo muito estranho. Mari tremia apenas nas mãos, ambas seguradas por Linda e Cecília.
Linda esbofeteou Mari, tentando despertar os seus sentidos. Todavia, esta permaneceu imóvel, com excepção do ligeiro tremer dos braços.
-Mari, Mari, por favor acorda. – Sussurrou Cecília apavorada, enquanto mais pessoas se aproximavam. Cecília obviamente não sabia o que fazer e tremia bastante, como se tivesse levado um choque eléctrico. – Volta a dar-lhe um estalo, Linda.
Em qualquer outra ocasião, Linda responderia ao pedido com muito bom gosto, mas naquele momento tinha que ser sensata. Mari não iria despertar tão cedo.
De repente, algo estranho aconteceu. Mari deu um pequeno salto, como se tivesse recebido um espasmo de um desfibrilador e finalmente parou de tremer. Tudo isso durara menos de cinco segundos, mas fora tempo suficiente para Linda ter o mais semelhante possível a uma alucinação .
Alguém caminhava pelos corredores. Uma mulher. Caminhava sozinha, o som dos seus sapatos ecoando no corredor vazio. Contudo alguém a perseguia. Uma luz azul brilhava em volta e duas outras luzes negras, circulavam pelos corredores da escola, em torno da mulher. Uma apressadamente, como uma criança impaciente para o seu primeiro dia de aulas. A segunda lentamente e mais discreta, como um predador prestes a devorar a sua presa.
A mulher gritou. E ficou tudo negro.

Linda acordara do transe ao mesmo tempo que alguém a afastara suavemente e erguera Mari. Ela e Cecília seguiram o segurança que carregava Mari em direcção à enfermaria. Murmurou qualquer coisa acerca de Aiko, mas toda a sua atenção estava centrada em Cecília. Não conseguia pensar direito depois daquilo que acontecera. Só lhe vinha à cabeça aquela imagem da mulher a ser perseguida por seres negros e malignos. Teria Cecília visto o mesmo? Também ela segurava Mari na altura das alucinações. Um olhar de relance, mostrou-lhe que Cecília não tirava os olhos da amiga, mas o seu rosto reflectia uma expressão enigmática. Uma muito semelhante à do seu irmão quando este sabia algo que os outros não sabiam.

**Fim de Flashback**

Será que Cecília também vira alguma coisa? Ou talvez fosse apenas Linda a anormal das três, que tivera uma alucinação no pior momento possível. Porque, se não fosse ela, quem mais poderia ser?
A ideia de que Mari pudesse ser a culpada e que tivesse, de algum modo, lhe transmitido a visão passara-lhe na cabeça, mas era ridícula desde a raiz.
Mas, por precaução, não a excluiu dos seus pensamentos. Nem tampouco afastou-se muito dos corredores. Vira apenas as costas da mulher da visão, contudo tinha a leve sensação de que já a tinha visto em algum lado. Não tinha dúvidas de que aquela mulher possuía a Flor de Mercúrio. E que aqueles corredores que vira eram os corredores daquela escola. Aquela mulher estava em perigo, possivelmente naquele preciso dia.
Suspirou, derrotada. Não sabia como obter as suas respostas. Não no que tocava a Mari. Talvez lentamente fosse a descobrir, mas por agora decidiu esperar.
Afastou o biombo para ela poder passar. Separada de Mari, mal teve tempo para pensar no que iria fazer a seguir quando Cecília entrou.

-Correu bem? – Perguntou Linda, tentando meter conversa. Cecília apenas encolheu os ombros.
-Sim correu. – Respondeu a morena, curtamente. Cecília abriu a boca para dizer alguma coisa, mas as palavras perderam-se pelo caminho deixando os dedos das duas mãos a entrelaçarem-se nervosamente entre si, silêncio preenchendo o ar até que a morena finalmente conseguiu falar. – Linda, acerca da minha mãe…
- Não tens que dizer nada, Cecília. – Interrompeu Linda, suavemente. - É a tua mãe e entendo que queiras que ela te venha ver. A tua lealdade a mim não ultrapassa os teus desejos.
Cecília soltou um pequeno sorriso grato.
-Já pareces a minha mãe com essas frases filosóficas ou cheias de sentido.
Linda soltou uma pequena risada.
-Pois é, já me tinha esquecido que as atitudes da tua mãe não são nada normais.
-É o que dá estar sempre a ler… - Argumentou Cecília, rindo-se das atitudes da mãe. Linda estava tão habituada à forma de Misaki se expressar que nem sequer se lembrou que, aos olhos dos outros, Misaki era uma ave rara.
Involuntariamente, não conseguiu deixar de invejar Cecília pela sua relação com a mãe. No passado, ela daria todos os seus melhores brinquedos para ter uma tarde bem passada com a sua mãe. Agora perguntava-se se valia a pena sequer pensar nela como mãe. Nunca tivera um papel importante na sua vida e nunca pareceu querer deixar de o ser, a não ser naquela ocasião no seu oitavo aniversário. E essa memória, em vez de a pôr infeliz, irritava-a pois não a permitia fazer juízos de valor à sua instável mãe.
Como se adivinhasse os seus pensamentos, Cecília tratou de mudar de assunto:
-Como está a Mari? Passei pela Aiko nos corredores e parecia muito abalada. Nunca a vi assim.
-É. – Respondeu Linda tristemente. – Não invejo a posição da Aiko, sem saber o que se passa com a Mari e não poder fazer nada para ajudar.
-Eu entendo a posição dela. – Murmurou Cecília, mordendo o lábio inferior. Linda amaldiçoou-se pela sua falta de sensatez.
-Gomen, não me lembrei…
-Deixa para lá, é normal esqueceres-te. Afinal, tu não és lá grande fã da Mari.
Linda mordeu o lábio, inquieta.
-Verdade, mas não sou uma insensível.
Cecília sorriu em retorno.
-Eu sei que não. E agradeço-te ter-me ajudado a carregar a Mari até aqui. Pode não parecer, mas ela faria o mesmo por ti.
Linda duvidou de cada letra que Cecília pronunciou, mas optou pelo protesto silencioso.
A porta da enfermaria voltou a abrir-se, mas Linda não se deu ao trabalho de olhar imediatamente.
-Oh, pelos deuses!
Ao som da voz de Cecília, Linda tornou-se para os rapazes que entregam na enfermaria, um grande grupo de alunos com idade entre as das raparigas e pouco mais velhos. As únicas excepções eram as altas figuras de Kenji e Setsu. Ainda que não lhes conseguisse ver as caras de longe, Linda soube logo que algo estava errado, pois eles carregavam alguém aos ombros. A enfermeira tratou de separar os dois grupos e só aí, Linda soube o que acontecera.
-Acho que o Eiji se aleijou. – Disse Cecília, desnecessariamente. Linda não respondeu, demasiado estupefacta para reagir.
You don’t say, pensou amargamente.

**

-Baka , Aho, Doji, Kusottare, Manuke[2]
-Sabes que isso significa a mesma coisa, não sabes Setsu? – Gozou Eiji, enquanto a enfermeira punha algodão e betadine nas feridas nas maçãs do rosto. Silvou de dor. – Au!
-Não se queixe. Para a próxima, não entre em pancadarias. – Retorquiu a enfermeira, num tom de voz irritado.
-Mas o que é que vos aconteceu? – Perguntou Linda, aproximando-se de Eiji lentamente, examinando as suas feridas.
A maioria do grupo havia sido dispensado e Kenji fora falar com o segurança, esclarecer os detalhes. Linda rezou para que o homem não fizesse queixas a alguém de ordem superior, ou não só Kenji e Setsu seriam expulsos do recinto, como Eiji teria problemas na sua participação do torneio. Podia até ser desclassificado.
Sentiu os olhos de alguém queimarem-lhe as costas. Tornando-se ligeiramente, Linda notou num dos dois rapazes restantes, um deles sentado numa cadeira, à espera da enfermeira. Linda teve um ligeiro calafrio ao ver-se sob o olhar pesado do rapaz.
-Esses anormais atacaram-nos sem razão. – rugiu o rapaz, os amigos agarrando-lhe os braços para que este não se mexesse.
Ouviu o som de um banco a cair no chão e soube que Eiji se tinha erguido violentamente. Setsu agarrou-o, antes que pudesse tocar no outro:
-Para a próxima, vê se respeitas as pessoas, seu sacana! – Gritou para o outro.
-Você sente-se, se faz favor e atento na língua! Tenho demasiada gente nesta enfermaria. – A enfermeira agarrou Eiji e forçou-o a sentar-se na cadeira. Correu para o outro rapaz. – E você, Senhor Aoki, pense muito bem naquilo que fez. É uma vergonha para esta escola.
Linda ainda esperou que a enfermeira se tornasse para Eiji e que Setsu, que também precisava de curativos, mas a mulher ignorou-os. Controlando a raiva que se acumulava, aproximou-se de Eiji, ajoelhando-se ao pé dele.
-Tens uma pequena mancha no olho direito e um leve corte no rosto. – Examinou Linda. – Doí-te mais alguma coisa?
Eiji esboçou um sorriso sardónico.
-A perna.
Os olhos de Linda aumentaram, para depois se contraírem.
-A perna, Eiji? Tu não só entraste em pancadarias e tiveste uma atitude vergonhada para a nossa escola, principalmente porque a estás a representar num torneio de dança, como também deste cabo da perna!? – Silvou Linda, furiosamente. Eiji engoliu em seco.
-Não sabes o que aconteceu. – Teimou, mantendo contacto visual.
-Então explica-me. Porque eu não estou a ver um final feliz para esta história, deixa-me ao menos entendê-la.
Eiji suspirou.
-Por favor, Linda. Não insistas. Onde está o Setsu? – Perguntou de repente, numa tentativa fraca de mudar de assunto. Linda semicerrou os olhos, mas não persistiu.
-Está ali, a Cecília está a ajudá-lo. – Respondeu secamente.
Eiji fitou Linda, parecendo arrependido.
-Escuta-me, Linda. Eu…
O som da porta a abrir-se sobressaltou Eiji, que quase que se encolheu no banco. Kenji entrou, parecendo cansado. Tinha umas pequenas manchas no rosto mas fora isso estava bem. Linda suspeitou que Eiji só não se saíra pior da luta, porque o irmão e Kenji haviam intervindo. Já os outros três rapazes tinham algumas nódoas negras a formarem-se e o que estava sentado queixava-se de dor de cada vez que a enfermeira lhe passava um curativo no rosto ou no braço.
-E então? – Perguntou Linda, levantando-se. Kenji passou a mão pelo rosto, deformando-o.
-O segurança não vai falar com a Directoria, até porque os outros amigos daquele ali. – Sussurrou, apontando para o aleijado com a cabeça. – Assim o pediram. Não querem problemas. Ele apenas disse que ia estar de olho em nós e que, mais alguma gracinha e punha-nos fora daqui.
Linda deixou escapar o ar que nem sabia que havia prendido. Ao seu lado, Cecília e Setsu fizeram o mesmo.
-Esta foi por pouco. – Sussurrou Cecília. Olhou para Eiji, que estava sentado silenciosamente, as mãos pousadas nos joelhos. – Mas o que faremos com o Eiji? Não está em condições de dançar.
Um ruído despertou-os do silêncio pesado. Um dos jovens havia saído e Aiko voltara.
-Ela já voltou a acordar? – Perguntou a Linda, baixinho. Esta abanou a cabeça.
-Quem? – Perguntou Kenji, parecendo surpreendido.
-A Mari sentiu-se mal. Acabou por desmaiar há pouco tempo. – Respondeu Cecília.
Kenji fez uma careta angustiada e soltou uma pequena praga.
-Eu disse-lhe para vir comigo apanhar ar. Mas que teimosa…
-És um querido por tentar, Kenji. Mas a minha neta é assim. – Disse Aiko, com um pequeno sorriso. Depois, sem dizer mais nada, afastou-se dos jovens a fim de ir ver a neta.
Linda notou no olhar que o irmão deitara no biombo que separava Mari dos outros. Perguntou-se porque é que aquele olhar preocupado lhe parecia o mesmo de sempre mas, contudo, era completamente diferente.

**

Kenji sabia que Linda o observava. Sentia os olhos dela cravados nas suas costas, enquanto colocava unguentos nas pisaduras de Eiji. O seu rosto também reclamava por uns, mas tinha que a ver. Tinha que saber se ela estava bem.
Afastou o biombo e aproximou-se da cama, onde Mari repousava. Aiko murmurava qualquer coisa, mas ele não a escutava inteiramente. Ignorava o que acontecia no outro lado, ou até mesmo no outro lado do pavilhão. De certa forma, deixou de pensar. Só conseguia olhar para ela.
Aiko afastara-se e fora ter com a enfermeira. Ouviu algumas reclamações e algumas respostas tortas vindas da boca da enfermeira, mas não decifrou as palavras. Sentia-se aliciado por um feitiço, um encantamento que o obrigava a aproximar-se, a pegar numa mecha de cabelo cor do trigo e afastá-lo do rosto dela.
Mari mexeu-se um pouco e Kenji abanou a cabeça, tentando libertar-se daqueles pensamentos.
-Avó? – Mari falara, mas com a voz ainda muito fraca. A mão dela viajou automaticamente para a testa, provavelmente sinal de uma dor de cabeça, mas a careta não era muito pronunciada, podia ser apenas uma ténue dor. Mari olhou em redor. Quando os seus olhos verdes encontraram os de Kenji, paralisou.
Kenji ajoelhou-se perto da cama, ficando mais perto dela. Mari tentou levantar-se, mas não devia ter forças suficientes, pois voltou a cabeça voltou a cair na almofada.
-Calma, tens que descansar. Estas tonturas não são normais, não devias fazer movimentos bruscos.
-Hai, Isha. – Murmurou Mari num tom divertido. Kenji riu-se.
-Como te sentes? - perguntou, calmamente, os cotovelos apoiados na beira da cama.
-Pesada. - respondeu Mari, suspirando.
-É o que dá seres casmurra. Eu disse-te para vires comigo.
Mari revirou os olhos, ainda que o seu pequeno sorriso nos lábios a traísse.
-Está bem. Aprendi a lição. Não volta a acontecer.
-Espero bem.
O silêncio acomodou-se. Kenji não sabia o que dizer à loira que o mirava. Que tipo de conversa a haveria de pôr. Não podia deixar que aquele silêncio ganhasse, isso era certo. Tinha que dizer alguma coisa.
-A enfermeira já te deu uma olhadela?
Mari fez uma careta.
-Só se o fez enquanto estive a dormir.
Kenji franziu o sobrolho. Talvez a enfermeira ainda não tivesse tido tempo para a examinar, afinal ele e os rapazes chegaram em muito mau estado. Todavia, talvez nem fosse caso para alarme. Mari devia apenas sentir-se fraca. Talvez era apenas stress dos exames.
-O que aconteceu depois de eu te deixar? Voltaste a sentir uma tontura?
Mari pareceu reflectir.
-Hum… lembrou-me de sentir uma dor de cabeça. Foi forte e veio de repente. E lembro-me também…
-De quê? – Insistiu Kenji, perante o súbito silêncio de Mari.
-De ouvir a Cecília berrar o meu nome. – Respondeu a loira calmamente. Contudo, Kenji soube que ela estava a mentir. Como ele sabia, não podia explicar. Mas sabia que Mari não lhe contara a verdade.

Mari abriu a boca para lhe perguntar qualquer coisa, mas um estrondo vindo do outro lado impediu-a.

**

-Idiota! – Murmurou Linda, seriamente.
-Não és a única que pensa isso. – Respondeu Eiji, sorrindo. Linda teve que se controlar para lhe tirar aquele sorriso pretensioso do rosto dele, ainda que não soubesse se queria fazê-lo com uma estalada ou com um beijo.
Preferiu concentrar-se na pomada que tinha na mão, quebrando qualquer contacto visual com Eiji e deitando um olhar no irmão que se movia em direcção ao biombo como se estivesse enfeitiçado. Assim que o viu desaparecer, suspirou.
Apercebeu-se que estava a ser observada quando sentiu o corpo de Eiji a ficar tenso perante o seu toque, os olhos fitando fortemente alguém por detrás de Linda.
Linda ergueu-se, tendo terminado o seu trabalho. Notou que Cecília e Setsu haviam saído, provavelmente em busca do Sensei Amadeus.
Aiko surgiu, parecendo bastante irritada.
-Que tipo de enfermeiras sóis você? A minha neta está naquela cama há quase uma hora e ainda não lhe fez nada! Como irei saber o que se passa com ela, se você não a examina?
-Caso não tenha notado, a sua neta está na cama a dormir. Não posso fazer nada nesse caso e agora tenho coisas mais importantes a fazer… - Respondeu a enfermeira, friamente, voltando-se para o rapaz. Linda viu os amigos dele a encolherem-se perante o olhar furibundo de Aiko.
-Mais importantes? Esses rapazes andaram à porrada e acha isso mais importante que alguma coisa estranha que possa ter acontecido à minha neta? Eles são crescidinhos, podem tomar conta de si.
-É meu dever socorrer os alunos em necessidade. A sua neta vai ter que esperar. – respondeu a mulher, sem se dar ao trabalho de olhar para Aiko.
Vendo que Aiko estava em vias de partir qualquer coisa, Linda foi para perto dela, agarrando-lhe nas mãos.
-Aiko, calma! A Mari não vai ficar melhor se lhe der sarilhos. Tente acalmar-se. – Tentou consolá-la, enquanto que Aiko assentia com a cabeça, as pálpebras fechadas e tentando esconder lágrimas de frustração. – Calma, vá dar uma volta e depois volte logo. A Mari não está aqui sozinha, tomaremos conta dela.
-Sim… eu vou fazer isso. Vou ter com a Misaki. Ocêuaní narimachitá, Linda.
-Dôitachimachitê, Aiko. Tem feito tudo por mim, é o mínimo que eu posso fazer. – Respondeu a jovem, com um pequeno sorriso, vendo Aiko sair da enfermaria entre suspiros de tranquilização.
O sorriso ficou nos seus lábios até que voltou a sentir os mesmos olhos de há pouco a fitarem-na nas suas costas.
O rapaz olhava para ela de uma forma estranha. Linda mirou os olhos escuros dele, a pupila completamente dilatada enquanto ele olhava para ela, mais propriamente para as pernas dela. Linda engolindo em seco. Já ouvira falar daqueles olhares, mas nunca se sentiu tão incomodada e invadida como naquela altura. Deixou-se ficar parada, olhando horrorizada, o rapaz a beber a visão que o corpo dela lhe dava. O vestido vermelho de Linda tapava o máximo de pele que podia para a dança, mas aquilo que mostrava era o suficiente para alimentar imaginações.
Tudo isto durou apenas uns segundos. Linda sentiu a mão de Eiji na sua, como se este a quisesse afastar dali. O rapaz sorriu.
-Boa vista, hã?
-Cala a boca. – Grunhiu Eiji, o corpo completamente tenso. Linda agarrou-o ao banco, temendo que ele saltasse para cima dele.
-Acalma-te. – Implorou-lhe, preocupada com o que ele pudesse fazer.
-O que se passa aqui? – Perguntou a enfermeira, que se aproximava com uma pequena bandeja de unguentos, algodão e outros medicamentos.
O rapaz queixou-se de Eiji, chamando-o de filho de uma pessoa de trabalho indecente e que realiza acções indecentes.
-Nisso ele até tem razão. – Sussurrou Eiji sombriamente, ignorando o olhar exasperado de Linda.
-Senhor Aoki, controle a sua língua! Não o volto a avisar. E fiquei quieto, ainda não acabei com essa pisadura que tem no joelho. Ele já está despachado? – Perguntou a enfermeira, tornando-se para Linda rispidamente.
-Já.
-Então leve esse rapaz lá para fora. Só coloca os estudantes desta escola em sarilhos.
Linda lançou à enfermeira um olhar de desdém.
-Se fosse a si tinha cuidado. – Murmurou sombriamente. Um silêncio de cortar à faca percorreu a enfermaria.
-Desculpe?
-Ouviu o que eu disse. – Linda não sabia como conseguia ter a voz tão calma, tal era a raiva que circulava nas suas veias. – Se fosse a si tinha cuidado.
-A menina está a ameaçar-me?
-Não, estou a avisá-la. O meu colega magoou-se nestas instalações devido à rebeldia dos seus alunos e você, perfeita enfermeira que é, recusou-se a prestar-lhe curativos, o que vai contra o seu juramento como funcionária da área da saúde. Para não falar da minha colega que está deitada há quase uma hora naquela cama. Como boa enfermeira que sois, não lhe deu na cabeça em perguntar à avó da rapariga o que ela tinha comido ou outra coisa qualquer. Basicamente, ignorou-a a ela e a todos os outros que não era sua escola. A sua bendita escola.
-Quem é você para me falar dessa maneira?
Linda não conseguia levar o ultraje da mulher a sério.
-Alguém que, a qualquer momento, pode falar com a Directoria. – Linda calou-se, saboreando o efeito das suas palavras. A enfermeira parecia que havia comido algo estragado, os olhos contraídos em desprezo, mas não disse nada que contrariasse o aviso de Linda.
Já esta sentiu-se mais calma depois de expressar tudo aquilo que lhe vinha escondido na garganta desde que Setsu fora obrigado a curar as suas feridas apenas com um pouco de betadine e um pouco de algodão.
Mas depois reflectiu daquilo que havia feito. Ou melhor, daquilo que havia dito em frente a Eiji. Não conseguira controlar a sua arrogância real, como assim fora baptizada por Minako, e agora teria que lamber as feridas. O que iria Eiji pensar dela? Tanto controlo, tanto silêncio…
Era um traço de família, não podia ignorar. Qualquer membro da família real fazia isto quando o jogo não ia em seu favor. Realizava a soma de trunfos para, no fim, os deitar em mesa e embarricar o adversário. Todavia, a forma como o jogo era ganho carecia de humildade e tresandava a um odor de superioridade, daí que era apelada de 'arrogância real'. Algo que ela tentava esconder, não por ser algo da família, mas por ser algo que Mari de certeza que iria adorar em usar contra si.
Para não falar de Eiji. Não queria perder a amizade dele. Aos olhos dele, ela era a misteriosa e serena Linda Tsukino. A imagem que lhe dera não era falsa de todo, mas era melhor que a autêntica. Não conseguia imaginar as consequências de Eiji descobrir a verdade sobre o seu carácter. Seria tão mau quanto ele descobrir as suas origens. Iria afastar-se dela sem subida. Era o que muitos fariam. E após tanto tempo junto dele, Linda já não se conseguia afastar.
Suprimindo o bom senso que tinha, Aoki tornou-se para Eiji, ignorando a enfermeira.
-Estou a ver que ela para além de umas ricas pernas, também tem um instinto rebelde. A tua escola faz das boas.
Foi aí que Linda percebeu finalmente o motivo pela qual Eiji andara à luta.
Fora por causa dela…


-----------------------------------------------------------------------------------------------------

Gomen - Desculpa
Hai - Sim
Isha – Médico / Senhor Doutor
Ocêuaní narimachitá – Obrigada por tudo. (forma mais formal)
Dôitachimachitê – De nada
[2] – Basicamente o mesmo que a frase original (versão não revista) mas em japonês e com menos sinónimos.
‘-Parvo, estúpido, parvalhão, idiota, desmiolado, tolo, pateta... ‘


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E pronto... aqui está outro capítulo. Decidi postar agora porque aquilo estava a ficar demasiado grande Matreiro
Agora falta a parte III e espero que seja a última Mal disposto. Eu quero mesmo escrever o próximo capítulo Esperancoso
Em relação a este, eu estava tao indecisa. Eu tinha que por o Eiji à pancada, mas não sabia quando. Esta cena da enfermaria foi inventada na hora, pois o meu objectivo foi apenas "ele andou à pancada.. não dança.. ponto final..." mas decidi aprofundar um pouco a cena.
Não gostei muito desta parte. É uma seca e, como já disse, o melhor ainda vai acontecer. Mas por enquanto ficam a pensar... Smile


Última edição por AnA_Sant0s em Sab 23 Fev 2013, 16:06, editado 1 vez(es)

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por lulumoon em Sab 10 Jul 2010, 15:44

Desculpa, eu li bem? Nao gostas desta parte?
Pois olha que eu gostei e muito! Smile
hoje tou assim um pouco azelha nas palavras, mas vou tentar comentar mais ou menos! ^^'
Em primeiro lugar, acho que aconteceram coisas estranhas neste capitulo! As vozes do Kenji, as dores da Mari, aquela "visao"... Hum... Está tudo relacionado? Cheira-me que sim! Algo me diz que a Mari é uma navegante muito especial, pois para alem de o ser, tambem tem visoes que ajudam nas missoes! Claro que posso estar enganada! Matreiro
Quanto ao kenji, quase de certeza que sao sintomas amorosos! Matreiro O rapaz fica nervoso e tem de falar com alguem! bora falar consigo mesmo! lol
Depois, achei curiosa a abordagem de Misaki. Estava á espera que ela fosse mais... Bitch! Em vez disso até estava calma, vá! Mas aquele comentariozinho levantou umas suspeitas que me agradaram! Estou ansiosa que o Eiji descubra que a Linda é Princesa! ^^ Ele dava um belo principe, até já anda á chapada por ela! Que fixe! kekeke! Ainda bem que aprofundaste mais essa cena, só quero saber é porque querias que ele nao pudesse dançar! Vê mas é se a Linda manda o outro para um sitio que eu cá sei! Matreiro
Bom, sem mais nada a dizer, eu gostei do capitulo, das descriçoes, dos sentimentos e das situaçoes! Estou para ver o resto!
bjokas!

PS: vais escrever outra fic?! eu tambem estou a planear outra, mas desta vez sem nada sobrenatural! Lol, depois quero saber mais pormenores! ^^

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Sab 10 Jul 2010, 20:02

Obrigada pelo comentário lulu Esperancoso
Não, eu estava a falar da outra fanfic de SM que estou a escrever 'Onde estás Endymion?'. Essa ainda vou em andamento e por este andar será a última fanfic que alguma vez escreverei. Quando acabar estas duas, não volto a escrever (apesar de ter uma ideia grande.. mesmo grande a desenvolver-se na minha cabeça. Mas para tal, tenho que acabar estas fanfics até ao fim do meu 12º ano - tarefa quase impossivel - ou isso, ou paro de escrever uma delas...).

No que toca ao capítulo, o titulo é Os Dançarinos, parte quase desenvolvida (ainda falta a dança final Wink) e A Flor de Mercurio, ou seja, ainda me falta dois terços importantes do capítulo para acabar, para além da palha que vou lá pôr (mais cenas da relação Eiji/Linda e Mari/Kenji).
O objectivo da Misaki naquele sitio era apenas assustar a Linda e também para ficar a conheçer a mãe de Cecília. Não a criei para ser uma vilã. Alias, vilã só há uma (e é uma autentica bitch... - isso faz-me lembrar que tenho que dedicar-lhe um capítulo inteirinho, há já muito que não escrevo sobre ela xDD).

Mas posso já dizer-te isto (sou terrivel a guardar surpresas). O Eiji vai "ouvir" uma conversinha entre Edward e Linda. Agora, se ela irá revelar alguma coisa importante.. isso ainda vamos ver Matreiro

Sabes o que é estares um ano a pensar "eu vou criar um capítulo ond eel anda à pancada por causa dela" e chega a altura e... já nem sei onde inserir a cena? É mesmo estupido e até me passou a cabeça de por o Eiji a partir os dentes a uns gajos duas vezes. Nesta cena e noutra. Ideia mesmo maluca... Mal disposto
Eiji principe? Mas para isso a Linda teria que ser princesa. (falo do titulo oficial... oficialmente a Linda e o Kenji não são a realeza, pois nunca se mostraram ao público..)

No que toca às visões da Mari... Ela é diferente (navegante? que disparate é esse? O_o), mas a Cecília também o é. Também sente as auras das pessoas. Claro que ainda não explorei isso melhor, mas é diferente do poder da Rei.

E por fim.. falamos de ti... Matreiro Tu tens uma historinha novinha? ESCREVE!!! Gostava de ler uma criação tua sem nada sobrenatural. Tambem já me fartei do sobrenatural e gostava de ver algo novo. Podes dar-me umas pistas sobre a história que pensaste? Smile

E, mais uma vez, obrigada pelo comentário lulu.. Já sempre gosto ler. Mongloide



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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por Bun em Seg 12 Jul 2010, 13:06

Olá Ana.

Primeiro que tudo o facto de dizeres que as tuas histórias não interessam a ninguém não corresponde à verdade.
Eu estou apaixonada pela história desde que li o 1º capítulo.

Já tinha lido alguns capítulos e creio ter comentado uma vez mas entretanto também fiquei um bcd ausente.

Hoje passei uma boa parte da tarde a ler toda a fic desde o inicío e devo dizer que está brutal! Adorei!

Escreves muito bem, as descrições de espaços, sentimentos, perfeito.

A história está cheia de mistério e é diferente, porque falas das novas gerações. É interessante ver como se safam no mundo real estes principes,lool.

Ainda bem que a lulumoon é uma leitora assídua e não te deixou desanimar. Também vou comentar com mais frequência. Wink

Não acho assim tão despropositado pensarmos na Mari e na Cecília como navegantes. Quando descreveste a sailor harmony e sailor faith colocaste-as muito semelhantes fisicamente a elas. E além disso a Aiko encontrou um brinco com forma de estrela no quarto da Mari.
Por isso também pensei que fossem elas.

A flor de Vénus palpita-me que é a mãe da Cecília que tem...

Seria giro um novo mascarado! LOL

Sobre não gostares da Linda, bem eu gosto da personalidade dela calma, mas esta "nova" Linda está muito interessante.
O romance Kenji e Mari tá muito fixe, e o Eiji com a Linda nem se fala, tou a gostar muito.

O Kenji a ouvir vozes, a Mari a ter visões,( e afinal qual é o segredo que ela esconde?), uau..., espero ansiosamente pelo próximo!

Beijos**

Bun
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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Dom 08 Ago 2010, 14:00

Obrigada pelo comentário Rub. Já tenho andado para te responder, mas por questões pessoais deixei passar.
Não sei como conseguiste adorar a minha fanfic a lê-la desde o inicio. Tentei fazer o mesmo e fiquei de boca aberta com os erros (inacreditavel, mas eu pus a Cecília com cabelo liso no 3º capítulo.. não vou corrigir... faço de conta que naquele dia ela tinha esticado o cabelo xDD)
Como já tinha dito, canon é muito dificil, mas queria também escrever uma fanfic de sailor moon. Resultado: uma fanfic que fala de uma geração nunca mencionada. Agora qe se passaram anos e eu "evolui" a minha escrita (nalgum sentido...), vejo que podia ter ultilizado outros contornos nesta história. Mas enfim, começei, terei que terminar...

Mas eu nunca quis que voces pensassem que a Mari e a Cecilia fossem navegantes. A Cecilia tem cabelo e cor de olhos bastante comum e a Mari... enfim, há muitas tipas de mau feitio por ai Matreiro
Mas voces é que sabem... xDD

Quem tem a flor de Venus... hum... essa não digo..

Bem, eu não criei uma nova Linda. A Linda que eu tinha criado sempre fora assim, mas com um bichinho lá dentro. Desde o inicio da fanfic que eu pensei em mostrar uma Linda calma, simpática, responsável e etc.. enfim, a neta de Endymion e Serenity. Mas já pensava em, num capítulo mais à frente, ela perder a paciencia e mostrar a sua outra face. Como isse antes, decidi apressar esse momento, para preparar terreno Matreiro

Tenho que ser sincera, esta parte das vozes do Kenji veio ao calhas... mas já tapa uns buraquinhos interessantes.

Já tou a preparar o novo capítulo e espero postá-lo ants do fim de Agosto. Até lá...

Agradeço a ti e à lulu por lerem a minha fanfic e mostrarem interesse nela Very Happy

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Ter 24 Ago 2010, 10:38

Ufa, já acabei...
Novo capítulo, pouco antes do fim do mês. Foi-me um pouco dificil de escrever, de mostrar todas as emoções que queria que as personagens sentissem. Com isto quero dizer... eu entendo que me queriam mandar tijolos pela péssima qualidade de escrita nos momentos romanticos.. em relação aos outros, acho que estão bem. Pelo menos gostei de imaginar e escrever sobre a batalha.
Espero que gostem

Capítulo 21 Os dançarinos | A Flor de Mercúrio parte 3

-tu…

Linda revirava a cabeça de um lado para o outro, quer para o rapaz, quer para Eiji, com raiva expressa nos olhos. Não sabia se haveria de bater num ou de bater no outro. Ambos mereciam. Um por ser um anormal que não sabe manter a boca fechada e outro por ser um idiota que não sabe estar quieto.
Com raiva de si própria, fechou olhos pesadamente e voltou a abri-los, para depois deslocar-se até ao biombo e afastá-lo, deixando o rapaz e a enfermeira fora de vista dela e de Eiji.

No meio de aquilo tudo, Linda esqueceu-se que havia mais dois ocupantes na divisão.

-Tu... tens noção do quanto és ridículo?
Eiji mordeu os lábios severamente. Já vira aquela expressão em Linda. E fora há pouco tempo. Bastava Eiji deixar a sua mente retornar umas semanas atrás, para voltar a ver aquele rosto triste e ao mesmo tempo zangado.
Focou os olhos no chão, evitando contacto visual com a amiga. Já esta parecia determinada a controlar o seu temperamento. Inspirou e expirou várias vezes, até que o silêncio desconfortável ocupou o ar.
-Porquê? – Perguntou ela de súbito.
-Ele… - Eiji considerou a resposta a dar. – Estava a dizer coisas sobre ti…
-E porque é que não deixaste? Tu sabes bem que eu não ligo ao que os outros dizem.
-Tu… eu não. – Murmurou o loiro.
Linda mordeu o lábio e virou o tronco para a porta. O professor Amadeus tardava e ela queria que ele viesse. Já era a terceira vez que ficava sozinha com Eiji. Todas precedidas por momentos constrangedores.
-E o Kenji e o Setsu? Como é que eles se meteram nisso, aliás, explica-me como tudo se passou.
-Basicamente estávamos na conversa, quando entrei ouvi uns tipos a falarem sobre uma rapariga. Diziam coisas mesmo…. – Eiji não acabou a frase, mas Linda entendeu – Não me conseguiu controlar e ataquei o que falava mais. O meu irmão e o Kenji tentaram separar-nos, mas quando eu disse que eles estavam a falar de ti, o Kenji também perdeu a cabeça e começou a bater neles todos. O Setsu acho que apenas se defendeu.

Linda suspirou pesadamente. Então o irmão tinha entrado numa luta para a proteger. Parecia-se bastante com o Kenji que tomara conta dela quando os avós estavam longe. Aquele menino que acariciava o seu rosto quando ela se sentia triste.
Era estranha a mudança. Parecia que, de repente, Kenji tivesse uma enorme necessidade de a proteger. De onde ela teria vindo? Não era por causa de Edward, aliás, logo após o encontro dos dois irmãos na universidade que Kenji revelou-se preocupado por qualquer detalhe da vida da irmã, até mesmo namorados. O que fizera Kenji mudar de atitude tão de repente?
E depois era Eiji. Não sabia ele estar quieto? As pessoas falavam, mas eram apenas isso. Palavras. Sem fundamentos, nem verdades. Apenas palavras.

A porta abriu-se e o professor de Educação de Física entrou. Franziu o sobrolho e, após uma pequena pausa dramática, disse, num tom de voz assustadoramente calmo:
-E eu que pensava que este ano tinha-me saído a sorte grande. Não só arranjo grandes alunos na dança, mas também nos miolos. E não é que, quando acabo de saber que os meus dois pares passaram à segunda fase com distinção – Linda e Eiji deixaram escapar um pequeno brilho no rosto, mas não interromperam o professor, cujo tom de voz estava agora mais sombrio – descubro que um dos meus alunos ANDOU À PORRADA! Inadmissível! E a Directora está aqui presente! QUE VERGONHA YAMAMOTO! QUE VERGONHA!

Amadeus soltou todo o ar preso nos pulmões, o rosto agora de cor púrpura. Cecília e Setsu estavam logo atrás dele, com as cabeças viradas para o chão. Sem dúvida que eles tinham ouvido um sermão semelhante, apesar de não terem sido eles os que andaram à luta.
Kenji surgiu do outro lado, seguido por Mari. Ao notar na presença deles, Linda olhou desconfiada para o irmão. Este estava extremamente nervoso, possivelmente devido ao facto de Mari ter-se apoiado nele, pousando a mão no seu ombro.
Do outro lado, saiu o rapaz, que lançou um olhar de ódio a Linda e aos três rapazes antes de sair. A enfermeira seguiu-o. Olhando cautelosamente para Amadeus e para Linda, aproximou-se de Eiji e examinou o seu pé.
-Tens sorte. Foi só uma pequena entorse. Se relaxares o pé durante uma semana, ficarás como novo. – Disse, evitando os olhos de todos.
-Uma semana? – Perguntou Amadeus, aterrorizado. – Mas então…
-Ele não pode dançar hoje, professor… lamento.
A enfermeira levantou-se e seguiu para Mari:
-Devias estar deitada.
-Eu estou bem. – Disse Mari, teimosamente.
-Veremos isso…
-Mas o que é que fazemos? – Perguntou Amadeus, mais para si do que para a enfermeira e os adolescentes. Colocou as suas mãos na cabeça, desesperado. – Se o Eiji não dança, será menos um par…
-Professor! – Chamou Cecília, interrompendo a tortura emocional de Amadeus, que rondava a sala. – E que tal o Kenji dançar com a Linda?

Todas as pessoas na divisão esperavam qualquer coisa, qualquer ideia vindo de Cecília. Tudo menos aquela
Linda, Eiji, Mari e a enfermeira abriram a boca, incrédulos. Setsu olhou surpreendido para a morena. Kenji ficou pensativo e apenas Amadeus pareceu ter gostado da ideia.
-Hum… - olhou para Kenji, examinando-o. Como este era mais alto do que o professor, este teve que erguer a cabeça – Tu sabes dançar?
Antes que Kenji pudesse abrir a boca, já Cecília falava:
-Sim. Ele e a Linda tiveram o mesmo professor de dança. Além disso, ele e o Eiji são ambos loiros, quase da mesma altura e estrutura. Basta pôr uma máscara e o uniforme da escola que ninguém notará na diferença.
Quanto mais Cecília falava, mais incrédulos ficavam os ocupantes da enfermaria e mais sorridente Amadeus ficava, cujo rosto estava iluminado de excitação, como se a ideia de utilizar Kenji como dançarino substituto fosse dele e não da sua outra dançarina.
-Irei falar com o júri. Sei que é possível utilizar um substituto. – Lançou um olhar a Kenji, raciocinando os detalhes – é melhor ele utilizar uma máscara, pois não quero que ninguém se aperceba que o dançarino é um universitário.

Isso era um facto óbvio. Apesar de a diferença de idades ser de apenas quatro anos, dava para notar uma maior maturidade no rosto de Kenji do que no de Eiji.
-Ah… espere ai – Kenji não teve tempo para raciocinar na proposta. Amadeus desaparecera, arrastando Cecília consigo. A enfermeira mordia os lábios. Pouco antes de o professor desaparecer, ia preparar-se para dizer algo contra, mas o olhar ameaçador de Linda fê-la recuar.
-Ah…
-Fogo Kenji diz algo mais útil para variar.
E mais uma vez, o silêncio rondou a divisão. De todas as pessoas, esperava-se que o comentário viesse de qualquer pessoa menos de Linda.
Kenji virou-se para a irmã.
-Estás mesmo furiosa.
-Pudera, vocês os três andaram à porrada por minha causa…
-Hei… calminha, que eu não andei. Apenas os separei. – Interrompeu Setsu.
-Pois não. Tu não. Mas estes dois… Quando é que vocês ganham juízo?
Kenji e Eiji entreolharam-se, partilhando um sorriso. Linda semicerrou os olhos.
-Pensando bem, não me respondam. Prefiro não saber.

Mari não conseguiu deixar de sorrir, assim como os três rapazes.
Amadeus voltara, juntamente com Cecília e François.
-Está tudo pronto. Agora gostava de saber se cabes no uniforme do Eiji ou se…
-Acho que me aguento com o dele.
Claro que era mentira. Kenji tinha o tronco muito mais desenvolvido que Eiji. O uniforme ficava um pouco mais pequeno nos ombros. Mas fora isso, as calças e os sapatos acentuavam-lhe como uma luva, pois ambos calçavam o mesmo número e Eiji utilizava as calças um pouco mais abaixo que o normal, por causa das meias.
-Hum… e a música? Ele sabe a coreografia?
-Cá nos arranjamos professor – disse Linda, pegando numa das máscaras que Cecília tinha na mão. Afinal, se ele iria usar máscara, também ela o faria. Por algum motivo, sentiu-se estranha ao colocar a mascara. Não era a sensação comum do rosto escondido, da sua identidade ocultada a todos, de menos oxigénio para respirar. Não, era uma sensação... de conforto?

Linda esperou que o irmão se vestisse para o arrastar pelo braço porta fora. Cecília seguiu-a, com François atrás.
Nenhuma das duas notou no olhar furioso de Mari, ao ver o loiro a ser levado pela sua hóspede para outro lugar. Para dançar com ela.
Nenhuma delas notou que, em nenhum momento, Cecília deixara escapar que Kenji e Linda não tinham uma relação séria. Como tal, qualquer pessoa que não soubesse que eles eram irmãos, teria pensado que eles tinham algo mais… tal como Mari…

**

-Tens ideias?
-Ainda não me entrou na cabeça que vou dançar em frente a esta gente toda e já me estás a perguntar por ideias?
-Bem, eu já o fiz. – Disse Linda, mostrando um meio sorriso.
-Mas isso és tu. Eu cá não gosto de chamar as atenções.
Linda ergueu a sobrancelha
-Deveras?
-Claro… porque achas que não há uma única pessoa neste país que não me reconheça como sendo…
Kenji não acabou a frase, mas era óbvio o que ia dizer.
-Nunca conheci esse teu lado – sussurrou ela, respirando de alivio quando notou que ele não ouvira.
Linda deitou um olhar no irmão, que tinha colocado a máscara. Só olhando de perto é que se notava nas diferenças entre Kenji e Eiji. Só de perto se podia ver a cor azulada dos olhos do irmão, ao invés da cor de avelã do amigo.
-Estás perfeito.
Este não pareceu satisfeito. Pegou num maço de folhas e examinou-o atentamente:
-Qual música ias dançar com o Eiji?
Linda deu uma olhadela no bloco:
-Esta – disse, apontando. Kenji fez uma cara feia. Não conhecia a música.
-Hum… e que tal dançarmos… esta?
Linda ficou surpresa com a escolha do irmão.
-Estás louco? Essa foi a música que nós dançamos…
-Há quatro anos atrás, em pleno palácio – completou o loiro. – Sim, eu sei. Mas acho que devíamos fazê-lo de novo. A nossa técnica melhorou para melhor e devíamos esfregar isso na cara dele.
-Kenji, não me metas entre esta guerra entre ti e ele.
-Tu também fazes parte disto, não sei se te lembras. Afinal…. Ele queria casar-te com um tipo que não conhecias.
Aquilo calou-a. Rogou pragas a Edward e a Kenji pelos problemas que lhe davam, pela estúpida guerra fria que decorria em pleno pavilhão.
-Mas... e se alguém nos reconhecer?
-Quem é que nos pode reconhecer, para além dele e da Misaki? – Aí, Kenji pareceu-se lembrar de algo – Porra, às tantas a filha da Misaki ainda nos reconhece.
-Ah... a Cecília já sabe.
-Já sabe como? – Perguntou Kenji, surpreso.
-Ela viu-me a dançar com o Eiji e reconheceu-me logo.
-E não diz nada? Guarda segredo? – Perguntou ele, com receio.
-Por razões que só a mim e a ela dizem respeito. Sim, ela guarda segredo.
-Então está tudo bem – disse ele, mais para ele do que para ela. Linda calculou que, no fundo, o irmão esperava por uma desculpa para não ter que dançar.
Mas este não era o seu dia de sorte… E o dela parecia estar a esgotar-se.
-Achas mesmo que vamos conseguir?
Kenji virou-se para a irmã.
-Sim. Tu tens mesmo jeito para isto Linda, de certeza que vais conseguir. E eu lá estarei para te apoiar. – Disse, mostrando um sorriso quente, que foi retribuído pela irmã.

Linda pôs a máscara, que lhe cobria parte do rosto, e juntos dirigiram-se para junto dos outros participantes, de mão dada. Um sorriso nervoso pairava nos seus rostos, mas o simples toque de dedos que os dois irmãos partilhavam dava pequenas réstias de confiança a ambos.
Cecília fora primeiro, arrastando muitos pares para a derrota, mas não era o suficiente. Os campeões do ano passado, representantes de Juuban, davam tudo por tudo para os ultrapassar. As diversas técnicas e danças brilhavam no chão de madeira do pavilhão, uns mais do que outros.
Mas para Linda e Kenji nada disso importava. Ela queria acabar aquilo o mais depressa possível. Queria acabar a conversa com Eiji que, por várias vezes fora interrompida. Queria ouvir o que ele tinha a dizer e, finalmente, revelar-lhe os seus sentimentos. Ou melhor, parte deles. A timidez de Linda impedia que ela chegasse ao pé dele e o beijasse em frente a tudo e todos.
Não! Ela iria com calma, querendo saber se ele ainda se encontrava interessado nela, ou então, apenas falar com ele, a fim de arranjar uma certeza para todas aquelas emoções reveladas.
Já Kenji tinha diferentes intenções. Por um lado queria dançar e mostrar a Edward que podia ser melhor do que ele na dança, ponto forte do seu progenitor. Provar-lhe que estava junto de Linda para o bem e para o mal. E, acima de tudo, mostrar-lhe que se encontrava bem sem ele. Sem o homem que o deserdara.
Mas havia também uma outra razão. A voz voltara a falar para Kenji, que já se sentia desesperado à custa disso. Não sabia o que causava aquela mudança, mas sempre que a voz falava, o seu coração dava um salto, quase querendo sair pela caixa torácica. E ficava tão zonzo que até se esquecia do que estava a falar no momento em que a voz surgira.
Só encontrava uma explicação. Quando a voz surgia, todos os seus pensamentos giravam em torno de uma loira de olhos verdes…
Talvez desapareça durante a dança… se me mantiver ocupado, pensou, enquanto inspirava e expirava repetidamente, tentando relaxar. Mas se não era a pressão que o treinador de Linda lhe punha ao dar-lhe conselhos, o olhar castanho de Edward nele e na irmã ou Setsu a gritar ao longe “Força Eunuco!” que o punham com os nervos em franja, era o facto de saber que Mari o olhava nas bancadas, junto de Aiko.

Linda avançou, empurrando levemente o irmão. E a música começou.
Quase ninguém notou na alteração do par. Alias, todas as atenções estavam na rapariga.
Nenhum deles esperava que a música, uma mistura de tango e salsa, tivesse voz. Tinham dançado com apenas o instrumental no baile, mas ali… a voz de uma mulher gritava pelas colunas uma letra em espanhol.
Teriam feito uma péssima figura se não soubessem o que a cantora dizia. Mas eles sabiam, pois tinham-na ouvido pela primeira vez em Espanha e Linda dera-se ao trabalho de traduzir a música, de modo a conhecê-la melhor.
O facto de a música ter sons vocais, obrigava a coreografia a alterar-se.
Uma dama…
Amada por todos…
Querida por todos…
Senhora de um coração de ouro…
E de uma alma pura…
Possuidora de extrema beleza…
Fadada por um instinto de orientação…
Uma princesa…

Linda deixou-se guiar por Kenji. Sendo ela a ‘princesa’, tinha que deixar o seu par curvar-se para ela. O seu tronco mal se movia, apenas os pés, que realizavam um monte de piruetas suportadas pelo seu porte digno de uma princesa. Ele agarrou a mão dela e fê-la girar por cima dele, colocando-se de cocas. No chão, ela realizou uma espargata rápida e perfeita. Graciosidade, leves movimentos de cabeça. A máscara tapava o seu rosto, mas não o riso forçado e cordial que Linda tanto aprendera no palácio. Os braços abriram-se em forma de ballet, cumprimentando o Júri, enquanto ele se curvava, submisso à sua beleza. Ela passou a mão esquerda pelo seu corpo, dando destaque às suas curvas que, com a luz emitida e com os movimentos graciosos dela, se destacavam ainda mais.
Aproximaram-se e dançaram sem se tocar. Ele fingiu ser ninguém e querê-la. Tentava tocar-lhe no rosto, mas o máximo que conseguia era ter ela a abanar levemente as ancas de costas para ele, como que seduzindo-o. E ela afastou-se, mas deixando que ele agarrasse a sua mão e a conduzisse numa valsa regular, no segundo refrão.
Dançaram separados, aproximando-se lentamente. Se Linda estivesse a dançar com Eiji, um toque nos lábios selaria a magnificência da dança.
Mas não era Eiji que dançava com ela. Era o seu irmão. Os laços de sangue impediam-na de se aproximar mais.
‘Será sempre uma princesa’
Ao som da frase, Kenji aproximou-se do rosto dela, que aterrorizada, não se moveu. E depois, em movimentos rápidos e precisos, ajoelhou-se e beijou-lhe a mão, rendido aos seus pés. O beijo na mão foi feito com tanto sentimento, que causou o mesmo efeito que teria se Linda o tivesse beijado nos lábios. Ou até mais…
Ele fê-la rodar e ter o seu corpo junto do dela. Ela acenou e sorriu, satisfeita. Afastou-se e, dois segundos antes de a música terminar, fez uma vénia ao seu par.

E a dança terminara. Minutos que mais pareceram séculos. Para muitos, o par vencedor já estava decidido, mas a competência também era feroz. O Júri tinha, pela primeira vez, um caso difícil.
Mas o par sensação já tinha desaparecido. Eram agora abraçados pelos colegas, amigos e por Amadeus, que não parava de felicitar Kenji e Linda. Eiji apareceu, vindo de trás e, quando se preparava para abraçar a amiga, esta agarrou na sua mão e levou-o para fora do frenesim de pessoas.
Kenji olhou em volta, procurando a irmã e o amigo, mas apenas viu Mari a fixá-lo.
Se ele não se tivesse preocupado tanto em virar-se tão depressa quando o seu olhar se cruzara com a loira, teria notado que esta olhara para ele com uma fúria cega nos seus olhos, agora num verde-escuro. Teria notado que ela quase que fuzilara Linda com os olhos quando a vira desaparecer com Eiji e teria notado que ela não respondia a nada que Aiko dissesse, querendo controlar o seu feroz temperamento.
Se ele tivesse notado… mas não notou…


Última edição por AnA_Sant0s em Sab 23 Fev 2013, 16:07, editado 2 vez(es)

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Ter 24 Ago 2010, 10:39

**

-Foram fabulosos, não foram? – Perguntou a Directora, maravilhada.
-Sim – respondeu Edward simplesmente, tentando disfarçar um sorriso de orgulho.
Eles eram perfeitos. Os dois. A forma de eles dançarem deixava qualquer um rendido. Ele sentira todas as emoções possíveis naquela dança. Como se eles tivessem representado uma história de amor impossível, ou então apenas um relato do esplendor de uma princesa.
Ele apostava no segundo. Ela era tão bela quanto a mãe, e dançava tão bem quanto ele. Se Edward tivesse dançado aquela música com a esposa anos antes, teria feito muito melhor do que Kenji e ela, sendo Real de berço, teria parte do brilho da filha.
Mas nem Kenji nem Usagi eram tão bons quanto Linda e Edward.
Oh não, isso é algo que eu passei apenas a ela…

Tinha agora novos planos. Iria tentar falar com a filha no final do torneio, dar-lhe os parabéns pela prestação. Vê-la de perto, como nunca a tinha visto em anos. E depois regressaria para casa, e contaria à sua esposa no quão bela e talentosa a sua filha mais nova se tornara. E caso perguntasse por Kenji… bem, diria que ele estava são e junto da irmã. Essas notícias chegariam para ela.
Afinal, chegavam para ele…

**

-Foste brilhante.
-A sério?
-Sim, se eu não soubesse que tu e o Ken fossem irmão eu…
-Eiji – interrompeu a morena, tentando respirar. Tal como antes, tentava recuperar o fôlego lentamente. – Deixa-me…
-O quê?
Ela olhou para ele. Os seus olhos cor de avelã tinham um brilho invulgar quando fitavam os seus olhos azuis. E ele sorria. Aquele seu sorriso que punha as pernas dela a tremer que nem gelatina.
Céus, ele não me pode estar a fazer isto.
-Como está o teu pé? – Tentou mudar de assunto, rezando para que o seu coração parasse de saltitar e que a sua respiração voltasse ao normal.
Eiji deitou um olhar pé esquerdo, envolto em ligaduras leves.
-Melhor – disse, suspirando. – A enfermeira não vai abrir a boca, devido ao tratamento lento que me deu e a mim e à Mari. Como tal, não ficarei em sarilhos e ninguém saberá que um universitário dançou por mim.
-Que bom.
Linda sentou-se no banco mais próximo. Estavam nos corredores da escola, onde várias fotográficas que estudantes já formados decoravam as suas paredes, pintadas em cores leves de verde e creme.
-Lindinha?
Ela sorriu, mas não respondeu. Sabia que ele lhe chamara de ‘Lindinha’ só para a animar.
Ele sentou-se ao seu lado. Passou a sua mão pelo ombro dela em tom de conforto, mas Linda não aceitou o toque a bem. Levantou-se de repente e ficou de costas voltada para ele.
-O que me escondes?
-Adivinha – respondeu ela, entre suspiros. Estava tão nervosa…
Ele largou um pequeno sorriso e observou-a de costas. Ela tinha os braços cruzados, como se protegesse do frio. Mas ele sabia que, naquele momento, frio era o que Linda menos sentia.
Tão nervosa, tão tímida, tão querida, tão bela…
Tinha-se apaixonado por ela por estas qualidades, que agora se agrupavam todas naquela figura esbelta, como querendo enlouquece-lo.
Levantou-se silenciosamente e, sem dar um pequeno som de aviso à morena, abraçou-a por trás.
Ela era tão pequena em comparação a ele, que os seus braços envolviam-na toda e ainda quase que chegava a uma segunda volta. O cheiro do suor dela punha-o louco. Mas ela não o largou. Em vez disso, tornou o seu corpo para ele, deixando os rostos a apenas uns centímetros de distância.
Os corações seguiam agora o menos compasso de ritmo. Calmo e harmonioso, como se ambas as almas tivessem esperado por aquele momento em séculos.
-Conseguiste – murmurou ela, erguendo a cabeça, deixando o seu nariz roçar no queixo dele.
-O que consegui? – Ele já sabia do que ela falava, mas tinha que saber. Tinha que ouvi-la dizer as palavras.
-Conseguiste-me pôr louca por ti.

Perderam a noção das coisas. Num segundo, ele sorria e puxava-a para perto dele, noutro a boca dele tomava a dela, suavemente, mas deixando transparecer o desejo há muito guardado.
Linda sentiu uma explosão de sabores ao mesmo tempo. O seu coração disparou, enquanto ele punha as suas mãos nas ancas dela, puxando-a para cima, facilitando o beijo. Os lábios dele roçaram nos dela, levemente, aumentando o desejo, antes de tomá-la de novo, desta vez, num beijo mais selvagem.
Querendo poupar forças, ele soltou-a e baixou-se para ela. Enquanto uma mão segurava a anca dela, a outra massajava os cabelos dela, em busca de algo. Quando encontrou o que procurava, fez um pequeno movimento de dedos e, um segundo depois, Linda tinha o seu cabelo livre.
O cabelo dela, agora ondulado, só mostrava a Eiji a Linda que ele queria beijar. A rapariga que ela escondia atrás dos óculos e de totós. A bela moça que o hipnotizava com um simples olhar. E que o deixava louco.
Ele afastou-se, mirando-a. Ela sorria, um pouco surpreendida.
-O que foi? – Perguntou ele, estranhando a reacção da rapariga.
-Nunca achei que fosse assim – disse ela.
-Assim como? Queres dizer…
-Nunca nenhum outro homem me beijara antes. Tinha lido sobre… como era… nos livros… mas a realidade é muito melhor. – Ela sorriu, relaxando-o.
Também pensa lá. Estamos a falar do primeiro beijo, não da….
Eiji teve um outro pensamento, mas não se atreveu a partilhar com ela. Era obvio que, se ela nunca tivesse beijado ninguém então também…
Porque raio te preocupas?
Porque ele gostava de ser o primeiro. Não só fazia bem ao seu ego, como também tornava o romance mais quente, ligava-os mais. O facto das grandes experiencias no amor teriam sido realizadas com a mesma pessoa, dava uma sensação de conforto no par. Conseguiam confiar um no outro. E o romance evoluía e nada (ou quase nada) podia acabar com a flor mais bela do jardim da Vida.

Levou os lábios aos dela, tocando suavemente. Ela retribuiu, mordendo o lábio quando ele se afastou.
Continuavam abraçados e ela agora tinha a cabeça pousada no tronco dele, deixando-o com o rosto sobre os seus cabelos.
-Eu sabia – disse ele por fim. – Eu sabia que te conseguia convencer.
Ela nada disse, apenas sorriu.

**

Cho estava no gabinete da Directora da sua escola, procurando uns papéis. A busca já era demorada e ela já mal sabia o que de facto viera lá à procura.
O gabinete estava agora uma desarrumação. Onde raios estariam os papeis que a sua chefe pedira?
Olhou para o grande relógio branco com ponteiros negros. 20h15. O Júri tinha-se juntado, a fim de decidir o par vencedor, enquanto todos os restantes comiam um jantar leve.
Ao pensar em jantar, o seu estômago rugiu, reclamando por reabastecimento. Cho desejou um prato de sushi de goiaba, o seu preferido, a acompanhar com vinho branco. E para sobremesa, umas natas do céu.
Infelizmente, tinha que se contentar com uma lata de Coca-Cola e um bolo gorduroso da máquina de petiscos.
Fez uma careta e encolheu os ombros. Iria comer algo e depois voltaria. Também a Directora não precisava dos papéis com urgência. Voltou a arrumar as coisas e fechou a porta do gabinete.
Ao caminhar pelos corredores, o seu corpo foi percorrido por uma sensação estranha. Como se estivesse alguém atrás de si.
Ao ouvir um barulho vindo de trás, virou-se, assustada.
Calma, Cho. Não se passa nada, disse para si própria.
Quando se voltou a virar viu um homem à sua frente, que lhe sorria maliciosamente.
Só teve tempo de gritar até tudo ficar negro.
**
Aquela sensação não parecia ter fim. As borboletas no estômago punham-na a tremer o corpo todo. Ela estava deitada no banco, com a cabeça no ombro dele, enquanto ele abraçava-a. Por várias vezes ele beijou o pescoço dela carinhosamente, como se tocasse numa flor. Ela sentia-se leve e protegida naqueles braços. Uma princesa envolta numa fortaleza guardada por um cavaleiro de cavalo branco.
Bem, tecnicamente ela era uma princesa e Eiji era o seu cavaleiro que, naquele momento, a protegia de uma ameaça desconhecida. Durante vários minutos, ela esqueceu-se do que se passava à sua volta e ele também. Deixou-se guiar por aquela sensação de prazer que ela nunca sentira antes.
Querendo passar o tempo, observaram as fotografias nas paredes, contando os elementos de cada turma ou comparando os uniformes e as suas alterações ao longo dos anos.
Até que os olhos dele se focaram numa determinada fotografia. Um pormenor chamara-o a atenção:
-Hei! Esta aqui… pareces tu!
Linda observou Eiji a levantar-se do banco e a aproximar-se de uma fotografia das mais antigas. Ao longe, viu uma turma com o uniforme de Juuban azul-escuro e branco, com uma linha vermelha no colarinho. Não reconheceu caras, mas reconheceu o original penteado de Usagi Tsukino.
Levantou-se e juntou-se a ele, examinando a foto. Viu Ami, do lado esquerdo da avó, segurando um livro de capa turquesa e sem óculos. Minako estava à direita, pousando as mãos no ombro da avó, enquanto fazia pose para a câmara. Makoto, a mais alta, estava atrás, por entre Ami e Usagi e sorria alegremente de Minako, que se destacava, propositadamente, na foto. Faltava Rei, que estudara noutro colégio, mas sabia, pelo gesto que Makoto fazia ao seu lado direito, onde não estava ninguém, que elas tinham de algum modo guardado lugar para a sua amiga.
A sua avó sorria. Mas já não era o sorriso de criança pelo qual fora sempre conhecida. Era já o sorriso da mãe de Small Lady e da avó de Linda e Kenji, uma mulher madura e responsável. Era a única com um adorno especial. Um alfinete dourado com asas decorava a fita azul escura do seu uniforme que, juntamente com o seu penteado, tornava Usagi a mais original da turma.
-É a minha avó.
-Estranho… podia jurar que, quando olhei para ela estava a ver…
-A mim? – Cortou ela, já ciente da resposta.
-Não, o Kenji.
Linda não acreditou.
-Estás a gozar!
-Quem me dera. É verdade que são parecidas, mas é que… olha para o olhar que ela está a fazer. Ela, aquela loira toda excitada – Linda sorriu ao vê-lo apontar para Minako – a de cabelos azuis e a morena atrás parecem ser a únicas relaxadas ali. O Kenji também nos olha assim, quando está relaxado.
Era verdade. Apesar de a expressão ser diferente, uma pequena semelhança notava-se entre avó e neto. Ambos pareciam seguros, alegres, sem preocupações. Mas o que tornava o olhar de ambos tão parecidos, era o facto de eles aparentarem não terem preocupações, mas no fundo terem.
Usagi era uma navegante, princesa da Lua e futura rainha
Kenji era o irmão mais velho de uma navegante, príncipe de Cristal Tokyo e futuro rei.
Para além de outras coisas…

Eiji colocou a mão na cintura dela e juntos admiraram a avó de Linda uma vez mais. Meses antes, Linda teria jurado que era a cara chapada dela e pouco tinha dos pais. Mas agora… Elas pareciam tão diferentes…
Linda suspirou pesadamente e, quando se preparava para afastar, ouviu um grito atrás de si.
-O que é isto? – Perguntou Eiji, avançando instintivamente para a frente de Linda. Já esta perdeu toda a cor do rosto.
Tinha acabado de reconhecer o corredor onde estava. Era o mesmo da visão de Mari. E aquele berro só podia significar uma coisa…
-Eiji – fê-lo virar-se para ela – eu tenho que ir à casa de banho. Podes ir indo e arranjar algo para comermos?
-Mas aquele berro… – ele sabia que ela lhe escondia algo.
-Ás tantas são dois alunos a comerem-se no armário do funcionário de limpeza. – Oxalá assim fosse, pensou. Conseguiu dar um meio sorriso. Ele não pareceu convencido.
-Não me pareceu o grito de… tu sabes…
-Cada uma tem o seu grito personalizado. – Oh Raios, vai-te por favor… não me faças mentir mais…
-Linda, o que me escondes? – Ele segurou os braços dela e forçou-a a olhá-lo nos olhos. Ela viu tristeza no mar de castanho, mas também medo. Não lhe podia mentir mais. Mas também não podia perder mais tempo.
-Depois conto-te. Prometo. Mas, por favor, vai buscar algo para comermos e evita este corredor. Por favor – suplicou. – Confia em mim.
E ele confiou. Algo lhe dizia para o fazer. Mas não apenas isso. Um instinto dentro dele não o deixava ficar ali. Parecia que ele próprio reconhecia o perigo.
Ela parecia confiante. Determinada e confiante. Fosse o que fosse, ela não estava assustada. Quem seria ele para também ficar assustado?
-Está bem. Mas, se daqui a quinze minutos não vieres ter comigo, eu volto. – De alguma forma, ele sentiu-se um mentiroso. Parecia que a parte de si que queria proteger Linda lutava contra uma outra parte, que queria que ele corresse dali e não voltasse mais. A parte cobarde contra a parte apaixonada.
Ele foi, mas devagar. Linda sentia o coração a saltar. Ainda iria a tempo?
Quando Eiji já não se via no fundo do corredor, ela correu na direcção oposta.
Segurou no seu medalhão e chamou pela Guardiã dos Sonhos.
Ao chegar ao seu destino, deu graças por não haver nenhum estudante, professor ou funcionário por perto para ver uma criatura a sugar a vida do corpo inconsciente de Cho Kobayashi.


Última edição por AnA_Sant0s em Ter 24 Ago 2010, 10:47, editado 1 vez(es)

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Ter 24 Ago 2010, 10:40

**

Ela ouvira o berro. Outra vez…
Parecia um pesadelo tornado realidade. E ela já sabia que aquilo iria acontecer. Mas não fizera nada para o impedir. Ficara quieta a comer uma sandes, enquanto aquela mulher era atacada pelo monstro.
No entanto, algo estava errado. O monstro vacilava.
Alguém estava com ele.
Levantou-se rapidamente e dirigiu-se para o corredor. Não iria deixar mais alguém ser atacado. Não depois de todas as falhas.
Procurou a companheira com os olhos. Esta fitava-a, como se já estivesse à espera dela.

**

E se estava. Durante uns bons minutos ficara a olhar para a amiga, querendo interpretar aquilo que ela via. Perguntou-se se ela ouvira o berro de novo.
Por sua vez, ela não ouviu nem viu nada. Mas sentiu.
Uma aura negra atravessara os corredores da escola e atravessara como uma espada afiada a aura pura de uma outra pessoa. Uma pessoa especial.
A Flor de Mercúrio
De súbito, os sons à sua volta deixaram de ter importância. Alguém a chamou, mas ela não prestou atenção. Ao cruzar o seu olhar com a companheira, dirigiu-se para junto dela:
-Ouviste? – Perguntou a amiga, preocupada.
-Acho que só tu é que podes ouvir.
-Então?
-Não temos tempo a perder.
-Está alguém com ele – disse a amiga, de repente. – Alguém que estava por perto e que ouviu o grito.
Os olhos de ambas encheram-se de medo.
-Então não podemos ficar aqui. Essa pessoa não terá hipótese contra a criatura.

Afastaram-se. Pelo caminho, chocaram contra um jovem loiro que, por estar cercado de pensamentos, só teve um pequeno vislumbre delas.
Ao verem-se sozinhas, chamaram as suas Guardiãs e correram em direcção à fera. Harmony guiou a companheira, tentando distinguir as almas nos vários corredores da escola.
De repente parou. Sentira uma nova alma. Provavelmente a outra pessoa que Faith afirmara ter visto. Mas essa pessoa tinha uma aura brilhante e muito forte.
-O que foi? – Perguntou a navegante da fé. – Porque paraste?
Olhando de lado para a amiga, seguiu em frente, desta vez, consciente do caminho correcto.
E esperou que a sua companheira não reagisse mal à presença da Sailor Dream.

**

Uma sensação de Deja vu percorreu Linda. Um monstro verde de olhos vermelhos vivos com oito tentáculos estava à sua frente, sugando um fio de prata, onde as memórias de Cho choravam pelo seu mau destino.
Não querendo ficar parada, correu em direcção ao monstro. Esqueceu-se que era uma navegante e, como mera mortal, atirou-se para cima da fera, fazendo-a quebrar o contacto com Cho.
A pele da besta era extremamente áspera e Dream sentiu dor no seu braço direito, exposto a maior contacto. Tentou levantar-se, mas a besta debateu-se, tentando deitá-la ao chão. Utilizou os seus tentáculos para agarrar a perna dela, impedindo-a não só de se levantar, mas também de fugir.
A besta ergue-a, deixando-a de cabeça para baixo e abanou-a como um brinquedo. De repente, lembrando-se da sua missão, dirigiu um dos seus olhos vermelhos para a mulher desmaiada no chão e avançou para ela. Em pânico, Dream esticou o corpo e tentou alcançar os pés, agarrados pelo tentáculo. Utilizando a sua elasticidade de dançarina, conseguiu lá chegar, mas a pele da criatura fez-lhe pequenos cortes nos dedos dela, fazendo-a gemer e largar o tentáculo.
O monstro estava agora muito perto de Cho e estendia outro dos seus oito tentáculos para ela.
Respirando forçadamente, Dream tentou fazer algo. Até que lhe deu uma vontade enorme de bater com a mão na testa
Ela era uma navegante. Com mil raios, ela tinha poderes
-Silver star dream – gritou, deixando que o poder fluísse pelos seus dedos e libertasse uma corrente de estrelas prateadas que, ao atingir o monstro, cortaram-lhe a pele, fazendo-o emitir um gemido de dor. Atordoado, largou a jovem, que caiu de pé como um gato.
Ela, por sua vez, aproveitou para correr para junto de Cho, vendo a sua pulsação. Está apenas desmaiada, pensou aliviada. Ao deitar um olhar sobre o monstro, viu que as estrelas do seu ataque tinham perfurado a pele áspera do monstro, deixando que um líquido roxo escorresse pelo corpo da besta.

Ouviu passos e, quando se virou, estava frente a frente com Sailor Harmony e Sailor Faith. Esta não parecia muito feliz pelo reencontro mas, preocupada com Cho, nada disse.
Harmony chegou-se perto de Dream:
-Ela está bem?
-Sim. Consegui impedi-lo.
Harmony olhou para o monstro, agora recuperado. Nos seus olhos, um minúsculo ponto preto fixara-se nelas, com raiva bem expressa. Faith foi a mais rápida. Quando o monstro tentou atacá-la, Faith desviou-se e deu-lhe um valente pontapé naquilo que se podia assemelhar a um joelho, desequilibrando o monstro:
-Holl of Faith – murmurou ela, deixando que os seus olhos ficassem negros por sete segundos até que uma luz incolor atacasse o monstro. Dream e Harmony pegaram em Cho e levaram-na para o lado, mantendo-se encostadas às paredes. Apenas a navegante da fé podia ver o raio de luz que disparara e que, naquele momento drenava energia da criatura.
Cho gemeu de dor. E Dream deitou um olhar a Faith. Os seus olhos tinham voltado á sua cor original, um verde-garrafa. Ela suspirou, como se tivesse acabado de sair de um transe. Aquilo estranhou à navegante dos sonhos, que semicerrou os olhos, desconfiada.
Com Dream a mirar Faith e esta a tentar recuperar o fôlego, apenas Harmony pudera ver a figura baixa.
Um homem com pouco cabelo, um pouco rechonchudo, cara severa e sobrancelhas finas olhava para o demónio com desprezo e para as três navegantes com curiosidade. Curiosidade que não demorou muito, pois ao ver a possuidora da Flor de Mercúrio deitada aos pés delas, formou uma linha recta nos seus lábios sem cor e ergueu a mão para a besta.
Tinha que ser ele a tratar a rapariga. E o monstro… bem, ele podia se divertir com as navegantes.
Um raio de luz rosa atingiu a criatura, que gritou de dor. O som era doloroso de se ouvir e obrigara as três navegantes a taparem os ouvidos com as mãos. As ondas sonoras batiam nos objectos do corredor e espalharam-nos pelo chão, partindo alguns vidros de vitrinas e algumas taças de prémios da escola. O chão tremeu e o monstro sofreu uma metamorfose. Aumentou o seu tamanho, ficando com a cabeça quase a bater no tecto, os tentáculos multiplicaram-se, a pele recuperou dos seus ataques mas o pior caso foi o facto de o monstro ter agora todas as suas energias reabastecidas e estranhamente, as três navegantes pensaram no mesmo. Não teriam a mesma facilidade em esgotar aquela energia.
O monstro saltou para elas. Faith e Dream desviaram-se, mas Harmony, não querendo deixar Cho, foi atingida no peito por dois tentáculos. Esta gritou de dor e largou a rapariga. Faith correu para junto da amiga e desviou-a de um segundo ataque.
Sentindo-se impotente, Dream voltou a usar o seu ataque na criatura, mas sem sucesso. O monstro recebeu o seu ataque e absorveu-o, ficando ainda mais forte. A sua boca monstruosa abriu-se numa gargalhada aterradora, mostrando dentes pontiagudos e afiados e avançou para Dream. Esta correu por entre as pernas do monstro, deixando-o confuso sobre o seu paradeiro. Só parou de correr quando viu que estava fora do ângulo de visão da besta. Viu ele virar-se para as outras duas, ainda perto de Cho, e tentar atacá-las. Estas desviaram-se rapidamente.
Foi então que o plano do inimigo ficou bem visível na cabeça de Dream. Longe de Cho, as duas navegantes tentavam assustar a besta, chamando-lhe a atenção. O que nem era necessário. O monstro não queria saber dela. Em vez disso, a figura baixa dirigia-se para ela deixando a criatura encarregar-se delas.
Faith ergueu os braços, pronta a atacar:
-Não! – Impediu Dream, deixando a outra navegante espantada. – Ele irá absorver o teu poder.
Faith não pareceu convencida, mas foi travada pela companheira, que se virou para ela, depois de se desviar de outro ataque:
-Então como fazemos?
Dream abanou a cabeça para o homem. Harmony entendeu e assentiu a cabeça como resposta.
-O que é que ela quer? – Perguntou Faith, furiosa por não ter entendido o plano.
-Não importa agora. Temos que distrair o monstro. Anda! – Puxando a amiga, avançaram para a besta. Este tentou, mais uma vez, derrubá-las, desta vez com sucesso. Elas correram, sem qualquer ideia de como o impedir de atacar Dream que, nas costas do monstro tentava avançar até ao homem.
Na cabeça desta, apenas aulas de ginástica lhe passavam pela cabeça. Lembrava-se de Makoto lhe ensinar a jogar futebol, andebol, a fazer ginástica artística. E lembrava-se de, uma vez, Makoto ter que sair e, sozinha, ela tentara fazer alguns exercícios, sem sucesso. Até que viu uma mulher de cabelos loiros muito curtos e fato dourado à porta. Esta entrara sem bater e examinou o corpo da rapariguinha antes de dizer:
-Queres mesmo saber como isso se faz?
Ela assentira com a cabeça e Haruka Tenou ensinara-lhe vários saltos e movimentos de ginástica que ela nunca aprenderia com mais ninguém. Ela sempre achara estranho, ela ter uma grande flexibilidade e agora a resposta era bem visível aos seus olhos. Era navegante. E apenas esse facto lhe conferia uma flexibilidade e destreza que muitas mulheres lutavam uma vida inteira para ter.
Respostas, planos e ideias percorreram a mente da navegante dos sonhos a jacto. Soltou um leve sorriso, antes de mudar de direcção. Tinha que lhes dizer, mas, ao mesmo tempo, não denunciar as suas intenções ao homem.
Saltou para cima do monstro e caminhou por cima dele até estar lado a lado com as outras duas.
-Então e o plano? – Perguntou Faith.
-Continua na mesma. Mas não vos posso deixar sem indicações.
-Quem te disse que precisamos de indicações?
-DESVIEM-SE! – Gritou Harmony, atirando-se para o chão. Dream e Faith fizeram o mesmo, mas Faith fora apanhada com o tentáculo como um chicote, que lhe provocara uma ferida aberta na perna.
-Ai… - gritou esta, cheia de dor. Dream viu um pequeno fluxo de líquido vermelho vivo escorrer pela perna da navegante de cabelos loiros.
- É por isso que precisam de mim. Ouçam – desviou-se de mais um ataque e, quando teve a certeza que as duas a ouviam, continuou – Sejam navegantes.
-Como?
Dream não percebeu quem tinha feito a pergunta, mas prosseguiu:
-Navegantes. Vocês têm uma flexibilidade inata. Usem-na! – Deu ênfase na última palavra, antes de correr para o monstro. Harmony seguiu-a. Ambas foram em torno do monstro, uma em cada lado, e esperaram que este as atacasse. Quando ele o fez, desviaram-se, mas Dream deu uma cambalhota para trás, ficando em cima do equivalente ao ombro do monstro. Quando este voltou a atacar, saltou, deixando o monstro gritar pelo seu próprio ataque.
Vendo o raciocínio de Dream, Faith e Harmony prosseguiram no ataque ao monstro, derrubando prateleiras e partindo bancos e cacifos. Este, devido a um pontapé – cortesia da bota de cano alto de Sailor Faith – ficara cego do seu olho esquerdo, agora ainda mais vermelho e não conseguia ver as duas navegantes a correrem que nem ratos por debaixo dele e desviando-se dos seus ataques. Pouco a pouco, foi perdendo energia e já mal se conseguia aguentar de pé.

Entretanto Dream correra para junto do homem e de Cho. Este retirava a Flor de Mercúrio, que apareceu irradiando uma belíssima luz azul clara.
-Pára! – Gritou ela, querendo distrai-lo.
Este focou-a por uns segundos até que lhe mandou um jacto de vento, que a derrubou no chão. As suas costas latejaram de dor, mas isso não a fez desistir.
-Moon treasure! – Murmurou, tal como Faith fizera. Desta vez, sentiu uma onda fria a percorrer-lhe o corpo e os seus olhos ficaram negros como o carvão. A força das suas palavras provocara um efeito diferente no ataque, que o diferenciava do raio luminoso do seu primeiro ataque.
O calafrio permaneceu no corpo, os membros inferiores ficaram tensos e uma luz branca escapou-lhe não do medalhão, como anteriormente, mas dos seus olhos. A luz propagou-se até ao homem, fazendo-o gritar de dor.
Tentou andar, mas as suas pernas estavam petrificadas, obrigando-a a rastejar. Os seus olhos ainda emitiam a tão forte luz branca e tal impedia-a de ver o quer que seja.
Utilizando a audição, soube que o homem ainda lhe mandara raios luminosos contra ela, alguns embatendo nos braços dela, fazendo-a fraquejar. Mas ela continuou e, quando sentiu os olhos a perderem um pouco da luz, e os membros das pernas perderem rigidez, levantou-se. Avançou determinada, mas os raios que o homem lhe mandava impediam-na de se mexer muito. Em compensação, a luz que saia dos seus olhos, impedia-o também de andar mais do que dois passos. A Flor de Mercúrio brilhava no meio das duas figuras, intocável.
Sentindo-se fraca e com o corpo dorido, Dream tentou avançar mais, mas sem sucesso. Estava a perder forças e sabia que, assim que o ataque findasse, ele avançaria e roubaria a Flor da mulher.
Até que a visão ficou turva. Não via nada a não ser a mulher dos seus sonhos a realizar aquela dança esquisita.
E então soube o que fazer.
Utilizando os seus dotes de dançarina, moveu-se em piruetas - as mesmas piruetas realizadas por Agnes no seu sonho - escapando aos raios luminosos. Apenas conseguia ver a luz azul da Flor de Mercúrio. O resto era guiado por instinto e som. O braço direito servia como escudo, enquanto o esquerdo estava esticado, pronto a alcançar a flor.

Tudo acontecera em segundos. Faith e Harmony, ao verem o monstro fraco demais para se proteger, gritaram juntas:
-Hope Star – e um raio cinzento claro esbarrou contra o monstro, desfazendo-o em pedaços.
Por seu lado, Dream nada dissera. Apenas conseguiu tocar na Flor pela ponta dos dedos e empurrou-a levemente na vertical. A flor, possuindo vida própria, aceitou o estímulo e voltou para dentro do peito de Cho, que agora respirava normalmente. O Homem viu então o fracasso.
A luz desapareceu e três navegantes fitavam o homem que, com os seus poderes esgotados, nada podia fazer.
-Vocês vão-mas pagar. Principalmente tu! – Cuspiu, com grande desprezo, apontando para Sailor Dream, antes de desaparecer.

Esta não tinha forças para se mover. Fora a dança e a luta que a deixaram esgotada. Todo o corpo lhe doía, mas agradeceu às forças superiores o facto de não sentir feridas abertas. Tentou controlar-se e virou-se para as outras duas. Faith tocava na perna, que parara de sangrar, mas que exibia um corte feio. Harmony sorria:
-Bom trabalho.
-O me-smo dig-o de vo-ccês – disse ela, quase comendo as palavras.
Faith acenou para ela, olhando para ela com curiosidade:
-Afinal não és tão má como eu pensava – disse num sussurro, mas que provocou um sorriso nas morenas da divisão. – Voltaremos a ver-nos.
E ambas desapareceram no fundo do corredor.

Esgotada, Dream apenas teve forças para segurar no pêndulo no seu cabelo e transformar-se de novo em Linda, antes de ouvir a voz de Eiji e passos ao longe e tudo ficar negro.

**
-Estás bem?
Eiji. A sua voz era agora um calmante para os nervos de Linda. Esta estava tão fraca que, pela primeira vez, dava tudo por uma cama e uns bons dias de férias.
-hum hum – sussurrou ela, tentando sorrir, mas sem conseguir. Nem para isso tinha forças. O corpo reclamava por descanso. – Onde estou?
Tentou erguer a cabeça, mas desistiu. Tinha que descansar. Eiji passava a sua mão pelo rosto dela carinhosamente.
-Estamos no balneário das raparigas. O dos rapazes estava cheio e eu não te queria na enfermaria.
-Porquê?
-Porque assim iriam te perguntar o que te tinha acontecido e… Céus Linda, tu estavas num corredor completamente destruído, junto ao corpo de uma funcionária desta escola. Podes dizer-me o que te aconteceu? – Na sua voz notava-se desespero e preocupação.
Ela molhou os lábios secos e disse, ainda num tom baixo:
-Trouxeste-me para aqui?
-Não queria que te metesses em sarilhos. Disse-te quinze minutos, mas distraí-me e quando dei por mim já tinha passado meia hora. Fiquei louco de preocupação e corri para o teu lado. Só me parecias desmaiada, mas…. Oh Linda, se ficaste assim só porque cheguei tarde….
-Não! A culpa não é tua. Chegaste no momento certo – conseguiu sorrir para ele, acalmando-o. - Eu estou apenas fraca. Uma boa noite de sono vai-me fazer bem.
-Sendo assim amanhã não vais à escola.
Isso lembrou a Linda algo. Era quinta-feira, na primeira semana de Dezembro, penúltimo dia de aulas. Dia do torneio de dança.
-O torneio – tentou levantar-se, mas Eiji impediu-a, soltando uma gargalhada.
-Estás louca. Não podes ir para ali. Depois alguém nos diz quem ganhou.
-Eu tenho que lá estar. Temos os dois. Somos participantes, para além de… - gemeu de desconforto – para além de, se não quereres chamar as atenções sobre o meu paradeiro, temos que ir.
Aquilo convenceu Eiji, que a ajudou a levantar. Segurou-a pela cintura, numa tentativa de a apoiar.
Linda sorriu. Assim ninguém desconfiaria que ela estava quase a cair, mas sim que ela apoiava Eiji, que ainda mancava.

Juntos caminharam em direcção ao pavilhão. Pelo caminho ouviram relatos de que Cho Kobayashi fora atacada por vândalos, que destruíram o corredor. Homens da policia pediam pelo paradeiro de cada pessoa, a fim de eliminar suspeitos, pois a escola estava cheia de pessoas na altura do acto de vandalismo. Alguém afirmou que a porta das traseiras tinha sido forçada e isso obrigou os oficiais a concluir que não tinham sido pessoas que vieram assistir ao torneio, pois o segurança da entrada principal não viu ninguém afastar-se na direcção da porta. Agora a jovem mulher estava na enfermaria, sã e salva. Parece que afinal, ela apenas desmaiara de susto.

-Onde estiveram? – perguntou Kenji, quase correndo para junto de Eiji e Linda. Achou estranho ele estar a agarrar a irmã, mas nada disse. – Estive preocupado.
-Estivemos a comer junto aos balneários. – disse Eiji. E era verdade. Pelo menos no caso dele. Fora lá que ele estivera, tendo o cuidado de não ser visto por ninguém. – Alguém deu pela nossa falta?
-Todos, mas ninguém se preocupou tanto quando eu.
-Isso é porque és um mano coruja – comentou Linda, com a voz ainda fraca.
-O que lhe aconteceu?
-Algo que ela me vai dizer, certo?
-Não agora... Por favor, Eiji. – suplicou Linda, fazendo um olhar de cachorrinho para ele, ainda que involuntário. Este encolheu os ombros em resposta, rendido ao seu olhar. Kenji abafou uma gargalhada.
-Eiji, chega aqui! – chamou Setsu do fundo. Eiji deitou um olhar em Linda e, quando a morena insistiu em que a deixasse, afastou-se. Só uma pessoa viu Linda a cair nos braços de Kenji, que a segurou carinhosamente:
-Andaste a lutar minha navegante? – sussurrou ele ao ouvido dela.
-Como sabias?
-Nota-se. Para além de eu ter estado nos balneários e ter visto o Eiji sozinho. Ao sair, ouvi um rugido e fiquei preocupado. Apenas não fui a teu paradeiro por que…. Não poderia fazer nada.
Ela sorriu, encostando a cabeça no tronco dele. Tinha tanta vontade de dormir.
-Então sê-me útil agora. – e fechou os olhos.

Ao longe, Mari via Kenji agarrar Linda com um carinho notável. Ele gosta mesmo dela. E ela a brincar com ele e com o Eiji… Sim, porque ela vira-a agarrada ao Eiji e depois, mal o amigo se afasta, ela já está agarrada a outro.
Raiva percorria as suas veias e apeteceu à loira dar um soco na cara do homem rechonchudo à sua frente, apesar deste não ter culpa nenhuma.
Tentou acalmar-se, mas não conseguia. Pequenas lágrimas tentavam sair pelas orbitas, mas ela empurrava-as para dentro.
Não! Ela não choraria. Já fazia muito tempo desde que derramara a sua última lágrima. E os motivos foram bem piores do que aquele.
Ela estava roída de ciúmes. Não podia ignorar. Passara parte da vida a sonhar com alguém como ele e, quando ele aparece... Gosta de outra.
Era doloroso e nem mesmo uma rapariga com a força de Mari conseguia aguentar aquela dor sem rachar a fortaleza.
Mas tinha que aguentar. Não se podia deixar perder por causa de um tipo, por muito charmoso que ele fosse.
Não...
Não...
Mesmo que o seu coração já tivesse feito uma decisão, controlaria a sua mente e o seu corpo. Não poderia cometer erros.
Não podia amar ninguém...
Não podia amar Kenji...


**
-Oxalá, oxalá – murmurava o professor Amadeus, enquanto eles esperavam pelo resultado. Cecília e François estavam ao seu lado, ambos um pouco aborrecidos. Atrás Kenji e Eiji seguravam Linda, pondo os braços em volta dela. Esta não conseguia parar de se rir da situação.
-Podem largar-me?
-Para quê? Para caíres redondinha no chão?
-Não passo do chão.
-Não arriscamos – disseram eles em uníssono, provocando outro riso de Linda.

A voz do apresentador ouviu-se e todo o pavilhão lhe prestava atenção.
-Muito obrigada senhoras, senhores e jovens, pela vossa esplêndida presença neste torneio de dança. Tenho aqui na minha mão os nomes dos pares vencedores.

Linda pousou a cabeça no ombro de Eiji, que lhe sorriu em resposta. Kenji, ao ver a irmã junto do melhor amigo, afastou-se devagar, passando parte do peso de Linda para o loiro.
Não pôde deixar de sorrir da imagem. A irmã ficava tão feliz junto dele, tão completa. E se havia algo que Kenji tanto pedia aos céus, era a felicidade da irmã. Depois de tudo o que acontecera, ela merecia.
-Em terceiro lugar…. Cecília Tamura e François Barbieri.
Seguiram-se palmas, enquanto Cecília e o seu par se dirigiam para o pódio, onde receberam a medalha de bronze. Amadeus olhava agora para Linda com todas as esperanças depositadas nela. Mas esta nem notou.
O Júri decidira dar um comentário. Afirmara ter se apaixonado por dois pares e a decisão de escolha fora a mais difícil de sempre. Não se meteram em rodeios ao anunciar o par de Juuban e Linda e Eiji como os preferidos. Amadeus estava agora numa pilha de nervos. Ou era o primeiro lugar, ou era o mísero segundo.
-E em primeiro lugar…
O mundo parecera parar para várias pessoas naquele momento, ansiosas para saber o vencedor. Cecília fazia figas pela colega, François sorria para Linda, Kenji mordia os lábios de tanto nervosismo, Setsu roía as unhas e o professor Amadeus chegava mesmo a rezar baixinho.
Nas bancadas, Aiko e a Directora diziam ‘Vá lá, vá lá’ constantemente, enquanto Edward e Mari perdiam-se em pensamentos.
-Seja qual for o resultado, hoje já ganhei – sussurrou Eiji ao ouvido de Linda.
-E em primeiro lugar… Linda Tsukino e Eiji Nakamura.

Palmas voaram por todo o lado, pessoas davam pulos de alegria, mas para Linda apenas três pessoas se encontravam no pavilhão. Três homens loiros que a miravam com diferentes emoções.
Eiji com paixão
Kenji com alegria
Edward… Linda deitou um olhar no pai e não pôde deixar de se sentir como gelatina ao vê-lo sorrir para ela. Um sorriso cheio de orgulho.
Orgulho de pai.
Os olhos de Linda focaram-se no pai, vendo-o sair. Não notou na medalha de ouro que lhe puseram no pescoço, pouca importância dera aos uivos de Setsu, Eiji, Kenji e do Professor Amadeus, que insistiu em dar-lhe um beijo em cada face. E muito menos ouviu calorosos elogios do júri, extremamente impressionados pela sua postura na dança.
Os seus pensamentos iam agora para o pai. Não o podia deixar ir… tinha que falar com ele.
Sem notar no que fazia, correu para os corredores. Ao ver que estavam selados, tentou dar a volta pelo outro lado. Estava tão distraída que quase que esbarrava com a pessoa que procurava.
O pai tirara os óculos escuros e agora fitava-a com os seus belos olhos castanhos, como se esperasse que ela fosse cair. Pudera, Linda ainda estava fraca por causa da luta.
Segurou-se a uma parede e retribuiu o olhar:
-O que faz aqui?
Edward não respondeu. Continuava a olhá-la, com um semblante que não se deixava ler.
-Eu perguntei…
-Eu ouvi. Mas isso não quer dizer que te vá responder. Isso é assunto que só a mim me diz respeito.
Habituada ao bloco de gelo, Linda nem pestanejou. Tentou encontrar equilíbrio longe da parede, tendo sucesso. Agora apenas esperava ter coragem para falar:
-O que vai fazer?
-O que tu queres…- respondeu ele num sussurro.
-Como? – Perguntou Linda, espantada.
-Se queres ficar aqui, não direi nada. Até porque não tenho direitos sobre ti.
Mas podia ter tido, pensaram os dois.
-Ah… obrigada.
Edward preparou-se para seguir caminho. Mas hesitou. Tinha que lhe dizer… Afinal, ele dirigira-se para ali com essa intuição. Tinha de lhe dizer o quando estava orgulhoso, de como ela estava bonita e crescida.
-Dançaste muito bem… minha filha.
Pousou a mão no ombro dela, sorrindo levemente. Linda não se virou, pois sabia que não se conseguiria aguentar durante muito mais tempo. Apetecia-lhe gritar para ele, acusá-lo de ser um pai insensível e bater-lhe. A raiva acumulada durante anos de indiferença começava a vir ao de cima, reclamando espaço nas acções de Linda. Aguentou-se e apenas se virou quando já os passos do pai iam longe. Mas tão depressa uns passos foram, quando outros vieram.
-“Minha filha”? – Perguntou alguém com uma voz extremamente familiar.
Linda ficou pálida de morte e ergueu os seus olhos para enfrentar os de Eiji.

**

Ele vira-a desaparecer. E fora atrás dela. Afinal ela estava de rastos, mal se aguentava de pé. Perdeu-a de vista por uns minutos, mas depressa a encontrou.
Mas ela não estava sozinha.
Um homem loiro, na casa dos quarenta e olhos da mesma cor que os dele estava com ela. O olhar do homem era de extrema mágoa, que Eiji estranhamente associou ao olhar de Kenji.
Até que reconheceu o homem. Edward Natsumara, Rei de Cristal Tokyo.
Mas o que é que ele faz aqui? E porque fala com a Linda?
Edward respondera á sua pergunta com uma única frase:
-Dançaste muito bem… minha filha.
O que queria ele dizer com aquilo? Ele era o pai da Linda? Mas isso queria dizer que a Linda era…

-Sim – disse ela, calmamente, acordando Eiji dos seus pensamentos.
-O Rei é o teu pai – murmurou ele, chocado. – Tu és…
-A Princesa. – Acabou a frase, sempre num tom calmo. Já não adiantava esconder mais. Ele tinha o direito de saber.
-Não pode ser… mas… e então o Kenji?
-É o herdeiro. O futuro Rei... isto é… se eles não arranjarem outro – disse Linda, secamente. Ela olhava-o nos olhos, examinando as suas expressões. Tal como ela imaginava, havia choque, surpresa e…
Mágoa
-Porque é que nenhum de vocês me contou?
-Porque não é nada que se conte logo. E também não é uma coisa que nós queremos que os nossos amigos saibam.
-mas não confiam em nós? – Perguntou ele, furioso.
-Não é isso! – Agora ela também estava furiosa – O Berço onde nós nascemos não muda nada na nossa personalidade. Mas muda nas acções das pessoas à nossa volta…
-Não mudaria comigo.
-Como podíamos saber? Ou melhor… como podia eu saber? Eiji, eu nunca tive grandes amigos e grandes socializações antes de te conhecer. Eu apenas queria ser normal e não contar o meu segredo a ninguém. Enterrá-lo bem fundo. Não porque não confie em ti, apenas… é algo de que não me orgulhe.
Eiji fitou os sapatos, pensativo.
-E o Kenji? Quero dizer... pensei que nós fossemos amigos…
-E são… mas ele… - hesitou, mordendo o lábio inferior.
-Ele o quê?
-Aquele homem com quem tu me viste falar, deserdou-o.
Aquelas palavras tiveram forte embate em Eiji, como se este tivesse sido atingido por um tijolo.
-Deserdou-o?
-Sim... e eu fui ignorada toda a minha vida por esta gente. – Ela aproximou-se dele. – Eiji, eu e o meu irmão apenas queremos esquecer aquela vida. Não é a nossa.
Tentou agarrar a mão dele, mas ele desviou-se. Linda pousou o olhar na parede, magoada:
-Só te peço que entendas.
Eiji virou-lhe as costas e caminhou em círculos. O quanto aquela questão o magoava. Era a rapariga que ele gostava e o seu melhor amigo. Mais tijolos não lhe podiam ter mandado.
-Eu… não sei… em parte entendo, mas também… sinto-me magoado, traído… eu…
Linda controlou as lágrimas, que teimavam a sair.
-Preciso de tempo, Linda. Tempo para pensar. De repente, sinto que não te conheço. A ti e ao meu melhor amigo.
Ela, para surpresa dele, assentiu.
-Eu entendo Eiji. Mas no final, vais notar que eu e o Kenji fomos sempre os mesmos. Toda a gente tem pelo menos um segredo que abala o mundo, mas nem sempre abala o seu. Apenas… está a mais.

Ela desapareceu na esquina, deixando-o sozinho. Horas tinham passado desde que a tentara acalmar. Em que vira uma Linda Tsukino tímida, nervosa e querida.
Agora, a mulher que se afastara era firme, forte, uma excelente dançarina, corajosa, ainda mais bela do que ele pudesse imaginar, uma Linda que também podia perder o controlo, que podia perder o bom humor e revelar um temperamento forte.
Uma Linda que sofria por baixo de uma camada de verniz.
Uma Linda que era também a Princesa de Tokyo.

**

Linda deixou que a água do chuveiro lavasse o seu corpo. Ignorou todos os pensamentos do dia que passara e vestira a camisa de dormir, deitando-se na cama. Ignorou o pingente, colocado em cima da cómoda e que brilhava intensamente. Ignorou as palavras do pai, as palavras de Eiji, as palavras de Misaki. Fingiu nunca ter passado por uma batalha tão cansativa quanto aquela. Ignorou a dor que sentia por Eiji a ter afastado pouco depois de se terem entendido, a mágoa e raiva que Edward a fizera voltar a sentir. Ignorou as lágrimas, que tanto queriam sair.
Mas não pôde ignorar o forte apelo a água que a sua garganta exigia.
Levantou-se e arrastou o corpo mole até à cozinha, onde viu que não era a única com desejos nocturnos.
Mari comia umas bolachas na mesa e nem ergueu a cabeça quando Linda entrou e pegou num copo, enchendo-o de água.
Bebeu parte do conteúdo, antes de roubar uma bolacha a Mari, que parecia determinada a ignorá-la. Encolhendo os ombros ao comportamento da loira Linda bebeu o resto do líquido incolor e dirigiu-se até ao quarto, ainda a empurrar pensamentos para fora da sua mente.
Mas já à porta, houve um que não conseguiu afastar.
Lembrou-se de ter visto Sailor Faith a levar uma chicotada do monstro e a ficar com um severo corte na perna.
Os olhos de Linda abriram-se por completo, ao aperceber-se de algo.
Sailor Faith teria agora um grande corte na perna esquerda…
…tal como Mari.

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S: Pelo Poder Sagrado de Úrano!
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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por Bun em Ter 24 Ago 2010, 14:39

Olá Ana.

Só uma correcção. O meu nome é Bun, não Rub. (ou então Maria que é o verdadeiro, Matreiro )

Atirar-te com tijolos? Só se não postares o próximo capítulo!

As cenas românticas estavam muito bem.

Não estava nada à espera que o Eiji descobrisse a verdade.

Então o Kenji só ouve vozes por causa da Mari...que curioso, porque será...

Pensei que era suposto a Mari e a Cecília não serem navegantes. Mas pelo que dás a entender a Mari é mesmo a Sailor Faith.

Gostei muito de todo o capítulo, soube a pouco, quero mais!

Quando puderes acrescenta um capítulo. Ainda há muitos segredos por desvendar.

Beijo**

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por lulumoon em Ter 24 Ago 2010, 14:49

OMFG!

Ana, se soubesses como estou enervada! Há seculos que estou a tentar vir ao forum postar uma coisa e isto nao aceitava as minhas mensagens! que cena! Mas ás tantas deparo-me com um capitulo enorme! Esperancoso Foi o meio de me entreter enquanto isto nao funcionava! Aiii, estou apaixonada pelo beijo entre a Linda e o Eiji! Foi tao... Tao... Tao!! Nao há palavras, foi simplesmente lindo! Esperancoso
Nunca vi capitulo com tantas emoções juntas!
Agarrei-me completamente. A relação do Eiji e da Linda, a batalha descrita a pormenor, a troca de pares, os ciumes da Mari... E por falar nisso, afinal ela é a sailor ou não?! Ai tu baralhas-me! Matreiro Por fm, todo aquele misterio em volta do Rei. Absolutamente soberbo!
Nem sei que dizer mais!
Estou rendida, mal posso esperar pelo proximo capitulo, e eu acho bem que o Eiji nao seja (desculpa o termo) um trengo, porque ela é princesa e isso que se lixe! Se ele gosta dela que deixe de lado tudo o resto!
Morta pelo próximo capitulo!
bjokas

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Qui 26 Ago 2010, 06:57

Bun (ainda não sei como é que li Rub ): Eu não posso andar por ai a confirmar tudo aquilo que voces dizem. Se voces dizem que o Kenji vai morrer num acidente de carro, eu tenho que negar ou mudar de assunto, nunca confirmar. Assim as coisas não têm piada
Obrigada por não me atirares tijolos. Sinceramente, não consigo deixar de ler aquilo e pensar que não me expressei o suficiente, mas se vocês dizem que está bom... quem sou eu para vos contrarear
No que toca a segredos... ui, há bastantes por desvendar, mas alguns já aparecem neste capítulo novo. Os restantes ainda vão demorar a aparecer.
Lulu: O Eiji não é trenguinho nenhum! Ok, ele ás vezes tem os seus momentos (o Setsu tbm tem.. de que parte da familia isso veio?), mas é uma personagem racional. Vamos considerar isto (eu pelo menos considero) uma birrinha de adolescente
Baralhei-te? Pois.. tu tbm me baralhaste na tua fanfic algumas vezes (*mim canta* cá se faz cá se paga ) E garanto-vos que ainda se vão baralhar algumas vezes. Pelo menos no que toca ao assunto principal.

Obrigada pelos vossos comentários, fico mesmo feliz por os ler

Pois bem, estou de férias e este capítulo é dos meus preferidos. Como tal, escrevi-o num único dia. Andei sempre ansiosa por esta cena que é quando duas personagens principais descarregam as suas emoções (ambas da pior maneira) e ficam revoltadas consigo próprias.
Mais uma vez, senti este capítulo com qualidade fraquita e aceito sugestões para o alterar.
Segui o exemplo da lulu (espero que não te importes) e pus uma musiquinha de ambiente no meio. Adoro-a e acho que tem muito a ver com a cena em causa.
P.S: No final, vou pôr umas mini-curiosidades porque este capitulo está cheio delas. Quando acabei de reler, decidi tentar esclarecer algumas coisas, pois a minha fanfic não tem muitas coisas interessantes para contar, mas este capítulo já tem uma mão cheia.

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21. A queda da máscara


Num castelo de ar encantado, reinava o silêncio. Nos corredores desertos, apenas se ouvia os passos pesados de uma figura baixa, que caminhava devagar. Até ele, homem de poderes misteriosos, tinha medo. Medo de desapontar a sua Lady.
Mas esta já sabia que ele vinha de mãos vazias. Pela primeira vez. O primeiro e único erro cometido.
Tinha subestimado as jovens navegantes. Principalmente a princesa…
Bateu a uma porta no fundo do corredor central. Ao ouvir uma confirmação do outro lado, entrou receoso.

Lady Dawson estava de pé junto a uma janela, virada de costas para ele. No horizonte que a janela mostrava, via-se o palácio da família real. Dawson parecia irritada. Pior ficaria quando descobrisse.
-Lady? – Chamou o homem, dando um passo em frente. A divisão era apenas iluminada pelos raios lunares que vinham da janela e pelas luzes das Flores, que postavam ao seu lado, brilhando tristemente.
A mulher virou-se. Vestia um fato negro até ao joelho e um leve lenço cinzento-escuro cobria-lhe as costas brancas. Os olhos negros brilhavam de emoção. Emoção que desaparecera, quando vira as mãos vazias do seu servo:
-Onde está a Flor?
-Não consegui apanha-la. Agora elas estão a guardá-la. – Desculpou-se o homem. Dawson sabia a quem ele se referia. À Rainha Velha e as suas ajudantes. Agora que elas a protegiam, era quase impossível para ela alcançar a Flor de Mercúrio.
-Falhaste-me – acusou ela, com desprezo. O homem aproximou-se dela e pôs-se de joelhos.
-Por favor Lady. Perdoa-me. – Suplicou ele, pegando na mão dela e beijando-a.
-Levanta-te seu imbecil! – Dawson afastou a mão, com nojo e voltou a fitar o horizonte. Desta vez, não escondia a raiva. – Acabaste por alterar os meus planos. Mas isso não quer dizer que eu ainda não possa vencer. No final, a família real jamais porá os pés no mesmo solo que eu piso.
Sorriu maliciosamente. Sim, ela estava na pista certa.
-Porque falhaste? – Virou-se para o seu servo, perdendo o sorriso. Este não ousou olhá-la nos olhos, encontrando uma pequena poeira no chão.
-As jovens navegante, Lady. Elas…
-Já percebi – cortou ela, friamente. Aquilo no fundo, eram boas notícias. Com a ajuda das adolescentes, ela iria conseguir ganhar. Era preciso apenas esperar… - Mas porque raio demoraste muito a atacar a rapariga? Acabaste por dar tempo às pirralhas!
-Minha Lady… - ele não ousou dizer aquilo que pensara. Mas ela já sabia.
-Subestimaste-as. Não devias. Uma delas tem o sangue de navegante a correr-lhe pelas veias. Instinto de líder e de batalha. Devias saber disso!
-Eu sei... mas não foi apenas isso…
-O que foi? Fala imbecil! – Gritou ela, impaciente.
-Havia interferências nos meus poderes enquanto procurava a Flor.
-Estás a dizer-me que… - ela não continuou a frase, compreensão a chegar aos seus olhos escuros.
-Havia mais uma Flor naquele Pavilhão. E estava bem perto de mim…

**

O dia amanhecera nublado, com a promessa de chuva. No apartamento Nakamura, Aiko fazia o pequeno-almoço para as amigas, cantarolando uma canção da rádio alegremente. A sua boa disposição fazia contraste com o tempo horrível no exterior.
Nos quartos, as duas adolescentes acordaram e vestiram roupas normais. Linda amaldiçoou a sorte de Mari por não ter que usar uniforme naquele dia. Sendo o último dia de aulas, a sua mochila ia apenas carregada por alguns cadernos e estojo e os professores davam autorização para eles usarem as roupas do dia-a-dia. Como tal, Mari estava de calças, não dando oportunidade a Linda de ver o corte na perna.

Ela tinha a certeza que o tinha visto na noite anterior. Que não fora um sonho ou uma alucinação. Vira o corte, o mesmo que a Guardiã da Fé teria naquele exacto momento na perna esquerda.
As duas tomaram o pequeno-almoço, ignorando a existência uma da outra. Linda vestia uma camisola cinzenta e um casaco azul-escuro, enquanto um pequeno cachecol pousava no seu colo, a fim de ser colocado no seu pescoço ao sair. Mari tinha uma camisola vermelha e o casaco era de um verde-claro. O cachecol era às riscas verdes e cinzentas.

Linda ia deitando uma olhadela em Mari, que comia os cereais calmamente. Quando viu Mari coçar a perna esquerda, viu - de raspão - aquilo que procurava:
-Como fizeste esse corte? – Perguntou, tentando parecer casual.
Mari olhou espantada para a hóspede, mas demorou a responder:
-Caí.
-Caís-te de onde?
-Das bancadas – respondeu a loira num tom aborrecido. Linda sabia que ela mentira e deu graças a Aiko para colaborar com ela.
-Caíste nas bancadas? Mas eu estive sempre lá e não te vi cair! Oh Mari deixa ver esse corte.
-Não avó, não é preciso! – Reclamou a loira, mas não conseguindo evitar que a avó puxasse as calças para cima. Linda, por seu lado, abafou uma gargalhada e esticou a cabeça para ver.
E lá estava, o grande corte, que rasgava a pele da loira e que demoraria a cicatrizar. Parecia ter sangrado muito, mas agora estava apenas vermelho, com um pouco de amarelo à volta. Mari pusera betadine, mas pouco efeito parecia estar a fazer.
-Oh Mari. Como fizeste isso?
-Já disse, caí nas bancadas. – Mari estava agora zangada e olhava para Linda como se quisesse fuzilá-la. Esta tentou parecer chocada com a ferida. Mas era claro que não estava. Respostas a muitas perguntas começavam a surgir e, pouco antes de sair de casa, tinha a certeza de muita coisa.

**
Eiji pedira tempo. Como tal, não ficava perto de Linda por mais de cinco minutos, antes de se afastar. Falava com ela, mas nunca sozinho. Por várias vezes, Linda sentiu-se observada por ele nas aulas e quando todos lhes davam os parabéns, mas sempre que ela olhava, ele desviava a atenção para outra pessoa.
Era estúpido dizer que aquilo não a magoava. Estúpido e imaturo. Ela falara com ele, admitira que ele era especial para ela e, por infelicidades do destino, afastaram-se mais em vez de ficarem mais unidos.
Ele chegara perto dela logo na primeira aula, com algo na mão:
-O Kenji pediu-me para te dar isto – estendeu uma rosa branca sem espinhos meio fechada para Linda. – Achou que tu a merecesses. Ele dava-te pessoalmente, mas hoje ele e o Setsu só saem da faculdade às 20h15.
Ele sorriu, mas apenas durou dois segundos, antes de se virar para a sua mesa e iniciar uma conversa banal com um outro colega.

Quase toda a escola dera os parabéns a Linda e Eiji, mas principalmente à primeira, pois a história do ferimento de Eiji e do substituto correra paredes da escola à velocidade da luz. Alguns alunos, que estava presentes no torneio, tinham filmado Linda nas duas danças e, de algum modo, o vídeo chegou a Kiara, que pusera a reproduzir na última aula de matemática do período.
No final, todos elogiavam Linda. Menos uma pessoa.
Uma loira de olhos verdes não dirigira a palavra a Linda o tempo todo e ignorava a sua presença em qualquer lado, mudando o assunto de conversa sempre que tinha a ver com ela e respondendo torto quando perguntavam a sua opinião sobre algo acerca de Linda.
Até os professores teciam numerosos elogios. Principalmente porque as pautas dos testes tinham saído e Linda estava no topo de todas as aulas. Apesar de mais alunos, como Eiji e Cecília também estarem no topo, Linda chamara mais a atenção, por ser a mais nova na escola e pelo dom na dança.
E claro que a paciência de uns tinha tendência a bulir em situações destas.

Mari olhava para Linda com profundo ódio, enquanto esta comparava notas com Kiara e outras raparigas. Alguém ao seu lado dissera algo sobre o quanto Linda era notável e fora aí que o seu temperamento explodira:
-Mas vocês não sabem nada sobre ela!

O seu comentário chamara a atenção de algumas cabeças, a de Linda no meio. Mari, ao ver que tinha a atenção da morena, continuou:
-Vocês todos comentam que ela é fantástica. Mas não é! Ela mora na minha casa e eu sei muito bem como ela age. Arma-se em miss perfeita à frente da minha avó, dos professores e de vocês. Mas ela tem segredos. E pelo menos um eu sei. Tu mudas de homem como quem muda de camisa – gritou, apontando o dedo para Linda. – Andas enrolada com um, mas atiras-te a outro e pelo caminho ainda sais com um terceiro.
-Mari chega! – Cecília abriu caminho na multidão que se impusera à volta das duas, com Eiji atrás – Não tens fundamentos para isso.
-Tenho sim senhora. Eu própria vi ela sair com um tipo, depois enrolada com outro, para finalmente a ter visto ontem com outro rapaz, cujo nome não irei dizer. – Olhou Eiji pelo canto do olho. Este por sua vez, sentiu a raiva subir-lhe á cabeça.
-Mari chega! – Gritou ele para a loira. Esta indignada, respondeu:
-Tu que és homem não devias cair nas garras nesta impostora. Nenhum de vocês sabe como ela é. Sabem lá se um dia ela ainda vos dá uma apunhalada nas costas.

Linda tinha a boca ligeiramente aberta. Não sabia o que dizer e, estranhamente as palavras de Mari doíam-lhe no coração.
Mari tornou a sua atenção para ela:
-Tu és falsa, manipuladora e mesquinha. Gozas com a boa vontade dos outros. Não me admira nada que os teus pais não queriam saber de ti.

PASSSSSS

O estalo apanhara Mari de surpresa e fora dado com tanta força, que esta tombou para trás. Todos olhavam incrédulos para Linda, que já não escondia a raiva e fitava Mari sem brilho algum nos olhos escuros.
-É verdade – a voz saiu rouca, mas decidida. – Não sabem nada sobre mim. Mas tu também não sabes nada. Alias – o seu olhar percorreu a multidão, parando em Eiji e Cecília – Há quem pensa que me conhece. Mas no final de contas… não sabe nada sobre mim.
Não disfarçou as lágrimas, que caiam pelo seu rosto. Querendo sair dali, barrou caminho por entre a multidão, antes que os professores viessem, e saiu porta fora. Eiji correra atrás dela, chamando-a, mas ela não parou.
Nem parara quando chocara com um caixote do lixo, nem com um homem que ia a passar:
-Então? veja por onde anda! – Reclamou o homem, que quase caíra ao chão.

A certa altura correu. Correu por entre ruas na qual ela nunca tinha passado, passou por uma rotunda, parques, casas, prédios, escolas, um museu…
Não sabia onde estava. Nunca tinha vindo a aquela zona da cidade.
Podia pedir ajuda, mas não queria. Para quê? Voltar para a casa de Aiko, onde iria encontrar Mari?
Caminhou por entre o cinzento das ruas, até chegar a um parque desconhecido.
Passou por bancos, uma fonte, casais apaixonados a namorar debaixo da árvore, apesar de não estar tempo para isso, viu uma criança a dar de comer aos pássaros, que saboreavam as migalhas de pão na mão da criança, fazendo barulhos suaves em tom de agradecimento, antes de voarem para longe.
Finalmente, chegou a uma zona quase deserta. Apenas um casal de namorados e um homem na casa dos cinquentas e com cabelo grisalho estavam ali. Sentou-se na relva molhada pela humidade e observou a vista.
Aquilo era o belo horrível que ouvira falar em filosofia, sem dúvida. As nuvens negras carregadas de água pairavam por cima de casas desabitadas e antigas, junto a uma ponte, que dava para a Baia de Tokyo. Perguntou-se o quão longe de casa estava.
Suspirou, abraçando-se a si própria. O frio aumentava e começava a ser mais difícil estar fora de casa. Linda olhou para o relógio. Eram 15h02. Ainda tinha mais uma aula. Mas claro que iria faltar. Não estava em condições em ir para a escola.
Ainda estava exausta por causa da energia desperdiçada na batalha, ainda se sentia mole nos pés por causa da dança. Não tinha vontade nenhuma de estar de pé.

Ficou por uns momentos a observar a paisagem, até que sentiu a sensação estranha de que era observava. Ao virar-se para trás, viu o homem a olhar para ela, enquanto escrevinhava no caderno. Este sorriu:
-Espero que não te importes. – Apontou para um caderno no seu colo. Parecia que, nos últimos minutos ele tinha estado a desenhá-la com o lápis a carvão. – És um bom modelo!
-Obrigada. – Disse ela com a voz fraca, antes de se virar para a frente. O homem, não satisfeito, saiu do banco onde estava sentado e dirigiu-se para o pé dela.
-Que bom ver-te, Linda! – Estendeu a mão. Linda aceitou-a, espantada.
-Como sabe que eu me chamo Linda?
O homem continuou a sorrir:
-Oh… é uma longa história. E quem sou eu para não te contar. Pois bem… Sou Kentaro Sagahara e sou professor da Universidade de Artes. Sei o teu nome por causa de um desenho.
-Um desenho?
-Sim – o homem pegou na grande pasta de ombro e vasculhou-a até encontrar uma capa preta cheia de folhas soltas. Algumas eram antigas e estavam já amareladas, mas pareciam em bom estado.

-Era uma vez… - Kentaro tirou um desenho, que parecia ser dos mais antigos. Lá um belíssimo unicórnio de pelagem branca e cabelos e chifre dourado cavalgava por prados verdes. O desenho tinha traços notáveis e dava um ar angelical à criatura, livre e confiante.
– ...Uma rapariga que adorava unicórnios. Quando o pai veio à faculdade ver como a filha se saia, mostrei-lhe este desenho e ele deu uma alta gargalhada, dizendo que unicórnios sempre foram o único capricho da filha. Exigira um unicórnio no Natal quando tinha apenas seis anos. – Kentaro e Linda sorriram pela inocência da menina. Linda, ao observar melhor o desenho, conseguia ver tranquilidade nos traços da rapariga que o desenhara. Tranquilidade, mas não ingenuidade. Provavelmente ainda sentia carinho por aquela parte da sua infância, apesar de já não acreditar neles.
-E depois… - continuou Kentaro, tirando outro desenho da pasta – Ela cresceu e encontro dúvidas na sua vida.

O desenho tinha agora apenas quatro cores. Preto, azul, violeta e branco. Ela desenhara traços, buracos em espiral, relógios, portas fechadas, luzes. Apenas quem desenhara aquilo poderia entender o seu significado.

-Ela amava um homem, mas não podia ter nada com ele. Havia muitos fossos. – Kentaro apontou para os buracos e para as portas fechadas. Os traços, Linda entendeu, representavam corredores, espaços. – Parecia perder tempo. – Kentaro não precisou de dizer nada. Era óbvio o significado dos relógios. – Até que, quando ela menos esperava, conseguiu encontrar uma luz no fundo do túnel. Ela não conseguiu abrir as portas com nenhuma chave, por isso utilizou o punho. – Apontou para as portas e para uma pequena chave mesmo na margem esquerda inferior do desenho e muito distante das portas. Linda ergueu os olhos para a luz. Era o que mais se destacava no desenho, apesar de ser pequena em comparação ao tamanho das portas.
-Que luz era? – Perguntou, curiosa.
-A luz de uma porta. Ela não a conseguiu abrir, até que alguém a abriu do outro lado. – Kentaro riu-se, juntamente com Linda. Esta começava a identificar-se com a rapariga. Alguém que se encontrava presa, sem que nenhuma chave pudesse abrir portas para a sua fuga. Mas alguém salvara a rapariga. Alguém abrira-lhe a porta.

-Ela nunca gostou de filosofia, mas quando desenhava mostrava sempre o seu lado filosófico. – O homem voltou a rir-se. - Foi feliz. Amou e foi amada. Casou-se e ficou grávida. E é ai que fico a saber o teu nome. – Kentaro dirigiu o seu olhar cinzento para Linda, que ficou pálida. Tinha agora uma pequena ideia de quem fora a mulher. Mas a avó nunca lhe contara que sabia desenhar. Para além do homem não parecer ser assim tão velho. Havia outra hipótese, mas Linda recusava-se a acreditar. – Já ouviste falar de Linda O’Connell?
-Não. – Respondeu, confusa. - Quem é?
-Uma escritora irlandesa. A preferida da minha aluna. Ela lera todos os romances e admirava a escritora e a sua protagonista: Andrea Sullivan.
Andrea era uma morena, com cabelo escuro como o teu e olhos azuis… mas os dela eram mais claros. – Acrescentou Kentaro, antes de prosseguir. – Era de estatura média, bonita, curiosa, corajosa, determinada, a heroína preferida das mulheres japonesas. – O homem tinha agora um outro desenho, que parecia ser mais recente, na sua mão. – Andrea tinha um irmão mais velho, George, que num dos livros, viaja para o Japão (esse foi o livro mais vendido por cá) e acaba por se meter em sarilhos, ao endividar-se com um barão do jogo. Andrea vai para o Japão salvar o irmão, mas quando lá chega, descobre que ele usava um nome falso para não ser apanhado. Sabes qual?
Linda tinha uma sugestão. Mas negou com a cabeça.
-Kenji

Agora não adiantava negar. A rapariga que desenhara aquilo tudo fora a sua mãe. Fora assim que o seu nome e o de Kenji viera ao de cima, para além do facto de Kenji ter o nome do pai da avó. Era essa a origem do seu nome.
Mas ela nunca adivinhara que a mãe desenhava.
Ou melhor, agora que ela se lembrava, havia quadros em casa, feitos antes do seu nascimento, que tinham um estilo parecido com o da rapariga.
Estava explicado como o homem a conhecia. Reconhecera-a como sendo filha da sua mãe e chamara-a de Linda, confiando que a sua antiga estudante fosse fiel à sua palavra.
-Linda e Kenji eram os nomes que ela escolhera para o filho que ela esperava. Como não sabia como a criança seria, imaginou a filha como Andrea, mas com as suas feições e o rapaz como George (loiro de olhos azuis também) mas com as feições do marido. – Estendeu o desenho para Linda. Esta mal podia acreditar no que os seus olhos viam.

Uma verdadeira replica sua estava ali desenhada, com uma pose séria, de braços cruzados e a cabeça virada para o lado. Usagi Chiba desenhava muito bem, acabando por imaginar a própria filha muito antes de esta nascer. Por baixo do desenho da moça, que vestia umas calças de ganga, um casaco e botas beges e uma blusa azul, da cor dos olhos, ostentava um nome: Linda, escrito a lápis.
Linda ficou impressionada. A mãe tinha uma caligrafia semelhante à dela, redonda, delicada e extremamente organizada, que combinava com os traços tranquilos dos seus desenhos.
Ao lado, um rapaz sorria, com cabelos exactamente iguais ao de Kenji. Mas aquele não era Kenji. Metade das suas feições eram as mesmas, mas a outra metade não. As semelhanças do irmão com o avô não estavam ali, não tornando a réplica exacta. Debaixo do desenho, o nome: Kenji.
No entanto, as semelhanças entre as feições que Usagi imaginava que os filhos teriam das feições reais eram impressionantes. Não admirava nada que Kentaro tivesse reconhecido Linda.
Este observou a jovem largar uma pequena lágrima que caiu pelo rosto. Com um dedo, limpou a lágrima de sal.
-Ela teve um filho. Deu-lhe o nome que tinha planeado. Ela e o marido depois vieram visitar-me. Faziam um casal perfeito. Eu também dei aulas a ele.
-Deu? – Custava a Linda acreditar que o pai tivesse ingressado na faculdade de Artes.
-Sim. Não me perguntes como é que ele fez, mas estava nas minhas aulas e nas aulas de Relações Publicas, o curso que queria tirar.
-Então porque veio para artes?
Kentaro sorriu das memórias
-Para estar com a tua mãe. Conhecera-a num workshop de Relações Publicas que ela decidira tirar por prazer, em Inglaterra. Fora ai que o conhecera. Ele encantou-se com ela e acompanhou-a até ao Japão. Ele nascera nas Ilhas Britânicas, mas a mãe era japonesa e ele sempre sentira um carinho por estas terras. Na aula onde pedi para desenhar pedaços da infância, a tua mãe desenhou o unicórnio e o teu pai uma paisagem vista do templo Meiji, local que passeara com a mãe quando era pequeno. Depois disso os pais morreram e ele voltou para Inglaterra com o tio, herdeiro do trono Britânico. Mas ele nunca gostou daquele sítio. Daria um melhor rei do que o tio e os primos, mas não ali. Ainda bem que encontrou a tua mãe – disse, piscando o olho.
-Você sabe que…
-É claro que sei. Apenas parei de lhe escrever por dois motivos. Um foi que, a partir do nascimento do primeiro filho, ela deixou as artes e focou-se nas questões do reino, tal como o marido. Mandávamos cartas um ao outro mas, quatro anos depois algo aconteceu…

Kentaro suspirou, fitando o horizonte. As nuvens estavam agora mais negras e o casal de namorados já se tinha ido embora. Apenas Linda e Kentaro estavam no parque.
-Algo aconteceu. Soube que ela estava grávida pela segunda vez, mas ela não me disse nada. Pensei que ela tivesse passado por um aborto ou descoberto que o filho que carregava transportava uma doença ou uma deformação. Nunca cheguei a saber. – Olhou para Linda, que tinha os braços abraçados às pernas – Sabes o que foi? Digo, deves ter dezasseis...
-Hum hum… - ela suspirou pesadamente, incomodada com o frio. Apertou o casaco e virou-se para o professor de Artes – eu não sei. Nunca soube. Eu nem sequer sabia que…
-Pois… - Kentaro pegou num último desenho, estendendo-o a Linda – A última vez que a vi tinha trazido o filho de três anos para aqui. Era uma criança linda. Espero que esteja bem.
-Sim… está. – Linda agora evitava olhar para o homem. Muitos pensamentos circulavam a sua mente.

Como o homem tinha o desenho estendido, Linda pegou nele por educação. Toda a boa disposição que podia ter ganho com aquela conversa desapareceu.
O desenho mostrava um casal a segurar uma criança de três anos que brincava com um barquito. A criança sorria, enquanto o pai a segurava com os dois braços, mostrando um enorme sorriso. Do outro lado, a mãe beijava a face rechonchuda do pequeno, que parecia alheio ao que se passava à sua volta, mantendo as suas atenções no barquito nas suas mãos.
-Eu… - tentou dizer ela, mas sem forças. Aquilo era demais para um dia só – não sei o que…
-Fiquei com estes três desenhos da tua mãe e este retrato feito por mim. Espero que não te importes. A tua mãe foi uma das minhas alunas preferidas e ainda guardo-lhe um cantinho especial no meu coração. Adorei também o teu pai. Via-se que ele não fora feito para aquilo, mas esforçava-se e era inteligente e acabou por ter notas mais elevadas que alguns alunos. Eu cheguei a perguntar-lhe como é que ele conseguia e ele apenas disse “Dois pontos abaixo do grau de sobredotado”, acreditas?
Linda perdeu toda a cor da pele. Ela também tinha um Q.I dois pontos abaixo do grau de sobredotado. Explicava a sua facilidade em aprender a matéria e a facilidade de entender as coisas à sua volta.
Mas ela não sabia que tinha herdado aquilo do pai. Quantas mais semelhanças com ele iria encontrar?
Preferiu não esperar para saber…
-Bem... já está tarde – começou.
-Desculpa jovem. Eu sei que tens que ir para casa. – Pegou na folha do seu caderno e rasgou-a – toma-a – disse, estendendo um auto-retrato de Linda, sentada na relva a observar o horizonte.
-Por acaso sabe onde estou? – Perguntou ela meio atrapalhada.
-Estás perdida?
-Mais ou menos. Moro a oeste da torre de Tokyo.
-Então segue esta rua – apontou para a esquerda – depois vais sempre em frente até chegares a uma rotunda.

Ela lembrava-se da rotunda. Fora aí que começara a correr e a perder noção de onde estava.
-Já apanhei. Obrigada. – Disse, com um sorriso fraco, mas cordial.
Linda levantou-se e colocou a folha no bolso das calças. Despediu-se do homem e dirigiu-se para casa.

Ao ver o relógio eram 16h38. Ainda tinha muito tempo…
As palavras de Kentaro ecoavam na sua cabeça, assim como a imagem da família feliz da qual Linda nunca fizera parte.
“Mas, quatro anos depois algo aconteceu… “
Ela nasceu. Fora isso que acontecera. E fora a partir dai que as coisas tinham mudado. Kenji perdera os pais que o tinham amado desde o nascimento e ela… nunca perdera nada, porque nunca tivera.
Estava tudo explicado. Ela era a causa de todo o desespero dos pais e do irmão. Se ela não tivesse nascido, Kenji ainda estaria a morar no palácio, junto dos pais, que talvez seriam um casal feliz.

Chegara a casa. Guardou o desenho e esperou na sala.
As pessoas queriam respostas. Então iam tê-las.

**
(paralelamente, pouco depois de Linda ter saído)

-Desta vez foste longe de mais, Mari! – Gritou Cecília, furiosa com a atitude da amiga. Atrás de si, várias pessoas concordaram.
E Mari sentiu vergonha pela primeira vez. Eiji voltara, fulo da vida e evitava olhar para Mari, virando-se para Cecília:
-Desapareceu. Corri atrás dela, mas ela foi mais rápida do que eu. Não foi para casa.
Todos pareciam preocupados com Linda. Mari entendia. Nunca vira a morena tão furiosa em todo o tempo que ela estivera na sua casa. E não era apenas fúria, mas também mágoa.
Tinha tocado um nervo sensível ao mencionar os pais dela.
Ninguém ajudou Mari a levantar-se. Na sua face, ainda se via a marca vermelha do estalo que Linda lhe dera, mas Mari já não estava furiosa. Por algum motivo, toda a raiva desaparecera quando Linda lhe batera. Parecera que a tinha acordado para a vida. Ela estava furiosa, mas não com a sua hóspede. Não, ela era apenas o bode expiratório para todas as suas desilusões da vida. Descarregara nela tudo aquilo que sentia em si própria.

Os professores aproximaram-se, querendo separar a multidão. Ao perguntarem o que se passava, rostos viraram-se para Mari:
-Menina Nakamura, o que aconteceu? – Perguntou um professor, num tom sério.
Mari não respondeu. Em vez disso foi Eiji:
-Ela e a Linda zangaram-se, apenas isso.
-E onde está a menina Tsukino?
-Foi para casa, senhor. Não se estava a sentir bem.
O professor não pareceu acreditar, mas não fez mais perguntas. Ordenou que todos os alunos regressassem para as suas salas e voltou para a sala de professores. Apenas a turma de Linda, Mari, Eiji e Cecília ficara.
Os olhos de todos concentravam-se em Mari e na mochila de Linda, ali no chão esquecida.
-Quem leva a pasta dela? – Perguntou Kiara.
Cecília e Eiji olharam para Mari, não escondendo a raiva e a frieza.
-Eu levo – disse Mari.
-Nem penses. Ainda dás cabo das coisas dela! – Gritou alguém.
-Eiji porque não a denunciaste? – Perguntou uma rapariga.
-Porque há coisas que a Mari não sabe – respondeu o loiro.
-Mas pode saber… se aprender a pedir desculpas. – Completou Cecília, virando-se para a sala e desaparecendo.

Todos abandonaram Mari, que sentia-se pesada e com frio. Pegou na pasta de Linda e dirigiu-se para casa.

Mas ela não estava lá. Preocupação encheu os olhos de Mari. Linda ainda não conhecia Tokyo por inteiro.
Pegou no casaco e foi em busca da hóspede.

**
Procurara-a por todo o lado, desde a Universidade de Medicina até ao parque onde uma rapariga fora atacada.
Nem sinais dela.
Olhou o relógio. 19h58.
Tinha ficado no parque a ver se Linda aparecia, mas também a pensar. Tinha sido estúpida. Os ciúmes faziam-na assim.
Agora esperava encontrá-la em casa, ou iria ligar para a polícia.
Quando entrou, o cheiro a carne assada com esparguete encheu o ar. A avó já estava em casa.
Assim como Linda.

Esta via o jornal, onde uma notícia de destaque roubava espaço às outras também importantes. Uma notícia sobre a Rainha. Mari estranhou que o pivô tivesse a máxima atenção de Linda, que não ergueu a cabeça quando ela entrara na divisão.
Pousou o casaco e chegou-se perto dela, sentando-se na ombreira do sofá vermelho. Sabia que ela a observava pelo canto do olho, mas por outro lado, via a noticia com o máximo interesse. Não parecia fingir.
Mari decidiu tomar atenção à notícia, tentando arranjar palavras para iniciar uma conversa.

“Depois de diversos rumores terem passado pelas paredes do palácio, chegam agora – através de fontes próximas e credíveis – factos que confirmam a veracidade dos rumores. A Rainha está a morrer! Ninguém sabe que doença a monarca contraiu, mas sabe-se que apenas o médico e familiares próximos têm permissão para a ver e que Vossa Majestade já não tem muito tempo de vida. A Rainha Serenity e o Rei Endymion - renunciados ao direito do trono doze anos antes a favor da filha – recusaram-se a prestar declarações, assim como Vossa Majestade, o rei Edward.
Já vários admiradores do trabalho da Rainha – que mandou construir dúzias de hospitais para crianças necessitadas - mandaram cartas para o palácio desejando as melhoras e afirmando estarem a rezar por ela. O porta-voz da Rainha diz que esta está muito comovida, mas nada mais afirma.
Espera-se por mais informações acerca do caso, principalmente devido ao constante problema da sucessão, visto circular um rumor de que o rei Edward renunciara os direitos do príncipe herdeiro ao trono, para além de não existir sinais de vida da princesa e de não haver mais herdeiros.”

A notícia falava agora dos grandes trabalhos da Rainha, mas Mari já não prestava atenção. Linda suspirara desconfortavelmente. Por causa da notícia?
Mari não sabia que ela era fã do trabalho da Rainha, afinal nunca a vira ler nenhuma revista e sempre que mencionavam a família real na televisão, Linda desligava o aparelho ou mudava de canal.
Era muito estranho…
Abriu a boca para falar, mas Linda foi mais rápida:
-Onde fizeste o corte?
De tudo o que ela pudesse perguntar, aquela era a menos esperada.
-Já te disse. – Respondeu a loira, tentando parecer calma. – Eu…
-Mentes – cortou ela, friamente.
Mari lambeu os lábios secos, desconfortável.
-Olha... eu queria falar contigo…
-Já estás a falar comigo – voltou Linda a interromper, sem nunca mostrar um pingo de delicadeza no tom de voz. – Ou queres discutir?
-Não! Quero apenas… olha, eu sei que nunca me irás perdoar, mas…
-Para Guardiã, não tens muita fé – murmurou Linda.
Mari congelou no sítio.
-O que disseste? – Perguntou, aterrorizada.
-Para Guardiã, não tens muita – repetiu a morena, em tom de gozo mas sem perder a frieza.
-De que é que estás a falar?
-Tenho mesmo que te responder? – Linda virou-se para a loira. Os seus olhos não brilhavam e estavam negros como o céu nocturno, os lábios formavam uma linha recta e o seu olhar quase que fez Mari saltar da ombreira do sofá. – Julguei que a teoria de que ‘as loiras são burras’ fosse um mito.
Mari engoliu em seco e sentiu-se subitamente muito desconfortável ao pé de Linda.
-Como é que sabes…?
-Eu estava lá. – Cortou Linda. Parecia decidida a não deixar Mari acabar uma frase.
-Estavas? – Compreensão chegou a Mari, chocando-a mais do que surpreendera. -Tu és…
-A Guardiã dos Sonhos – acabou Linda, levantando-se. Pelo canto do olho, ia deitando um olhar à televisão, que ainda falava da mãe. – Surpresa? – Lançou um sorriso frio e cínico, que arrepiou Mari. -Sabes… a Cecília bem que condiz com o papel dela. Tenta sempre ir buscar a harmonia de toda a gente. Tu, quando tiveste aquela visão, deixaste-me preocupada, mas quando mais tarde te vi outra vez em transe, suspeitei. E os meus miolos juntaram as peças quando te vi com aquele corte feio na perna. O comportamento que tu e a Cecília tinham ao meu lado era exactamente o mesmo que as navegantes. Uma era atenciosa, mas não demais. – Enquanto falava, Linda fazia gestos com as mãos, dando presença dramática no seu discurso - A outra odiava-me só por estar ali. Giro não? Somos rivais em tudo! – Linda soltou uma gargalhada falsa, até que parou. O momento que ela tão esperava apareceu na televisão.
-Queres mesmo saber quem eu sou? Vá lá Mari, não tenhas medo. Queres saber ou não? Pois então olha para a televisão!! – gritou, apontando para a TV. Lá, a Rainha cortava a fita de abertura de um novo hospital, um ano antes. Estava toda sorridente, mas o seu sorriso escondia sombras.

Mari perdeu a voz. Era um clone de Linda, mas mais velha e com diferente cor de cabelo e olhos. De resto... era igual!
-Ela é…
-A minha mãe. E agora, Mari faz as contas. Diz lá, o que é que eu escondo?!
Mari não conseguia falar. Toda a sua voz perdera-se na garganta, recusando-se a sair.
-Tu… és… princesa.
-Bingo. 10 Pontos para ti, Mari. Sim. – Linda fingiu comemorar até que se aproximou da loira, com os olhos a fumegar – eu sou a princesa.

Linda falara com tal determinação e convicção que era impossível a Mari duvidar da sua palavra. Então era aquele o seu segredo…
Mari sentiu como se um camião cheio de cimento estivesse estacionado em cima dela. Afinal, o segredo dela era muito mais forte do que ela alguma vez imaginara. Era um segredo que não se contava a toda a gente. Como fora parva!
-Linda, eu…
-E sabes a melhor? Um dos rapazes com quem me viste enrolada… é meu irmão!
Mari tremeu e os seus olhos ficaram muito abertos. Linda não disse mais nada, deixando o silêncio instalar-se na divisão.
-O Kenji é…
Nenhuma das duas conseguia falar. Uma porque não tinha palavras, apesar de parte de si estar a suplicar por perdão para a morena. A outra porque tentava esconder todas as suas emoções. Não podia libertá-las agora... tinha que esperar.
-Meninas, está tudo bem? Ouvi a Linda gritar! – Chamou Aiko, vinda da cozinha.
-Está tudo bem Aiko. – Linda desviou os olhos de Mari para o seu relógio de pulso. 20h41. A pessoa que ela procurava já estava em casa. – Aiko, não tenho fome. Peço desculpa, mas vou sair.

Pegou no casaco e saiu sem dizer mais nada. Aiko ficou a olhar para a porta e para a neta, desconfiada.
-O que fizeste desta vez? – Perguntou, um pouco irritada.
Para sua surpresa, a neta não reclamou. Em vez disso, respondeu com pesar:
-Agi que nem uma idiota.

**
Linda caminhou devagar, pensando em tudo o que acontecera hoje. Mas cada pensamento vinha com uma pedrada para a sua cabeça, pois sentia-se ainda pior. Alguém devia adorar brincar com os sentimentos dela, para a pôr feliz num minuto e completamente desesperada noutro. Para que, num momento descobrisse que a sua mãe tivera carisma de tal, para noutro descobrir que esta estava a morrer. Iria perder a mãe que nunca conhecera.
Os seus problemas eram pequenos como bolas de sabão ao lado de muitos, mas ainda assim eram demasiados problemas para alguém da sua idade. Eram demais para que ela pudesse aguentar.
Mas depois de um dia como aquele, depois de ter recebido muitas facadas nas costas, tentara acalmar-se e retirar as pontas afiadas do seu corpo, purificar-se. Mas houve uma que não saiu. E talvez nunca mais viesse a sair.

Chegara ao seu destino. Parara em frente à porta, a sua parte racional tentando levá-la a desistir daquilo. Que aquilo não iria melhorar o seu estado de espírito, até poderia pô-la pior. Mas tinha que o enfrentar.
Ela não era cobarde. Alias, isso era algo que ela recusava-se a ser comparada.
O coração doía e provavelmente iria doer mais depois disto.
Mas eu já sofri muito. Não posso sofrer mais do que isto, pensou. Bateu à porta e entrou sem cumprimentar Eiji, que ficara especado à porta, estupefacto.
Não se metera em rodeios ao ver Setsu:
-Onde está ele? – Perguntou, a sua voz ainda no tom frio com que falara a Mari.
-Quem? O Kenji? Está no quarto – Setsu arrependeu-se do que disse no momento em que Linda disparou em direcção ao quarto de Kenji, no fundo do corredor e fechara a porta com força atrás de si.
O irmão nunca podia tê-la adivinhado naquele estado. Soube no momento em que a vira que algo estava errado.
-Linda? O que é que…
-Traidor! – Acusou ela, disparando a mágoa que sentia em cada palavra.
-O quê?
-Agora estás surdo? Eu disse que eras um TRAIDOR!
Kenji não sabia o que fazer. Tentou aproximar-se da irmã, tentar acalmá-la, mas esta afastou-o com brusquidão:
-Não me toques. Eu não quero as tuas mãos de traidor em cima de mim!
-Linda, mas o que é que…
-Tu sabias! Sabias que eles tinham mudado por minha causa e não me disseste! – Ela tentava controlar as lágrimas, mas a luta estava a ser renhida. O nó na garganta tentava-a impedir de falar, mas tinha que expulsar aquelas emoções. Linda engoliu em seco, olhando o irmão nos olhos.
Kenji entendeu do que ela falava:
-Linda, não sei como descobriste…
-Admites! – Sussurrou, com a voz frágil - Admites que sabias que eu nunca fui desejada e que fui a causa da queda da nossa… ou melhor da tua família e não me disseste nada? – Agora ela gritava, chamando a atenção dos outros dois habitantes da casa.
-Linda, Kenji, está tudo bem ai dentro? – ouviu-se a voz de Eiji por detrás da porta. Por uma questão de prudência, nenhum deles se atreveu a abri-la. Linda ignorou-os.
-Eu…
-Eu confiava em ti. Achei que fosses uma vítima como eu!
-E fui! Também eu sofri como tu.
-NÃO É A MESMA COISA! – Já não controlava as lágrimas. Estas caiam como cascata molhando o rosto dela e deixando a sua vista meio turva - Tu só suportaste alguma indiferença por partes deles. Tu eras desejado. Eu NÃO! Eu tive que aguentar a indiferença e o nojo. Eu não era querida naquela família e TU SABIAS DISSO!
-Linda, por favor… - ele tentou acalmá-la, mas ela empurrou-o para longe dela
-Não me toques. Tu és um traidor. Tu que és do meu sangue ficaste do lado deles.
-NÃO! – Gritou ele, agora ofendido – eu nunca te trai.
-Traíste pois! Eu sempre me perguntei porque é que num momento eras o meu irmão protector, quando noutros fingias que eu nem existia. Agora sei, era nessas alturas em que te lembravas daquilo que te custei.
-Isso é mentira. Eu amo-te Linda. Estive sempre…
-Amas-me porque somos filhos dos mesmos pais. Nada mais! – Cortou ela, já histérica. Ela sabia que a dor não iria sair, mas não imaginava que pudesse doer ainda mais. As lágrimas molhavam-lhe o rosto, o pescoço e o colarinho da camisola, livre de cachecol.
Kenji sentia-se impotente. Sempre que se aproximava da irmã, esta repudiava-o, para além de nunca o deixar acabar uma frase. Mas tinha que insistir. Era a sua irmã.
-Linda! – Tentou mais uma vez chegar perto dela. Mas desta vez, a sensação de toque por parte dele foi uma afronta descomunal. Ele jamais se iria esquecer do olhar furioso que a irmã lhe mandara naquele momento.
-Tu estiveste do lado deles. Podes nunca vir a admitir, mas estiveste pois. Sempre que me ignoravas, estava a ir para o lado deles, a esquecer-me. Eu era muito pequena para perceber e deixava-te voltar. Mas agora não…
Aquelas palavras atingiram o loiro como uma bala de canhão.
-O quê? – Sussurrou, com medo da resposta dela.
Mas Linda não respondeu. Em vez disso, abriu a porta e abriu caminho à força por entre Setsu e Eiji, que ainda se encontravam na porta, chocados. Kenji correu atrás da irmã, até esta chegar à porta.
-Linda, espera! – Gritou ele, apertando o braço dela.
-ESQUECE-ME! – Gritou ela, forçando-o a largar o braço dela. - Nunca mais quero voltar a ver a tua cara. Tu devias ter-me protegido, ser o meu irmão mais velho. Tu devias ter ficado do meu lado. Invés disso traíste-me. Tu… - Mais lágrimas correram pelo rosto de Linda. Algo dentro dela partira-se. Tentou acalmar-se e conseguiu proferir algumas palavras em tom baixo antes de sair e bater a porta com força. Mas as palavras foram tão duras como se tivessem sido gritadas na cara dele:
-Eu já não tenho irmão. – Dissera ela, com a maior frieza que podia haver.

(http://www.youtube.com/watch?v=w_LOOKssMpA)

Ela saíra, mas ele lá ficara junto à porta. Chorava lágrimas de dor. Uma dor que ele nunca pensara poder sentir. Sentia-se partido, quebrado em pedaços sem promessa de alguma vez voltar a ser o mesmo. Perdera a pessoa que ele mais amava. Mas não a perdera para a morte. Perdera-a para a vida e para a mentira. Pessoas e peritos dizem ser a mesma coisa, que a dor é a mesma, mas não era. Uma pessoa pode-se quebrar por perder aqueles que se ama, mas pode voltar a erguer-se, sabendo que o espírito da pessoa que tanto amava estava lá para a guiar.
Mas quando uma das pessoas que mais amamos nos afasta do seu coração, a dor é insuportável e sentimo-nos a afogar lentamente, como se tivéssemos morrido e voltado a nascer. Dificilmente arranjamos ar para respirar. Sendo uma mulher ou um homem que marcou a nossa vida, ainda que por meses ou alguns anos, a dor é muita, mas há formas de a ultrapassar.
Até que o erro é cometido entre dois irmãos. Ver a sua única irmã fechar-lhe com a porta na cara, a recusar-se a partilhar o mesmo sangue com ele era a pior dor que Deus, Zeus, Alá, Buda… qualquer deus podia inventar. Kenji sentiu-se a cair num abismo, toda a esperança de felicidade destruída. Ele partilhara doces momentos com ela, amava-a mais do que tudo, tinha o mesmo sangue com ela. Estavam ligados. Ligados para a vida.
Ele não entendia como os pais conseguiam ignorar alguém do seu próprio sangue. Como conseguiam olhar para eles varias vezes sem um pingo de carinho e respeito quando ele ficara com uma súbita vontade de morrer ao ouvir as palavras de Linda pela primeira vez?
Talvez porque ela era a última réstia de família que tinha.
Talvez porque não havia mais ninguém para ele se apoiar nos tempos maus do que a sua lindíssima irmã.
Não havia mais ninguém... a não ser ela.
Mas ele afastara-a de vez. Ela fora-se e deixara-o partido.
Deixara-o só.

**
Ela não estava em melhor estado . Pior do que ser traída pelos pais, por Eiji, por Mari, Cecília… era ser traída pelo próprio irmão.
Se algum dia aquela dor passasse, seria o dia em que Linda apodrecesse num caixão, sem um único fôlego de vida.
No fundo, ela queria que ele dissesse “não”. Que negasse aquilo tudo, que dissesse que não se lembrava. Mas nada fora como ela queria…

Não tinha consciência para onde ia. Estava em caminhos familiares, mas não sabia aonde. Mas nada disso lhe importava agora.
Ela, sendo uma lutadora, iria lutar. Por muito que a vontade de morrer fosse forte, era apenas uma fase passageira. Ela iria conseguir. Era forte, corajosa, inteligente. Podia espezinhar toda a gente se quisesse.
Mas não o faria. Acima de tudo, permaneceria humilde, como a avó e o avô sempre quiseram.
Os seus avôs.
Os únicos que ainda não a tinham desiludido. No entanto, estavam longe. Não podiam estar sempre com ela.
Estava sozinha…

Mas isso não seria problema. ‘Mais vale só do que mal acompanhado’ diz o ditado. Pois bem, ficava só, mas teria certezas de tudo.
Estava agora no parque. A vegetação estava num verde-escuro brilhante, devido às pequenas gotas de água que teimavam a cair do céu nublado.
Parou junto a um pequeno lago. Cinzento reinava na paisagem e apenas o palácio, no fundo de tudo, permanecia uma luz naquela mistura de cores tristes.
Mas aquele sítio não era luz. Era escuridão.
O nó na garganta impedia-a de soluçar. As lágrimas já não caiam. Tinham secado, e agora uma dor seca permanecia no seu corpo, magoando cada pedaço de alma pura de criança que pudesse encontrar. As suas memórias eram agora meros pedaços. Já não pensava no passado, nem no presente.
Só via o futuro.

Colocou as mãos nos bolsos do casaco e os seus dedos tocaram em algo. De lá, tirou uma rosa branca sem espinhos. A rosa que o seu irmão lhe tinha dado.
Agora chuviscava e gotas de água molhavam a pequena flor frágil na mão de Linda. Ela não conseguia deixar de pensar no quanto ele tinha razão. Ela sempre fora inocente e ingénua. O que é que aquilo a levara? A ser traída pelo seu próprio irmão.
Sentia-se perdida, despedaçada. A sua alma de criança deixara de ser branca como a rosa, passara a ser cinzenta, ainda entre fases.
Toda a fé que sentia em si própria desapareceu. Não se lembrava do que fazer, mas sabia que tinha que o fazer sozinha.
Em vinte e quatro míseras horas, perdera fé naqueles que mais gostava, perdera confiança em si própria. Perguntou-se o que havia de errado com ela. Porque é que ela afastava as pessoas? Seria possuidora de uma essência que impedia as pessoas de serem aquilo que ela queria? Não que quisesse que todos se submetessem a si. Ela nunca desejara tal coisa.
O que poderia ela fazer? Porque é que todos a tratavam como se fosse uma bomba prestes a explodir?
Ela pedia respostas, mas respostas não vinham. Mas também não lhe importavam naquele momento.
Ela apenas queria um irmão
Apenas queria amigos
Apenas queria uma família.
Mas nada disso lhe fora dado. Era tudo um sonho. O seu único sonho.
Esmagou a rosa branca nos seus dedos e largou-a, deixando que o vento arrastasse as pétalas mais leves e o caule caído no chão, despedaçado.


A chuva aumentou a parada, molhando todo o corpo frágil de Linda, esta submetendo-se ao poder das chuvas. A sua alma aos poucos foi ficando mais limpa, mais purificada. Remorsos corroíam o seu espírito, mas tinha que os ignorar.
O corpo estremeceu de frio, mas ela não se moveu. Deixou que a água apagasse todas as suas memórias, boas e más, dos últimos dias. Gotas venciam o tecido das suas roupas e percorriam o corpo quente dela, acordando-a de pensamentos maus.
Ela fechou os olhos, querendo dormir. Querendo fingir que tudo aquilo era um sonho. Que no final de tudo, ela ainda sabia quem era, e para onde ia.
Deixa de ser inocente, gritou uma voz na sua cabeça.
Aquilo não era um sonho. Era a forte e dura realidade. Tentara esconder aquilo que ela era de todos e no final, quem saíra magoada fora ela. Eles não se contentavam com aquilo que ela lhes dava. Queriam sempre ultrapassar a camada de verniz. E quando finalmente a tiravam, afastavam-se, aborrecidos com o que encontravam. E se não estavam aborrecidos, afastavam-se por ela ser diferente. Por ter nascido num berço diferente do dele. De ter um destino diferente do deles.
Vozes gritavam na sua mente, enquanto os seus cabelos ficavam completamente encharcados, assim como toda a sua roupa e a sua pele. Não havia ninguém no parque, ninguém nas ruas. Eram apenas vozes. Eiji, Kenji, Edward, Mari, Misaki, , a mãe, a avó… derramou duas últimas lágrimas antes de inspirar fundo e empurrar as vozes para fora da sua mente, esquecendo-as.

Abriu os olhos. Já não sentia frio, mas também não sentia calor. Ainda chovia, mas perdera velocidade e força. Ela já não sentia nada, nem as gotas de água a caírem no seu casaco, não sentia os calafrios que o seu corpo dava, involuntariamente, não sentia a mágoa que ainda pairava no seu coração.
Pela primeira vez, pensou no seu futuro. No que faria quando acabasse a escola, na vida que teria sozinha e sem ninguém. Ou talvez com alguém. Mas ninguém importante. Talvez um cão ou uma companheira de conversas.
O quanto lhe custava pensar naquilo…

Bem, ela sabia quem era. Chamava-se Linda e as pessoas que escolhessem o seu apelido. Era determinada e não iria desistir até encontrar a sua felicidade. Não iria deixar que as pessoas voltassem a magoá-la.
Algo mudara dentro dela, mas nada tinha a ver com a dor. O verniz estalara e ela agora poderia ver-se a ela própria ao espelho.
Regressou a casa, com um meio sorriso nos lábios. Estava só, mas sabia quem era.
Finalmente, a máscara tinha caído.

---------------------

E com esta vocês devem querer matar-me. Mas pronto, não me arrependo do que escrevi, apenas a forma. Continuo a achar que não me expressei o suficiente.

E agora uns factos...

o- Linda O'Connell não existe. Eu ainda andei à procura no google e wikipedia, mas não ela não existe no mundo real, para meu alivio.

o-O nome veio do filme A Múmia, um dos meus preferidos. O protagonista é Rick O'Connell e decidi aproveitar o apelido. A personagem Andrea e o seu irmão George também me baseei nesse filme. A co-protagonista, Evelyn - futura esposa do Rick - tem todas as caracteristicas de Andrea, para além de ter um irmão que só se mete em sarilhos e, no final, acaba por ser ela e o Rick a salvá-lo dos sarilhos em que se mete.

o-O papel de Evelyn, nos primeiros dois filmes (no 3º trocaram-na Sad) foi representado por Rachel Weisz. Por coincidencia, baseei-me no aspecto dela para criar a Cecília e a Misako.

Spoiler:


o- O templo Meiji realmente existe. Andei na net à procura de templos e este atraiu-me por ser tão... templo, se é que me entendem Matreiro Também o escolhi porque, no meio da pesquisa, não encontrei dados que dissessem que fosse interdito ao publico.

o- A principio a cena central deste capitulo era a zanga da Mari e da Linda, mas mudei de ideias.


E é tudo!... Espero comentários xDD

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por lulumoon em Qui 26 Ago 2010, 15:13

OMFG! O.O
E dizes tu que não te expressaste o suficiente?! Levas já um coice, carago! Matreiro
Ai, agora a sério, este capitulo foi o mais emocionante de toda a fic! Adorei tudo, adorei o ódio da Mari, a repulsa e o ciume que ela exibiu. Amei simplesmente a cena com o professor universitário! absolutamente mágica, e a historia, own, tão bem contada e explicada, o sentido dos desenhos! oh céus, melhor impossível! A ultima parte então, ao som daquela musica linda, nem dá para descrever! eu é que sou seca que nem um deserto, senão acho que tinha chorado, porque o aperto no peito eu senti, não duvides! Ver dois irmãos separarem-se de repente é angustiante, e não o podias ter exemplificado de melhor forma, acredita!
Uma coisa que me inquieta é o porquê de a rainha estar a morrer. Pergunto-me se foi por causa do nascimento da Linda, que lhe trouxe problemas, se é alguma doença psicológica, se é armação do inimigo (por exemplo dessa tal Dawson) entre outras hipóteses!
Outra coisa que me continua a baralhar é o facto de a Mari e a Cecilia serem ou nao as sailors. Estou super curiosa! Esperancoso
Ainda dizes tu que eu vou dar escritora! À tua beira sou uma autentica labrega (O que não deixa de ser verdade já que eu sou uma menina da aldeia - leia-se "aurdeia"! Matreiro). Tenho de começar a interiorizar a forma como escreves, a ver se algum dia te alcanço!
Mal posso esperar pelo próximo capitulo!
Amei! Esperancoso

PS: a imagem que eu tenho da Misaki é mesmo parecida com essa! Matreiro
O templo Meiji é lindo! Esperancoso

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Qui 26 Ago 2010, 16:18

Eu acho mesmo que falta alguma coisa, mas se tu o dizes Matreiro
A cena não era mesmo para chorar, era apenas para que uma pessoa entrasse na cabeça da Linda e sentissem a afronta dela (eu senti... enquanto escrevia).
A zanga destes dois são dificil de escrever, mas no final não me arrependi. Kenji era um dos poucos laços que Linda tinha e tinha que o explorar. Pôr mais uma zanga com a Mari não fazia sentido.
Ainda tás baralhada com esse facto? Oh.. que eu julgava que já tinhas percebido. Matreiro
A doença da rainha é fisica, mas ainda não lhe dei nome. Tenho que procurar na net uma determinada doença com determinados sintomas. A Dawson é uma inimiga conhecida apenas para as navegantes (velhas, claro...). A Rainha... bem, ainda faltam dois capítulos até chegar a essa parte.
O proximo capitulo vai ser monstruoso, até tenho medo de o escrever, mas quero faze-o antes de ir para as aulas, pois os outros são mais simples.

Obrigada pelo teu comentário lulu Matreiro

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por Bun em Sex 27 Ago 2010, 18:05

Olá!

A Múmia também é dos meus filmes preferidos, e foi pena terem trocado a actriz no terceiro.

Bem primeiro são os tijolos, agora devemos querer matar-te? LOOOOL

Não é preciso tanto! Acho muito bem que não te arrependas do que escreveste. Escreves muito bem. Não sei o que achas que falta no capítulo.

Eu amei, TUDO!

A cena entre a Linda e a Mari na escola, brutal, nem tenho palavras, os sentimentos estão muito bem descritos.

E a Linda com o irmão, bem que triste. E ao som da música que colocaste inda torna mais dramático ( gostei da música ).

O templo Meiji é mesmo bonito.

Acho que está perfeito. Ainda bem que não demoraste a postar. Foi uma bela surpresa chegar aqui hoje e encontrar um capítulo novo para ler.

Realmente confirmares quando os nossos palpites estão certos tirava muito do mistério da história. Matreiro

Pois eu tenho mais um. Havia outra flor na escola. Portanto como já te disse desconfio que a mãe da Cecilia tenha a de Vénus ou então e isto é nova teoria, loool, que o Eiji tenha a da Terra.

Fico à espera do próximo!

Bjo*

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Sab 04 Set 2010, 17:44

Obrigada Bun Very Happy

Pois, fiquei desolada com a mudança da actriz no terceiro, perdeu logo metade da piada. Apenas gostei do Rick e do Jonathan que nunca irá mudar Matreiro

Ainda que gostaste do capítulo. Sei lá eu se voces haverão de gostar da mistela de letras que eu crio? Sabe-se lá, voces ainda se zangam e acabam por deixar de ler a minha fanfic Razz

Acerca desse palpite. É claro que não vou confirmar nada, mas vou-te dizer uma coisa: Um dos palpites está proximo, o outro não... alias, está bem longe... xDD

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Sex 01 Out 2010, 14:25

Oláaa...
Aqui tenho uma novo capítulo fresquinho e penso que no fim de semana virá outro. Porquê? Eu explico... O capítulo era gigante e então tive que o dividir. Decidi dividir por "tempos", pois o capítulo original passava-se durante as férias de Natal (estranho, pois quando começei a escrever ainda era verão ). A parte que se desenrola no natal posto agora, a do ano novo no fim de semana. Era para postar mais cedo, mas fiquei sem net e não pude.
Espero que gostem... Smile

------------------------


22. A melhor prenda

O tempo em Tokyo piorava a cada dia do mês. As férias de Natal tinham começado e já era possível ver famílias nas ruas a fazer as suas compras de Natal. O céu estava colorido em vários tons de cinzento e o vento soprava uma brisa bem fresca, que arrepiava a espinha de qualquer um. Nos noticiários, anunciavam neve para o dia de Natal.
Com as temperaturas a descerem e o vento forte a bater nos rostos, era natural passear pelas ruas de tarde e não ver quase vivalma nenhuma, a não ser carros e algumas pessoas agasalhadas sem medo do frio.
No meio dessas poucas pessoas com coragem para enfrentar o tempo feroz, encontravam-se os irmãos Natsumara, mais conhecidos como Tsukino e Chiba. Podiam ser vistos no exterior várias vezes, apesar de nunca se encontrarem no mesmo sítio ao mesmo tempo.
Kenji Chiba Natsumara podia ver visto em três locais durante todo o dia. Na faculdade, em casa e na Baia de Tokyo, onde ia apanhar ar fresco de vez em quando. A sensação de vazio que percorria o seu corpo de vinte anos obrigava-o a mexer-se constantemente, uma acção que o impedia de entrar em depressão. Na faculdade, os seus colegas notaram nas suas alterações de comportamento e por várias vezes abordaram-no com perguntas. Mas a sua resposta era sempre a mesma: um leve encolher de ombro, um sorriso forçado e as palavras ‘está tudo bem’. Claro que tal resposta não satisfazia a ninguém, principalmente alguns professores de Kenji, que perguntaram a Setsu se este se sentia bem. O amigo, respeitando o colega, apenas respondera que Kenji passava por problemas familiares, o que era verdade.
Os colegas deixavam-no estar e os professores encolhiam os ombros. Provavelmente era algo passageiro e também não tinham muito que se queixar pois Kenji era agora visto apenas a estudar, tendo as suas notas quase rebentado a escala.

Em casa, a situação era outra. Por várias vezes Eiji e Setsu tentavam ajudar o companheiro, chamando-o para ver televisão, jogar playstation ou falar de miúdas. Várias vezes o convidaram para sair mas de todas as vezes Kenji recusou. Afirmava estar bem, mas os irmãos Yamamoto tinham as suas dúvidas.
A verdade era que ele estava mal. Muito mal, mesmo. De um momento para o outro, Kenji perdeu a vontade de sorrir. Sentia-se como uma criança pequena que precisava da mãe, que precisava de afecto e carinho. E, infelizmente, ninguém lhe podia dar isso.
Ele ficava várias vezes no quarto a ler e a pensar. A pensar nele próprio.
No quanto fora estúpido, no quanto ela tinha razão…

Naquele momento, ele precisava de algo. Algo que apenas a Voz dentro da sua cabeça sabia o que era. Ele queria sentir o cheiro a jasmim da sua mãe, queria que a avó acariciasse o seu cabelo dourado, tal como fazia quando ele era pequeno, queria que a irmã lhe sorrisse e, acima de tudo….
Kenji abanava a cabeça sempre que lhe vinha aquele determinado pensamento à cabeça. Era estúpido imaginar o quanto naquele momento, a sua mãe, a sua irmã, a sua avó e Mari pudessem ser as únicas capazes de o fazer elevar-se do buraco em que se enfiara.
Os dias passavam e ele ficava cada vez mais imerso na escuridão do seu quarto. O ar parecia pesado demais para respirar e o seu corpo tornara-se tão mole como gelatina, dando-lhe pouca vontade de se levantar da cama. Claro que fazia o esforço, sempre para ir para a faculdade, onde se concentrava cada vez mais no seu futuro. Haveria de fazer algo direito. Desiludira aqueles que mais amava, até a si próprio, mas não iria falhar outra vez. Já lhe bastava ter afastado a mãe, ter provocado a ira no pai, a desilusão na irmã, não se iria condenar por muito mais tempo. Tinha que arranjar uma válvula de escape.

E essa necessidade de válvula de escape aumentou ainda mais quando Mari viera a casa dele, três dias depois da zanga dos dois irmãos. Ele vira Mari lamentar cerca de cinco vezes o sucedido para depois dar voltas pelo quarto, para em seguida voltar a pedir desculpas. Isso acordou Kenji do seu sono depressivo.
-A culpa é toda minha! – Dissera ela, com toda a sinceridade que o momento exigia. Kenji observou-a, um pouco admirado com a atitude da loira. Sem duvida que outra rapariga já teria perdido a sua postura séria devido a lágrimas. Mas Mari não chorava, apesar de todo o seu corpo tremer.
-Não é não. – Sussurrou ele, calmamente. A sua voz estava rouca, por não ter sido muito usada nos últimos dias. – A Linda chateou-se comigo por outros motivos. A culpa não é tua.
-Mas provoquei a ira dela. Ela não ficaria tão chateada se…
Kenji soltou uma gargalhada um tanto forçada.
-Estás a tentar arranjar desculpas para te culpares? Acredita Mari, a culpa não é tua. É minha – disse ele, olhando-a nos olhos – apenas minha.
-Porquê? – Perguntou ela, apesar de saber que provavelmente não teria resposta à pergunta.
Kenji soltou todo o ar preso nos pulmões, reflectindo.
-O que é que sabes?
Mari foi apanhada de surpresa com a pergunta.
-O que é que eu sei?
-Acerca das minhas origens… e as da Linda.
Mari desviou o olhar de Kenji. Devido ao nervosismo, rodou o brinco na sua orelha direita, involuntariamente.
-Sei que tu e ela… são irmãos…
Kenji ergueu o sobrolho.
-Tu não sabias?
Mari corou até à raiz dos cabelos e deu graças por se ter virado de costas, de modo que ele não visse o seu estado.
-Não – respondeu simplesmente. Suspirando fundo, afastou uma madeixa de cabelo da cara e prosseguiu – e sei que vocês são da realeza.
Ele assentiu.
-E sabes porque é que não o dizemos a ninguém?
Mari não respondeu. Preferia não saber. Mas ele continuou a falar:
-Nós não nos damos bem com os nossos pais. Eles fizeram com que nós detestássemos não só a eles, como também a aquele mundo de fantasia no qual todos querem pertencer. Vimos todos os contras daquele sítio, mas nunca vimos um pró. Nunca consegui dar valor a todo o dinheiro e a todas as roupas que me davam, porque não era isso que me fazia falta. E fui educado para ser uma pessoa honesta e humilde, não fútil e hipócrita. Jamais conseguiria preencher o vazio do meu coração com qualquer rapariga que desejasse estar com o príncipe, ser capa de revistas, que as pessoas se curvassem quando me vissem… - fez uma pausa, mirando o chão, pensativo. – A dança foi a única coisa que consegui gostar daquele mundo. O resto…

A frase incompleta pairou no ar, até que Kenji levantou-se a fitou a porta entreaberta.
-Sempre soube coisas que a Linda nunca soubera. Acerca dos meus pais, acerca dela… Sempre tive uma noção da realidade diferente da Linda. Isso fez com que, nalguns momentos, eu não fosse um bom irmão para a minha maninha e acabei… por cometer erros… ela não sabia e por isso perdoava-me sempre… mas desta vez…
-Ela sabe? – Perguntou Mari, com a voz fraca.
-Algumas coisas… mas sim… - suspirou - sabe.

Kenji colocou as mãos na cabeça, numa tentativa frustrada de relaxar, enquanto expirava todo o ar para fora. Os lábios contraíram-se e Mari soube então o que o pusera trancado no quarto nos últimos dias. Não era apenas Linda, mas sim ele próprio. Tal como ela, ele tinha segredos e frustrações, mas enquanto ela pagara pela sua raiva, ele pagara pelos segredos. Sabia que ele respirava culpa em cada golfada de ar. Afinal, ela sentia o mesmo…
Esqueceu-se de quem ele era e sucumbiu aos seus desejos interiores. Kenji fora a primeira pessoa a fazê-la sentir-se confortável, mas sem eliminar a culpa com palavras estúpidas. Kenji acalmara-a e agora ela sentira a obrigação de retribuir o favor.
Abriu os braços e cercou o tronco dele, puxando-o para si. Apanhado de surpresa, Kenji deixou-se levar pela sensação quente do corpo de Mari. Os seus braços ficaram inertes até que finalmente aceitaram o gesto e rodearam o corpo da rapariga. Um grande formigueiro percorreu o corpo dos dois jovens, que sentiam picadas só de tocar na pele um do outro. No entanto, não se largaram. Perduraram o gesto durante uns bons minutos, em que o nó no estômago de Kenji se começou a desfazer.
Mari sentia o seu coração como uma bomba relógio prestes a explodir e um denso arrepio fazia com que as suas pernas tremessem como varas. Mas nada disso impedia que ela desfrutasse daquele momento. Ela já tinha experimentado os braços dele antes, das duas vezes que ele a salvara de uma grande queda. Mas agora ela estava tão próxima que conseguia ouvir o seu coração a bater, tão descompassadamente quanto o seu. Conseguia sentir os músculos rígidos do abdómen dele que lhe provocavam uma sensação de protecção que nunca nenhum outro homem lhe dera.
Kenji pensava algo semelhante. Mari era alta, mas não alta o suficiente para que o topo da sua cabeça chegasse ao seu nariz, e era forte. Todavia, Kenji tinha a sensação que os seus braços tinham sido feitos para abraçar aquela adolescente magra e com algum músculo. Mari era frágil, apesar de não o parecer e só no exacto momento em que os braços dele envolviam-na toda contra si, é que viu o quanto estava enganado a respeito de Mari. Por baixo da sua concha de protecção de maria-rapaz e moça desconfiada, escondia-se uma rapariga de coração puro e extremamente frágil, que nunca sentira os braços carinhosos e fortes de um homem. Provavelmente do pai…
Ele suspirou. Afinal, tinha muito mais em comum com Mari do que imaginava.
Podiam ter ficado naquela posição durante semanas, tal era a vontade de Kenji, mas ela afastou-se, evitando olhá-lo nos olhos. Murmurara um pedido de desculpas e saíra, um pouco atrapalhada, deixando o rapaz de pé no seu quarto, a fitar a porta por onde ela tinha saído.

E fora assim que uma necessidade louca o percorrera nos restantes dias. A Voz permanecera calada todo o tempo em que Kenji falara com Mari, mas mal ela saíra, fora bombardeado de perguntas e comentários que pouco ou nada tinham a ver com o sentimento de vazio que ele sentia.
Com o tempo, aprendeu a bloquear a Voz, afastando-a dos seus pensamentos, mas sabia sempre quando Ela tinha algo a dizer. Apesar de dizer constantemente não ser a sua consciência, teimava que Kenji saísse de casa e fosse comer uma grande refeição e que levasse amigos. Enfim, que convivesse.
Mas ele ignorava-a. Até era fácil. Kenji sentiu que tinha feito aquilo toda a sua vida, até que a muralha que o separava da Voz quebrara-se após o encontro com Mari no pavilhão.
Num dia, dois dias depois de Mari ter ido a sua casa, vira a resposta. A sua válvula de escape.
Verdade que era uma tremenda hipocrisia usar alguém para escapar a aquela frustração que sentia. Mas não pensara noutra opção. Fora honesto toda a sua vida e era humano. Cometia erros. E no meio de tantos registados, quem iria notar naquele?
Uma bela rapariga olhava para ele, enquanto este saía da faculdade. Ela era a resposta. Uma cópia barata daquilo que ele realmente queria, mas que servia as suas necessidades. E como homem que era, tinha que as satisfazer…

**

Era dia vinte e um de Dezembro e várias famílias passeavam pelo shopping, a fim de realizar as suas compras de Natal. Mães davam as mãos aos seus filhos, que apontavam os seus pequenos dedos à várias montras que mostravam grandes e lindos brinquedos, prontos a satisfazer as vontades dos pequenos e a esvaziar as carteiras dos grandes.
Sentada numa mesa junto a um café, Linda observava a multidão, enquanto saboreava um sumo. À sua volta, via mães, pais, filhos e namorados a divertirem-se uns com os outros. E de algum modo, sentiu uma leve ponta de inveja.
Estava sozinha, como tinha sido nos últimos dias. Passara grande parte das férias a vaguear por Tokyo, tentando memorizar cada rua. Voltara algumas vezes ao parque onde conhecera Kentaro, mas nunca mais o vira. Isso não a entristecera. De facto, até se sentira aliviada por não reencontrar um amigo da mãe.
A outra parte do tempo passava-o em casa, lendo todos os livros que pudesse, fazendo algumas pesquisas no computador (finalmente conseguira o seu computador pessoal, que a avó mandara no fim das aulas) e a dormir.
Melhor dizendo, não passava muito tempo em casa.
Saía de manhã e voltava no final da tarde, por vezes à noite, passeando por Tokyo, vendo museus, shoppings, várias ruas, templos… visitara isso tudo sozinha.
Não tinha a mínima vontade de falar com ninguém. Nos últimos tempos, tinha falado para Aiko como se nada tivesse passado, mas ignorava a existência de Mari naquela casa, para além de não atender as chamadas de Eiji, Setsu e Cecília (vá-se lá saber como é que ela arranjou o numero de Linda). Ignorava o que o irmão fazia. E nem queria saber.
Linda tentava não pensar muito no assunto, pois sentia uma pontada no coração de cada vez que o fazia. Tentava puxar a imagem da cara do irmão quando exposto à verdade da sua cabeça, temendo quebrar-se em lágrimas outra vez. Mas não! Ela não iria chorar mais por causa daquela família que ela não pedira.
Suspirou, aborrecida, e bebiscou o seu sumo, vendo o liquido a chegar ao fim. Deitou uma olhadela à sua volta e viu um casal de namorados a comprar presentes um para o outro numa loja de bijutaria. Provavelmente alianças de compromisso.
De algum modo, os pensamentos de Linda saltaram para Eiji. O quanto gostaria ela de estar a passear com ele pelo centro comercial, de mão dada e a comprar qualquer coisa.
A escolha foi dele… pensou para si própria, levantando-se para sair.

Algo fê-la parar. Tinha visto alguma coisa no outro lado. Com um leve virar de cabeça viu Mari e Eiji carregando vários sacos com compras de Natal.
Linda ficou quieta, sem tirar os olhos dos dois amigos que tinham feito as pazes miraculosamente. Desconhecia as razões, mas pouco importava.
Ignorava ela que o seu corpo tremera de raiva cega, que os seus lábios se tinham contraído, formando uma linha recta e que os seus olhos, apesar de permanecerem azuis, deitavam um olhar de morte aos dois jovens.
A sua respiração acelerou e Linda sentia perder o controlo do seu corpo. Seriam aquilo…. Ciúmes?
Linda maldizeu-se de si própria e fechou os olhos com força. Quando os abriu, encontrou os olhos cor de avelã de Eiji.

**

Eiji passeava com a sua amiga, enquanto espreitava de vez em quando para uma montra ou duas. Não tinha o mínimo interesse por compras, no entanto, aquela era uma altura especial. Tinha no bolso esquerdo das calças de ganga, uma lista feita por si próprio com as prendas que teria que comprar. Já tinha a prenda de Mari, Cecília, Setsu, do seu pai, da sua madrasta, da sua irmãzinha e agora pensava no que daria aos irmãos Natsumara. Apesar de ser grande amigo de Kenji, não sabia o que lhe dar naquela altura. Provavelmente uma reconciliação com a irmã seria a melhor prenda, mas isso estava completamente fora de questão. Já a Linda, ele nem sequer sabia se era seguro mandar-lhe um postal. A forma como ela agira com Kenji dias antes apenas provara aquilo que Linda gritara a toda a escola. Ninguém a conhecia.
Mas também, quem é que a quer conhecer, perguntou uma vozinha na sua cabeça.
Ah... muita gente?
Não. Se prestares melhor atenção, vais ver que ela tem, mais uma vez, razão. Ninguém a quer conhecer. Pelo menos o seu verdadeiro eu.

Ele não sabia de onde vinha essa voz, mas dava graças pelo conselho. Sabia agora o que dar a Linda e a Kenji. Claro que precisaria da ajuda de Setsu para a prenda do jovem, mas no final iria ver resultados. Até lá, apenas esperava que Linda…
Não acabou os seus pensamentos quando sentiu um par de olhos em si. Mirou instintivamente para Mari, que olhava pensativa para uma montra de gravatas. Deus sabe o quanto ele discutira com ela por causa daquilo que dissera a Linda. Ele e Cecília ficaram dois dias sem falar com ela, até que esta viera a casa dele falar com Kenji. Apesar de ambos terem falado em tom moderado, Eiji pôde ouvir o pedido de desculpas de Mari do corredor. Depois ela saíra, o corpo sem dúvida a tentar a esmagar as lágrimas que tanto queriam sair. Aquilo é sério, pensara ele na altura. Apenas algo muito grave punha Mari Nakamura quase em estado de lágrimas. Ela nunca chorava. Não desde a morte da mãe.
Falara com ela calmamente e perdoara-a. Mari prometeu fazer todos os esforços possíveis para conseguir convencer Linda a falar com o irmão, mas não tivera um único resultado até a altura. Linda evitava-a como a água evita o azeite.

Agora ele perguntava-se no que Mari pensava. Mas, mais importante do que isso, perguntava-se quem estaria a observá-lo.
As suas entranhas estremeceram, dando-lhe a resposta à sua pergunta. Ao virar-se, viu Linda do outro lado do shopping, de pé e de olhos fechados. Quando ela os abriu, ele não conseguiu evitar dar um pequeno salto para trás. Se olhares matassem, Eiji Yamamoto estava mais que morto e enterrado.
Ela fitara-o atentamente durante uns instantes até que se dirigira para a saída. Para sua própria surpresa, Eiji nada fez para a impedir. Depois de tantas vezes tentar contactá-la via-a agora e nada fazia.
Mordeu o lábio, desconfortável. Mari desviou o olhar da montra para ele:
-O que foi? Parece que viste um fantasma!
Eiji quase que concordara com Mari. Seria possível Linda ficar ainda mais pálida do que já era? O que será que se passava com ela?

**

O facto de vaguear várias vezes sozinha durante a noite dava origem a alguns incidentes. Tal como fora no dia vinte e quatro de Dezembro. Quando a leve queda de neve cessara, Linda saíra de casa e só voltara à noite, quando Aiko tinha o jantar já na mesa e Mari estava a ver televisão. Um belo festim de frango, bolos e bebidas frescas encontrava-se espalhado na mesa da sala, libertando um cheiro de fazer água na boca. Linda mal tivera tempo de apreciar melhor a ceia quando Aiko a interceptou:
-Linda! O que raio te aconteceu, querida? – Perguntou, chocada. Linda tinha um leve corte no pescoço que sangrava um pouco, para além de as suas roupas não estarem em bom estado.
-Fui assaltada. – Respondeu simplesmente, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
-ASSALTADA! – Gritou Aiko, apavorada. Mari desviou a sua atenção da televisão, olhando para Linda chocada - Oh pelos deuses, como podes dizer isso com tanta calma? Eu tenho que…
-Aiko! – Interrompeu Linda, sem paciência. – Não aconteceu nada. Ele não me roubou nada. – Disse, tentando controlar o tom de voz. Não gostava nada de ser mal-educada para Aiko, que tanto a tinha ajudado.
-Mas podia ter-te magoado! – Aiko tocou no rosto de Linda, rodando-o para ver melhor o corte. – Oh querida, deixa-me…
-Não é preciso! – Insistiu Linda, afastando as mãos da mulher cuidadosamente. – Não aconteceu nada. O tipo fugiu quando ouviu barulho.

Aiko não pareceu convencida e muito menos Mari. Ela quase que podia adivinhar o verdadeiro motivo pelo qual Linda escapara com um único arranhão.
Mal sabia ela o quanto estava próxima da verdade. Linda não queria contar detalhes, receosa da reacção de Aiko, mas os factos aconteceram.
Só se fosse estúpida é que diria que não tinha ficado assustada quando um tipo a abordou no meio da rua deserta e a tentou assaltar, encostando uma navalha ao pescoço. Ao tirar-lhe a carteira, lançou-lhe um olhar que a deixara desconfortável. Com a lâmina encostada à pele, aproximou-a mais dele e começou a tocar-lhe no peito. Ela sentira vontade de vomitar.
Desesperada e temendo por si, Linda deu-lhe um pontapé por entre as pernas, fazendo o tipo gemer de dor. Com o movimento brusco, acabara com o leve corte no pescoço.
Ele tentara levantar-se e agredi-la, mas ela fora mais rápida. Dera-lhe um murro no nariz e um pontapé de lado, atingindo as costelas dele e fazendo-o cair no chão. Linda pegou na sua carteira e na navalha e fugiu, não pensando sequer em fazer nada ao assaltante. Deitou a navalha no lixo e seguiu o caminho para casa, tentando acalmar-se vezes sem conta.

Agora ali, estava mais calma, mas o sucedido ainda a inquietava. Conseguira defender-se, mas não conseguia imaginar o que lhe teria acontecido se não soubesse defesa pessoal. A sua respiração começava agora a perder velocidade, o seu corpo a relaxar. Estava segura…
-Eu trato do corte. – Pousou a mão direita sobre o ferimento – não é nada de grave. Um penso rápido trata disso.
Aiko mordeu os lábios, olhando-a um semblante duvidoso. Durante alguns segundos de silêncio, nenhuma das três disse nada.
A mais velha das três quebrou o silêncio, dizendo:
-Muito bem. Trata disso depressa e vem comer. Mari lava as mãos e vem também. No entanto… - acrescentou, ao ver Linda a dirigir-se para o corredor. Esta parara, ouvindo-a com atenção. – Quero que me prometas que não voltas a ficar na rua até às 18h. Linda, eu preocupo-me contigo e sou responsável por ti enquanto estás aqui, portanto não quero que corras riscos.
Linda nada disse, apenas assentiu, para depois se dirigir para a casa de banho.
Mari ficou parada no sofá, pensativa. Aquilo tinha sido a gota de água.
-Isto não pode continuar assim – murmurou ela, ecoando os pensamentos de Aiko
-Avó! – Chamou a loira, quebrando o silêncio instalado entre as duas. – Dá-me o número da avó da Linda.


Última edição por AnA_Sant0s em Sex 01 Out 2010, 14:36, editado 1 vez(es)

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Sex 01 Out 2010, 14:29

**
Era 25 de Dezembro e não se via vivalma nas ruas. Famílias passavam o dia em casa com as suas famílias, comendo bolos, frango, bebendo champanhe e trocando presentes e carinhos entre todos. Algumas lareiras estavam acesas e nas casas mais modernas, famílias ligavam os aquecedores eléctricos, em busca de algum conforto face ao frio do exterior.
Olhando pela janela do seu quarto, Kenji viu iluminações nos prédios de frente. Os vizinhos haviam passado os dias anteriores a decorar as suas casas com luzes, bolas, fitas, anjos e até azevinho.
Suspirando, vestiu uma camisa verde por cima de uma t-shirt cinzenta e umas calças de ganga escuras. Dirigiu-se à casa de banho, onde lavou a cara e passou o pente pelo seu cabelo fino dourado. No final, ao deitar um olho no espelho, notou que parecia mais velho. Pequenos círculos negros em torno dos olhos eram visíveis, devido às noites de estudo que passara em claro. Apalpou a face e sentiu a barba por fazer. Fazendo uma careta ao seu reflexo, decidiu fazer a barba no dia seguinte, quando tivesse mais paciência.
Os rapazes já o esperavam na sala, onde um belo bolo de frutas era figura de destaque na mesa de vidro, pela primeira vez livre de qualquer objecto de desarrumação dos três jovens. Kenji não conseguiu deixar de soltar um sorriso:
-Cumprimentos para à vossa mãe pelo bolo. – Disse, anunciando a sua presença.
-Feliz Natal! – Disseram os dois irmãos ao mesmo tempo. Deitando um olhar na sala, via-se poucas decorações. Apenas uma árvore de Natal com algumas bolas azuis e uma fita branca prateada que envolvia a árvore toda e um pequeno pai natal junto à lareira decoravam aquela sala. Kenji sabia que o jantar de Natal seria na casa dos Yamamoto, onde seria recebido como um terceiro filho… ou melhor, quarto. Eram lá que estavam as suas prendas, pelo que a arvore parecia insossa, sem vida.
-Por acaso não foi a mãe que fez o bolo – respondeu Eiji, que tinha os olhos pousados numa pequena caixa turquesa na sua mão. – Foi a Takeo.
-E achas seguro comer algo cozinhado pela tua irmã?
O loiro sorriu, desviando os olhos do embrulho.
-Sim, até porque a mãe estava a supervisioná-la. Além disso, é mais provável nós morrermos por comermos umas tostas do Setsu do que por comermos um bolo de uma miúda de dez anos.
-Hei! – Reclamou Setsu, juntando-se à conversa. Kenji notou que ele tinha o telemóvel na mão, como se tivesse acabado de desligar uma chamada, mas nada disse. – Não cozinho assim tão mal!
-A questão é que tu, meu caro Setsu, não cozinhas. Apenas estragas comida. – Argumentou Kenji, com os braços cruzados.
-Pois pois… -querendo obviamente mudar de assunto, Setsu perguntou – A tua namoradinha não vem hoje?
-Não. – E ainda bem, disse a Voz, parecendo aliviada. Kenji abanou a cabeça. – Vai a Kyoto ter com os pais.
-Pena. Gostava mesmo de conversar com ela… para trocar umas ideias. – Virou-se para o irmão e juntos trocaram um sorriso trocista. Kenji não gostou.
-Vocês vejam lá como é que a tratam. Até parece que gostariam que eu fizesse o mesmo às vossas namoradas.
-O problema é que tu fazes o mesmo às minhas namoradas! E só não fazes o mesmo ás do Eiji porque ele não tem nenhuma. É maricas!
-Oi… é mentira!
-Ai é? Então porque não tens nenhuma namorada quando fontes próximas e seguras afirmam que tens metade das raparigas da tua turma aos teus pés?
Eiji ponderou a resposta.
-Talvez porque eu peço uma rapariga com personalidade para namorada, ao contrário de ti e do Ken que aceitam qualquer rabo de saia (- Olha o chavalo a esticar-se – murmurou Setsu, provocando um enrolar de olhos de Kenji). E naquela turma só há três. Uma é uma amiga minha, as outras… bem, uma não me interessa, a outra é como o vocabulário do Setsu antes do café da manhã… difícil de entender.
Kenji sentiu um nó na garganta. Tinha notado que Eiji também andava com um humor muito fraco e com pouca vontade de sair, apenas fazendo-o pelo amigo. Não tinha pensado que Linda também o estava a fazer sofrer. Sabia que o caso de Eiji era diferente. Havia solução. Bastava Linda acalmar-se e ter uma conversa séria com ele que tudo correria bem.
Oxalá ele tivesse a mesma hipótese.
E tens… basta contares os detalhes…
Kenji desviou os olhos para o chão, triste. Setsu havia notado na expressão dos dois loiros e, tentando levantar-lhes o astral, foi à cozinha buscar uma faca para cortar o bolo. Mas a meio do caminho parou.
Alguém tocara à porta.
Pensando ser um vizinho a desejarem-lhes um feliz natal, Setsu atendeu com um sorriso nos lábios. Sorriso que congelou assim que reconheceu a pessoa à sua frente.
-S.s… Sr. Chiba?

O homem acenou com a cabeça. Usava um sobretudo azul-escuro, que condizia com a cor dos seus olhos e que escondia um porte formoso típico de um homem alto e magro. Os seus cabelos negros não tinham nenhuma branca e os seus olhos ainda tinham toda a vida pela frente, apesar de umas pequenas rugas lhe aparecerem nas faces.
As semelhanças entre Mamoru Chiba e o neto eram incríveis. Naquele momento, ambos tinham uma aparência cansada, barba por fazer, a mesma altura e formosura. Apenas a idade e a cor dos cabelos de Kenji os distanciavam.
Mamoru, agora Endymion, tinha o rosto tranquilo, mas os olhos denunciavam os seus propósitos.
-Feliz Natal Setsu. Podes chamar o meu neto, por favor? – Perguntou ele, com a sua voz forte e nada envelhecida com o tempo.
-Ah… Kenji? – Chamou Setsu, num tom moderado pois o loiro estava mesmo atrás dele. – Não quer entrar, Majestade?
O rosto de Mamoru contraiu-se um pouco.
-Não é preciso tratares-me dessa forma, Setsu. Afinal, conheço-te desde pequeno. E o teu irmão…? - entre entrou, dando-se de dadas com as duas pessoas que procurava. – Olá Eiji! Cresceste. – Acrescentou, quando o mais jovem se levantou do sofá.
-Obrigada Sr. Chiba. Que bom voltar a vê-lo. – Sou tão parvo… Eu devia ter notado nas semelhanças.
A cor dos cabelos, a forma de como os olhos examinavam as pessoas, a voz quase sempre num tom moderado, a serenidade. Poderia ele pedir mais semelhanças entre Mamoru e Linda?
-Sim. É sempre bom. Faz bastante tempo desde a última vez que vos vi aos dois. O meu neto gosta de guardar segredos até da própria família.
Os três jovens da sala sabiam que a última frase tinha um duplo significado. E se fosse aquele que eles estavam a imaginar, Kenji não se safaria desta.
Tentando controlar a conversa e dar tempo a Kenji para pensar numa resposta Setsu ofereceu bolo a Mamoru. Este abanou a cabeça.
-Não, obrigado rapazes. Vim apenas para falar com o meu neto e dar-lhe o meu presente. Oh, isso faz-me lembrar. – Examinou os largos bolsos do seu casaco e tirou duas pequenas caixas. – Feliz Natal, mais uma vez. – E estendeu as pequenas caixas aos dois irmãos, que aceitaram com relutância. Já não bastava o homem pagar metade da renda, tinha também de lhes dar um presente?
-Não há problema. Afinal, o vosso pai ofereceu um jantar na sua casa e um quarto ao Kenji. O mínimo que posso fazer é dar uma prenda aos filhos. Já mandei uma boneca para a vossa irmã.
-Obrigada, senhor. – Disseram os dois irmãos, meio a gaguejar. Os olhos de Mamoru saltaram dos dois irmãos para o neto. – Vem comigo. – Disse, simplesmente. Não era um pedido.

Kenji apressou-se a vestir um casaco. Enquanto este se agasalhava, Eiji chegou-se perto de Mamoru, entendendo a sua ideia.
-Pode-lhe entregar isto? – Perguntou, estendendo a pequena caixa de embrulho turquesa. Não foram necessárias palavras, pois ambos sabiam para quem era o presente. Mamoru assentiu e guardou o pequeno embrulho no bolso do casaco, ao mesmo tempo que Kenji vestia um cachecol preto, a combinar com o casaco cinzento-escuro.
-Vamos! – E Mamoru Chiba saiu para fora do apartamento, seguido pelo neto.

Ao pararem à entrada, cumprimentaram o porteiro, que esbugalhara os olhos perante a visão de Mamoru, como que reconhecendo-o.
Lá fora, não havia carro nenhum estacionado por perto.
-Como é que o avô veio? – Perguntou o seu neto, curioso.
-A pé! Faz bem às pernas. E tu, onde guardas a tua ‘engenhoca’? – Perguntou, com um sorriso, que foi retribuído pelo neto. Engenhoca era o nome que o avô dava à sua mota, que lhe oferecera de prenda de anos cinco meses antes de o jovem sair de casa. Antes tinha-lhe dado um carro, mas a experiencia não fora um sucesso. Foi necessário muita graxa e muito bom comportamento para que Kenji convencesse o avô a emprestar-lhe a sua mota, onde por vezes dava voltas. Mas, ao fim de dois dias, Kenji recebeu a visita da avó, que lhe deu as chaves do seu próprio veículo, afirmando que o seu avô “chorou baba e ranho ao pensar em como tu estragarias a sua preciosa moto”.
-Aqui. – Afirmou o loiro, apontando para a entrada da garagem. – Mas para irmos para a garagem tínhamos que entrar por dentro.
Mamoru consultou o relógio. Ainda tinha tempo. Depois de muitos anos de casado, aprendeu a conhecer a sua mulher e a antecipar os seus movimentos. Se combinassem qualquer coisa para as dez, ela apareceria às onze menos um quarto.
Os dois entraram pela garagem e caminharam pelo pavimento frio e cinzento em silêncio. Kenji parou junto a uma moto azul e preta encostada a um canto iluminado, que mais parecia um pequeno monstro de longe. Mamoru examinou-a, tentando encontrar erros.
-Ainda anda bem?
Kenji tocou no assento negro da mota ao de leve e semicerrou os olhos, fingindo-se ofendido.
-Sim… ainda.
Mamoru sorriu.
-Usas a mota?
-Sim, mas não muitas vezes. A faculdade é aqui perto. – Respondeu o loiro, com as mãos nos bolsos das calças. Ele por vezes pegava na mota e ia até à Baia de Tokyo ou até à praia, onde podia relaxar e respirar ar marítimo.
-Tens levado a tua namorada em passeios?
Kenji fora apanhado de surpresa com a pergunta. Afastou-se da mota.
-Como é que o avô…
-Tu e a tua irmã subestimam-nos. – O sorriso do homem desvaneceu-se como vapor. - Vocês pensam que deixaríamos os nossos netos abandonados no mundo real, quando passaram uma vida inteira longe disto? Achas mesmo que eu não tentaria saber tudo o que tu fazes, só para ter a certeza de que tu estás bem?
Kenji encontrou interesse numa pequena pedra no chão.
-Então sabe que…
-Que tu e a Linda cortaram relações? – Ele suspirou pesadamente. – Sim, sei. O que me desilude é saber que nem te deste ao trabalho de falar comigo ou com a tua avó sobre isso.
O jovem virou costas ao avô. Amaldiçoou o destino. Até os avós ele desiludia. Haveria mais alguém na fila?
-Kenji?
Ele virou-se e viu Mamoru virado para a saída. – Vamos que se faz tarde.
-Mas aonde é que vamos, avô?
-Dar um passeio e ter uma conversa. Anda!
Ambos seguiram caminho para fora da garagem, onde constataram que nevava um pouco. Pequenos flocos de neve caiam sobre os ombros dos dois homens, que caminhavam a passos lentos e em nada para dizer um ao outro. De vez em quando, Mamoru deitava um olhar no relógio, suspirando de seguida.
Estamos quase lá…

**
(dia 25, ás 05h23 da manhã)

Ela nunca tivera sonhos daqueles. Raios, ela nem sequer pensava naquelas coisas! Como é que sonhos daqueles podiam aparecer na cabeça de uma pessoa como ela?
Ela tinha um vestido preto curto, com um ligeiro decote e que batia nos joelhos, favorecendo a silhueta e contrastando com a pele branca. Os cabelos estavam soltos e ela estava num sítio onde o vento batia-lhe na cara e fazia-lhe esvoaçar os cabelos. A lua estava em quarto minguante e banhava a água à sua frente com raios prateados, criando um pequeno e belo espectáculo de luz natural. O som do maré a bater nas rochas e na areia, deixando-a húmida, era tudo o que se ouvia.
Ela inspirou o ar fresco da brisa marítima e sentiu umas mãos fortes a tocarem-lhe nos ombros. Sem se virar, ela sorriu, sinal de que reconhecera a pessoa que lhe tocara. O que acontecera a seguir ela não conseguira controlar. Pudera, era um sonho.
Num segundo, ela beijava o homem com paixão, noutro estava deitada na areia com ele por cima dela, as mãos dele sobre o corpo dela.
Eles olharam nos olhos num do outro e sorriram, como cúmplices de um crime, amantes de um romance proibido.
Com a mão direita, ele acariciou a face dela e voltou a beijá-la, desta vez carinhosamente.
Perderam-se num do outro a noite toda e a rapariga só acordou quando um grito no quarto ao lado a fez despertar e limpar o suor que lhe escorria pela testa. Mas apenas a escuridão da divisão tapou o rubor que lhe aparecera nas bochechas e que ela não sabia explicar de onde vinha.

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Raios… o que é isto?
Que sonho era aquele? Uma mulher e um homem. Ela conhecia a mulher e o homem… ainda pior… Eram os dois extremamente familiares. Mas não podia ser… e porque é que ela sonhava com aquilo?
A cabeça doía-lhe muito, acabando por despertar do seu sono. Mas continuava a ver as imagens do casal que se amavam junto ao mar. Tentou puxar aquele pensamento para fora da mente mas, em vez disso, deu-se de caras com a forma sonolenta da rapariga do quarto ao lado, como se a observasse por cima. Aquilo assustou-a e fê-la forçar ainda mais a mente.
A dor aumentou e ela não conseguiu controlar-se mais. Gritou com todas as suas forças.
-LINDA? LINDA, ESTÁ TUDO BEM? – Gritou Aiko, do outro lado da porta. A jovem estava sentada na cama, a ofegar como se tivesse corrido a maratona. Tinha os olhos muito abertos e todo o seu corpo tremia. Ao olhar para a porta, viu que Aiko tentava abri-la, batendo constantemente e puxando a maçaneta da porta, mas sem sucesso – Abre a porta!
Linda inspirou o ar e soltou-o todo de uma só vez, antes de abrir a porta do quarto a uma Aiko de robe e com o cabelo ruivo escuro pintado todo despenteado. Esta entrou logo, pondo a mão na testa da rapariga, obrigando-a a sentar-se na beira da cama.
-Oh minha nossa…! O que aconteceu?
-Tive… um pesadelo… - sussurrou ela.
-E berras daquela maneira? Oh, querida, o que é que sonhaste?
-Aconteceu alguma coisa? – Perguntou Mari, que aparecera junto à ombreira da porta. Parecia completamente normal, apenas um pouco ofegante. Também ela parecia ter corrido a maratona.
-Tive um pesadelo. – Respondeu a morena, olhando a loira curiosamente. A alteração da expressão da loira de preocupação para surpresa indicava que esta não se lembrava do sonho. Ainda bem, pensou Linda aliviada.
-Um pesadelo? E gritas dessa maneira? – Perguntou Mari. Linda entendeu então o motivo pelo qual Mari estava preocupada com ela. Mari tinha tido uma visão sobre o ataque a Cho, provavelmente Linda poderia ter tido o mesmo, visto serem ambas Guardiãs do mesmo Portal. Mas, de algum modo, Linda achava que o seu poder não consistia em ter visões. E a ideia que lhe passava pela cabeça era simplesmente assustadora.
-Foi mau… - Embaraçosamente mau…
O facto de ainda ser de noite fez com que ninguém notasse nas faces de Linda, que coraram violentamente ao lembrar-se do sonho.
-Oh Linda, acho melhor vires comigo tomar qualquer coisa.
-Mas Aiko não é preciso… - retorquiu a morena, pousando a mão discretamente na cabeça. Doía-lhe como diabos…
Mas a mulher não a deixou em paz até que Linda dissera, pela décima sétima vez que estava bem, bebera um copo de água com limão e voltara a dormir. Mari fizera o mesmo, não reparando na forma como Linda a olhara o tempo todo.
As duas jovens e Aiko voltaram a deitar-se, as três ainda cheias de sono. Mari adormecera de imediato, desta vez sonhando com um gato de fazia o pino só com uma mão, enquanto Setsu batia palmas que nem maluquinho e cantava ‘Um Dó Li Tá’, com um barrete de Natal púrpura enfiado na cabeça e um nariz vermelho semelhante ao da Rena Rodolfo.
Linda remexeu-se na cama durante muito tempo, com medo de adormecer, apesar de todo o seu corpo e mente pedir repouso. Tinha receio de voltar a ter um sonho daqueles. Era sem dúvida a coisa mais constrangedora que ela pudesse ter sonhado alguma vez na vida. Mas porque é que ela sonhara aquilo? É que nem sequer sonhara com ela na praia com um homem, mas sim com Mari e um outro homem… que ela também conhecia. No entanto, o mais estranho fora a visão de Mari a dormir. Parecia que Linda entrara na mente dela, invadido o seu sonho e, quando tentara sair, ficara presa no tecto do quarto.
Linda abanou a cabeça fortemente e obrigou-se a fechar os olhos e contar carneirinhos para adormecer. Era totalmente impossível para ela ver os sonhos das outras pessoas… certo?

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Quando Linda acordou, já passava do meio-dia. O seu corpo estava extremamente mole. Ao sair da cama, os ossos estalaram um pouco e ela viu-se desconfortável só por estar sentada.
Levantou-se e aproximou-se do armário. Normalmente ela nem pensava duas vezes antes de pegar numa peça de roupa qualquer, mas a moleza do corpo deixara-a parada frente às portas do armário, como se ela estivesse a pensar no que iria vestir. Os olhos pesavam como chumbo e ela sentiu os seus joelhos dobrarem-se levemente, tentando encontrar equilíbrio no seu corpo.
Soltou todo o ar retido nos pulmões, como se tivesse esquecido de o fazer por uns tempos e passou a mão pelo cabelo despenteado desajeitadamente.
Pegou numa camisa dourada e num par de calças de ganga escura e vestiu-se lentamente, sentada na beira da cama.
No final, aproximou-se da janela, admirando a torre de Tokyo ao longe, que de destacava sobre um ténue manto branco que caía sobre a cidade. Vários pontos luminosos provinham das várias casas da vizinhança e poucos carros passavam na rua.
Tentando permanecer acordada, mexeu os pés e deitou um olhar pelo quarto, em busca de sapatos. Não conseguia dar dois passos sem se virar um pouco para o lado, como se fosse cair a qualquer momento.
Encontrou um par de sapatilhas e calçou-as desajeitadamente. Ao ver que apertara mal o nó, repetiu a acção. Mas voltou a errar. Irritada, praguejou.
Controla-te Linda, pensou para si própria.
Mas a tarefa parecia difícil. Quando finalmente apertou os cordões correctamente e se viu vestida de cima a baixo, levantou-se da cama e quase que tombou para o lado.
Ironia das ironias…
Ainda se lembrava de como sentira no dia em que dançara duas coreografias complicadas em frente a toda a escola, lutara fisicamente com um monstro e utilizara bastante poder contra a figura baixa. Fraca, exausta, mole, mente pesada…
Naquele momento, sentia-se assim, mas a duplicar. Apenas porque tivera um sonho que não era o dela.
Conseguindo manter-se de pé, apressou-se a ir à casa de banho lavar a cara e pentear-se. Farta do molhe de cabelos que caia sobre a cara, pensou em cortar o cabelo antes do fim do mês ou então fazer uma permanente. Enfim, qualquer coisa para que o seu cabelo deixasse de ser tão selvagem. Iria evitar usar elásticos o máximo possível.
Penteou o cabelo com a escova e colocou os óculos, temendo não ser capaz de ver o caminho. Ao observar o resultado final, mordeu o lábio. Nada de mais… era isso que ela queria.

Ao chegar à cozinha, teve um vislumbre dos bolos da noite anterior, que Linda mal tocara. Esfomeada, sentou-se na cadeira e apressou-se a cortar uma fatia de bolo de laranja. Podia jurar que tinha fome suficiente para comer um cavalo… literalmente.
Aiko sorriu ao vê-la comer e, ao mesmo tempo que lhe desejava um feliz natal, deu-lhe um beijo na face, gesto que foi retribuído.
-Querida, tens as tuas prendas na sala.
Linda parou de comer. Que prendas?
-Feliz Natal! – Anunciou Mari alegremente, entrando na divisão já vestida. Beijou a avó e sorriu para Linda. Esta ergueu a sobrancelha. Mari tinha tentado falar com Linda vezes sem conta, mas nunca agira daquela forma com ela. Não era normal Mari esquecer-se de todas as zangas e sorrir como se nada tivesse acontecido.
Aqui há gato…

**
-Toma! – Disse Mamoru, estendendo um pequeno embrulho a Kenji. Este ergueu a sobrancelha. Que mais o avô teria escondido naqueles bolsos? Pegou no embrulho (verde, com uma fita turquesa) e apressou-se a abri-lo. Dentro, ostentava um relógio de quartzo enumerado a ouro e corrente de couro. O rosto de Kenji permaneceu neutro ao olhar para o relógio. Reconhecê-lo-ia em qualquer lado:
-Foi ele que te pediu que me desses isto? – Perguntou friamente.
Mamoru olhou para o neto curiosamente.
-Não.
-Então porque é que…
-É tradição nos Natsumara dar um relógio ao seu primogénito quando este faz vinte e um anos. Sei que ainda falta alguns meses para a data, mas penso que precises dele.
-Para quê? E porque é que o avô me foi dar este relógio? Porque não comprou outro?
-O teu avô paterno quereria que tu o usasses, sendo tu o herdeiro Natsumara. O tio do teu pai, Rei de Inglaterra, encontrou este relógio no cofre da família. Supostamente o teu pai deveria ter ficado com ele depois da morte dos seus pais, mas não o quis. Ele enviou o relógio para o teu pai.
-E porque é que o relógio está agora nas minhas mãos? Não me diga que ele agora quer conversar? – Perguntou Kenji, agora irritado, não escondendo o sarcasmo.
-Kenji…
-Porque há-de ter muitas oportunidades, há…
-Kenji! – Ele elevou um pouco o tom de voz, fazendo com que o neto parasse de divagar. – Tu não sabes o que é perder um pai…
-NÃO SEI? – O rosto de Kenji ficou vermelho de raiva - E ENTÃO TODAS AQUELAS COISAS QUE ELE ME DISSE? ELE DESERDOU-ME AVÔ! DESERDOU-ME! AGORA NÃO SOU MAIS O FILHO DELE. NEM DELE, NEM DELA!
-…perder um pai da mesma forma que o Edward perdeu os seus. – Continuou Mamoru, sempre calmo. – O teu pai está vivo e apenas te chateaste com ele devido ao calor do momento.
-Calor do momento? – Disse Kenji entre dentes, mas isso não impediu o avô de prosseguir.
-Foi uma morte violenta e eu próprio sei o que isso é. Lembra-te que eu acordei no hospital depois de um acidente de carro sem qualquer memória… e sem pais. – Mamoru deixou o silêncio pairar no ar, enquanto os dois homens caminhavam lentamente. Kenji atrasou o passo, perdido em pensamentos. Tinha-se esquecido de como o pai e o avô tinham passado por momentos de perda semelhantes. A única diferença fora que Edward apenas perdera a memória das vinte e quatro horas antes do acidente.
-Eu sei que te dói pensares no teu pai. – Desta vez, Kenji nem abriu a boca – Mas garanto-te que dói mais ao Edward pensar na sua família.
-Não. – Disse o loiro bruscamente, fazendo o avô parar.
-Como?
-É pior aquilo que sinto. Perder para a morte é apenas o adiar de um novo encontro. Perder para a vida é… doloroso. Acredite avô, eu sei o que isso é e às vezes pergunto-me se faria diferença com a morte. Pelo que ouvi dizer, faz muita.
-Deveras?
-Sim – ele suspirou pesadamente antes de prosseguir. Ainda não tinha reparado que o avô é que o conduzia para um sítio qualquer – A mãe, o pai, a Linda…
Mamoru não pôde deixar de sorrir ao de leve. Era a primeira vez em anos que ouvia Kenji mencionar Edward como ‘pai’.
-Dói mais – disse ele num suspiro.
-Acredita que perder para a vida é mau, mas não é pior que perder para a morte. Se perderes alguém que amas, ficas com uma dor no peito que nunca mais sairá, para além de jamais poderás ouvir a sua voz, tocar na sua pele… tens as memórias, mas com o tempo elas desaparecem. Perder para a vida… bem, aí tu vês o quanto essa pessoa é especial para ti. Quanto mais dói, mais difícil é de passar e há sempre a esperança de tudo ficar bem.
-Não é bem assim.
-Tens razão. – Disse o mais velho dos dois, sorrindo – Isso só acontece quando o outro lado também sente a nossa falta. E nisso tenho a certeza que a dor que tens é partilhada pela Linda.
-Mas ela disse…
-Apesar de tudo aquilo que ela disse, ainda é a tua irmã e esquecer-te deve ser uma das coisas mais difíceis de se fazer. O único problema aqui é que ela é muito teimosa e tu perdes terreno por não te saberes explicar.
Kenji olhou para o avô, confuso.
-O que é que o avô quer dizer com isso?
-Falei com o Setsu. Ele disse-me tudo aquilo que tu e a Linda discutiram. E apercebi-me que determinados detalhes falharam nessa discussão. – Virou-se para o neto, que tinha parado. – Deves saber do que eu estou a falar.
O loiro mordeu o lábio, desconfortável. Sim, sabia do que ele falava.
-Ela não me perdoará só por causa disso.
-Pois não. Perdoar-te-á porque tu és o único irmão dela e vocês amam-se demasiado para estarem separados um do outro.
O jovem baixou a cabeça e seguiu todo o caminho em silêncio. Mamoru olhava para o neto pelo canto do olho, ao mesmo tempo que deitava mais uma olhadela nas horas. Estavam quase lá…

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No apartamento das Nakamura, alguém tocou à campainha. Aiko levantou-se e foi atender. Linda notou que o sorriso de Mari tinha aumentado. Não era pura malícia, mas um sorriso quente, como nunca vira nela.
-Oh querida! – Gritou Aiko, apressando-se a abraçar alguém. – Que bom ver-te. Feliz Natal! Vieste ver a Linda, certo?
A morena em questão quase que se engasgou com a tosta que comia. Uma mulher entrou na cozinha. Agasalhada com um sobretudo verde-garrafa e carregando uma pequena saca dourada, Usagi Tsukino sorria amavelmente para as duas jovens na divisão. Os seus olhos azuis-escuros pousaram em Mari:
-Feliz Natal, querida. – Estendeu a saca para Mari – Eu ainda não a tinha enviado porque estava indecisa no que te dar, até que o meu marido teve uma excelente ideia que eu decidi aproveitar. Espero que gostes.
Mari aceitou a saca, agradecendo. Aiko voltou a entrar na divisão:
-Oh Usagi, queres tomar uma bebida quente? Vai-te fazer bem aos ossos.
-Obrigada Aiko, mas eu vim apenas para levar a minha neta a dar um passeio. – Usagi pousou os olhos na neta, cujos olhos saltavam da avó para Mari, desconfiados. – Vamos?
Apesar de ter falado num tom caloroso, Linda sabia que não devia protestar se não quisesse provocar a ira adormecida da avó. Levantou-se e vestiu um casaco negro, saindo atrás da avó.

Nenhuma das duas falou o caminho todo. Linda notou que a avó parecia estar com pressa para alguma coisa, mas absteve-se. Quase que podia adivinhar o verdadeiro motivo para a visita da avó:
-Suponho que não tenha vindo apenas para me desejar um feliz natal. – Declarou a mais nova secamente.
-Não. – Respondeu a avó, no mesmo tom, apanhando Linda de surpresa. A avó nunca lhe falava nesse tom. – Vim para te chamar a atenção.
-Atenção de quê?
Usagi não respondeu. Invés disso, mordeu o lábio inferior, como se estivesse nervosa e aquela fosse a sua forma de controlar uma resposta pouco simpática.

Chegaram a um parque. O mesmo onde Linda conhecera as outras navegantes. Ou melhor, Mari e Cecília.
A paisagem era fria, mas bela. O verde da relva estava coberto por um pequeno manto de branco, as árvores não tinham folhas e os seus ramos despidos balançavam ao som da leve brisa. O céu estava a ficar menos nublado, provavelmente a promessa de um dia de sol.
O parque estava deserto, com excepção de duas pessoas, que estavam de costas para elas. Aproximaram-se deles. Foi aí que Linda reconheceu os dois homens, que se viraram ao ouvi-las chegar.
Linda e Kenji fitaram os olhos azuis um do outro durante dois segundos, em pleno choque, antes de Linda virar as costas, pronta a ir-se embora. No entanto, foi travada pela avó:
-Ai não. Tu não vais a lado nenhum. Chegou a altura de te comportares como a rapariga responsável que tu costumavas ser.
Linda soltou ar quente e fez um careta, mas nada disso persuadiu Usagi que a obrigou a sentar-se no banco próximo. Depois, olhou para o esposo e o neto.
-Feliz Natal querido! – Disse, abraçando o neto carinhosamente. Mamoru aproximou-se da neta e beijou-a na testa. Linda não respondeu. Evitava olhar para o lado, sabendo que Kenji a mirava. No meio da ‘birra’, não notou que o avô colocara um pequeno embrulho no bolso do casaco dela.
-Kenji? – Chamou Mamoru, tornando-se para o neto. Acenou a cabeça para Linda, enquanto a esposa sorriu, encorajando-o.
-Linda, eu…
Esta nada disse, fitando o chão, com um olhar furioso. Sem saber o que fazer, Kenji colocou a mão no cabelo desajeitadamente.
-Desculpa.
Linda teve uma súbita vontade de se levantar de encher o irmão de porrada.
-Achas mesmo que um pedido de desculpas vai resolver tudo? – Perguntou, a voz fria como o gelo.
-Não. Mas… caramba Linda eu…
-Kenji, acho melhor tu começares do inicio – sugeriu Usagi.
-Porque raio é que vocês fazem isto? – Perguntou a morena, virando-se para os avós. – Como souberam?
-Como já disse ao teu irmão, achas mesmo que nós iríamos deixar uma adolescente de dezasseis anos e um jovem homem de vinte andar por ai pelas ruas de Tokyo sem as conhecer de todo? – Respondeu Mamoru.
-Ainda assim…
-Se tu achas mesmo que nós deixaríamos os nossos netos zangados por um motivo ridículo, então tu não nos conheces de todo, Linda. – Disse Usagi, antecedendo o comentário da neta.
-Vocês sabem o motivo. E acham-no ridículo…?
-Entendemos que estejas zangada, mas passares a raiva toda para o teu irmão não é solução. Sim! – Acrescentou quando viu o olhar da neta – a tua raiva. Já não é a primeira vez que deixas o teu temperamento levar a melhor Linda. A primeira foi neste parque que acabou por custar a vida de uma rapariga. A segunda foi com o teu irmão. Normalmente tu pensas racionalmente e, quando deixas que os nervos e a fúria ganhem a razão, acabas por fazer algo de que te arrendas depois até ao fim dos teus dias.

O comentário da Usagi pairou no ar frio, num silêncio desconfortável. Kenji e Linda olhavam um para o outro, sem raiva, mas com profunda mágoa expressa na íris ocular. Mamoru estava pensativo. Aquilo que a sua mulher lhe dissera fizera-o pensar. Nenhum deles até agora tinha pensado naquela questão até agora. Mamoru olhou para a neta de relance e semicerrou os olhos. Ele já tinha visto uma pessoa racional perder a cabeça e acabar por fazer algo imperdoável. Haveria solução para esse caso?
-Magoaste-me. – Sussurrou Linda, ao fim de alguns minutos, olhando para o irmão. Tentava controlar as lágrimas, que queiram sair.
-Lamento. – Ele baixou a cabeça. – Devia ter feito melhor.
-A culpa não é tua Kenji. – Disse a mulher mais velha. – Estavas indeciso e confuso. A culpa foi nossa por te termos contado tudo.
-Tudo o quê? – Perguntou Linda, curiosa.
-Acham que…
-Não Kenji. Ela ainda não está preparada – cortou Mamoru.
-Preparada para quê? Isso tem alguma coisa a ver com o meu nascimento?
Como nenhum deles respondeu, ela considerou isso, um ‘sim’.
-Linda… sabes porque é que o Kenji e o vosso pai se zangaram?
-Sim, por causa dos casamentos combinados. – Respondeu a morena, confusa. Para que é que tocaram naquele assunto?
-Por acaso não. – Disse Usagi. – Eu estava lá e sei perfeitamente que não foi isso que eles falaram. Bem, pelo menos no que toca ao casamento do Kenji.
-Então foi de quê?
Usagi e Mamoru viraram os seus rostos para Kenji, à espera que ele respondesse à pergunta da irmã. Este clareou a garganta:
-Não foi por mim… foi por ti.

A frase foi seguida por um fúnebre silêncio, em que Linda esperava por Kenji para acabar. O que é que ele quer dizer com ‘por ti’?
-É melhor contar tudo do inicio…

* Flashback *

Ele estava na sala principal, pegando nos livros ao acaso, ignorando os seus títulos e autores. Alguns tinham letras adornadas a dourado e capas de veludo, outros tinhas as suas folhas amareladas com o tempo e uma capa de papel fraca, que se estragaria no toque menos suave. À sua volta, sofás confortáveis e vários quadros, mobílias e tapeçarias decoravam a sala, dando-lhe o ar majestoso que merecia.
Ignorava o tempo a passar. Sabia que Linda devia estar numa aula de Matemática numa sala no fundo do corredor e isso só o pôs mais furioso. Supostamente, ela deveria ir para uma escola normal, não aquilo. Supostamente era Verão e ela devia estar lá fora a divertir-se com outras raparigas. Não a estudar…Ele lá que não se importara de ter aquelas aulas, mas a irmã era outra coisa.
Alguém abriu a porta. Ele virou-se e viu o seu pai a retribuir o olhar. Edward parecia surpreendido em ver o filho ali:
-Que queres? – Perguntou, aproximando-se da estante mais próxima, colocando lá uns livros.
-Falar consigo.
-Acerca de quê?
-Acerca dos casamentos combinados.
Edward permaneceu de costas para o filho, como se reflectisse no que iria dizer. Depois virou-se, os olhos sem qualquer emoção:
-Descansa que não planeio nada para ti. Já percebi que não posso ter uma opinião no que diz respeito à tua vida.
-Opinião? Você está prestes a casar a Linda com um homem que ela não conhece.
-Ela irá conhecê-lo antes do casamento.
Kenji sentiu a raiva subir-lhe à cabeça.
-Isso é alguma piada? – Perguntou num tom de voz mais elevado, aproximando-se do pai. Este permaneceu no sítio, o rosto como pedra. – Digo-lhe já que não tem graça nenhuma.

A porta abriu-se e Kenji viu a mãe e a avó a entrarem, seguidas de Minako. As três olharam para os dois homens no centro da sala com curiosidade.
-O que se passa? – Perguntou Serenity [1], dirigindo-se mais para o genro do que para o neto.
-Nada avó. Eu apenas vim lutar pelos direitos da minha irmã. Já não basta ela não poder frequentar uma escola normal, tem também de casar com um homem que não conhece?
-Que sabes tu sobre a vida da Linda? Que eu me lembre não estavas lá a semana passada, quando ela fez dezasseis anos. Onde estavas tu? Ah, sim. Com os teus amigos. Que irónico que queiras lutar pelos direitos da tua irmã, quando tu próprio a ignoras. – Retorquiu Edward, também ele com o rosto um pouco mais vermelho. Involuntariamente, ia lançando olhares desesperados à esposa, que os correspondia. No entanto, esta permaneceu calada, sem saber o que dizer.
-CHEGA! – Gritou Serenity, tentando parar com a discussão. Mas isso apenas atraiu a atenção de mais uma pessoa. Endymion entrou na sala, perguntando o que se passava.
-Nada querido. Não vamos ter esta discussão! – Declarou a loira, lançando um olhar ameaçador a pai e filho.
-Vamos sim! Não vou deixar que ele – apontou o dedo para o pai, num tom ameaçador – controle a vida da minha irmã, tal como fez com a minha.
-Eu não controlo a vida da Linda – gritou Edward. Ambos olhavam um para o outro com um olhar de morte tão semelhante que Minako e Small Lady se encolheram um pouco. Minako encostou-se à parede, sentindo-se impotente no meio daquela discussão familiar. Small Lady sentou-se num dos sofás e pôs as mãos sobre o rosto.
-Controla sim. Você devia olhar melhor à sua volta. Por acaso sabe que sumo a Linda mais gosta? Por acaso sabe o que é que ela gosta de fazer nos seus tempos livres? Que disciplinas ela mais gosta? – Perguntou Kenji.
Edward ficou congelado no seu sítio.
-Posso não saber nenhuma dessas coisas… - Desviou o rosto do olhar do filho. Apenas Endymion notou que ele mordera o lábio da mesma forma que Linda fazia quando mentia – Mas ao menos eu tento dar o melhor para ela.
-TRETAS! Se você quisesse o melhor para ela, você não a casava com um estranho. Se você gostasse o mínimo dela, não lhe faria o mesmo que fez a si próprio. Lá porque você se casou por interesse não quer dizer que a Linda terá o mesmo destino.
Aquilo fora a gota de água. Todos os presentes na sala sabiam que aquilo que Kenji dissera era mentira. Edward casara-se com a esposa por amor. Mas ele não sabia como os pais se tinham juntado. Se soubesse, talvez tivesse noção de que aquele comentário jamais seria aceite pelo rei de bom grado. Um homem que apenas aceitara ser rei para estar com a mulher que ele amava.
-Então é isso que pensas do teu pai? – Perguntou ele, com a voz calma e num tom magoado. Tom que passou despercebido a Kenji, a Serenity e a Minako.
-Há muito que você deixou de ser o meu pai. – Murmurou Kenji, quase sem consciência daquilo que dissera.
O rosto de Edward voltara a assumir a forma de pedra. Semicerrou os olhos e levantou o queixo, como se o seu ego tivesse sido atingido.
-Que o seja. – Disse ele, num tom feroz. – Não me queres como pai, então também não te quero como filho! Vou esquecer por completo que tu existes. Saí da minha casa.

A afirmação atingiu a sala como uma bomba. Fora dita com tanto veneno que ninguém podia duvidar da sua seriedade. A sala manteve-se em silêncio, enquanto pai e filho olhavam um para o outro com raiva, até que…
-NÃO ESTÁS A FALAR A SÉRIO? – Gritou Serenity, quase como se estivesse pronta a atacar o genro.
Endymion aproximou-se do neto, que se tentava controlar para não dar um murro no próprio pai. Agarrou-o pelos ombros, impedindo-o de atingir o alvo.
-Edward, foste longe demais – declarou ele ao genro, secamente. Este ficou parado na sala, os seus olhos virando-se tanto para Kenji como para a esposa. – Acalma-te Kenji!
-Eu estou calmo. – Sussurrou ele ao ouvido do avô. - Acredita que estou.
Dissera-o com tanta mágoa que Endymion teve uma vontade súbita de abraçar o neto como fazia quando ele era pequeno.
Kenji lançou um olhar de morte ao pai, antes de se virar para a mãe, que nada dizia:
-E tu? Que tens a dizer? Também não queres ser minha mãe?
-Acalma-te Kenji! De certeza que ela terá algo a dizer – Serenity virou-se para a filha, que ainda tinha os olhos fechados de onde saíam lágrimas. Permanecia calada e, ao fitar a mãe, não disse nada.
Kenji riu-se no meio de lágrimas que tentava controlar e gritou:
-Tenho pena da Linda. Ela não merece os pais que tem. Uns cobardes e… hipócritas que só pensam neles!
-Como te atreves a falar assim? Sai já daqui! – Ordenou o rei.
-Só sai daqui quando eu quiser… Nós quisermos – Endymion fitou Serenity. Esta tinha ódio nos olhos. Algo que, após muitos anos, nunca esperaria ver nela.
-Como queiram! Eu afastar-me-ei daqui. Nunca mais me porão a vista em cima. Adeus.
Kenji saiu, batendo com a porta.


* Fim de flashback *

Linda perdeu a pequena luz que brilhava nos seus olhos. Já tinha ouvido a história uma vez, mas nunca inteira. Minako não se dera ao trabalho de lhe explicar o motivo da zanga de Edward e de Kenji. Alias, agora que ela pensava nisso, Minako apenas lhe contara que Kenji fora deserdado e que a mãe nada fizera.
Não lhe dissera que aquela zanga toda fora por causa dela. Que Kenji perdera os pais por causa dela…
Linda engoliu a própria saliva, sem palavras. Poderia haver mais surpresas reservadas para ela? Bem, de acordo com os seus avós e o irmão havia, mas ela ainda não podia saber.
Usagi e Mamoru olhavam para os netos esperançosos, mas os dois irmãos pareciam dispostos a continuar a competir contra o primeiro lugar da pessoa que mais tempo ficava silencioso.
Nervosa, a loira tossiu, chamando a atenção dos dois irmãos. Kenji parecia atrapalhado e Linda não deixava o seu rosto mostrar o que sentia. Esta levantou-se e aproximou-se do loiro:
-Tu tens noção daquilo que passei por tua causa?
Kenji deixou a pergunta pairar no ar durante uns segundos antes de responder:
-Sei, porque também eu sofri isso. – Agarrou as mãos dela, isentas de luvas – Linda, eu amo-te. É uma das poucas coisas que eu tenho a certeza na minha vida. Apesar de ter cometido erros… bem, sou homem cometo-os porque sou humano! Eu nunca te quis magoar. É só que… - fez uma pausa, procurando palavras para se expressar. – Sempre foste diferente. Apenas isso me distanciava de ti. Não tem nada a ver com… - Kenji deitou um olhar nos avós. Estes assentiram, para raiva de Linda que muito queria saber do que é que falavam. – Enfim, coisas. Tu eras e és uma rapariga diferente. Muito inteligente, muito carinhosa… tornaste-te numa mulher quase perfeita mesmo com os pais que tiveste. E os poucos defeitos que encontrava em ti não desmanchavam a imagem perfeita que tu mostravas aos outros.
Ela baixou os olhos.
-Eu não sou perfeita – sussurrou. – E quanto mais vezes vocês mo dizem, mais me apercebo do contrário. Jamais serei perfeita Kenji!
-Mas estás lá perto. – Ele passou a mão pelo cabelo dela, cujas madeixas estavam cobertas de pequenos flocos de neve. – Sentia-me pequeno ao teu lado. Nunca tive grandes oportunidades em ser o teu irmão mais velho e quando comecei a dar mais valor ao cargo, apercebi-me de que já não precisavas de mim. Afastei-me para te dar espaço. Mas nunca deixei de me preocupar contigo. Aliás… apenas não saí do palácio mais cedo por tua causa.
-A sério?
Ele assentiu com a cabeça.
-Eu contava os dias para o meu décimo oitavo aniversário. De repente chega o dia e apercebo-me de que, se for, deixarei uma irmãzinha de catorze à mercê de dois pais que a ignoram. Eu não podia fazer-te isso. Tentei adiar o máximo a minha partida até que… bem, já sabes o que aconteceu.
-Porque não me contaste o que aconteceu? Eu gritei contigo e tu ficaste calado. – Ela cruzou os braços e virou o rosto para o lado, observando uma árvore completamente nua, onde alguns pássaros despediam-se da zona, prestes a partir em migração para zonas mais quentes.
Ele suspirou pesadamente.
-Talvez porque tu tinhas razão. Eles amavam-se e quando eu nasci, trataram-me como todos os pais tratariam uma criança amada. Mas Linda, eles também te desejaram. O problema surgiu a meio da gravidez.
-E vocês não me contam…
-Linda! – Disse Mamoru, num tom sério. – Não puxes mais o assunto.
-É sobre mim e vocês não me contam… ridículo.
-Um dia vais saber, querida. Até lá… o tempo dirá tudo.
Kenji lançou um olhar involuntário ao relógio no seu pulso. O tempo dirá tudo. Que queria aquilo dizer? Que o tempo se está a esgotar?
-Kenji?
Este engoliu em seco, ao aperceber-se que era observado pelos avós e por Linda. Lançou um olhar assustado para os avós, procurando uma negação das suas suspeitas. Mas eles não negaram. Ele apenas pôde esperar que eles não tivessem entendido.
-Ah…? – Respondeu ele. Tal como previra, Linda sorrira.
-Lá estás tu com esse vocabulário reduzido. E eu que pensava que eras inteligente.
-Infelizmente herdei a parte fraca da família. – Kenji abanou a cabeça na direcção da avó, que lhe fez uma careta ameaçadora, obrigando-o a corrigir a frase. – Digo, a melhor parte da família.
Linda e Mamoru soltaram uma leve gargalhada que contagiou Kenji e Usagi. A neve caía suavemente sobre os ombros dos quatro, mas nenhum deles se incomodava com esse detalhe. A tensão que houvera quando se tinham encontrado já lá não estava e agora podiam sorrir um para o outro sem medos de represálias.

Mamoru puxou levemente o braço da mulher:
-Vem comigo. – Ela assentiu e juntos afastaram-se dos irmãos, que ficaram no mesmo sítio, de pé a olhar um para o outro.
Linda examinava o rosto de Kenji. Ele parecia um trintão com a barba por fazer, olhos cansados e cabelo loiro despenteado, mas o que mais a assustara fora a imagem que lhe viera à cabeça. Naquele exacto momento, ela podia jurar estar a olhar para Edward Natsumara com as suas feições belas, mas cansadas sem, no entanto, um único vestígio de rugas.

De nada adiantava ignorar o sangue e ambos perceberam isso da pior forma. Linda seria sempre uma bela cópia da mãe e da avó e Kenji do pai e do avô. Na personalidade, Linda tinha características semelhantes ao avô e ao pai e Kenji à mãe e à avó.
Mas eram irmãos. Apesar dos pais e avós que tinham, das semelhanças que se podia encontrar nos seus rostos, era o amor que sentiam um pelo outro que os juntava, mesmo com todas as diferenças. Quando Linda era pequenina e chorava, Kenji era sempre o melhor a confortá-la.
Quando Kenji se sentia irritado com os pais, a sua pequena irmãzinha chegava-se perto dele e só por se deitar no seu colo, já o punha mais calmo.
Eram a força um do outro no palácio e, com a mudança de ares, a relação estagnou, correndo o risco de se corromper. Cada um descobriu uma nova vida, onde o outro pouco tinha importância.
De repente, um simples erro tornou as coisas insuportáveis e Linda descarrega o seu temperamento na última pessoa que desejaria fazer no mundo: o irmão mais velho. E este, magoado, perde a força de que era constituído no palácio, quando enfrentava os pais a favor de Linda.

Naquele silêncio, sorriram um para o outro. Não era necessário nenhum deles pedir desculpas nem muito menos explicar mais nada. Os laços que os uniam trabalhavam por si. Sabiam o que o outro pensava e tinham a noção de que, mais um esticão e jamais haveria retorno para eles.
Ele aproximou-se dela e envolveu-a nos seus braços. A sensação de vazio desapareceu e ele suspirou de alívio. Ela fez o mesmo sentindo-se, pela primeira vez em dias, amada.
-Feliz Natal, Linda.
Ela sorriu, com a cabeça encostada ao seu ombro e com ele a massajar os seus cabelos.
-Feliz Natal, meu irmão.

**
-Achas possível?
-Não sei. Mas é uma teoria. Sabes muito bem como ele e a Linda são parecidos.
Usagi assentiu.
-Mas o caso é diferente.
-Pois não. É mais sério. E não começa naquele dia, começa quatro meses antes da Linda nascer.
-Eu sei. No fundo, acredito que eles arrependem-se da decisão que tomaram.
-E arrependeram-se. Dá para ver nos olhos deles. Nas acções deles. O Edward anda abatido e a nossa filha… - Mamoru não terminou a frase, controlando um soluço. O seu coração de pai ainda não aguentava a notícia de que a sua única filha iria morrer.
Usagi soltou uma única lágrima, antes de abraçar o marido:
-Vamos arranjar uma solução. A Ami está à procura de uma cura. Ela consegue sempre. Ela vai conseguir… eu sei que sim… a minha pequenina… a nossa Chibiusa… - lágrimas caíram pelo rosto maduro de Usagi, que encostara a cabeça ao ombro do marido, da mesma forma que Linda. Ele baixou a cabeça para beijar o couro cabeludo da mulher, passando a mão pelos cabelos dela, tal como Kenji fizera com a irmã.
Mas os dois irmãos abraçaram-se unidos pelo amor. Usagi e Mamoru estavam abraçados unidos pela dor.

----------------------
[1] É Usagi quando ela está vestida normalmente e fora do palácio. Quando tem algum vestidinho ou está no palácio – depende da ocasião – é Serenity.


Última edição por AnA_Sant0s em Sex 01 Out 2010, 14:45, editado 1 vez(es)

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Sex 01 Out 2010, 14:31

**
Quando Linda voltara a casa, as diferenças notaram-se de imediato. Já não parecia tão carrancuda e toda a moleza da manhã tinha desaparecido. Tinha o casaco cheio de neve e despachou-se a sacudi-lo, enquanto via Mari a pôr a mesa do almoço:
-Correu bem? – Perguntou, com um sorriso, não desviando os olhos dos talheres.
Linda não respondeu de imediato.
-Foste tu que a avisaste, não foste?
O sorriso de Mari evaporou-se, assumindo um ar sério.
-Sim, e não me arrependo. – Largou os pratos e talheres e aproximou-se da morena com um ar decidido. – Não te queria ver naquele estado, principalmente porque fui eu a primeira a pôr-te assim. Desculpa-me por ter sido uma idiota para ti, mas eu tenho motivos para ser tão desconfiada. Eu vi logo quando chegaste à minha casa no inicio de Setembro que eras daquelas pessoas que conquistam a nossa confiança em pouco tempo. E eu não queria arriscar isso contigo. Não quando sabia que tinhas segredos. Foi estúpido. – Ela desviou o olhar, colocando as mãos nas ancas. – Mas foi a minha maneira de te mostrar que escondendo-te não chegarias a lado nenhum.
Linda não alterou a sua expressão facial, olhando para Mari, curiosa.
-Quem foi? – Perguntou, de repente.
Mari ergueu a cabeça.
-Como?
-Quem te traiu? Para tu desconfiares das pessoas desta maneira?
A loira mordeu o lábio, receosa e Linda quase esperava uma reacção da típica Mari, a dizer para ela se meter na sua vida. Mas para sua surpresa, Mari respondeu, num sussurro:
-O meu pai.
-Meninas, p’ra a mesa! – Anunciou Aiko, animada, vindo da cozinha carregando uma travessa de vidro com um apetitoso peru recheado com batatas assadas. – Depois vamos abrir os nossos presentes.
Sentindo-se aliviada pela intervenção da avó, Mari despachou-se a sentar-se à mesa, servindo-se de batatas douradas. Linda suspirou levemente e arrumou o casaco no cabide. Foi aí que reparou num pequeno embrulho turquesa no seu bolso. Há quanto tempo isto ‘tá aqui?
Desembrulhou o pequeno embrulho com cuidado até se dar de caras com uma corrente. Um pequeno colar de prata encontrava-se dentro da caixa, junto a um cartão. Linda reconheceu-o como sendo o colar que estava na montra no mesmo dia em que vira Minako e Naomi. Sem nada a não ser uma corrente, Linda percebeu o objectivo da prenda. Tirou o seu colar e separou o pingente da corrente já gasta do colar improvisado. Ao colocar o pingente junto da corrente de prata, viu que assentava como uma luva. O pingente reluzia dez vezes mais na companhia de uma corrente feito do mesmo metal.
Pegou no cartão, querendo saber quem lhe tinha dado a prenda. O cartão tinha apenas uma frase.
Tinhas razão.



Linda reconhecia a letra. Quantas vezes o vira a rabiscar daquela forma na mesa ao lado? Quantas vezes ela lhe pedia apontamentos do ano anterior, apenas para meter conversa?
Guardou a caixa e dirigiu-se para a mesa, onde Aiko e Mari elogiaram o seu colar, apesar de Mari manter-se calada a maior parte do tempo. Linda sabia que lhe devia uma conversa e não pretendia adiá-la por muito tempo.
Após o almoço, despacharam-se a abrir presentes. Linda recebeu de Aiko uns sapatos novos, perfeitos para a dança:
-Obrigada Aiko! – Agradeceu ela, chegando-se perto da mulher para lhe dar um beijo nas bochechas.
A sua outra prenda era um conjunto de várias. As navegantes haviam se juntado para dar-lhe uma prenda cada uma, todas organizadas numa caixa decorada a papel azul-escuro da cor dos olhos de Linda. Minako dera-lhe uma caixa de acessórios que estava bem recheada, com várias cores e formatos de pulseiras, anéis e acessórios para o cabelo. Ami um livro cujo titulo fora uma grande surpresa:
Lei e Estilo, por Linda O’Connell

Linda O’Connell, escritora amada em vários países desde a Europa, Estados Unidos até à China e ao Japão, edita agora o seu mais recente romance protagonizado pela sua nova personagem fíctida, Andrea Sullivan.
Sullivan trabalha na empresa Cork Industry – uma empresa de advocacia em Londres - como secretária adjunta do Director, Nigel Cork.
Quando o seu patrão é raptado, Andrea descobre um bilhete na sua secretária com pistas para achar o seu paradeiro e um enigma que revela a identidade do seu raptor. Percebendo que a policia não está do seu lado, nem no lado de Nigel, Andrea parte em busca do seu patrão, usando a sua peripécia e curiosidade como ferramentas para achar a chave que falta no enigma. Aventura e muita acção neste novo romance que irá deixar o leitor deliciado e a suspirar pelo próximo.

Linda sorriu e procurou o cartão, onde a letra organizada de Ami dizia:

Feliz Natal, querida.

Achei que quisesses saber mais sobre as origens do teu nome. Já li todos, e acho que este não é dos melhores. Mas, sendo o primeiro, tens que o ler, para além de que eu acredito que vais gostar. Até te mandava o meu livro preferido, mas sei que não quererás saber qual é até o leres por conta própria. É que… era também o livro preferido da tua mãe.

Com amor, Ami


Entendia as razões de Ami e no fundo agradecia a preocupação. Desde que Kentaro lhe falara dos livros que tivera curiosidade em lê-los, mas faltava-lhe vontade em procurá-los. Talvez ela não estivesse preparada para fazer algo que a mãe também tinha feito noutros tempos.
E agora estava ali o primeiro livro da saga. Havia mais e Linda, ao dar uma olhadela na última página, com uma lista dos próximos romances (havia uma, visto o livro ser de uma edição mais recente) pôde ver os seus nomes:
-Areias do tempo
-As asas de Ícaro
-Vício Japonês
-Fita de prata

Linda calculava que fosse Vicio Japonês o preferido de Ami e da mãe, sem dúvida o livro onde o irmão da protagonista enfiava-se em problemas no Japão. O livro onde o nome do irmão vinha mencionado.
Mas, por algum motivo, o primeiro e o quarto livro eram os únicos que não tinham títulos muito atractivos. Eram os únicos onde Linda não sentia lá grande curiosidade em ler. Os restantes atraiam pelos seus títulos enigmáticos e que prometiam muitas aventuras e romances. Isso fez lembrar Linda Será que Andrea tem algum namorado nesta saga, perguntou-se, divertida.

Pousou o livro de Ami de lado e virou-se para as restantes prendas. Makoto mandara-lhe, para além de um grande tupperwear cheio de bolos deliciosos, um caderno vermelho escuro onde postava a insígnia da lua. Parecia um diário. Linda tentou abri-lo, mas viu que se encontrava fechado. Pegou no bilhete da navegante de Júpiter, que lhe dizia que tinha que esperar por um determinado momento para o abrir.
Era só o que me faltava…
Por fim, o presente de Rei. Linda procurou-o por todo o lado dentro da caixa, até que ouviu a voz de Aiko, sentada ao seu lado:
-Linda, não é isto aqui? – Disse, apontando para uma pequena caixa, abandonada num canto escuro da caixa. Linda perguntou-se como é que não dera por ela antes.
-Sim. – Lançou a mão em direcção do embrulho. A caixa era um quadrado perfeito prateado, com uma leve tira dourada nas bordas. Mari arregalou os olhos. Ao ver a reacção da loira, Linda deitou-lhe um olho e ela própria ficou chocada. Mari tinha uma caixa igualzinha na mão.
Ambas entreolharam-se, tentando chegar a um acordo silencioso sobre se era melhor abrir a caixa ou não. Como Linda sabia que Rei jamais lhe faria mal, acenou a cabeça levemente, dizendo a Mari que era seguro.
Abriram as suas respectivas caixas ao mesmo tempo.
Dentro da sua caixa, Linda viu uma pequeníssima pedra cor de fumo branco, que brilhava como diamantes. Era tão pequena que quase se assemelhava a um grão de areia. Ainda assim, era brilhante e tinha algo escrito na pedra.
Apesar de estar a usar óculos, Linda não conseguiu ler o que estava lá escrito. Deitou um olhar em Mari e notou que esta tinha um ar perplexo. Aproximando-se dela, copiou a sua expressão.
Mari recebera também uma pequena pedra. A diferença era que a pedra de Mari era maior e mais brilhante, para além de vir com outra pedra, mas esta era muito menos brilhante e ainda mais pequena que a de Linda.
-Quem te deu isto?
-A tua avó! – Respondeu a loira.
Mari tentou fazer contacto visual com Linda, mas esta evitou os olhos verdes da outra.
Voltou a sentar-se no sofá, onde abriu a prenda dos avós, que viera dentro da caixa. Era uma caixa rectangular grande o suficiente para suportar três manuais de matemática [2]. Ao abri-la, deparou-se com uma grande quantidade de tecido branco em seda. Temendo saber o que se tratava, Linda procurou um cartão. Ao encontrá-lo, apressou-se a lê-lo, reconhecendo a caligrafia do avô:

Podíamos dar-te isto no teu aniversário, mas até lá vai muito tempo e infelizmente, devido às circunstâncias, não iremos poder estar muito tempo contigo e com o Kenji, a não ser para emergências.
Trata-se de um vestido semelhante ao das rainhas, com a única diferença de tu não seres rainha. Mas és filha de uma e neta de outra. Como tal, mereces a prenda.
Linda, quer queiras, quer não, o reino faz parte do teu legado e mesmo que nunca venhas a ser rainha, serás sempre a guardiã do cristal prateado. Usa este vestido quando achares que seja a altura. Pode ser no teu décimo sétimo aniversário, pode ser no teu casamento, ou na coroação do novo rei (quer sejas tu ou o teu irmão). Escolhe tu o melhor momento. O teu coração o dirá. Poderia explicar-te o motivo para que tu o uses, mas tu própria tens que o descobrir. Trata-se de algo que eu e a tua avó temos tentado ver em ti desde que tu nasceste, mas chegou a altura de tu própria o mostrares, sem a ajuda de ninguém. Cresceste e aprendeste a ser responsável. Acredito em ti, minha querida. Sei que hás-de entender o seu significado e abraçar a responsabilidade que te ele obriga a ter.
Considera o vestido prenda da tua avó, enquanto a minha é algo que eu te daria, quer eu fosse rei, quer eu fosse um simples operário sem dinheiro para pôr comida na mesa. Não tem nada a ver com o legado, nem com responsabilidades. Tem a ver com a alma pura que tu possuis. Por muito que penses o contrário, tens um dos corações mais puros que eu alguma vez vi. Apenas não o mostras devido ao universo onde cresceste.
Com o tempo irás te aperceber de tudo. De quem és, do que fazes aqui, de tudo. Apenas tens que ter paciência (acredito que deve ser difícil, mas aguenta). O tempo tudo dirá…


Com amor
Dos teus avós


Quando acabou, não pôde deixar de sorrir, ao mesmo tempo que acariciava o tecido suave. Um vestido branco como o da mãe e o da avó. Ela bem que se lembrava de, numa idade mais inocente, sonhar em ter um, em ser uma senhora respeitada como a mãe e a avó. Talvez fosse esse o significado do vestido.
Não, não me parece…
Releu a carta e os seus olhos pararam no último parágrafo.
Com o tempo irás te aperceber de tudo. De quem és, do que fazes aqui, de tudo. Apenas tens que ter paciência (acredito que deve ser difícil, mas aguenta). O tempo tudo dirá…

Que quereria dizer com aquilo? Teria algo a ver com o facto de ser uma navegante? Bem, era a resposta mais lógica. Mas algo dizia a Linda que, por entre aquelas linhas, escondia-se a verdadeira razão do seu nascimento. O porquê da estranha reacção dos pais, o porquê do irmão ter ficado assustado com tudo. Voltou a ler o parágrafo e parou na última frase. Ela tinha ouvido o avô dizer a mesma frase pouco tempo antes. O tempo tudo dirá…
-Então? Gostas da prenda da tua avó? – Perguntou Aiko, interrompendo os pensamentos de Linda.
-A Aiko sabe o que eles me deram?
-É claro que sei. Achas mesmo que eu não conheço a minha amiga?
-Esperem lá! – Mari levantou-se do sofá – quer dizer que avó sempre soube que ela era…
-A mãe da Rainha de Crystal Tokyo? É claro que sabia. Tal como sei de vocês as duas…
-Como? – Perguntou Linda, trocando um olhar com Mari. – De que é a Aiko está a falar?
Aiko não respondeu logo. Em vez disso, levantou-se e circulou pela sala, suspirando pesadamente. Parou junto do quadro da filha.
-Como é que vocês acham que eu conheci a Usagi? Apesar de termos muita coisa em comum, nunca frequentávamos os mesmos sítios. Foi através de… uma pessoa… que nos conhecemos. E ela teve um enorme fascínio pela Julianna.
Mari ficou pálida, Linda confusa:
-Desculpem, mas quem é a Julianna?
-É a minha mãe – sussurrou Mari. – Julianna Nakamura.
Linda arrependeu-se logo de ter feito a pergunta, mas o mal já estava feito. Aiko continuou, os seus olhos fixos no quadro de Julianna.
-Ela percebeu que havia algo de diferente nela. Dizia que ela a fazia lembrar alguém. Quando a Julianna engravidou, a Usagi contou-me as suas suspeitas.
-Que suspeitas? – Perguntaram as duas adolescentes ao mesmo tempo.
-De que a criança que a Julianna carregava no ventre era uma menina. Uma navegante. – Declarou ela, não notando na palidez das duas jovens, que estavam tão brancas quanto lençóis – na altura não sabia o que isso era, até que ela me esclareceu. De repente lembrei-me das navegantes e das suas histórias que ouvia na minha juventude e até de uma vez onde eu própria fora atacada por um monstro e tinha sido ela a salvar-me.
-A avó foi atacada?
-Eu e mais vinte pessoas. Foi um grande ataque. Pouco tempo depois de a Usagi descobrir que era uma navegante. Eu era pequena, para aí uns seis anos…
Linda ergueu o sobrolho à última parte. Seis anos? Mas a Aiko não tem a idade da minha avó? Apesar de Aiko aparentar uns quarentas, perto dos cinquentas, sempre tivera a impressão de que elas partilhavam a idade. No entanto, havia um factor a considerar. Serenity tinha o cristal prateado para a rejuvenescer.
Mas Usagi fora avó de Kenji antes de fazer quarenta e cinco, então isso queria dizer que…
-Quando a Mari nasceu, todas as suspeitas foram confirmadas. E depois o teu nascimento, Linda, também clareou muito as coisas.
-Então a avó sabe…
-Sim, Mari. – Aiko virou-se para a neta com um sorriso quente. – Sei. E a tua mãe também sabia. E isso era ainda mais um motivo para ela te amar. És especial!
As duas jovens fitaram o chão, ambas perdidas em pensamentos. Aiko lançou um olhar ao quadro da filha e voltou a abrir os presentes dos seus amigos, dando a conversa por terminada.
-Vê a prenda do teu avô! – Disse Aiko, falando como se a conversa momentos antes não tivesse acontecido. – Eu não sei o que é que ele te deu.
Linda pousou os olhos na caixa, com os dedos ainda por cima do tecido branco. Não vendo mais nada, julgou a prenda do avô escondida no meio daquele mar de seda branca. Remexeu cuidadosamente, para não estragar e os seus dedos tocaram em metal leve.
Ergueu as mãos e as três ocupantes soltaram um ‘oh!’.
Linda tinha nas suas mãos uma reluzente tiara de platina, pequena o suficiente para não se parecer uma coroa, mas grande ao ponto de se distinguir de uma bandelete. A tiara era feita de linhas simples e cravejada com pequenas pedras brilhantes em forma de estrelas de três pontas que se dispersavam pela coroa uniformemente. No centro da tiara, havia uma pedra maior, que brilhava ainda mais do que as outras, apesar do seu aspecto se assemelhar mais a uma pedra cheia de gás branco do que outra coisa.
Ao admirar a prenda do avô, tinha a certeza de uma coisa. Que as pedras cravejadas na tiara, com excepção da pedra central, conseguiam riscar o vidro.
-Oh, mas que prenda maravilhosa! Digna de uma princesa – acrescentou Aiko, rindo-se do ar de Linda. – Que foi? O que eu disse é nada mais do que a verdade.
Linda forçou um sorriso, assim como Mari, que não tirava os olhos da pedra central.
-Sabes que pedra é essa?
-Uma moonstone, certo?
-Hum hum… - murmurou Mari, não desviando os olhos da pedra - não tem valor algum em comparação aos brilhantes. Pergunto-me porque é que o teu avô ta deu.
Linda fitou a loira, não respondendo às suas dúvidas. Pousou a tiara de lado, dando a conversa por terminada.

O resto do tempo foi passado em silêncio, ocasionalmente quebrado por uma das três mulheres ou pelo som da televisão. Passaram a tarde na conversa e em jogos de família. Linda não se lembrava de algum Natal assim. Havia sempre alguma coisa diferente, mais majestosa. Mas nunca um Natal simples num lar acolhedor sem a pressão de ter os pais junto à porta, prestes a interromper o bom ambiente.
Mari e Linda falavam uma para a outra, o gelo entre as duas já derretido. Aiko não pôde deixar de sorrir ao ver a neta falar para Linda do mesmo modo que uma amiga fala para a outra. Havia ainda alguma tensão, como se ambas temessem a reacção da outra a cada gesto ou frase, mas já era um grande passo. Ela nunca tivera dúvidas que aquelas duas seriam um dia amigas. Afinal, tinham tanto em comum…

Sem darem por isso, eram já 20h55.
-Oh, pelos deuses! Tenho que fazer o jantar. – Aiko levantou-se do sofá, um pouco aflita.
-Avó! Não sobrou nada do almoço? – Perguntou Mari, que estava sentada no chão, com Linda ao seu lado.
-Sobrou, mas não sei se vocês querem comer o mesmo.
-Por mim tudo bem. – Disse Linda. – Alias, eu até nem tenho muita fome de tanto doce que comi.
-Pois bem, vou aquecer a comida. É melhor irem as duas tomar banho.
-Ok – dissera as duas em uníssono, dirigindo-se cada uma para o seu quarto.

Linda foi rápida no duche e vestiu o seu pijama à velocidade de um comboio. Amarrou o cabelo e saiu do quarto. Avançou em direcção ao quarto de Mari e bateu à porta. Não houve resposta.
Linda abriu a porta e admirou o quarto de Mari. Se Linda era adepta de preto, Mari era de cinzento. Perguntou-se de Cecília era de branco.
O som de água a correr indicava que Mari estava no duche. Deitando uma olhadela no quarto, esperou que a loira saísse da casa de banho.
Mari saiu da divisão, com o corpo enrolado numa toalha de banho e o cabelo preso. O seu rosto mudou de um semblante descontraído para um surpreendido:
-O que fazes aqui?
-Vim falar contigo! – Linda sentou-se na beira da cama, sorrindo levemente, como que encorajando a loira. Esta ficou de pé, sem saber o que fazer.
-Sabes, somos as duas mulheres, podes trocar-te à minha frente.
-Ah? Oh, eu sei. É só que… não sei o que queres falar comigo.
-Sabes sim. – Disse a morena calmamente.
Mari pousou os seus olhos em Linda. Verde e azul, cores diferentes, mas um brilho semelhante.
Desistindo do joguinho de olhares, Mari desenrolou a toalha e mudou-se para o seu pijama. Linda esperou pacientemente até que a loira tivesse o seu pijama vestido, cabelo amarrado e sentada ao lado dela na cama.
-Quantos anos tinha a tua mãe quando nasceste?
Mari esperava várias perguntas, menos essa. Ponderou na resposta:
-Dezassete. Dezasseis quando engravidou. – Murmurou, esperando no fundo que Linda não ouvisse. Mas esta tinha uma boa audição.
-Bem me parecia. Sei que a Aiko e a minha avó tiveram as nossas mães quase na mesma idade, mas se a tua avó é mais nova… bem, bastou fazer as contas.
-Incomoda-te?
-A mim? Porque me incomodaria?
-Eu sou filha de uma adolescente. Se a minha mãe fosse viva, teria trinta e três.
-A minha está viva e tem quarenta e um, com um filho de vinte lá pelo meio.
-Não é a mesma coisa.
-Mas é parecido – Mari soltou uma lufada de ar, enquanto admirava os nós entre os dedos. – Mari? – Sentiu a atenção da loira em si. – O que aconteceu ao teu pai?
-Ele… - Mari desviou o olhar de Linda, fitando a televisão do quarto. – Bem, a minha mãe sempre foi uma rapariga certinha e ela… - sorriu – era quase sempre associada a um anjo. E ela até o era, tão doce, querida, sempre a sorrir…
«De repente, tudo isso mudou. O meu avô morreu e a minha mãe ficou devastada. Já deves ter visto que a minha mãe nada tinha a ver com a minha avó. Bem, ela era parecida com o meu avô em todos os aspectos. Ambos eram sonhadores…Ela estava muito triste e deixou que o namorado – meu pai – a consolasse. Foi aí que engravidou.
-E depois?
-A minha avó obrigou o meu pai a assumir-me. Eu nasci e tudo era lindo. A minha mãe adorava-me, nunca tive dúvidas de que, apesar de eu ter sido um choque e um ‘erro’, ela depressa de afeiçoou a mim. A avó costuma dizer que isso acontece quase sempre que uma mãe segura o seu filho recém-nascido pela primeira vez nos braços. Foi assim com a minha mãe – Mari suspirou de novo, deitando um olhar na morena. Esta fitava o chão, pensativa. – Quando eu fiz quatro, a minha mãe descobriu ter leucemia. Acreditas? Uma rapariga de vinte e dois e saudável com leucemia?
Linda assentiu pesarosamente. Mari continuou, tentando controlar ao máximo as suas emoções:
-Ela lutou, mas a doença levou a melhor. Morreu pouco antes de eu fazer sete anos. Depois… a minha avó ficou comigo. O meu pai usava a Marinha como desculpa para não me visitar. Mas a avó era teimosa. Obrigava-o a pagar a minha educação, a estar presente nos dias especiais, mandava cartas aos meus avós paternos a avisar de tudo o que se passava comigo… ela queria que eu nunca sentisse o vazio deixado pela mãe. – O seu sorriso aumentou – a avó foi muito corajosa. Tinha acabado de perder a filha, mas ignorou a dor para tratar de mim. Acredito que foi porque eu era igualzinha à minha mãe e isso fazia-a sentir... talvez, quem sabe… que a minha mãe nunca tivesse partido.
-Oh Mari…
-Ele vinha cada vez menos. A avó deixou de se importar. Parecia que ele tinha destorcido a história toda aos pais dele e afirmado que eu era filha de outro. Como ele era rico, achavam que era o golpe no baú. E o facto de eu não ter quase nada a ver com ele não ajudou…
-Filho da…
-Acredita que também pensei nisso. Mas apenas mais tarde. Até essa altura, eu sempre achei que ele haveria de voltar. Ele prometera-me, ele sorrira para mim, dera-me presentes lindos e prometera-me que me levaria ao zoo, à escola, a dar um passeio. Mas, por detrás daquele sorriso e daqueles olhos… ele mentia. A partir do momento em que me apercebi que ele jamais voltaria, deixei de confiar logo nas pessoas. Apercebi-me que muita coisa está escondida nos olhos das pessoas. Vi isso quando chegaste. – Virou-se para a morena, que a escutava atentamente sem interromper – Os teus olhos brilhavam do mesmo modo que os dele. Via-se mesmo que escondias algo. O sorriso era igual... pelos céus, até a cor dos olhos era a mesma.
-Lamento Mari. disse Linda, sinceramente.
-Não lamentes! Eu é que me devia ter apercebido que nem todos os segredos são maus. Apenas limitam a pessoa, nada mais. O teu segredo era daqueles que ninguém devia saber... devia permanecer segredo. E eu não entendi isso, mesmo com a Cecília a dizer-me para esquecer… que eram apenas problemas familiares.
-Olha que até está correcto – murmurou Linda calmamente. – Mari cometeste um erro. Todos cometem.
-Desculpa.
-Tens noção das vezes que já ouvi isso hoje?
Sorriram as duas.
-Faço uma pequena ideia. Acredito que o Kenji se tenha fartado de te pedir desculpas.
-Se ele tivesse o palavreado todo que tem em dias normais, acredita que sim. Mas ele até gaguejou e tudo.
-A sério? – Mari ajeitou-se no seu lugar, procurando uma posição confortável. – E eu que sempre achei que ele era um desinibido.
Linda olhou para Mari de lado.
-Pois…
-o que foi?
-Nada, nada…

A atmosfera pesarosa que seguia as duas adolescentes desde Setembro desaparecera. Não parecia haver mais vestígios das antigas rivalidades das duas e ambas estavam contentes com isso. No fundo, tinham que admitir que até esperavam por aquilo fazia algum tempo.
-Amigas? – Sussurrou Linda. Mari assentiu.
-Espero estar à sua altura, majestade.
Ao ver a cara de Linda, Mari soltou uma gargalhada.
-Estava a brincar.
-Não brinques que eu não gosto disso.
-Vais ter que te habituar. Faz parte de ti, não podes ignorar isso.
Linda brincou com uma madeixa de cabelo. Também Mari achava que ela não devia ignorar as suas raízes. Mas ela não queria saber de onde vinha! Ela não queria ter nada com aquele mundo? Tinha pedido ela para nascer de berço de ouro?
-Eu sei… - respondeu ela, num tom aborrecido. Na mesa-de-cabeceira, o telemóvel de Mari anunciou a chegada de uma SMS. Esta apressou-se a ver.
-De quem é?
-Da Cecília? Está a perguntar se eu faço alguma ideia do significado da pedra dela?
-O quê? Ela também recebeu?
Mari assentiu e marcou o número da amiga. Esperou um pouco até que Cecília atendeu ao segundo toque. Mari pôs o telemóvel em alta voz:
-Cecy!
Do outro lado, apenas estática.
-Cecy?
Desta vez, teve resposta. A voz um pouso grave de Cecília ouviu-se em todo o quarto:
-Voltas a chamar-me ‘Cecy’ que eu te enfio o telemóvel por um sítio que eu cá sei.
Aquela era nova. Cecília Tamura a praguejar? Linda abriu a boca num ‘oh’ e fechou-a, prestando atenção à conversa das duas amigas:
-Pois, pois… quem te mandou a prenda?
-A Rainha Serenity. A minha mãe chegou a casa com o embrulho e deu-me. Não tinha cartão nem nada. E a ti?
-Também. Ela veio cá falar com a Linda e deu-me. Por acaso imaginas o seu significado?
-Podes não acreditar, mas sei. Tem algo a ver com a pulseira e os brincos. Acho que as pedras encaixam aí.
Linda reflectiu sobre aquilo que ouvira. Fazia sentido. A pedra que ela recebera era do mesmo tamanho que os pequenos pontos negros do seu pingente. E as pedras de Mari tinham tamanho suficiente para fazerem de brincos. Provavelmente a de Cecília era maior, para caber numa pulseira.
-Sim, faz sentido. Mas temos que…
-Falamos disto mais tarde Mari. Isto é um assunto que temos que falar pessoalmente. Olha, disseste que a Rainha fora aí falar com a Linda. Como é que ela está?
Mari olhou para a rapariga em questão. Esta pôs o dedo nos lábios, que mostravam um sorriso.
-Na mesma.
-Raios! Porque é que ela tem que ser tão teimosa?
As duas raparigas no quarto tentaram controlar uma gargalhada.
-Sei lá. Ela é assim.
-Pois… eu começo a perder a paciência com isto. Se ela amanhã não melhorar, eu vou aí à vossa casa e chamo-a à razão.
Mari e Linda entreolharam-se, desconfiadas.
-E o que é que vais fazer? – Perguntou a loira, num tom brincalhão.
- O costume. Um escândalo, algumas galhetas, um puxão de cabelos…
-Xii, mas que simpática. – Comentou Linda, sarcasticamente. Do outro lado, seguiu-se silêncio.
-Ah... Mari? A Linda está aí?
-Desde o início da chamada! – Respondeu Mari, como se fosse a coisa mais inocente do mundo.
-E NÃO ME DIZES NADA!?
As duas raparigas riram-se a alto e bom som, acabando Mari por cair da cama. Linda sentou-se no chão e tinha que fazer um grande esforço para não rebolar.
O riso acabou por contagiar Cecília, que se riu do outro lado da linha.
-Então está tudo bem? Digo… já não são inimigas?
-Está! – Respondeu Linda, apoiando-se na beira da cama. – Está tudo bem entre nós. Feliz Natal Cecy.
-Oh… não venhas tu com essa também!

Enquanto as três jovens riam-se da nova amizade conquistada e desavenças desaparecidas, a lua deixava que metade dos seus raios iluminassem a terra, enquanto a outra metade estava envolvida em sombras. Ninguém notou em três pequenos raios, semelhantes a chuvas de estrelas que caíram do céu por entre a fase escondida da lua. Ninguém notou que, nessa exacta altura, três flores brilharam com todo o seu esplendor e poder.

**
(25 de Dezembro ás 19h45)

-Feliz Natal Takeo!
A menina respondeu com um abraço caloroso. Kenji passou a mão pelos cabelos da rapariga, tão escuros quanto os de Setsu. Aliás, ela e Setsu eram muito parecidos, com a única diferença de que Takeo tinha os olhos violetas da mãe. Olhos que, naquele momento, encontravam-se escondidos atrás de óculos redondos com armações cor-de-rosa e um pequeno coelho desenhado na ponta.
-Bem vindo Kenji – respondeu Kim Yamamoto. Era uma belíssima mulher de cabelos lisos azuis-claros até aos cotovelos e olhos violeta. Tinha um vestido cai-cai de um azul levemente mais escuro que os olhos e os únicos acessórios que a decoravam eram uma simples pulseira de ouro e a aliança. – Feliz Natal.
-Feliz Natal, Kim. – Desejou Kenji sinceramente. Havia bastante tempo que ele e Kim habituaram-se a tratarem-se pelo primeiro nome.
Estavam os três na entrada, enquanto Eiji e Setsu estavam na sala de estar.
-O meu marido deve estar a vir. Anda sentar-te – sugeriu Kim. Kenji sorriu às qualidades de anfitriã da madrasta de Eiji e Setsu.
Na sala, as decorações atingiam o auge. Uma grande árvore de natal, decorada com bolas e anjos de papel, encontrava-se junto à lareira acesa, decorada por meias vermelhas. A mesa de Natal estava recheada de iguarias que só de ver já davam a Kenji água na boca.
-Estão a discutir acerca do melhor jogador do campeonato. – Disse Takeo ao sei lado, obviamente aborrecida pelo tema discutido pelos irmãos mais velhos.
-O Soda é o melhor! – Afirmava Setsu teimosamente.
-Até a Takeo consegue marcar mais golos que o Soda. – Discordou Eiji. - O Finnigan é o melhor. Tem técnica e já marcou mais golos que toda a sua equipa junta.
-Esse nem japonês! – Berrou Setsu, ansioso.
-Mãe japonesa, pai anglo-japonês.
-Eiji, Setsu! – Chamou Kenji calmamente.
-Mesmo assim. Não é um japonês a 100%. Já o Soda tem todos os seus ancestrais nascidos no Japão.
-Até parece que agora no futebol isso importa. Até temos o Santos, que é mexicano e joga por uma equipa japonesa.
-MENINAS! – Gritou Kenji, atraindo a atenção dos dois irmãos, que de imediato pararam de discutir. Kenji virou-se para Takeo. – Olha-me esta. Chamo-os pelos nomes e não ligam. Digo que são fêmeas e eles lá respondem.
Takeo soltou uma sonora gargalhada. Setsu e Eiji semicerraram os olhos.
-Estávamos a ter uma conversa muito interessante. – Argumentou Setsu.
-Sim, estávamos a confirmar que o Finnigan é o melhor jogador do campeonato japonês.
-Não é não! É o…
-Vá lá meninas, paremos com o histerismo! Para o caso de não terem reparado a vossa irmã é sensível a essas conversas de chacha.
Takeo voltou a rir-se, para embaraço dos dois irmãos.
-Então como correu? – Perguntou Eiji, querendo mudar de assunto.
Kenji sorriu.
-Muitíssimo bem.
-Ela perdoou-te?
Setsu e Eiji não se pouparam a disfarçar o espanto, que se iluminou nos seus rostos.
-Sim. Está tudo bem entre nós. Resolvemos as nossas coisas.
-Estiveste com ela até esta hora?
-Não – Kenji colocou a mão no cabelo. – Estive com a Angelique. Ela queria despedir-se de mim.
-Ela não tinha ido já para Kyoto?
-Não me perguntes porquê, mas a partida foi adiada por algum motivo.
-Hum…Sendo assim, já deve ser seguro para…
-Feliz Natal, família! – Anunciou uma voz grossa, vinda do corredor ao mesmo tempo que se ouviu uma porta a fechar.
-Feliz Natal, querido! – Respondeu Kim, vinda da cozinha. Aproximou-se do marido e beijou-o carinhosamente.
Takeshi Yamamoto apareceu à entrada da sala. Trazia um fato cinzento-escuro e uma mala negra, que pousou no chão. O seu cabelo era de um castanho-escuro, que passara ao mais velho e à mais nova, enquanto os olhos eram cor de avelã como os do filho do meio.
-Boa noite rapazes. Olá, querida. – Beijou a face da pequena e abraços os filhos. Quando se aproximou de Kenji, este estendeu a mão, mas Takeshi recusou-a, evolvendo o rapaz num abraço afectuoso.
-Que tolice. És quase como da família.
-Obrigada Sr. Yamamoto.
-Quantas vezes tenho que te dizer para me trarares por Takeshi?
-Muitas, senhor. – Para Kenji havia uma grande diferença em chamar uma mulher que ele via como uma amiga pelo nome, do que fazer o mesmo a um homem que considerava um pai. – Bastantes.
-Como está a tua irmã?
-Está boa.
Takeo voltou a rir-se, desta vez mais alto, chamando a atenção dos dois.
-O que foi? – Perguntou o patriarca da família Yamamoto.
-O Setsu…
-Cala-te Takeo! – Ordenou Eiji, vermelho como um tomate. Setsu exibia um sorriso trocista.
-Setsu, o que é que disseste ao teu irmão?
Setsu abriu a boca para falar mas, ao ver a atenção de Kenji posta em si, hesitou.
-Deixa p’ra lá pai. O Eiji já está embaraçado o suficiente.
-Mas eu quero saber. – Disse Takeshi, firmemente.
-Bem…
-O Kenji disse que a irmã dele estava boa e o Setsu disse baixinho: “O Eiji que o diga!”.
Kenji ergueu o sobrolho furiosamente para Setsu, Eiji corou ainda mais e Takeshi tentou aguentar uma gargalhada.
-Pede desculpas ao teu irmão, Setsu.
-Porquê?
-Porque o embaraçaste.
-E para isso também tens que me embaraçar? Além disso, já não somos putos.
-A sério? Eu nem tinha reparado nisso – disse Takeshi.
-Oh pai, esqueça o sarcasmo. O Setsu não o entende – disse Eiji.
-O que é sarcasmo? – Perguntou Takeo.
-É dizer o contrário daquilo que dizem ou pensam... Ou outra coisa qualquer… - respondeu Setsu. O seu pai e irmão abanaram a cabeça e Kenji e Takeo entreolharam-se, o mais velho enrolando os olhos ao semblante confuso da miúda. [3] – Como estava a dizer. – Pegou em dois pedaços de papel cor de laranja. – Aqui está – disse, estendendo-os a Kenji. Este manteve a sua expressão inalterada.
-O que é isto?
-Bilhetes VIP para a festa de fim de ano no Hotel Millenium [4].
Kenji arregalou os olhos.
-Como os arranjaste?
-A prenda é minha! – Disse Eiji, chegando-se perto – Achei que tu e a tua namorada quisessem estar na melhor zona na melhor festa do ano.
-Fogo… obrigada Eiji!
-E esta é a minha! – Disse Setsu, estendendo vários bilhetes verde alface. – Para me convidares a mim, à tua irmã e algumas amigas. Para além do Eiji, claro.
-Com mil raios! Tu sabias que eu queria dar este presente ao Kenji. Imitaste-me, bronco!
-Eiji!
-Desculpe pai, mas tenho razão. – Murmurou o loiro.
-Por acaso já tinha esta prenda pronta. E também tive a ideia dos bilhetes VIP, mas não consegui arranjar vários e era mau, nós irmos e os outros ficarem em baixo. Mas faz sentido ele e a namorada querem ter um “tempo a sós”.
Os três rapazes riram-se entre si.
-Obrigada aos dois. Hoje tive as melhores prendas de todas. – Excepto uma, sussurrou a Voz. Desta vez, Kenji não a afastou. Perguntou-se do que seria. Tu sabes muito bem o que é, apenas continuas a negá-lo. Mas a negar o quê?
-Meninos, para a mesa! – Anunciou Kim, que carregava uma enorme travessa cheia de frango, junto da governanta que trazia batatas e saladas frescas.
Todos sentaram-se à mesa e desfrutaram de um bom Natal. No final da refeição, todos trocaram presentes e Kenji não pôde deixar de admirar a família Yamamoto. Unida, amada. Takeshi, Kim, Setsu, Takeo…
Eiji…
De todos, era o mais diferente de todos. Era o único loiro e, apesar de ter os olhos do pai, as suas feições eram muito distintas daquela família. Era o único que tinha semelhanças com Yvonne, primeira esposa de Takeshi e mãe de Setsu e Eiji.
Mas, naquele momento, Eiji estava junto dos irmãos e dos pais – porque ele considerava Kim como a sua verdadeira mãe – e ria-se como ele nunca tinha visto naquelas férias.

Pouco a pouco, o tempo passou e todos dirigiram-se para as suas camas. Kenji sonhou com a irmã sentada no alpendre de uma casa à beira mar, com roupas azul-claras e um leve tom bronzeado a colorir a sua pele. Tentou falar com ela, mas a voz que lhe respondeu não era a de Linda, mas sim a da Voz:
-Se fosse a ti, tinha cuidado! – Linda aproximou-se dele, caminhando sobre o chão de madeira lentamente – o tempo está a escassear.
-A escassear? – Ouviu-se a dizer. – Como assim?
-Tem cuidado! Ou perderás… tudo…

O sonho terminou tão depressa como acabou e Kenji estava depressa no meio de outro sonho, onde carros de Rali e flores amarelas reinavam o cenário. Mas o primeiro sonho não foi esquecido, nem por ele, nem pela rapariga que dormia na casa das Nakamura que, pela segunda vez, entrara no sonho de uma pessoa. Desta vez não gritou. Limitou-se a observar um ponto claro no tecto, sem se mexer. Várias perguntas surgiam na cabeça dessa rapariga, mas nenhuma resposta surgia.
Demorou uma hora até voltar a adormecer. As palavras que vieram do seu corpo, mas que não eram dela, ecoavam na sua cabeça, impedindo-a de cair no sono.
Se fosse a ti, tinha cuidado!
O tempo está a escassear.
Tem cuidado! Ou perderás… tudo…
Mas… tudo o quê?

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[2]: Quanto a vocês não sei, mas os meus manuais de matemática A são gigantescos. O peso que aquilo faz na mochila…
[3]: Do género wtf? ou gotas!S

[4]: Ok, eu acredito que deva haver duzentos hotéis com este nome, alguns em Portugal. Mas não tinha ideias nenhumas para um nome melhor, e como estou com a Net limitada, não posso fazer pesquisa acerca dos hotéis em Tokyo.

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E pronto, com isto temos um novo capítulo. Devo dizer que fiquei um pouco parva com isto tudo, pois aconteceu muita coisa só nestes dois capítulos. Ou seja, estou a avançar a historia um pouco à pressa. É verdade, mas tenho bons motivos. A fanfic já tem quase dois anos (ou três.. não me lembro) e nunca mais acabo isto. Ainda há muita cena para tratar, não podia perder tempo com palha.
Espero por comentário porque se domingo chgar aqui e não vir nada, não há capítulo para ninguém Razz


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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por lulumoon em Sab 02 Out 2010, 07:12

Ana, antes de mais, tens de alterar a data de actualização da fic, porque senão as pessoas não sabem que já postaste! Eu por acaso entrei na fic, senão nem desconfiava!

Agora, indo ao que interessa, este capitulo foi soberbo!
Sim, ok, andas depressa, mas eu não me importo, porque as descrições estão lá e a magia também! Este capitulo foi completamente esclarecedor, não só pelo facto de teres mostrado o que realmente aconteceu com o Kenji e com os pais, mas tambem pelo novo "dom" da Linda, em entrar nos sonhos das pessoas. O nome da fic ganhou muito mais mais sentido!
Amei simplesmente a intervenção dos nossos queridos Mamoru e Usagi! Estava com muitas saudades daquele jeito inteligente e calmo do Mamoru! E estou tããooo feliz pelas pazes dos maninhos! ^^ Hehehe!
Vê lá se juntas o Kenji e a Mari, é que esses sonhos e aquela ideia idiota de o Kenji arranjar uma "Substituta" para a rapariga são deprimentes! ' Mim querer vê-los, juntos, especialmente depois do abraço tão fofinho que eles deram! Smile
Agora pode-se dizer que a Linda e a Mari vão ser umas cunhadas muito chegadas! Até que enfim que se entenderam, a Linda estava a precisar disso, pode ser que agora seja tudo mais fácil de lidar! ^^
Fiquei também empolgada com a historia da Mari, e surpreendi-me com o facto de a Aiko saber tudo desde o inicio!
Por ultimo, e não menos importante, o Eiji! Amei todo o mistério que envolveu o presente que ele deu á Linda! "Tinhas razão" diz tudo, e soa tão bem! Realmente não eram precisas mais palavras!
Estou ansiosa pelo ano novo, até porque as descrições do Natal foram deliciosas!
Fico á espera de mais! Bjokas

PS: O tempo está a esgotar-se?! Estou a ficar preocupada! Matreiro

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por Bun em Sab 02 Out 2010, 08:11

Olá!

Bem faço minhas as palavras da Lulumoon. Ela disse tudo!
Está fantástico!

Gostei imenso da forma como a Usagi e o Mamoru os conseguiram reconciliar. Mas afinal que escondem eles da Linda? Até o irmão sabe de tudo mas não pode dizer...

Foi óptimo a Linda e a Mari finalmente terem feito as pazes, ficou muito divertida a conversa entre elas e a Cecy, lool.

Aquele sonho que a Linda teve foi com o irmão e Mari certo? Bem que constrangedor,loool!

Este novo poder da Linda é muito interessante. Que uso ela lhe irá dar, hum....

Mas o que continuo a achar muito misterioso é aquela voz na cabeça do Kenji. Então afinal aquilo já vem desde pequeno. Mas que voz é aquela? Quem é?

E não me importo nada que avances rápido. Este capítulo já esclareceu muita coisa.

O tempo está a esgotar-se, vão perder tudo...porquê? Está a acabar o tempo para quê?

Espero pelo próximo!

Bjo*

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Ter 05 Out 2010, 11:41

Olá! sorry pelo atraso, mas tive alguns problemas que me atrasaram na escrita que estava quase pronta

Lulumoon: Muito obrigada. Ya, o dom da Linda é para isso mesmo, para a ligar mais ao seu papel de Guardiã. Os poderes das outras também o fazem, mas só no próximo capítulo irei explicar como. Eu queria tanto ^pôr o Mamoru nesta fanfic e finalmente encontrei um bom sitio. A principio era para eles se encontrarem 'casualmente', com os maninhos já reconciliados, mas mudei de ideias. Smile

Bun: Muitissimo obrigada pelo comentário Bun. Tipo, o que escondem da Linda é a chave de muitas coisas aqui na fanfic. Pelas minhas contas ainda faltam dois capítulos (sem contar com este) para se ficar a descobrir do que se trata. Estou aqui a pôr muito drama mas no final ainda vão achar que não se trata de nada de mais.
Ahaha... vocês vao-se aperceber de quem é a Voz uns capítulos mais para a frente.
Tecnicamente, faz parte do Kenji. Não é um ser à parte. As diferenças são que a Voz não ignora nada na vida de Kenji. Ódio, amor, culpa, compreensão, esperança, inteligencia. É mais facil imaginarem um Kenji que esconde sentimentos e outro que os mostra Razz

Acerca do 'tempo está a esgotar-se'. Sorry, mas tem a ver com o segredo acerca da Linda, nada mais posso dizer...

Deixemos de paleio, posto agora o novo capítulo. Espero que gostem Smile

--------------------------

23. Vida Nova

Dias passaram-se e a neve nas ruas começava a derreter, apesar do frio e do tempo nublado. Alguns jovens eram vistos nas ruas, passeando com amigos ou namorados. No meio dessas pessoas, podiam-se ver três jovens homens e, noutro grupo separado, três jovens raparigas.
Mari, Cecília e Linda tinham iniciado uma nova amizade tão forte quanto a de três irmãs. A única resposta que tinham para isso era a ligação que elas tinham: eram as três navegantes, para além de serem muito semelhantes.
Cecília explicou tudo o que sabia a Linda. Contara-lhe que Dawson, uma amiga de Small Lady e de Misaki, era a pessoa por detrás de todos os esquemas e que percebera isso pelas atitudes dela ao seu lado e pela sua aura extremamente negra. A isso, Linda ergueu o sobrolho. Não por causa de Dawson, aliás, sempre a considerara a pior de todas as amigas da mãe. Misaki e Hotaru eram compreensíveis e nada cruéis, Yvonne era fácil de ignorar, mas Dawson não. Linda lembrava-se de uma vez ela ter falado mal de si à sua mãe e esta, cega de raiva, batera em Linda pela primeira e única vez. Doera bastante, não pelo estalo, mas pela reacção da mãe em si.
Outra coisa que a incomodava em Dawson – e esse sentimento era mútuo entre Linda e Cecília – era o facto de Dawson caminhar pelo palácio como se este fosse seu. Mandava nos criados como se ela é que fosse a Rainha e, acima de tudo (Esta parte Linda não a dissera em voz alta. Tinha acabado de se lembrar e não queria contar ás suas novas amigas) Dawson sempre olhara para Kenji e Edward de um modo estranho. Como um caçador a olhar para a sua presa.
Não. O que espantava Linda era o dom de Cecília em entender as almas à sua volta. Já tinha esse dom desde pequenina, mas ele aumentara a partir do momento em que se tornara navegante. Fora assim que percebera que Linda era de confiança.
Isso fazia Linda reflectir. Mari conseguia ter premonições dos acontecimentos à sua volta, Cecília conseguia ler as almas e ela… entrava nos sonhos das pessoas? Mas que lógica era aquela?
Cecília sabia também que Dawson tinha conhecimento da sua identidade como navegante, assim como a da Mari, pois fora ela que dera a pulseira e os brincos às duas. Elas tinham conseguido encontrar a Flor de Júpiter, mas foi no encontro com o homem que Cecília percebera de uma coisa:
-Nesse dia, pedi à Mari para chegar cedo porque queria contar-lhe as minhas suspeitas – Cecília olhou para a loira de lado – mas como já sabes, ela chegou atrasada.
Mari soltou um longo suspiro, virando-se para Linda.
-A Cecília tem um grande problema com a tecnologia. Custa-lhe muito falar destas coisas ao telemóvel.
-Não tenho nada! – Retorquiu a morena, firmemente – Apenas acho que assuntos deste tamanho devam ser discutidos pessoalmente. Mas telemóvel?
-Adiante
-O que estava a dizer? Ah, eu acho que a Dawson queria que nós nos tornássemos navegantes para assim ter mais gente à procura das Flores. Mal descobrimos uma, ela está lá no dia seguinte?.. muito suspeito!
-Sim, mas eu não acho que isso seja a verdadeira razão. Nós só despertamos os nossos poderes a sério com a Linda ao nosso lado. Supostamente ela devia saber disso, pois deu-nos os ‘objectos’ – contra-argumentou Mari – Com a Linda foi fácil descobrir a Flor de Mercúrio e também tivemos mais facilidade em encontrar a de Júpiter quando nós estávamos noutro sitio.
-Bem, pelo menos eu. Tu estavas atrás da Linda. Mas a Dawson, ou não sabe da Linda ou não a quer transformada. Tipo, ela cresceu rodeada de navegantes, sabe muito mais do que nós (- Cecília…; – Desculpa, Linda, mas eu concordo com a Cecília…). Tem espírito de líder. A Dawson apenas nos queria para achar as Flores, não derrotá-la!
-Ainda assim, não acredito muito nessa história da Dawson saber da Linda.
-Estou-te a dizer que sabe.
-Como queiras…

Linda facilmente percebeu que Cecília ganhava todas as conversas, não porque era a que tinha mais argumentos, mas porque Mari desistia depressa. Mari detestava discordar com Cecília e, quando isso acontecia, tinha sempre o máximo de cuidado com as palavras, de modo a não a ofender. Linda ficou boquiaberta com as acções de Mari perto da amiga. Não havia desconfiança, nem arrogância. No máximo, um pouco de temperamento mas sempre que isso acontecia, Cecília acalmava a loira com uma rapidez que espantou a morena.
Aos olhos de Linda, Cecília não mudara nada, ao contrário de Mari. Continuava a ser a rapariga calma, firme, confiante e inteligente que Linda conhecera nos primeiros dias de escola. Tudo em Cecília indicava equilíbrio, auto-suficiência, confiança, auto-estima e… artes.
-Tens cara de artista, sabias? – Dissera Linda uma vez, por conversa de circunstância. Mari semicerrou os olhos. Cecília manteve a sua expressão do rosto inalterada.
-Ai tenho?
-Hum hum… Tocas algum instrumento?
Cecília abriu a boca, mas Mari cortou o seu discurso:
-Sim. Toca piano e violino. É uma excelente cantora, como é calma, mente facilmente, tem um grande jeito para desenho e já sabes como ela é na dança…
-Mari!
-O que foi? Só digo a verdade. Eu já te tinha dito que devias ser artista.
-E isso levava-me longe? Olha que não me parece.
-E vais seguir outra área só por isso? – Perguntou Linda, calmamente. – Tens medo de arriscar?
-Não… quero dizer… - Cecília reflectiu por uns momentos, estes seguidos por silêncio entre as três. – Acho que tenho. E se eu falhar? E se não for boa o suficiente?
-Acho que os vários professores de artes que já tiveste discordam com cada dúvida que tenhas, Cecília. – Argumentou Mari, conseguindo um sorriso da morena em troca. Retribuindo o gesto, virou-se para Linda – e tu, que planeias fazer?
Linda podia jurar que elas estavam à espera que ela dissesse: Ser Rainha, mas agradeceu nenhum sinal evidente.
-Não sei ainda. Há pouco tempo que estou aqui.
-Mas… - Cecília baixou o tom de voz - ... tu nunca sonhaste com o teu futuro?
-Não. – Abanou a cabeça. – Sou uma rapariga que se preocupa com o presente e apenas o presente. Foi sempre adiando essa questão mas agora… vem que me dava jeito ter uma pequena ideia.
-O que gostas de fazer?
Linda não demorou a responder:
-Tudo.
Soltou uma gargalhada ao ver as caras das outras duas.
-Estou a gozar. Ainda não sei bem.
-És boa em tudo, lá isso é verdade. – Disse Mari. – Mas tens que gostar de alguma coisa em que sejas boa…
Linda pensou um pouco. No final, viu uma pequena luz no túnel.
-Moléculas!
-Ah?! – Exclamaram as duas ao mesmo tempo.
-Moléculas, DNA, átomos, compostos químicos, células, núcleo, membranas…
-Bioquímica?
-Sim! – Disse ela, entusiasmada.
-é a coisa mais chata à face da Terra. – Comentou Mari, num tom aborrecido.
-Eu gosto.
-Como? – Perguntou Cecília, curiosa.
-A Ami ensinou-me alguns conceitos, depois aprendi o resto na escola e… eu adoro trabalhar num laboratório, adoro saber como funcionam as células, adoro química… é juntar o útil ao agradável.
-E tens notas para isso. – Murmurou a loira. – De certeza que vais conseguir.
-Olha, e tu? O que queres fazer no futuro? – Perguntou Linda.
Mari nem sequer pensou.
-Não sei bem ainda, mas sei a área. Relações Públicas.

Se Mari tivesse dito aquilo a Linda umas semanas antes, ela acharia a loira completamente louca, mas agora a coisa era diferente. Agora Linda sabia como Mari era com pessoas que confiava e, tinha que admitir, Mari tinha muito mais jeito para falar com as pessoas do que ela e Cecília. Porque outro motivo Linda tivera toda a turma contra ela no inicio do ano? Apenas nunca reparara nisso, porque Mari nunca gostara dela, acabando por deixar o seu temperamento levar a melhor e porque Mari nunca usava os seus “dotes” com a avó. Ou talvez usasse. Talvez não responder às provocações da avó e não lhe dar falinhas mansas fosse a forma dela de tratar a avó. Era esperto e explicava o motivo porque Aiko dissera que Mari tinha bom coração. Ela nunca mente. Nunca manipula.
-Acho que ficarias muito bem nessa área. É perfeita para ti.
Mari sorriu.
-Obrigada.

Elas tinham sempre algo para falar e várias vezes Cecília jantava na casa das Nakamura, para espanto de Aiko que ainda não se acostumara às boas atitudes de Linda e Mari entre si. Com o tempo, passaram a conhecerem-se umas às outras e não havia um único segredo uma da outra que elas não soubessem. Ou melhor, quase nenhum…
Linda voltara a visitar o irmão, conversando com ele normalmente e várias vezes levava as meninas consigo. Cecília e Kenji arranjavam excelentes tópicos de conversa e Setsu, Linda, Mari e Eiji eram excelentes a prolongá-la. Os seis conseguiam então passar um excelente serão todos juntos.
Apenas três coisas continuavam diferentes. Kenji tinha uma namorada que nunca trouxera aos serões, mas que estava sempre a ligar-lhe, pedindo sempre para falar com Linda. E todos notavam em como Kenji despachava a conversa mais depressa que o Speedy Gonzalez [5].
Por outro lado, Mari e Kenji quase nunca falavam um com o outro, acabando mesmo por fingirem que o outro não estava na sala. Mas, por várias vezes, Linda apanhou Kenji a mirar Mari atentamente, sempre que esta ria mais alto ou passava a mão pelo cabelo. Ela e Cecília já tinham as suas suspeitas, mas a cada dia que passava estas aumentavam.
De resto, Linda tomara as palavras de Eiji a sério. Ele queria afastar-se e agora ela afastava-se. Falavam normalmente, ela chegara a agradecer pelo colar e discutiam determinados assuntos como nos tempos em que eram apenas amigos. Mas sempre que Eiji tentava desviar o assunto ou falar sozinho com Linda, esta esquivava-se e ou simplesmente ignorava-o.
Era difícil, mas Linda tentava não pensar nisso. Ela, como qualquer outra rapariga, tinha medo de sofrer às custas de um rapaz e Eiji parecia o tipo ideal de rapaz quebra-corações. Aliás, ele já partira o coração dela, quando se afastara ao saber do seu segredo. Mas Linda conseguira colar os pedaços e tentava agora não os desfazer de novo. Para isso, tinha que ter um tempo, tal como ele pedira.

Dois dias antes do ano novo, Setsu mencionou a festa de fim de ano no hotel e convidou as três raparigas para irem com eles. Elas aceitaram e estavam prestes a irem-se embora, quando Kenji voltou, vindo do quarto.
-Não te importas de amanhã vires cá ter com a Angelique? – Perguntou, dirigindo-se para a irmã.
-Porquê? – Perguntou Linda, ignorando os olhares de riso de Setsu e Eiji.
-Ela quer conhecer-te e assim iam as duas comprar vestidos para a festa. Oh, Setsu, disseste às miúdas que era uma festa de máscaras?
O moreno bateu com a palma da mão na testa.
-Bem me parecia que me tinha esquecido de alguma coisa. Pois bem, tragam máscaras meninas para taparem os rostos. Mas… tragam algo curto. Olhem que temos que poupar tecido.
Mari e Linda riram-se. Cecília ergueu o sobrolho:
-Obrigada pelo conselho. – Disse ela, ríspida, saindo pela porta, seguida por Mari. Linda conseguiu ouvir a morena murmurar algo semelhante a “idiota”.
-Vens cá amanhã ou não?
-Venho! – Assegurou Linda, apesar de não ter um bom pressentimento acerca do encontro com a namorada do irmão. E o facto de Eiji e Setsu estarem a controlar o riso não ajudava em nada.
-O que foi? – Murmurou ela, quando o irmão estava fora de vista. – Ela é assim tão má?
-Vais ver… - sussurrou Eiji, por entre gargalhadas silenciosas.
Linda foi-se embora, perguntando-se qual seria o mal de Angelique.

**

No dia seguinte, percebeu.
-Olá Linda. Prazer em conhecer-te! – E foi abraçada fortemente pela namorada do irmão, com toda a simpatia que esta podia oferecer. Linda quase que podia jurar que algumas das suas costelas tinham-se fracturado com a força de Angelique.
Esta era filha de mãe francesa e pai japonês e o primeiro nome era a única ligação que tinha à França, sendo o resto, aparência, língua, cultura e maneiras, todas vindas do Japão. Até o perfume que ela usava era japonês. (Há mesmo um perfume japonês, perguntou Linda para os seus botões). Estudava enfermagem e fora a partir de conhecidos que conhecera Kenji. O namoro durava umas semanas, mas ela já achava que iria durar para sempre. Tinha o sonho de ser Miss Japão, mas tinha como prioridade tirar o curso de enfermagem. Só depois é que se iria concentrar numa rotina diária de proteínas e hidratos de carbono e muito exercício a fim de conquistar o tão desejado corpo de modelo que ela perdera durante a faculdade.
Adorava sorrir, ver rapazes a jogar futebol e falar com as amigas o máximo que o seu saldo de telemóvel permitisse.
Linda descobrira isso tudo sobre Angelique em menos de cinco minutos, onde todo esse tempo Angelique apenas falara de si e de como elas haveriam de ser grandes amigas, o que Linda duvidava.
Alias, Linda perguntava-se o que é que teria feito Kenji juntar-se a esta rapariga, visto serem tão incompatíveis.
O aspecto…
Assim que vira Angelique, não conseguiu evitar abrir a boca num perfeito ‘oh’ que apenas fizera com que Eiji e Setsu se rissem atrás da namorada do irmão. Linda sabia agora porque é que eles achavam tanta piada a Angelique e tinham ansiado tanto para que Linda a conhecesse.

Não era porque Angelique fosse feia – pelo contrário, era lindíssima – mas ela era estranhamente parecida com Mari. Não apenas os cabelos dourados e os olhos verdes, mas também algumas feições. Linda quase que julgava que era Mari que estava à frente dela, até que Angelique falou numa voz mais aguda que Mari e abraçara-a, acordando-a para a realidade.
Angelique fora ao quarto do irmão e foi aí que os irmãos Yamamoto explodiram, soltando altas gargalhadas à cara de parva de Linda:
-Como é que…
-Já telefonamos à Aiko…. Ela disse que pode ser uma prima… O marido dela cortara relações com os irmãos e… sabes que a Mari é parecida com a mãe que, por sua vez… era parecia com o pai. – Respondera Eiji, entre gargalhadas.
-Com mil raios…
-Também pensamos nisso… quando ele nos apresentou-a. – Disse Setsu, tentando recuperar o fôlego de tanto rir.
-Será que ele começou a namorar com ela por causa…
-Não sei, mas é bem capaz. É que ele não suporta as conversas com a Angel (ela prefere que a tratemos assim). Ou ignora-a ou beija-a para ela se calar.
-Mas que… - Linda não pôde terminar a frase, pois Angel voltara, arrastando o irmão pelo braço. Este parecia extremamente aliviado por ver Linda.
-Obrigada por teres vindo. A Angel queria tanto conhecer-te…
-Não tens de quê! – Sorriu, mas lançou um olhar ao irmão que indicava claramente “Deves-me uma!”. Kenji sorriu.
-Muito bem, divirtam-se. – Beijou Angel rapidamente e regressou para o quarto.
-Oh, como ele é tão estudioso! Está sempre tão preocupado com os exames…
Linda ergueu o sobrolho e teve a confirmação das suas suspeitas ao olhar para Setsu, que lhe sorria em retorno. Os exames eram apenas em meses… Sendo Angel uma universitária, não devia ela saber disso?
-Pois… mas sabes como é o curso de medicina… exigente. – Respondeu Setsu, como se tivesse lido a mente de Linda.
Ah, então era essa a desculpa dele.
Angel palrou o caminho todo em direcção ao shopping, dentro do carro dela. Temendo perder a paciência e a boa educação antes de lá chegarem, pegou no telemóvel e marcou o número de Cecília. Se ia ter que aturar uma loira fala-barata, sósia de Mari e ainda fazer compras com ela, não o iria fazer sozinha…

**
-Com mil raios…
-Foi essa a minha reacção – sussurrou Linda ao ouvido da morena. Estavam na loja de vestidos no andar inferior, onde todos os vestidos estavam organizados por cores. Angel fora falar com a funcionara, afirmando ter um vestido reservado e Cecília aproveitara essa altura para dizer em voz alta os pensamentos que ecoavam na cabeça.
-A Mari sabe que…
-Não! E também não a ia convidar sabendo que a namorada do meu irmão é uma cópia dela.
-Achas que isso significa…
-Não acho, tenho a certeza. É que ele nem consegue ouvi-la falar.
-Isso são boas noti… - mas Cecília teve o seu discurso, mais uma vez interrompido, pois Angel aparecera, com um enorme sorriso nos lábios:
-Então, já escolheram os vestidos? A ti – apontou para Cecília – como tens um tom de pele mais escuro que o meu e o da Linda, aconselho-te um vestido de cor escura ou forte. Ou ambos. Mas nunca amarelo ou dourado ou verde ou…
-Eu entendi… - respondeu Cecília, com um sorriso amarelo. Começou a mexer nos vestidos, em busca de algo inconcreto. Linda seguiu-a, evitando Angel, que fora para outra secção. – Que chata!
-Concordo contigo.
Cecília parou de repente.
-O que foi?
-Eu tenho este vestido em casa – disse. Segurava a bainha de um vestido vermelho vivo que iria levemente até abaixo do joelho. Tinha um corte rectangular e as alças eram grossas, semelhantes a pequenos pedaços de pano colados ao tecido. Era um vestido simples, mas bonito. Linda imaginava que ficaria perfeito no corpo elegante de Cecília.
-Aí tens? Porque não o usas. De certeza que te iria ficar bem…
Cecília lambeu os lábios secos.
-A minha mãe costuma dar-me vestidos destes. Acredita, tenho quase toda a loja no armário. Eu adoro vestidos, mas nunca uso porque…
-Era o mesmo que afirmares à tua mãe que gostas daquele mundo – completou Linda, compreensiva. – Eu também sei o que isso é. A diferença é que nunca gostei dos vestidos que os meus pais me davam. Cheios de rendas e cores ridículas, como o rosa. Eu detesto rosa!
-Também eu.
-Oh, meninas. Vejam este vestido cor-de-rosa! – Gritou Angel, segurando um vestido curtíssimo de um rosa choque muito vivo. Cecília e Linda entreolharam-se, abafando o riso.
-É lindo Angel!
-Oh, como eu adoro cor-de-rosa! – Respondeu Linda num tom 100% sarcástico, enrolando os olhos. Angel não o decifrou.
-Oh, desculpe – chamou a empregada – onde está o meu vestido?
-Está a caminho, menina, espere só um momento.
Linda suspirou pesadamente.
-Nunca mais saímos daqui…
-Vá lá, aguenta! Ainda falta o teu vestido – encorajou Cecília, procurando mais escolhas.
-Já decidiste o teu?
-Levo o vermelho. Não me apetece procurar mais. Agora… - deitou um olhar a Linda, como que examinando-a a raio X – quando olho para ti só penso numa cor… azul.
-Que tipo de azul?
-Hum... ainda não sei… - Cecília dirigiu-se à secção de vestidos azuis, onde vasculhou a pente fino cada amostra de tecido. A certa altura parou, sorrido vitoriosamente:
-Olha este! – Tirou a cruzeta e mostrou a Linda.
Era de um azul claro, como céu num dia límpido sem nuvens. Era feito de seda pura e descia desde até aos tornozelos. A parte de cima era uma mistura de corpete com trajes medievais, com um corte em V que se alastrava até aos ombros, para os deixar semi-nus. [6] Não tinha mangas, apesar de Linda imaginar o vestido com umas. O corte da saia tinha grandes ondulações que sem dúvida dariam à rapariga que o vestisse uma silhueta invejável.
-Perfeito para ti! – Disse Cecília, sem tirar os olhos do vestido.
-E muito caro! – Retorquiu Linda, examinando o preço. – Custa uma fortuna.
-Eu tenho-o no meu armário. E como nós vestimos o mesmo, não precisas de fazer compras.
Linda não conseguiu deixar de sorrir. Ela queria mesmo usar aquele vestido.
-A sério? O mesmo modelo?
-Sim, exactamente igual. Por acaso eu andava à procura de um melhor, mas encontrei este e penso que te assenta como uma luva. Queres experimentar?
-Agora não… não quero perder mais tempo aqui. – Linda pegou no vestido e guardou-o no sítio. Procurou Angel com os olhos e viu-a com a empregada, assinando uns papéis.
-Por acaso sabes porque é que ela reservou o vestido? – Perguntou Cecília, que dava uma olhadela nos vestidos na secção dos laranjas e dourados.
Linda semicerrou os olhos.
-Ela diz “reservar”, mas é mais “consertar”. Não gostou de um determinado corte no vestido. Prefere ter as costas nuas do que ter fios lá espalhados. Mandou retirá-los, mas parece que hoje em dia, uma pequena alteração num vestido dá muito trabalho.
-Olha este vestido! – Exclamou Cecília, maravilhada.
-Também o tens no armário?
-Tenho… e a Mari adora-o. Claro que ela não o admite, mas eu sei que sim. Fica-lhe mesmo bem.
Linda olhou para o vestido nas mãos de Cecília. Era de facto muito bonito. Talvez ainda mais do que o de Linda. Era de seda laranja com alças finas e fios pelas costas. O decote era discreto, mas era bom o bastante para um peito menos ‘chamativo’ como o de Mari. O vestido era curvilíneo nas ancas, a fim de ‘colar’ as curvas da rapariga ao vestido. Depois, descia num molhe de tecido até aos tornozelos. Pequenas dobras na zona frontal facilitavam os movimentos e até davam um ar sensual para quem usasse sapatos de salto-alto.
-A Mari tem que o vestir!
-Pois tem! – Concordou Cecília, sorrindo de orelha e orelha. – Vou emprestar-lhe. De certeza que ela ainda não arranjou roupa. E contigo ao meu lado, de certeza que ela não vai nos deixar mal.
-Espero bem que não.
O bom ambiente das raparigas foi interrompido por Angel, que trazia o vestido numa caixa nos seus braços.
-Vamos meninas, já estou pronta! Arranjaram os vossos vestidos?
-Não é preciso – respondeu Linda, cordialmente – Nós já os temos em casa.
-Ainda vem – Angel notou no vestido laranja nas mãos de Cecília e sorriu – Gostam? É o meu vestido! Não gostei dos fios atrás e mandei tira-los. Ficou uma beleza, querem ver?
-Não. – Responderam as duas ao mesmo tempo.
-Menina! – Chamou a empregada do balcão – Esqueceu-se de assinar aqui!
-Oh, pelos deuses… nunca mais faço encomendas aqui. Tanta papelada! – Prometeu Angel, enquanto virava costas às jovens e dirigia-se à empregada.
O sorriso de Cecília desapareceu e pousou o vestido tristemente.
-Bem... parece que a Mari já não pode usar o vestido.
Linda não respondeu logo. Na sua cabeça, fervilhava uma ideia.
-Ou talvez possa. – Sussurrou, com um sorriso malicioso.
Cecília entendeu o plano dela e retribuiu o sorriso.

As duas trataram dos detalhes do seu plano, enquanto Angel despachava-se nas outras compras. Fizeram questão de estar com Angel quando esta comprara uma máscara laranja a combinar com o vestido. Linda distraiu a namorada de Kenji, enquanto Cecília pediu silêncio ao homem da caixa, enquanto pagava uma mascara igual.
Deram conselhos a Angel para não comprar jóias vistosas, mas coisas simples, para que não chamasse mais a atenção do que o vestido (ou que não fossem notadas pelo namorado em plena festa nocturna).
No final, Linda e Cecília voltaram para casa com um enorme sorriso nos lábios. Cecília foi ao seu armário e separou os vestidos vermelho, azul e laranja para levar, assim como a sua máscara e a de Mari. Pegou nalgumas jóias (provavelmente teria que torturar Mari para que esta usasse alguma) e em maquilhagem, pois sabia que nem Linda nem Mari usavam. Depois de tudo preparado, tomou banho e deitou-se, adormecendo em seguida.

Já Linda foi bombardeada de perguntas por Aiko, que queria saber como era a namorada de Kenji. Ela respondeu, mas fazendo questão que fosse na cozinha, longe de Mari. Linda sabia que a loira sentir-se-ia torturada se tivesse que ouvir acerca de uma rapariga que namorava com o rapaz que ela gostava.
Aiko perguntou se ela era tão parecida com Mari quantos os rapazes sugeriram. Linda sorriu:
-É, mas eu acho a Mari e a Julianna mais bonitas – disse, sem se aperceber do que dissera. – Desculpa Aiko.
-Porquê? Tu não insultaste a minha filha. Elogiaste-a até! – Aiko pegou nas mãos de Linda, apertando-as – Ainda dói, mas já não tanto. A Mari cresce todos os dias mais parecida com ela e… penso que nunca a perdi. – Uma lágrima saia pelo canto do olho – A Mari é tudo para mim. Eu só quero que ela seja feliz. Achas que o Kenji é capaz de lhe fazer isso?
Linda ficou sem palavras.
-Não sei… eu acho que eles gostam um do outro…
Aiko riu-se.
-É isso que achas? Se prestasses mais atenção, verias neles umas semelhanças com um casal que conheces. Foi isso que eu estive a falar com a tua avó quando ela veio cá.
Linda não perguntou quem. Ela já sabia. Mas não conseguia encontrar as tão fáceis semelhanças entre Kenji e Mari e Usagi e Mamoru.

Naquela noite, voltara a acontecer. Desta vez, apareceu uma menina de cabelos castanhos e olhos da mesma cor a brincar no baloiço. Um homem empurrava-a e a menina gritava de alegria sempre que chegava ao ponto mais alto.
-Mais alto papá! Mais alto! – Gritava a menina. O homem sorriu e deu um empurrão mais forte, fazendo a menina elevar-se um pouco mais alto. Esta gritou de alegria.
À sua volta não havia mais ninguém no parque. Ninguém com excepção de uma mulher, tão bela quanto a rapariga e que sorria para o esposo, enquanto este empurrava a filha mais alto.
A mulher aproximou-se e o marido beijou a testa dela e abraçou-a, enquanto a pequenina elevava-se sozinha no ar, tendo apanhado o jeito.
A imagem da família feliz foi então distorcida e de repente nuvens azuis escuras, púrpuras e negras tiraram a cor ao cenário e afastaram os três elementos da família. O homem perdeu-se num buraco negro, e mulher ficou próxima da filha, mas não o suficiente para a alcançar. A pequenina estava agora sentada no baloiço a chorar, com a mãe longe e o pai morto. Estava sozinha.
A imagem da menina alterou-se e ela começou a mudar para uma adolescente tão bela quanto a mãe, mas com um semblante muito triste e diferente do de outrora.
Linda contraiu os músculos do cérebro e saiu do sonho. Agora pairava sobre o quarto de Cecília e ela pôde ver, com pesar, que uma lágrima caía pelo rosto da amiga.
Tentou regressar à sua mente, desejosa de ter aquela noite por terminado, fazendo inúmeros esforços.
Ao fim de alguns minutos, conseguiu. Desta vez, não chegou sequer a abrir os olhos. Apenas fez algo que ela nunca fizera na vida: rezou.
Rezou para que aquele dom que tinha parasse e que ela não tivesse que entrar nos sonhos das pessoas e muito menos nos seus pesadelos. Rezou para que ela, para além de ter as suas desgraças, não tivesse que ver as desgraças dos outros, principalmente as dos seus amigos. E finalmente, rezou para que todos eles encontrassem paz interior. Se tal acontecesse, ela deixaria de entrar nos sonhos deles. Linda percebera isso agora mesmo com Cecília.

Mari sentia-se atraída por um homem que julgava impossível de ter, mas por quem ela se deixava perder… tal como a mãe.
Kenji temia por algo. Algo que tinha a ver com ela, a pessoa que ele mais amava no mundo.
Cecília… tinha saudades dos pais. Pelo menos da alegria da mãe, da sua verdadeira presença.
As lutas constantes das almas deles atordoavam Linda, que precisou de toda a sua força para conseguir dormir, tal era a sua vontade de chorar.

Lá fora, a lua estava escondida por detrás de nuvens negras. Não era um presságio para maus acontecimentos, mas também não era presságio para bons.

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[1]: Eu acredito que vocês devam saber quem é o Speedy, mas para quem não sabe, o Speedy Gonzalez é um ratinho mexicano super rápido, protagonista de desenhos animados como os Looney Tunes.
[2]: Hum... para terem uma ideia melhor de como é o vestido, vejam o vestido azul da Aurora d’A Bela Adormecida. Não é exactamente igual, mas o estilo da parte de cima é semelhante.


Última edição por AnA_Sant0s em Ter 05 Out 2010, 11:50, editado 1 vez(es)

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Ter 05 Out 2010, 11:41

**

-Acham mesmo que isto me vai ficar bem? – Perguntou Mari, ansiosa.
-Claro que vai. Tu própria adoraste o vestido quando o experimentaste.
-Não tenho a certeza…
-Acabemos com isto! – Linda pegou no vestido laranja e estendeu-o a Mari – Veste-o que só temos umas horas.
-E então? É tempo suficiente para eu me preparar para três festas.
Cecília enrolou os olhos.
-Se queres ficar perfeita, tens que fazer montes de coisas… e tudo calmamente.
Mari olhou para Linda, em busca de apoio. Esta sentiu-se entre a espada e a parede. Por um lado, ela entendia Cecília e o número de horas que uma rapariga demorava a preparar-se para estar bela. Mas também estava com Mari. Todo aquele tempo era desnecessário.
-Mari – disse por fim – Veste o vestido já. Não vamos discutir mais.
A bufar, Mari lá cedeu. As três jovens, que se encontravam no quarto de Mari, vestiram-se e pentearam-se rapidamente. Linda pegou no conjunto de acessórios que Minako lhe dera. Pegou num enfeite para o cabelo, que se assemelhava a uma estrela dourada.
-Toma – estendeu-o a Cecília, que já tinha o vestido colado ao corpo e se maquilhava ligeiramente. Esta aceitou e penteou o cabelo com o enfeite. Linda pegou numa pulseira dourada e deu-a a Mari, que a aceitou relutantemente. Para si, seleccionou um par de brincos cor de safira redondos.
Apesar de todo o discurso de uma rapariga precisar de muito tempo para se preparar, Cecília foi a primeira a acabar de se arranjar. Ao observar as outras, constatou que estas pareciam as mesmas… apenas mudava os vestidos.
-Vocês as duas cansam-me.
-Que queres? Estamos vestidas. – Mari pegou num elástico que estava na caixa de Linda, que fazia o mesmo.
-Oh Mari, é que tu nem penses em amarrar esse cabelo! E tu Linda, que estás a fazer?
-O meu cabelo é demasiado selvagem para estar solto.
-Esqueçam! Mari, vais de cabelo solto. Linda chega aqui que vou fazer aquilo que não acabei no torneio.
As duas não protestaram, temendo enfurecer Cecília. E enfurecer uma rapariga calma por natureza não era boa escolha.

Ao todo, demoraram três horas e meia e tanto Linda como Mari juraram nunca mais passar por experiencias daquelas.
Aiko estava na sala, com os jantares prontos.
-Vocês estão tão bonitas – disse para Cecília e Linda, que sorriram em retorno. – Parecem umas princesas.
O sorriso de Linda desapareceu. Aiko e Cecília riram-se. Só pararam quando Mari surgiu na sala.

Os cabelos loiros dela estavam soltos e iam até aos cotovelos, com leves ondulações perto das pontas. O vestido cor de laranja, tal como as morenas previram, ficava perfeito em Mari, realçando a sua silhueta e as suas curvas. Mari usava uma pequena corrente de ouro e a pulseira dourada que Linda lhe dera. Na sua orelha esquerda ostentavam dois brincos: um dourado, que condizia com o da outra orelha e um pequeno em forma de estrela. O objecto de transformação de Mari.
Mas a maior transformação era a própria rapariga. A única maquilhagem em si era um leve batom nos lábios e um pouco de pó de arroz nas bochechas. No meio de tanta beleza e sensualidade, o que mais se destacava em Mari eram os seus olhos verdes, que brilhavam como esmeraldas.
Aiko ficou estática a olhar para a neta. Tanto Linda como Cecília sabiam no que ela pensava. Naquele momento, Mari era mais parecida com Julianna do que alguma vez fora.
-Estou bem? – Perguntou, com os olhares fixos na avó, temendo a sua reacção. Aiko não respondeu. Em vez disso, lágrimas caíram pelo seu rosto, obrigando a mulher a limpá-las à manga. Não se conseguindo controlar, aproximou-se da neta e abraçou-a com força:
-Estás linda, minha Mari. Está linda.
Mari retribuiu o abraço à avó, com um sorriso que se estendia até à orelha.

As quatro sentaram-se para comer umas refeições leves calmamente, receando sujar os vestidos. Quando chegou a hora, saíram para a rua. Setsu devia estar em baixo com o seu novo carro.
Quando este viu as três, assobiou.
-Vocês estão lindas. Quero dizer… - virou-se para Linda – tu já és linda.
-ahaha, que graça.
-Ela hoje está cá com um humor… - comentou Cecília.
-Também estarias se estivesse quase uma hora a esticar a porcaria do cabelo e o resto do tempo a maquilhar-te e a vestir-te.
-Por acaso até estive. Pior, fui eu que te estiquei o cabelo, por isso não te queixes.
Linda bufou em resposta. As três entraram no carro até que Linda e Cecília repararam que Setsu tinha os olhos postos em Mari, chocado. Em pânico, Linda fez sinais a Setsu para ele se calar e este, confuso, sentou-se ao volante e levou-as sem palavras até ao hotel Millenium, situado a sul da torre de Tokyo.

**

Ele tinha que admitir que ela estava linda. O vestido cor de laranja assentava-lhe como uma luva. Mais um pouco e ele podia dizer que tinha o par mais atraente da festa.
Luzes azuis, vermelhas e verdes iluminavam a sala escura, situada no terceiro andar do hotel, ao som de músicas estilo house. Já várias pessoas se encontravam lá, a divertirem-se e a conversarem nos sofás cor de vinho tinto ou na pista de dança a abanar o esqueleto.
Kenji estava com Eiji junto a uns sofás quando Angelique chegara, reluzente como o pôr-do-sol. O cabelo estava solto e extremamente ondulado e trazia a sua máscara laranja com pequenas missangas brilhantes a tapar os olhos. Tudo o que ele podia ver eram os seus belos olhos verdes.
Angelique falou a maior parte do tempo em que os três ficaram nos sofás, até que o telemóvel de Eiji vibrou:
-Eles chegaram. – Levantou-se e dirigiu-se à entrada, seguido por Kenji e Angel. Pouco antes de lá chegar, reparou que, ao mesmo tempo que Setsu lhe dera um toque, mandara-lhe também uma SMS, que onde fazia um pedido um tanto estranho:

Distrai o Ken e a Angel. Não os deixes ver a Mari, nem ela a eles.

Estranho, pensou.
-Está tudo bem? – Perguntou Kenji, de braço dado à namorada.
-Está – respondeu o loiro, guardando o telemóvel. – Esperem aqui.
-Porquê? Eu quero ver como a minha irmã está!
-E vais ver… mas por enquanto… aproveita para estar com a tua namorada antes que a Linda vos interrompa – mentiu rapidamente, antes de fugir não dando tempo a Kenji de responder.
Na entrada, viu Cecília a fazer-lhe sinais. O seu vestido vermelho era curto e mostrava as suas belas pernas morenas, para além de lhe dar um toque clássico e muito elegante. O cabelo estava preso num alto na cabeça, que deixava cair algumas madeixas. Junto ao alto, ostentava um enfeite em forma de estrela cadente. Ao vê-lo, colocou a sua máscara vermelha a tapar os olhos e apontou para Mari, que saia do carro. E aí Eiji viu o motivo.

Mari e Angel estavam iguaizinhas, sendo as suas diferenças quase indistinguíveis no escuro da noite. Mas havia uma diferença notável. Era habitual era Angel com roupas femininas e penteados e maquilhagem que lhe faziam sobressair a beleza. Mas Mari não. Ao ver a sua amiga vestida como uma deusa, Eiji quase que acreditou que Angel tinha dado a volta e estava agora ali à sua frente. Mas não era ela. Era Mari. Esta tinha a mascara (também igual à de Angel) posta, mas quando o viu, tirou-a. Eiji sorriu. Mari era sem dúvida uma rapariga muito bela.
-Mari põe a máscara que já chegamos – ordenou Cecília, tentando parecer calma. Eiji trocou um olhar com o irmão, que parecia tão confuso quanto ele. No entanto, ao notarem que Mari parecia alheia ao que se passava, chegaram a uma conclusão: Ela não sabia que estava vestida exactamente igual à namorada de Kenji. Linda e Cecília tinham preparado aquele plano para… para quê?
Como que adivinhando os seus pensamentos, Cecília apontou para o seu bilhete. Os bilhetes VIP! pensaram os dois irmãos ao mesmo tempo, finalmente entendendo o plano das duas. Ambos riram-se, até que Setsu abriu a porta para Linda sair.
Eiji perdeu toda a vontade de falar, toda a vontade de respirar.


O cabelo dela estava completamente liso, caindo-lhe um pouco abaixo dos ombros. Graças ao Deus Secador, pensou Eiji, maravilhado. O vestido favorecia cada parte do corpo dela, fazendo-o parecer-se com o de uma deusa. A pele dela já não estava tão pálida como ele vira noutros dias e os seus olhos brilhavam como safiras. Sobre o seu generoso decote em V, a corrente de prata que Eiji lhe dera baloiçava a cada movimento que ela fazia. A corrente era tão comprida para que o seu pingente repousasse por entre os seios.
Quando avançou em direcção a ele, viu que ela usava sapato alto, mas não estava minimamente incomodada. Pudera, ela usa-os na dança.
Linda não estava linda… estava belíssima. Já não parecia a rapariga que ele conhecera no inicio de Setembro. A rapariga de óculos, cabelos encaracolados presos num elástico e roupas discretas. Não. Aquela era a princesa de Tokyo, filha dos soberanos, herdeira de um trono e de uma grande beleza.
-Tudo bem? – Cumprimentou, nervoso, sem conseguir tirar os olhos dela.
-Sim – respondeu ela calmamente. Desviou o olhar de Eiji e virou-se para Mari. – Vamos Mari?
-Vamos – respondeu a loira, aborrecida. Eiji perguntou-se se ela desconfiava de alguma coisa. Conhecendo Mari, sim…

As três entraram, seguidas pelos irmãos Yamamoto. Eiji ajeitou o cabelo, enquanto procurava Kenji com o olhar. Ele e Setsu estavam vestidos de smoking, apesar do de Setsu ser castanho e o de Eiji azul-escuro, que facilmente se confundia com o preto naquela escuridão.
Puseram os quatro as máscaras, enquanto subiam as escadas liderados por Cecília. Entregaram os bilhetes ao segurança e atravessaram a multidão da pista de dança, em busca dos sofás onde Angel e Kenji se encontravam. Quando Linda e Cecília tiveram um vislumbre do casal, olharam uma para a outra em pânico.
-Mari vem comigo à casa de banho.
-Mas já não foste antes de sairmos?
-Sim, mas tenho vontade outra vez. Desculpa se eu não consigo controlar a minha bexiga. – Retorquiu Cecília, num tom ansioso.
Mari suspirou e seguiu a amiga na direcção contrária. Linda, Setsu e Eiji entreolharam-se e partilharam um sorriso malicioso.

Era verdade que o plano iria ser difícil, pois Mari e Kenji tinham que estar longe um do outro a noite toda. Por um lado não seria difícil, pois Mari e Kenji ignoravam a existência um do outro. Por outro não seria, pois estavam ambos inseridos no mesmo grupo. Como tal, seria extremamente difícil manter Mari num lado e Kenji no outro sem levantar suspeitas.
Mas estavam todos dispostos a arriscar.
Linda avançou até ao irmão e Angel. Cumprimentou a loira com dois beijos na face, sorrindo com as semelhanças entre a sua amiga e Angel e aproximou-se do irmão. Este olhava para ela como se esta fosse desaparecer a qualquer momento.
-Tu estás…
-Obrigada. – Agradeceu ela, sorridente.
-Obrigada o caraças! Linda estás… linda. – Disse ele, quase sem palavras.
-E tu também… Mascarado?
Kenji riu-se. Tinha vestido um smoking exactamente igual ao do Mascarado, com uma mascara branca que tapava apenas os olhos. As únicas diferenças do original eram a cor dos cabelos.
-Pois… sabes muito bem como o avô sempre foi o meu modelo de inspiração.
-Querias tu ser como ele! – Gozou a irmã.
-Quem é o Mascarado? – Perguntou Angel, querendo entrar na conversa. Nenhum dos dois irmãos lhe respondeu.
Sentaram-se e começaram a conversar sobre vários temas, nomeadamente desporto. Linda tentava entrar ao máximo no tema acerca de futebol, pois não lhe apetecia iniciar outro tema de conversa com Angel. De algum modo, acabaria por falar da vida dela e dos lindos filhos que ela teria com Kenji.
Se depender de mim, não será com ela com quem ele terá filhos…

Cecília tentou demorar-se o máximo possível, mas acabou por ter que voltar para os sofás, onde estavam todos sentados. Linda avistou-a ao longe e levantou-se de rajada.
-Vou buscar bebidas. – Disse, avançando para Mari – Vem comigo.
-Aonde?
-Buscar bebidas! -repetiu ela.
-Fixe, eu vou para ali – e Cecília já estava junto dos outros. Mari tentou ver o grupo ao longe, mas Linda tapou-lhe o campo de visão. A isto, a loira ergueu o sobrolho:
-O que se passa?
-Ah?
-Tenho cara de idiota? Sei que tu e a Cecília estão a planear alguma coisa.
Linda mordeu o lábio. Não havia escapatória. Tinha que mentir.
-Bem… não queremos que vás para ali… - hesitou, pensando no que iria dizer. – Porque nós estamos a pregar uma partida à Angel.
-E o que é que eu tenho a ver com isso?
-Ah…
-Esquece Linda, não sabes mentir. O que é que se passa? – Perguntou Mari, com as mãos nas ancas e já com um ar irritado.
-Olha... confia em mim. Vem comigo buscar bebidas. – Linda pegou no braço de Mari e arrastou-a até ao bar, onde pediu algumas bebidas. Quando o empregado lhe perguntou quais, Linda fez uma careta. Tivera tanta pressa em sair dali com Mari que se esquecera de perguntar aos outros que bebidas queriam.
-O que achar melhor. – Respondeu.
O empregado olhou-a de cima a baixo e depois pegou numa garrafa com um líquido vermelho alaranjado que distribuiu por sete pequenos copos. Linda e Mari pegaram nas bebidas e foram para junto dos outros. Pelo caminho, Linda tentou pensar numa forma de evitar que Mari chegasse ao destino.
Eiji foi a sua tábua de salvação. Aproveitando a mudança de música, arrastou Mari para a pista de dança, deixando os copos que ela trazia nas mãos de Cecília, que os aceitou de bom grado.

Horas passaram-se e os quatro jovens estavam fartos de tanto distrair os outros três. Até à altura, Kenji e Angel não tinham desconfiado de nada, para além de nem sequer terem perguntado por Mari. Linda sabia que Kenji a procurara várias vezes com os olhos, mas que desistia sempre que Angel se encostava mais a ele. Já Mari aceitava que todos a levassem para qualquer sítio. Era obvio que tentava perceber o que se passava, mas nenhum dos quatro davam-lhe hipóteses seguras.

Eram 23h50, dez minutos para o ano novo e Mari já tinha feito várias danças com Eiji, Setsu e bebido algumas bebidas com Linda e Cecília, para além de ter falado de várias coisas que ela nem sabia falar.
-Estou farta! – Reclamou Cecília a Linda e Setsu, enquanto olhavam para Kenji e Angel, mantendo Mari debaixo de olho. Eiji tinha ido à casa de banho faziam quinze minutos e ainda não tinha voltado – Acho melhor apressarmos isto. Os meus pés já não se aguentam e a Mari está a ficar impaciente.
-Como tu – murmurou Linda, mas Cecília não conseguiu ouvir com a música a altos berros.
-Setsu – berrou para o moreno ao seu lado – convence o Kenji a ir para a sala VIP.
-Agora? – Respondeu ele em retorno, também num tom elevado.
-Sim, antes da meia-noite. – Linda procurou o irmão. Viu Angel a afastar-se na direcção da casa de banho – Aproveita agora que a Angel foi-se.
Setsu assentiu e foi ter com o amigo. Linda sorriu e virou-se para Cecília. Abriu a boca para falar, mas Cecília cortou o discurso:
-Não precisas de dizer... vou buscar a Mari.
-Faz figas – sussurrou ela, esquecendo-se de que a morena não a podia ouvir. No entendo, Cecília pareceu ter entendido pois assentiu com um sorriso.
Agora ela apenas tinha que manter Angel longe dos outros dois.
Avançou em direcção da casa de banho quando esbarrou contra alguém.
-Desculpe – berrou, tentando contornar a alta figura à sua frente. Quando esta – um jovem homem forte – colocou as mãos nos seus ombros, Linda congelou. Levantou a cabeça e relaxou ao ver que era apenas Eiji. Este olhava-a fixamente, como se quisesse ver por dentro dela, sem afastar as mãos dos ombros semi-nus dela.
-Vem comigo – murmuram os seus lábios, sem no entanto sair qualquer som. Linda olhou para a porta da casa de banho, mas Eiji já a puxava para uma outra porta, mais distante da pista de dança.

A grande porta cor de vinho tinto estava trancada com um dispositivo electrónico, mas Eiji pegou num pequeno cartão no bolso e passou pela frecha, abrindo a porta com um clique. Rapidamente, sem que ninguém visse, deslizou para dentro da divisão com ela pelo braço.
Parecia ser uma das suites VIP’s onde o irmão estava naquele momento, a diferença era que aquela tinha mais cara de ser particular do que exclusiva para bilhetes VIP.
-Como é que arranjaste forma de entrar aqui? – Linda esfregou as mãos nervosamente, enquanto dava um passo em frente. Eiji permaneceu no sítio onde estava, dois metros à sua frente.
-O dono disto vinha a entrar com umas raparigas, até que sentiu-se mal e começou a vomitar em cima delas – sorriu, virando-se para ela – Foi para o hospital e, pelo caminho deixou cair a chave. Só se fosse estúpido é que não aproveitava.
-Porque viemos para aqui?
-Porque fazes muitas perguntas? – Respondeu ele em retorno, contente por vê-la nervosa. – Principalmente quando já sabes as respostas?
-Prefiro pensar que estou errada.
-Conheces-me demasiado bem para te iludires dessa forma, Lindinha.
Lá estava ele. O Eiji sedutor, engraçado e bem-parecido que ela conhecia. Ele tirara a máscara e já não escondia o seu maravilhoso sorriso. Linda sentiu o chão a fugir-lhe dos pés.
-Tens cá uma lata. – Murmurou ela, com a voz fraca. Ele ergueu o sobrolho.
-Porquê?
-Porque pedes tempo para pensar e agora andas atrás de mim!
-Mas Linda… - Ele quebrou a pequena distancia que havia ente os dois. Estava agora tão próximo dela que podia ouvir o som da sua respiração. - Há quanto tempo é que eu te pedi um tempo?
-Bem…
-Há umas semanas. – Cortou ele, respondendo à sua própria pergunta – E entretanto muita coisa aconteceu. Apercebi-me de muitas coisas. – Fez uma pausa, sorrindo para ela maliciosamente – Tinhas razão.
-Foi isso que disseste no cartão. – Disse ela, virando a cabeça de lado. Ele não tardou a pegar-lhe no queixo e rodá-lo para que ela fizesse contacto visual com ele de novo.
-Pois foi. E sabes porque o disse?
Ela semicerrou os olhos.
-Ilumina-me. – Desafiou.
-Bem… - Ele deu-lhe espaço, como que sabendo que a estava a sufocar. Aproximou-se de uma das janelas de vidro, com vista para a torre de Tokyo e observou o horizonte. – Eu não te conhecia. Aliás… não te conheço. – Virou-se para ela, pedindo-lhe com o olhar para que se aproximasse. Linda não se mexeu. - Eu achei que o facto de seres princesa mudava tudo, mas estava enganado. Nada muda, excepto o facto de eu agora ter fantasias contigo com uma coroa. – Ele riu-se, mas ela continuou séria. – Ou melhor... muita coisa muda. Por não saberes se podias confiar em mim ou nas outras pessoas, não te mostraste verdadeiramente, escondeste-te atrás de uma máscara para te protegeres das reacções dos outros. Tentaste fazer com que os outros gostassem de ti pelo lado que mais… gostas, não aquele que tem mais a ver contigo. Falo pelo menos no temperamento e auto-estima.
Linda respirou fundo. Eiji não lhe dizia novidade nenhuma.
-Achavas que as pessoas não iriam desconfiar de ti se tu mostrasses ser uma rapariga fora do comum. E é verdade. Só que… - ele aumentou o seu sorriso, pondo-a desconfortável – escolheste o lado errado da máscara. Se tivesses usado este, ninguém alguma vez iria desconfiar de ti… pelo menos a Mari. Mas tu escolheste logo o lado menos ‘normal’. Uma rapariga muito calma, inteligente, educada, sensível e carinhosa.
Ele voltou a chegar-se perto dela e, desta vez, pegou nas mãos dela.
-Mas estou contente por o teres feito. Se não, eu jamais notaria em ti. Jamais sentiria que havia algo em ti parecido comigo. Que eras especial. Que eras tu mesma, apenas um pouco reservada em termos de sentimentos.
Ela sorriu, sentindo as suas faces mudarem de cor. Porque é que Eiji ainda tinha esse efeito sobre ela?
Ambos ficaram em silêncio. Durante esse tempo, notaram na balada que tocava lá do outro lado, onde casais dançavam juntos e grupos de amigos juntavam-se, a fim de festejar o ano novo.
Ele baixou o rosto, tocando a sua testa na dela. Fecharam os olhos, enquanto várias pessoas começavam a gritar.
-10…
-9…
-8…
-7…
-6…
-5…
-Pede um desejo, Linda. – Sussurrou ele, abrindo os olhos. Ela abriu também os dela, sorrindo.
-4…
-3…
-2…
-Não preciso. Já se realizou. – Sussurrou ela de volta, aproximando os seus lábios dos dele.
-1…

As badaladas do relógio do hotel começaram a tocar e vários uivos, sons de garrafas de champanhe a estoirar e buzinas de carros do exterior encheram a divisão. O fogo-de-artifício encheu o ar, rodeando a torre de Tokyo, assinalando a entrada no ano novo.
Mas dentro daquela sala apenas o som do toque de lábios dos dois se podia ouvir. Ambos viam um arco-íris de cores à sua volta, enquanto um forte formigueiro atingia os corpos de ambos. Linda sentiu-se atordoada e deixou-se cair no sofá atrás de si. Ele veio com ela, as suas mãos cercando o corpo dela, como que temendo que ela fugisse.
Ela tentou erguer-se e ficou de tronco levantado a fitá-lo. Aquela sensação era muito estranha. Ela podia jurar que ouvira vozes dentro da cabeça dele.
Só havia uma resposta para isso.
Os sonhos dele…
Determinada a impedir que o seu poder estragasse o momento, tentou falar:
-Porquê o colar? – Perguntou devagar, enquanto ele se afastava lentamente.
-Para que tu sejas a princesa e a Linda Tsukino ao mesmo tempo. Para que nunca tenhas que abdicar de nenhum lado da tua personalidade em nenhum momento. – Respondeu ele, beijando o pescoço dela. Ela suspirou e deixou que ele pegasse nos seus cabelos e a manobrasse como uma marioneta.
-Vem comigo – sussurrou ele, puxando-a do sofá lentamente. Ela ergueu-se e foi atrás dele para perto da janela. Ele apressou-se a abri-la, mostrando a varanda com a maravilhosa vista da Torre e do fogo. Um incrível espectáculo de luz explodia no ar como tiros de pistola.
Ele deitou-lhe um olhar antes de voltar a puxá-la para si e tomar a boca dela de novo. Ela deixou-se levar, talvez porque tenha ficado viciada nos lábios dele. Sempre que tocava nela, sentia uma explosão de sabores que a deixavam com ainda mais vontade de prolongar o beijo.
Eiji parecia determinado a dominá-la, pois acabou o beijo tão depressa como o começou. Envolveu-as nos braços, impedindo-a de fazer alguma coisa e obrigou-a a virar-se para o panorama de fundo.
-Sabes qual foi o meu desejo? – Sussurrou ao ouvido dela.
-Se disseres não se concretiza!
Ele pareceu reflectir. Depois assentiu, encolhendo os ombros.
-Que o seja. Eu quero mesmo que este desejo se realize.
Linda sentiu uma súbita curiosidade em saber o que é que ele desejara, mas nada disse.
Mais fogo explodiu no céu nocturno. Uma chuva de luz dourada, vermelha, verde, amarela e azul iluminou o cenário, dando por leves segundos a sensação de que ainda era dia.
Ele sussurrou algo no ouvido dela mas, com o barulho ensurdecedor do fogo, ela não entendeu direito. Quando virou a cabeça para lhe perguntar o que é que ele tinha dito, ele sorriu misteriosamente.
Juntos, observaram o fogo a aparecer e a desaparecer, sempre uma chuva de luz como a de estrelas cadentes até que o céu ficou apenas iluminado pelas luzes vindas das casas e da Torre de Tokyo.
Linda virou-se para Eiji:
-Disseste aquilo que eu estou a pensar?
Ele não respondeu. Invés disso, dirigiu-se para a porta.
-Vamos. Os outros devem estar à nossa procura.
-Eiji! – Chamou ela. Este virou-se para ela. Ambos ficaram em silêncio. Apenas o som das celebrações nas ruas e no hotel se podiam ouvir.
Ela queria dizer algo. E ele temia aquilo que ela queria dizer.
-Estás errado.
Ele ergueu o sobrolho.
-Em que sentido?
Ela não respondeu. Mordeu o lábio inferior, desta vez sinal de nervosismo e baixou os olhos para o chão de mármore.
-Vamos! – Disse ela finalmente, abrindo caminho na porta. Ele veio atrás dela, a cara exposta a uma expressão confusa.

Abriram a porta e saíram sorrateiramente, temendo serem vistos pelos seguranças. Quando a porta foi fechada e eles viram-se no meio da espessa multidão, que festejava alegremente, conseguiram relaxar. Sorriram um para o outro e avançaram para os sofás onde deveriam estar os outros de mão dada, ainda que o toque fosse apenas pela ponta dos dedos. Mas só esse toque já selava muitos sentimentos e emoções.
Quando chegaram aos sofás, viam-nos ocupados por outras pessoas e não havia sinais de Kenji, Angel, Mari, Cecília e Setsu. Preocupados, olharam em volta em busca de alguém. Mas onde é que eles estariam?

**
(paralelamente. Quando Setsu vai buscar Kenji)

-Hei meu! – Chamou, obtendo a atenção do loiro – Está na hora da prenda. – Berrou, sorrindo.
Kenji retribuiu o gesto.
-Ok, espera apenas pela Angel.
-Não é preciso. Ela já lá vai ter. Dá-me o bilhete dela!
Kenji estendeu-lhe o bilhete laranja e foi devagar para a zona VIP. O segurança verificou o seu bilhete e deixou-o entrar, fechando a porta atrás de si.

Kenji viu-se numa sala rodeada de sofás da cor do vinho, com uma mesa média de vidro no centro e um bar no canto mais escuro da sala. Desejando uma bebida, ele aproximou-se do bar e vasculhou o stock. Sorriu ao ver uma garrafa de Vodka e sumo. Pegou em dois copos e encheu-os.
Agora só tens de esperar, disse a Voz, num tom alegre.
Kenji congelou. Para além de não ter conseguido bloquear a Voz naquele preciso momento, também ela parecia feliz. E isso era deveras estranho, pois a Voz não gostava nada de Angel, como se tivesse personalidade própria.
Porque é que tenho um mau pressentimento acerca disto, perguntou-se. E Kenji quase que podia jurar que ouvira uma gargalhada de fundo dentro da sua cabeça.

**
(paralelamente, quando Kenji dá o bilhete a Setsu)

Cecília observou Setsu pegar no bilhete laranja, ao mesmo tempo que deitava uma olhadela em Mari. Esta estava agora deveras irritada com todo o mistério.
-Quando é que vocês me vão contar o que estão a planear?
-Em breve. – Respondeu Cecília, sem tirar os olhos de Setsu, que encontraram os seus. Ele sorriu, sendo o gesto correspondido.
-Espera aqui. – Ordenou a morena, deixando a loira e aproximando-se do rapaz.
-Toma, o Kenji já foi.
-Fixe. Espero que a Linda mantenha a Angel sobre controlo. – Cecília pegou no bilhete e apressou-se a correr para junto de Mari.
-Olha! – Gritou, tentando chamar a atenção a amiga. – Vai para a zona VIP que eu e a Linda vamos já ter contigo.
Mari pegou no bilhete, desconfiada.
-Vai Mari, não percas tempo! – Cecília pegou no braço da amiga e arrastou-a até à porta da zona VIP, onde o segurança pediu o seu bilhete. Mari entregou o seu. Antes de entrar pela porta, deitou um último olhar a Cecília, que sorria ansiosamente.
O que é que elas estarão a tramar?
Mari entrou e o homem fechou a porta atrás de si.

A sala estava pintada em tons de azul metálico claro e escuro e decorada por sofás bordo. Havia tons de verde-garrafa nas paredes, a misturar com os tons de azuis. Mari avançou, olhando em seu redor. Os seus olhos pararam numa fugira de costas para ela no bar.
A figura virou-se e sorriu para ela, provocando um formigueiro no corpo dela. Aquele formigueiro particular que ela só sentia com uma pessoa.
Kenji…
-Estava a ver que ias demorar. – Disse ele, aproximando-se dela com duas bebidas na mão. Entregou-lhe uma. – Mas estou a ver que hoje decidiste ser pontual.
Mari não respondeu, nervosa. Ergueu o copo à boca e deu um gole na bebida. A sua garganta ardeu como se tivesse ingerido ácido, mas um ácido com um aroma adocicado a melão. Voltou a deitar um olhar na sala, completamente confusa sobre o que se estava a passar.
-Gostas? – Perguntou ele, sem tirar o seu charmoso sorriso. – Bem me parecia estranho estares tanto tempo calada. Bem, esta é a minha prenda de Natal. O Eiji deu-ma para que te trazer aqui.
Trazer aqui? Oh, não... ele pensa que eu sou a namorada dele.
Mari entendeu logo o plano. O motivo de ela ter passado a noite toda a fugir de um lado para o outro. Sempre para um sitio onde Kenji e a sua namorada não estavam. Entendeu o plano das suas ‘amigas’.
Desgraçadas… vão-se arrepender…
-Que foi? – Perguntou ele, obviamente incomodado com o silêncio dela. – Está tudo bem?
Mari pensou em responder e assim arruinar todo o plano de Cecília e Linda. Mas algo a impediu.
Uma música – uma balada – começou a sair pelas colunas, postas nos cantos da sala, vinda do outro lado. Uma música que a fez arrepiar-se.

(http://www.youtube.com/watch?v=rzM4qh84n94)

Ele puxou a sua mão, parecendo maravilhado pelo seu silêncio e envolveu-a numa dança lenta e carinhosa. Ela automaticamente colocou os braços nos ombros deles e juntos deslizaram pela sala suavemente.
A música envolveu os dois num mundo à parte, apesar de eles já estarem longe dos outros. Os seus olhos só focavam o outro, os corpos obedecendo automaticamente a qualquer ordem dada pelo cérebro.
Mari por várias vezes abriu a boca para falar. Ele tinha que saber. Tinha que saber que não estava a dançar com a namorada, mas com ela. Que tudo aquilo era uma partida da sua irmã e da melhor amiga dela.
Mas nunca conseguia dizer nada. Por detrás da máscara branca, os olhos azuis de Kenji brilhavam como safiras preciosas, cheias de desejo. Que não é por mim…
Já Kenji pensava noutra coisa. Aquelas mãos não eram tão suaves como as de Angel, mas o seu toque fazia-o arder por dentro. De repente, um enorme fogo consumiu-o, uma fonte de desejo havia algum tempo adormecida.
Olhou-lhe nos olhos, tentando ver o que estava errado. Mas os olhos verdes esmeralda dela brilhavam ansiosamente, como que temendo o próximo passo dele. Olhos que, apesar de serem da mesma cor que os de Angel, não eram os mesmos. Não eram os olhos bonitos que um homem gosta de admirar. Eram os olhos de um anjo que ele queria beijar.

Aproximou os seus lábios dos dela. Ela afastou o rosto um pouco, hesitante, mas ele insistiu. O som da respiração dela, o hálito dela com sabor à bebida que ele lhe dera há pouco, o cheiro do perfume dela… jasmim, pensou ele, abrindo bem os olhos, incrédulo. Aquele não era o perfume de Angel.
Aquela não era a sua namorada.
Mas, mesmo sabendo que aquela não era a namorada, mas uma rapariga de cabelos loiros, olhos verdes com a mesma roupa e máscara, poderia ele resistir a aquele desejo? Poderia ele, um homem vulgar, abdicar daquela mulher cujo cheiro e som da respiração já o deixava louco?
Ele tinha que saber. Tinha que saber como sabiam os lábios dela. Tinha que explorar aquela mulher que lhe provocava arrepios quentes por todo o corpo.
Parou a dança e aproximou os lábios ainda mais. A curta distancia entre os dois desapareceu e ele beijou-a suavemente, mordendo levemente o lábio inferior dela.
Não sentiu apenas um sabor, mas vários. Um enorme calor explodiu dentro do corpo dele e dela, como se ambos tivessem desejado aquele beijo havia muito tempo. As mãos dela procuraram-no às cegas e percorreram o rosto dele, aproximando-o dela. Ambos amaldiçoaram as borboletas no estômago, que agora mais pareciam abelhas assassinas, fazendo os corpos deles fraquejarem ao toque.
As mãos dele percorriam as ancas dela, obrigando-a a colar o seu corpo ao dele. O toque de lábios cessou um pouco e ele afastou o seu rosto do dela. Ela estava ofegante, mas tentava controlar a sua ânsia de retirar a máscara. Era tarde de mais para recuar. Ela também tinha desejado aquilo.
Ele aproximou o seu rosto do dela, tentando descobrir quem ela era. Os olhos verdes de Mari estavam agora embaciados e ela apenas conseguia ver o brilho dos olhos dele. Ele tirou a máscara e pegou na dela. Começou a puxar a máscara para cima, quando ela o travou, aterrorizada.
-Kenji – sussurrou ela, com medo. Lá fora, todos faziam a contagem para o ano novo, mas eles não ouviam. A música continuava a tocar lá dentro e eles continuam no seu próprio mundo, onde eles já estavam.
Algo no tom de voz dela lhe soou familiar, mas qualquer hipótese de reconhecê-la desvaneceu-se como fumo quando ela disse o seu nome.
O poder que aquelas palavras tinham sobre ele era inimaginável. Ele perdeu o poder que tinha, a força de que era feito e sentiu ela a assumir o controlo sobre ele. Quem quer que ela fosse, era agora a dona dele.
Ela voltou a puxar a máscara para tapar os olhos. Temendo não conseguir resistir por muito mais, aproximou-se dela, tocando os seus lábios com os dela. Toque suave, delicado e cheio de paixão. A boca dela era o Paraíso ou o Éden, onde toda a perfeição se juntava num sítio só. Kenji sentiu finalmente que beijava os lábios de um anjo. [3]
A sua mão esquerda tocou no rosto dela e a direita deslizou pelo corpo dela, traçando as curvas dela. Separou os lábios colados e beijou o pescoço dela, descendo até os ombros nus. Tocar na pele dela era como transportar uma boneca de porcelana. O medo de quebrar era constante e ele temia que aquele momento fosse estragado, ou que ela se fartasse de repente. Ele gemeu, o seu corpo tremendo com o toque dele nela.
Ergueu o rosto para ela e voltou a tomar a boca dela, desta vez com mais vontade. Ele esquecera-se de Angel, ela esquecera-se do esquema das amigas.
Separaram-se lentamente, o som dos corpos a um ritmo constante. Ele não precisou de pedir. Ele desejava saber quem ela era, e ela queria que ele soubesse. Kenji pegou na máscara dela e tirou-a devagar.
Mas já sabia quem ela era antes mesmo de a máscara chegar aos olhos dela, mostrando o seu verdadeiro rosto a ele. Ele já sabia porque a sensação que ele sentia junto dela era a mesma que das outras vezes. Quando a abraçara, quando a impediu de cair várias vezes, quando a vira na enfermaria desmaiada, quando a conheceu na casa de Aiko e quanto juntos cozinharam o jantar. A sensação, o medo e o desejo era igual. Só não se apercebera antes porque já não havia medo.
Mari…
O nome dela ecoou na sua mente, enquanto a máscara ficava na sua mão, deixando o rosto dela livre. Ela estava tão linda com o cabelo solto e um leve toque de maquilhagem…
Olharam um para o outro, ambos receando a reacção do outro. Mari mordeu o lábio, esperando que Kenji desse o próximo passo. Já este não sabia o que fazer.
-KENJI! – Ouviu alguém berrar do outro lado. Kenji e Mari viraram-se para a porta, onde uma furibunda Angel os mirava de alto a baixo. Os olhos de Angel pousaram em Mari com profunda raiva. Kenji não conseguiu deixar de notar na profunda ironia da situação. Normalmente era Mari a rapariga de temperamento e ar demoníaco, enquanto Angel era a rapariga de ar angelical. Naquele momento, os papéis tinham-se invertido.
Mari corou até à raiz dos cabelos e correu para fora da sala sem que Angel ou Kenji pudessem fazer alguma coisa para a impedir.

Correu até se encontrar fora do hotel, longe da festa. Havia um espectáculo de fogo-de-artifício, mas não encontrou nenhum interesse nele. Só pensava no beijo. Ainda se lembrava de quando Kenji quase que a tinha beijado no telhado da sua casa e de quanto ela desejara que ele o tivesse feito. Agora tal tinha acontecido e ela estava arrependida.
Ela não queria gostar dele. Ela não queria entregar a chave do seu coração a nenhum homem, tal como a mãe fizera. Mari queria apenas divertir-se, nada mais… Mas depois vira Kenji e tudo mudara.
Céus, como é que ele pode ter este efeito em mim, perguntou-se a si própria, sentando-se na soleira da estrada. Os braços rodearam as pernas dobradas e ela deixou escapar um suspiro triste.
Mesmo que algum dia ela pudesse abrir o seu coração para alguém, esse ‘alguém’ jamais seria Kenji. Ele era demasiado perfeito para ela, demasiado impossível. Não apenas por ele ser o príncipe herdeiro, mas também porque… ela sentia que algo os afastava. Algo que ela não conseguia visualizar no cantos obscuros da sua mente.
Fechou os olhos com força, querendo obrigar-se a si própria a acordar para a realidade. Era verdade, talvez nunca teria uma hipótese com Kenji, mas isso não quereria dizer que iria ignorar os seus sentimentos por ele até ao resto da eternidade. Era mais fácil aceitá-los, para depois combatê-los. Pois bem, agora que era um novo ano, era isso que iria fazer.
-Eu estou apaixonada pelo Kenji – murmurou para os seus botões, finalmente admitindo aquilo que lhe ia na alma. – Mas sei que jamais terei algo com ele. Portando, fica aqui o meu desejo. Desejo que ele seja feliz com qualquer mulher que ele escolha e desejo que o meu sofrimento seja poupado. Que eu possa ver uma luz no túnel, mesmo depois de ter entregado o meu coração a um homem que jamais o poderá receber. Ano novo, vida nova, isso é tudo o que desejo.

Ficou sentada ali durante uns bons minutos, ignorando que alguém a tinha ouvido a murmurar o seu desejo. Alguém que, naquele momento, tinha tomado uma escolha. Um escolha que se tornou num desejo de ano novo. Uma escolha que seria a luz do túnel para Mari.

**
Cecília mexia as mãos nervosamente, tentando acalmar-se. Não encontrara Linda e Eiji em lado nenhum, portanto ela e Setsu tiveram que distrair Angel durante um bom bocado. Ele oferecera-se para dançar com ela várias vezes, mas Angel começou a ficar irritada e a exigir saber onde estava Kenji. Setsu ofereceu-se para procurá-la e foi com ela até à recepção. Entretanto, Cecília procurou Linda, não conseguindo obter nenhum resultado.
Chegara o ano novo e Setsu, vendo que Cecília estava agora ainda mais nervosa, pagou uma garrafa de champanhe e aproximou-se dela, ignorando uma loira furiosa.
-Feliz Ano Novo – desejou ele, oferecendo-lhe uma taça. Cecília sorriu, agradecida pelo gesto de amizade por parte dele. Junto brindaram ao sucesso do plano, pois Kenji e Mari estavam lá dentro faziam dez minutos e ainda não tinham saído. Tudo parecia crer que correra lindamente.
Nenhum deles reparou que Angel vira a sala VIP e fora perguntar aos seguranças se tinham visto Kenji, descrevendo-o minuciosamente. Os seguranças, que podiam jurar que a tinham deixado entrar, responderam que o tinham visto e que ele estava lá dentro. Angel exigiu que eles lhe abrissem a porta, pelo menos para ver se o seu namorado estava ali.
Eles aceitaram e iam bater à porta, quando Angel decidiu apressar o processo. Pegou no cartão magnético e passou pela ranhura, abrindo a porta rapidamente. Os seguranças viram a cara de Angel, que retirara a máscara, virar de um branco para um vermelho de raiva. Depois viram uma rapariga vestida da mesma forma que a outra sair sem que fosse impedida por nenhum dos outros dois.
O segurança achou melhor fechar a porta para que o casal de namorados discutissem em privacidade, mas o loiro saíra da sala apressadamente, correndo atrás da outra loira. A namorada ficou dentro da sala, chocada.
Mais tarde, ele voltara e pedira completa privacidade por uns minutos. Após a porta ter sido fechada, não se ouviu nenhum barulho vindo de lá de dentro.

**
-Hei! – Chamou Eiji, ao ver o irmão e Cecília. Estes contraíram os rostos ao ver Linda e Eiji.
-Onde raio é que vocês estiveram? – Perguntou Setsu, furioso. – Tivemos que fazer tudo sozinhos!
-Feliz Ano Novo para vocês também – comentou Eiji, ironicamente.
-Desculpem – disse Linda, com sinceridade. – É só que…
Não precisou de acabar o discurso, pois os dois morenos aperceberam-se de que Linda e Eiji estavam de mãos dadas. Cecília sorriu, abraçando a amiga:
-Parabéns.
-Calma Cecy, isto não é noivado nenhum. – Retorquiu Linda, tentando libertar-se da amiga.
-Não me chames Cecy! E, apesar de não ser noivado nenhum, é bom na mesma.
Ambas sorriram uma para a outra. Já Setsu tentou manter um ar sério, enquanto o irmão mais novo o fitava, à esperava que este dissesse alguma coisa.
-Ah… parabéns! Como já te disse, a Linda aqui vale ouro. Sinceramente, acho que ela é muita areia para a tua camioneta, mas se ela te quer…
-Obrigadinha pela honestidade. – Respondeu Eiji, desdenhoso.
-Sempre às ordens.
-Como correu? – Perguntou Linda.
-Não sabemos. Nós… - foi aí que Cecília e Setsu notaram na falta de Angel. Procuraram-na com o olhar, mas o máximo que viram foi Kenji a falar com os seguranças da sala VIP.
-Tenho um mau pressentimento. – Disse Cecília.
-Onde está a Mari? – Perguntou Eiji.
-Vamos procurá-la lá fora – sugeriu Setsu.

Os quatro abriram caminho por entre a multidão em festa até à entrada do hotel, onde encontraram Mari sentada na beira da estrada.
-Mari! – Gritaram Cecília e Linda ao mesmo tempo. A loira virou-se e, para surpresa delas, sorriu. – Estás bem?
-Estou. – Respondeu a loira num tom natural – Só acho que o Kenji está em maus lençóis. A Angel ficou mesmo furiosa com ele.
Os quatro entreolharam-se entre si, com semblantes de culpas nos seus rostos.
-Mari… – começou Linda.
-Ano novo, Vida nova, certo? – Ela levantou-se, sacudindo o vestido levemente - O quer que tenha acontecido antes, não importa agora. Por isso, considerem um golpe de sorte não me querer vingar de vocês. Aquele… momento… fez-me pensar nalgumas coisas e cheguei à conclusão que vos posso perdoar pelo que fizeram.
-A sério? – Perguntou Eiji, desconfiado - O que é que aconteceu lá dentro para teres ficado assim?
Mari ignorou-o e virou-se para o sítio onde o carro de Setsu estava estacionado.
-Vamos? – Perguntou.
Linda olhou para os irmãos Yamamoto.
-Então e o Kenji?
-Estou aqui – comentou alguém por trás. Kenji tinha o casaco do smoking ao ombro e a máscara na mão e fitava os amigos com um semblante descontraído. – vamos ou não?
-E a Angel? – perguntou a irmã, olhando para trás de Kenji como se Angel estivesse escondida atrás dele.
-Ela não vem – disse ele simplesmente, encolhendo os ombros. – Apercebi-me que afinal, não temos assim tanta coisa em comum. – Ele pousou os olhos em Mari, mirando-a atentamente. Esta virou o rosto e dirigiu-se para o carro, seguida por Cecília e Setsu.
Eiji e Linda ficaram para trás, não desviando os olhos de Kenji. Este sorriu:
-O que se passa com vocês os dois? – Perguntou num tom demasiado alegre para Linda e Eiji.
-Estás bem? – Perguntou a irmã.
-Estou. Não custou nada, acredita.
-Bom… - disse Eiji, tentando mudar o assunto para aquele que mais lhe interessava – Ano novo, Vida nova. Acaba um romance, começa outro.
-Começa outro? – Perguntou Kenji, confuso. Foi só quando viu Linda virar-se para Eiji, furiosa, com o rosto completamente vermelho é que entendeu. – VOCÊS OS DOIS?
Eiji sorriu, assentindo com a cabeça. Linda escondeu o rosto dos dois rapazes, embaraçada. Eiji aproveitou o momento para apertar a mão dela e chegá-la mais para si. Kenji observou o gesto do amigo de boca aberta, surpreendido e, ao mesmo tempo, entusiasmado.
-Bem… - colocou a mão livre na cabeça. – Ah… Parabéns?
-Vocês exageram… - murmurou Linda. – Até parece que nos vamos casar.
-Se fosse o Eiji e outra rapariga sim, estaríamos a exagerar… mas és tu!
-E?
-Tu sabes bem o que ele quer dizer, Lindinha. – Comentou Eiji, os três aproximando-se do carro.
-Cala-te!
-Ah… então não gostas que te chamem Lindinha! – Provocou Cecília, com um sorriso malicioso – Agora é que vais ver quantas eu valho.
Linda pôde apenas morder o lábio, enquanto os seis se enfiavam no carro feito para cinco. Eiji ficou atrás com as raparigas, com Linda no seu colo.

Durante todo o caminho, Setsu e Cecília dançaram ao som da música de rádio, Eiji sussurrou palavras ao ouvido de Linda, que apenas a punham ainda mais embaraçada, sendo observados curiosamente por Mari e Kenji. Ocasionalmente, Kenji mirava Mari pelo espelho retrovisor, olhar por vezes correspondido.
Ele sorriu, perguntando-se se era verdade se os desejos de novo ano de concretizavam. Alguns diziam que sim, outros acreditavam que apenas se realizavam se as pessoas se esforçassem.
Ele iria esforçar-se. Ou o seu nome não seria Kenji Chiba Natsumara. Ele iria ter o seu desejo concretizado nem que fosse a última coisa que fizesse. A oportunidade era única e ele não a iria desperdiçar.
Ano Novo, Vida Nova, cantarolou a Voz e, desta vez, Kenji nada fez para a silenciar.

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[3]: Ok, esta frase tem um duplo sentido. Lips of an angel – Lábios de um anjo; Anjo – Angel. Eu tinha que pôr este duplo sentido…

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por lulumoon em Ter 05 Out 2010, 16:06

Owh!
Eu arruscava-me a dizer que este foi o melhor capitulo de toda a fic (Sim, eu sou louca por romance e daí?!), mas estaria a retirar valor aos outros capitulos que eu tanto adoro!"
Entao, o que tenho a dizer é Ponhá-si di jóêlhos, istêndá seus braiços e gritxi "Aléluiá"!! Matreiro
A sério, finalmente! finalmente conhecemos aquela caniche que engoliu um papagaio que namorava para o Kenji, finalmente que ele a pôs a andar de patins, Finalmente a MAri, pôs-se bonita, finalmente o Eiji e a Linda entenderam-se, e Finalmente o kenji e a Mari mudaram o disco! OMG! por momentos achei que ou o Eiji e a Linda, ou o Kenji e a Mari se iam enrolar enrolados (se é que me entendes! Matreiro)
Gosto muito da nossa relação Mari, Cecy e Linda! É um verdadeiro "um por todos e todos por um", e isso viu-se no que magicaram para a Mari! Agora o Kenji que arranje T*mates e se ponha fino com a rapariga!
Bem, eu tinha mais qualquer coisa para dizer, mas esqueçi-me! Isto é muito irritante, mesmo! estou a tentar lembrar-me e não sai nada! Grrr! Que raiva!
Enfim, fico ansiosamente á espera de mais! Bjokas

PS: Não entendo como é que esta fic tem tão poucos leitores! Deve ser das melhores, ou senão a melhor fic de Sailor moon! Enfim, anda tudo perdido!

lulumoon
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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por Bun em Qui 07 Out 2010, 11:49

Olá Ana! Smile

Concordo com a Lulumoon. É pena que a fic tenha poucos comentários, é muito boa e merecia um pouco mais de atenção.

Amei o capítulo como de costume.

A amizade das três está mesmo muito querida.

Finalmente a Linda e o Eiji entenderam-se, já estava na altura.

E apesar de ter amado a reconciliação deles, a minha cena favorita de todo o capítulo foi a Mari com o Kenji.
Li-a ao som da música que colocaste, ficou perfeito.

Ano Novo, vida nova! Lool
Vamos lá ver o que vai trazer este ano novo...

Então a voz é como se fosse uma outra faceta do kenji, pois isso faz sentido, mas no entanto ela sabia o que andavam os outros a tramar pelas costas dele. Como é isso possivel? Que misteriosa! Razz

Estou a gostar mesmo muito da fic.

Espero pelo próximo!

Bjo*

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Qui 07 Out 2010, 15:31

Ah... eu... não sei o que dizer. Ou melhor, sei mas não quero. Digo, nem sequer reparei até agora. Tava com tanta pressa de postar que só me apercebi ontem.
Bem, como hei-de explicar... não é dificil, mas agora que vocês já comentaram...

tipo, eu posso ter-me esquecido de acrescentar uma parte ao capítulo. Eu posso ter acabado o capítulo onde não devia. Eu posso ter acabado de ocultar uma informação deveras importante para a história e que devia estar no capítulo. Mas não está.

Por isso vou adicioná-la aqui, porque não sei como inseri-la no novo capítulo (que vai demorar um pouquinho a aparecer...)

Depois respondo aos vossos comentários. Aproveitem este extra..

-------------------------------------------------


Longe dali, dentro de um reluzente palácio, a atmosfera não era tão festiva quanto a do exterior. Criados passavam de um lado para o outro atarefados, mas também preocupados com a saúde da sua soberana, que piorava a cada dia que passava.
Todos cochichavam os mais recentes problemas do reino, mas sem dúvida que a curta esperança de vida da Rainha era o tema de maior preocupação, pois esta era extremamente querida pelos seus súbditos. Sempre bondosa e atenciosa, revelara ser tão eficiente e bela quanto a mãe, enquanto o esposo fizera os seus deveres de rei de forma tão eficaz quanto a do sogro.
Mas naquele dia, os criados andavam atarefados por outro motivo. Não só o médico de sua majestade tinha feito uma outra visita para saber o estado de saúde da Rainha e se esta fizera melhoras, como também o rei tinha dispensado o serviço de todos até dia dois. Tal ordem estranhara a todos, mas aceitaram a ordem com motivo da saúde da esposa, para além de o próprio rei ser um homem extremamente compreensivo.
No meio daquilo, todos se perguntavam porque é que os príncipes não tinham boas relações com os pais. Talvez fossem extremamente mimados e fúteis para que não entendessem aquele mundo. Ou talvez fosse outro motivo. Enfim, que sabiam eles da vida dos seus soberanos? Nada, porque nada tinha a ver com o nariz deles. Tudo o que podiam fazer era encolher ombros e afastar-se para obedecer a novas ordens.
Naquele dia, o palácio ficou vazio. Ou melhor, vazio de empregados.
Na biblioteca, as navegantes encontravam-se dispersas pela sala, todas envolvidas nos seus próprios pensamentos.

Serenity observava o fogo-de-artificio da janela, enquanto o marido lhe punha a mão no ombro. Os seus olhos estavam secos de tantas lágrimas que ela derramara naquele dia, mas para ela ainda iriam vir muitas.
Ami não encontrara nada. Não havia cura. Tal doença era extremamente rara e sem cura conhecida. Tudo o que podiam fazer era esperar…
Os olhos da navegante de mercúrio saltavam de Endymion para Serenity, não antes de passar primeiro pela porta fechada.
Edward, ao saber que a esposa iria morrer em menos de um ano, dispensara todos os criados e fechara-se no quarto com ela. Ami calculava que ele estivesse a morrer também, só que em espírito. A mulher da vida dele tinha os dias contados. Tudo o que sobraria eram memórias de um amor longínquo e dois filhos com quem ele não se dava.
Sentia-se revoltada por não ter feito melhor. Custava-lhe ver os dois amigos a sofrerem pela tão próxima morte da sua única filha. Custava-lhe ver um homem que já perdera os pais, a felicidade e os filhos para agora perder a mulher.

Os seus pensamentos foram interrompidos pelo som de uma porta a abrir-se.
Uma mulher de cabelos curtos com reflexos violetas e olhos escuros entrou na divisão. Parecia preocupada.
-O que se passa Hotaru? – Perguntou Haruka, vendo que era a única com coragem para falar no meio daquele silêncio.
Esta tornou-se para os reis. Serenity e o esposo viraram-se para Hotaru, acenando com a cabeça para que prosseguisse.
-O Edward já está lá há horas. Mas não é isso que me preocupa. Porque é que ninguém me contou que o Edward vira a Linda e o Kenji a dançar num torneio de dança?
Algumas navegantes semicerraram os olhos. O que é que aquilo tinha de tão importante?
-Ah... Hotaru? – Começou Minako, mas foi interrompida pela morena.
-Não percebem? Eu estive fora apenas por uns dias, quando volto descubro que tanto o Edward como a Misaki contara à Small Lady acerca dos eventos daquela noite.
-Mas o que é que isso tem a ver com a minha filha? – Perguntou Serenity, rispidamente. Hotaru deu um passo atrás, apanhada de surpresa com a atitude da rainha, mas continuou.
-Nada, mas tem a ver com os planos da Dawson. Ela já deve saber…
-Sim, mas ela falhou. A Linda, a Mari e a Cecília conseguiram derrotá-la.
-Eu sei majestade. Mas eu falo daquilo que os dois disseram à Small Lady. – A última frase captou a curiosidade de todas, que se aproximaram da morena.
-Que queres dizer? – Sussurrou Michiru, ao ver que ninguém falava.
-Digo que o Edward e a Misaki falaram de uma pessoa à Small Lady. Uma pessoa que nós julgávamos ser outra.
-Como assim? – perguntou Endymion, confuso.
-Nós sempre achamos que a Yvonne tivera apenas um filho com Takeshi Yamamoto, visto este ter-se divorciado dela e casado com a outra esposa no mesmo ano em que o segundo filho nascera. Por isso sempre deitamos uma olhadela na Yvonne e no filho dela.
-Sim, mas ambos são fracos. Principalmente a Yvonne. No entanto os factos dizem…
-Era mentira! – Disse Hotaru, interrompendo Serenity. – O segundo filho do Yamamoto é também filho da Yvonne.
Serenity e Endymion ficaram pálidos.
-De certeza?
-Sim, a data de nascimento, as semelhanças. Segundo o Edward, o miúdo é a cara chapada da Yvonne.
Endymion pousou a mão na testa.
-Eu devia ter calculado. Eu sempre achei que ele me parecia familiar. Mas nós só conhecemos a Yvonne quanto o Eiji tinha três anos, para além de eu nunca ter visto a segunda esposa do Takeshi. Mas poderá ele…
-Não poderá. É. A filha da Misaki conhece o rapaz e a Misaki esteve a falar dele à Small Lady.
-Porque o faria? – Perguntou Rei, curiosa.
-Porque foi esse Eiji que dançou com a Linda e, ao que parece, são uma espécie de namorados.
Rei, Minako, Ami e Makoto ergueram o sobrolho. Com que então a Linda já tinha namorado…
-O que é que a Misaki disse dele? – Perguntou Serenity, agora terrivelmente pálida ao ver-se tão próxima da resposta ao dilema de Hotaru.
-Não importa. Eu sei que ele é. – Cortou Endymion. A frase pairou no ar, até que este decidiu prosseguir – eu conheço o Eiji. Ele tem todas as qualidades necessárias.
Todas as navegantes entreolharam-se, assustadas. Durante momentos, um silêncio pesado reinou a divisão, até que uma dela arranjou forma de falar:
-Estivemos a guardar a pessoa errada o tempo todo. – Sussurrou Makoto, com a voz fraca.
Serenity, ao ver a cara de aflição das suas companheiras e do seu esposo, tentou manter-se firme e afirmou:
-Vamos tomar como um sinal postivo o facto da Dawson ainda não ter feito nada acerca disto. Mas temos que tomar medidas e depressa. Temos que ter a certeza. – Virou-se para o esposo, que assentia com a cabeça. - Eiji Yamamoto pode ser o possuidor da Flor de Vénus.

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por Tinoco em Qui 07 Out 2010, 23:55

Ola ^^
Confesso que ja devia ter vindo ler esta fic há mais tempo, mas depois com o inicio das aulas, todas as fics que ja iam avançadas ficaram para trás, pelo que só começei a le-la ontem ^^'
De qualquer forma, ja li até ao capítulo 12 (pelo que ja so me faltam 11 para ficar dentro do esquema) e do que ja li estou a adorar, tanto a trama, como as personagens. Quem diria que uma neta da Usagi fosse tao diferente dela ^^' (so nos sonhos XD)
Enfim...
Devo dizer tambem que evoluiste bastante na escrita, e isso notou-se de capítulo para capítulo(pelo menos dos que ja li) e (prendeu-me completamente).
Por isso, continua a escrever ^^
Outra coisa, por muito poucos fãs que tenhas(o q e absurdo) nao desistas de escrever. Escrever ajuda sempre a descomprimir quando temos uma vida cheia de trabalho ou de coisas pra fazer, e ajuda a esquecer certos problemas, e que as vezes acabam inspiraçao de uma fic. Se gostas mesmo de escrever, nao desistas. Continua a publicar que vais ter sempre quem te venha ler, acredita ^^
Beijocas, e quando ficar conforme com o nº de caps, volto cá ^^'

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por lulumoon em Sex 08 Out 2010, 03:53

Ah Ana! Como te esqueçeste desta parte, carago?! Mas em contra partida ainda bem, porque assim tivemos uma especie de "novo capitulo" para ler enquanto nao chegava o proximo!
Agora... O Eiji tem a flor de Vénus?! Choquei! Choquei mesmo! Tenho vontade de estripar a Dawson, caraças! Enfim, Fico á espera de mais! Amo esta fic! Esperancoso

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por Bun em Sex 08 Out 2010, 06:31

Olá!

Bem Ana tinhas logo de esquecer esta parte?!
E aí vão tijolos!!!

LOOOOL

Tou a brincar contigo! Matreiro

Uau, o Eiji com a flor de Vénus?

Porque estou com a sensação que isto vai acabar mal? Desiludido

Então quando puderes cá estarei à espera do próximo.

Bjo*

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Sex 08 Out 2010, 14:43

Tinoco: Muito obrigada pelo teu comentário. É sempre bom saber que tenho uma nova leitora x)
Escrevo mesmo para relaxar e também porque não gosto de deixar as coisas a meio. Conhecei estas duas fanfics, irei acabar...
Lulu: (rxp aos 2 comentários) Eu tbm sou adepta de romance mas ultimamente não tenho andado muito virada para o lamechas/mel a mais. Prefiro quando os sentimentos tão lá, apenas são expressados de outra forma. Infelizmente não posso usar essa estratégia com os meus dois casais. Tenho pena da Angel. Ela até k era boa pessoa. Mas nao era a tal para o Kenji (tbm não digo que é a Mari, atenção!)
Agora o que o Kenji vai fazer daqui para adiante... bem... no worries, que no próximo já saberão (hihi).
Já te lembraste do que me querias dizer? Eu tbm detesto quadno isso me acontece. Quero dizer alguma coisa, mas acabo por me esquecer Mad
Bun: (rxp aos dois)
Yup, a vozinha é misteriosa. Queres adivinhar porquê?
A parte da Mari e do Kenji ficou um pouco... sei lá... não ficou exactamente como imaginava. Nalgumas partes ficou melhor, noutras não. Mas enfim, se voces gostaram tanto, como vos posso contrariar? Razz
Acabar mal? Em que sentido? O Eiji morrer? (ate que nem era má ideia...) Ou outra coisa?

E o que eu me ri quando li os vossos comentários acerca deste extra xDD Já sabia que voces iriam ficar do genero: O_O wft? Bem, o objectivo era esse xDD

Ahaha, agora têm de esperar pelo próximo capítulo para saber mais. Chamar-se-á As Guardiãs da Esperança e aí ficarão a saber de tudo acerca das novas navegantes, para além das tres meninas receberem duas visitas especiais, Linda recebe um choque (figurativo), Cecília descobre umas coisinhas e Mari... bem, esperem pelo capítulo para saber

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por Tinoco em Sab 09 Out 2010, 09:46

OMG
Lindo lindo lindo lindo lindo *-*
Fiquei agora completamente babada *-*
Taaaa lindo *-*
Apaixonada mesmo, rendi-me completamente à tua fic Ana-sama *-*
Sobretudo estes ultimos capítulos eu fiquei *-* Eu ja calculava que a Mari tivesse ficado babada pelo Kenji,e que fosse acabar assim aos beijinhos com ele. Mas na tava à espera que a relaçao entre a Linda e o Eiji fosse tao dificil. Quando finalmente deram ali umas beijocas valentes eu fiquei com as borboletas a passear no estômago(estas cenas fofas mexem comigo *--*)
E quanto a Eiji ter a Flor de Vénus, eu acho q algo na minha intuição ja mo dizia. Era fruta a mais, e andarem sempre a fazer comentarios acerca disso, e o sr Rei Endymion 2 AKA Edward ter ficado a olhar para o Eiji muito tempo la no concurso de dança, abriu-me a pestana. Suspeitei logo que ele pudesse ter algo a ver com a situaçao. Isto quer dizer que ele vai correr perigo *--* adoro coisas dessas *--*
Não tens de agradecer, eu ja andava a algum tempo a ver se lia a tua fic, mas nao me dava coragem para ler, como era grande e tals, mas depois peguei, e ja nao larguei ^^
Espero ansiosamente pelo próximo capítulo. Beijocas ^^

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por Bun em Sab 09 Out 2010, 11:30

Oi

Acabar mal no sentido de o Eiji ser atacado, quase de certeza né,lool. E se a Linda não conseguir protegê-lo, nem imagino o drama que vai ser.

"O Eiji morrer? (ate que nem era má ideia...)"

Aqui tenho de discordar óbvio!

Não mates o Eiji! Ele é tão sweet.

Fiquei com bastante curiosidade sobre o próximo. Wink

Bjo*

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Dom 10 Out 2010, 09:00

Tinoco: Obrigada à mesma, eu costumo agradecer todos os comentários novos Matreiro
Ya, o objectivo do Edward ter notado no Eiji no torneio era para que os leitores começassema a abrir a pestana porque se há coisa que detesto em histórias são emplastros. Eu queria que o Eiji tivesse um bom papel nesta fanfic, como tal, dei-lhe este "peso".
Quanto à relação Linda-Eiji ser dificil. Acredita, há sempre qualquer coisa que separa estes dois. Por um lado, têm mto em comum, por outros são extremamente diferentes.

Bun: Eu posso matar o Eiji se me apetecer Razz A protagonista é a Linda e o destino dela é que é importante. Os outros bem quen posso matar que não há problema xDD


Sinceramente, não sei o que fazer com a Linda e o Eiji. Já tenho o final da fic quase todo pensado. Apenas o destino destes dois é que ainda não tá decidido. Posso matar um, ou os dois, ou deixá-los juntos ou deixá-los separados. Enfim, tanta possibilidade que eu ainda não interiorizei. Mas tenho tempo. Até lá, peço opiniões. Acreditem, tenho mais motivos para deixar estes dois separados do que juntos.

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por Tinoco em Seg 11 Out 2010, 00:08

AnA_Sant0s escreveu:Tinoco: Obrigada à mesma, eu costumo agradecer todos os comentários novos
Ya, o objectivo do Edward ter notado no Eiji no torneio era para que os leitores começassema a abrir a pestana porque se há coisa que detesto em histórias são emplastros. Eu queria que o Eiji tivesse um bom papel nesta fanfic, como tal, dei-lhe este "peso".
Quanto à relação Linda-Eiji ser dificil. Acredita, há sempre qualquer coisa que separa estes dois. Por um lado, têm mto em comum, por outros são extremamente diferentes.

^^ sem problemas ^^ Eu por acaso tambem sou assim, novos leitores, agradeço sempre *--*
Mas por acaso foi. Eu achei muito estranho o Edward ter dado muita atençao ao Eiji, e entao começei a desconfiar. Quando li aquele bocado extra, as minhas desconfianças confirmaram-se.
Pois, ja reparei que ha sempre algo que os separa, mas tenho pena deles. Eles merecem ser felizes como a Bunny e o Gonçalo, a Chibiusa e o Edward(bah XD) Eles parecem fazer um casal tao fofinho *--*


AnA_Sant0s escreveu:Sinceramente, não sei o que fazer com a Linda e o Eiji. Já tenho o final da fic quase todo pensado. Apenas o destino destes dois é que ainda não tá decidido. Posso matar um, ou os dois, ou deixá-los juntos ou deixá-los separados. Enfim, tanta possibilidade que eu ainda não interiorizei. Mas tenho tempo. Até lá, peço opiniões. Acreditem, tenho mais motivos para deixar estes dois separados do que juntos.

Incredulo'
Se for para ficarem vivos, e tiveres razoes para eles estarem separados, que seja vivos e separados do q mortos e juntos
se bem que os queria juntinhos *--* (mente pervertida em acçao XD)
Nao, agora falando a sério.
Eu por norma nao gosto muito de me meter nessas decisoes, porque nem sempre vai de encontro ao que o autor ou o resto dos leitores querem, por isso, faz o que achares melhor, e que tanto tu e as leitoras querem. se bem que quanto a mim acho q ja sabes a minha opiniao ^^'
Beijocas, e continua *--*

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por MoonSerenidade em Qua 13 Out 2010, 11:03

Aiiii.... como é que eu fiquei sem ler isto...
Não acredito que já não lia a continuação da fic desde Dezembro de 2008...
*mim põe-se de joelhos a pedir misericórdia à Ana*
Estou completamente sem palavras para comentar todos estes capítulos!
Amei completamente a história, só acho que devias dar uma revisão quando passas a pc porque à partes em que trocas as personagens (por exemplo estavas-te a referir a uma rapariga e dizes ele).
De resto espero pela continuação e espero que seja tão boa ou ainda melhor do que o resto.

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por lulumoon em Qua 13 Out 2010, 15:22

AnA_Sant0s escreveu:
Já te lembraste do que me querias dizer? Eu tbm detesto quadno isso me acontece. Quero dizer alguma coisa, mas acabo por me esquecer Mad

Bem eu já me lembrei, sim, mas agora acho que já nao faz muito sentido perguntar.... Eu vou dizer á mesma...

Spoiler:
O Setsu e a Cecilia vão acabar juntos não vão?! Oh pá, cresceu-me o apetite em relaçao áqueles dois, há ali qualquer coisa, uma implicancia assim meia coise! Claro que posso estar a imaginar coisas, mas até que davam um casal fofo, ele o mulherengo parvinho e ela a calma e intelijente! E nao digo mais! XP

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Sex 15 Out 2010, 17:48

MoonSerenidade: Obrigada, é bom saber que, apesar de não teres lido nos ultimos tempos, ainda não te tenhas esquecido da minha história Smile
Tinoco: Já tenho o final decidido. Obrigada pela sugestão Smile
Lulu: Ah... não sei não. São demasiado diferentes para que haja alguma coisa entre eles. Sinceramente, ainda não pensei muito no final destes dois. Sei que tipo de final quero, mas promenores passam-me ao lado. Agora que noto, apenas a Mari, o Kenji, os Reis, as navegantes, a vilã e a Linda é que têm final definido (quando falo da Linda, falo do destino, não do casal... se bem que também já o decidi). Os resntantes têm-me passado ao lado. Pudera, o final da Linda é o mais importante e não posso desiludir os meus leitores nessa parte (apesar de provavelment eo fazer.. depende mesmo dos gostos...) xDD

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por Monica em Ter 19 Out 2010, 12:13

A tua finc ta cada vez melhor.
Desculpa nao ter vindo comentar mais sedo, a gora as minhas vindas ao fórum são cada vez menos, pelo facto que agora trabalho e não da para vir ca.
A tua historia esta cada vez mais empolgante, agora é o enji que tem a flor de venus.

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Ter 23 Nov 2010, 09:07

Olá, obrigada pelo teu comentário Monica. Desculpa a demora, mas nao tenho vindo aqui para responder.
Pois bem, regresso agora com um novo capítulo (e bem grandinho, devo dizer).
Antes de mais, tenho umas coisinhas a dizer:
-Primeiro. Volto a dedicar um capítulo à lulumoon, peloa atenção e por eu ser uma cabeça no ar. Eu sabia que a lulu fazia anos entre setembro e novembro, mas não sabia quando. Um dia vim cá (finais de outubro) e vi que a lulu já tinha feito anos e não lhe tinha dito nada. Peço mil e umas desculpas por isso. Uma feliz aniversário (bem, bem, bem atrasado) Oxalá todo o romance que este capítulo ofereça possa compensar
-Segundo: Caso tenham duvidas acerca das origens dos nomes, basta dizer. Caso contrário, só descobrem no fim da fanfic.
-Terceiro: Há uma parte em que a Cecília canta, mas eu decidi não pôr musica. Todavia, para terem uma noção de como é a voz dela (como a imaginei) tem ali um link para voces ouvirem. Mas acredito que consigam ler sem ter que ouvir a música.
-Quarto: Realizei algumas pequenas alterções na história do Milénio Prateado, de modo a que ficasse um pouco de acordo com a minha história. Se hover algum detalhe que se sobressaia, avisem-me ^^
-Quinto (e último): Não gosto deste capítulo. Primeiro, deu-me muiton trabalho, segundo... não sei, não consigo gostar


E com isto é tudo. obrigada pela vossa paciencia e boa leitura Smile

--------------------------------------------

24. As Guardiãs da Esperança

Para quem não contava com grandes alterações com o inicio do Ano Novo, acabou por apanhar uma grande surpresa quando Linda, Mari e Cecília vieram juntas para as aulas, sorrindo e conversando alegremente. Todos olharam incrédulos para a nova amizade das três, apenas algumas semanas depois de Mari ter insultado Linda em frente a toda a escola. Mas o que mais surpreendeu todos foi o facto de Eiji ter chegado à sala de aula, ter-se chegado perto de Linda e tê-la cumprimentado com um leve beijo nos lábios.
Era oficial. O quer que Mari tivesse de errado contra Linda já lá não estava, o que permitia que toda a turma pudesse conversar com Linda sem problemas de vir a enfurecer a loira.
E também (e talvez a pior noticia para algumas raparigas), Eiji estava agora fora do ‘mercado’. Nas horas de almoço, almoçava com a namorada no sítio do costume, atrás da escola, para mais tarde Mari e Cecília lhes fazerem companhia.
Outras alterações vieram pelo caminho. Linda afirmava ter ido ao cabeleireiro cortar o cabelo até abaixo das orelhas, no entanto este parecia estar ainda mais comprido do que antes, chegando abaixo dos cotovelos.
Também Eiji por vezes mandava umas piadas com Cecília e Linda, que (para espanto de todos) incomodavam Mari, que virava a cabeça para o lado ou corava.

Todavia, no meio daquelas alterações, quase tudo se mantinha na mesma. Como tal, na aula de Química, ninguém esperava nenhuma alteração na rotina. Mas o professor, um homem grisalho com ar lunático, decidiu à última da hora mudar os pares:
-Menina Nakamura, fica com o Yamamoto. Menina Tamura, fica com a menina Yamada, Menina Tsukino com o Senhor Sato…
Mari juntou-se a Eiji nas bancadas brancas, com Cecília e Kiara ao seu lado, a uma pequena distância. Linda, por seu lado, dirigiu-se para a bancada de frente, com Ryo atrás dela. Ao ver que Eiji e Mari estavam atrás dela, sorriu e virou-se de frente para eles. Ryo revirou os olhos:
-Por favor, não me digas que vais ficar a fazer olhinhos ao teu namorado a aula toda?
Linda aumentou o sorriso.
-Não é por isso. Espera para veres. Observa o Eiji nas situações mais… cuidadosas… - disse ela, começando o trabalho proposto pelo professor. Pegou numa noz e abriu-a de modo a que esta agarrasse uma pipeta graduada. Colocou a noz no suporte universal e preparou a solução, pedindo a Ryo que se dirigisse à dispensa buscar os ingredientes.
A aula passou devagar, com Linda a rir-se em determinadas ocasiões, mas sem nunca se desconcentrar. Ryo, extremamente curioso, olhou para Eiji e para Linda, tentando perceber o que se passava. Mas sempre que Linda se ria, Eiji não olhava para ela. O que se é que se passava?
Linda agitou o tubo de ensaio onde tinha colocado a solução aquosa, cor violeta, com um depositado negro no fundo. A partir do momento em que agitou, tornou-se roxo, sinal de que estava tudo bem feito. Ela sorriu, satisfeita e apressou-se a anotar o procedimento no caderno diário. Ryo fez o mesmo, desta vez com uma substância ligeiramente diferente da de Linda. Agitou-a num pequeno goblé com uma vareta de vidro e viu a substância ganhar uma cor azulada.
-Estás a ver! – Disse Linda para o companheiro – e dizias tu que ias fazer o laboratório explodir.
-Mas eu nunca disse isso – retorquiu ele.
-Disseste-o na primeira aula.
-E lembras-te disso? – Perguntou ele, surpreendido. – Foi há tanto tempo!
Ela sorriu e, tendo acabado a experiência, pousou os olhos em Mari e Eiji. Ryo fez o mesmo e finalmente percebeu a razão de tanto riso por parte de Linda.
-Com mil raios… - murmurou ele, tentando controlar uma gargalhada.
-Já viste?
-Ya. Ele é sempre assim tão…
-Picuinhas? Sim – respondeu ela.

Eiji parecia que ganhava cabelos brancos em todas as aulas de Química. A atitude descontraída de Linda num laboratório punha os seus nervos em franja, visto ele querer sempre fazer tudo exactamente como o professor dizia… e devagarinho. Já Linda ignorava as regras e fazia tudo à sua maneira. Ou seja, rápida e pouco subtil. Claro que ela nunca falhara uma experiência por causa disso, mas Eiji nunca perdia vontade de a massacrar durante uma aula inteira só porque ela agitava o tubo de ensaio muito depressa.
Agora com Mari a história era outra. Mari não tinha jeito nenhum para Química e, se a descontracção de Linda dava a Eiji vontade de lhe tirar a solução da mão, a Mari dava vontade de a esganar.
A loira, irritada com o comportamento do amigo, lançava-lhe um olhar de morte de cada vez que ele interferia. Mas Linda e Ryo divertiram-se a admirar as caretas de Eiji sempre que Mari tinha o trabalho deles nas suas mãos pouco cuidadosas.
-MARI! Era suposto isso ficar azul! – Disse Eiji, num tom bem audível. Mari ficou vermelha. Eiji não ficou melhor.
-Senhor Yamamoto, Menina Nakamura, aconteceu alguma coisa? – Perguntou o professor, apesar deste já saber o que tinha acontecido.
-Ah… nada professor.
O toque da campainha salvou Eiji de dar uma boa explicação ao professor, que os obrigou a limpar a sala antes de saírem. A seguir era hora de almoço e Mari dirigiu-se para o refeitório, com Cecília a correr atrás. Normalmente comiam sozinhas, mas naquele dia alguém tinha que acalmar a loira.
Linda pegou na pasta e foi ter com o namorado, que já estava no corredor. Este olhou para ela, como se esperasse algo.
-Vai. Podes rir-te da figura de idiota que fiz.
-Mas tu já és um idiota. – Comentou ela, num tom natural.
-Tens problemas com isso? – Ele chegou-se perto dela, agarrando-a pela cintura. Ela sorriu e beijou-o nos lábios, colocando os braços em volta dos ombros dele. Prolongaram o momento até que ela se afastou:
-Não. Há sempre pior. Além disso, é assim que eu gosto de um homem. Com uma inteligência inferior à minha.
-Tu e todas as outras. Mas também, tu já tens uma inteligência maior que toda a escola
-Não exageres!

Juntos dirigiram-se para o seu canto atrás da escola. Como tinha chovido no dia anterior, Eiji encontrou à socapa no armário dos Perdidos e Achados e pegou numa manta laranja velha e estendeu-a no chão.
Sentaram-se e começaram a comer os seus almoços, trocando rebuçados de mentol e falando disto e daquilo. É normal nos casais haver sempre muitos tópicos de conversa, principalmente quando eles são amigos. Podem falar de cultura, desporto, escola, amigos, família sem que o outro se aborreça. Sabem aquilo que podem falar e até onde podem falar. Em Linda e Eiji as coisas não eram diferentes. Verdade que havia alturas em que agiam mais como amigos do que como namorados, mas isso era apenas o hábito. Afinal, ele fora o primeiro amigo dela no exterior e ela fora a primeira rapariga com quem ela tivera uma longa conversa em toda a sua vida.
Aquilo que os fazia distinguir da relação amizade da relação amorosa eram os olhares incessantes que trocavam um com o outro e os beijos dos quais, tal como a conversa, nunca se cansavam.

Faltavam vinte minutos para tocar e Linda lia “Gone with the wind” [1], que a professora de inglês obrigara a turma inteira a ler. A descontracção dela enquanto os seus olhos saltitavam por entre as linhas em inglês, emitindo um pequeno brilho por detrás dos óculos faziam-no sorrir. As pernas dela estavam de lado, a saia deixando parte das pernas desprotegidas. No entanto, ela não se mexia, nem de frio, nem de incómodo. Parecia tão absorvida no livro que ele deu-se por si a aproximar-se dela discretamente.
-Se fosse a ti afastava-me. – Disse ela, sem tirar os olhos do livro.
-Porquê? – Perguntou ele, inocentemente, sem tirar os olhos de cima dela.
-Sabes muito bem do que falo…
-Ilumina-me – desafiou ele, dando um pequeno salto para cima dela. Ela mal teve tempo para pôr o livro de lado e já estava por debaixo dele. Eiji tirou-lhe os óculos e tomou a boca dela, mal dando-lhe tempo para reagir. A boca dela ainda sabia a mentol. Mordeu o lábio inferior dela enquanto as suas mãos procuraram as suas ancas.
Ele pôs a mão no cabelo dela, habito que ganhara desde o primeiro beijo. Linda suspirou e deixou-se levar por aquela sensação quente e confortável que o namorado lhe dava.
-hum hum – ouviu-se o clarear de uma garganta. Eiji afastou-se de Linda à velocidade da luz para os dois fitarem a professora de inglês. Esta abanava a cabeça, como que se estivesse desapontada.
-Quem diria… quem diria… venham os dois comigo até ao gabinete da Directora JÁ! – Ordenou, apontando o dedo para a porta. Os dois jovens levantaram-se, ambos com as caras vermelhas e seguiram a professora até ao gabinete da professora que, infelizmente, se situava no outro lado da escola. O que queria dizer que Linda e Eiji tinham que suportar uma demorada caminhada silenciosa onde a professora de vez em quanto mandava olhares furiosos para os dois, querendo se certificar que eles a seguiam. Linda não se atreveu a olhar para o namorado de tão envergonhada que estava.

Entraram no gabinete da Directora, que estava sentada atrás da sua secretária remexendo nalguns papéis. Ergueu os olhos quando os viu entrar:
-Que aconteceu? – Perguntou à professora.
-Estes dois andaram a fazer indecências lá atrás.
A Directora mirou os dois jovens, tão vermelhos como tomates. Eiji olhava para o lado e Linda apreciava um grão de pó no chão.
-Ai sim? Que têm a dizer em vossa defesa? – Perguntou aos dois. Linda ergueu a cabeça e tentou falar:
-Não estávamos a fazer nada de mal.
-Ai não? – Interrompeu a professora, furiosa. – E então aquilo que eu vi? Se aquilo era indecências.
-Eu estava apenas a beijá-la! – Disse Eiji. – Penso que é isso que os namorados fazem. Além disso, nem estávamos num sítio público.
-Pior…
-Não! – Cortou a Directora, elevando o tom de voz. – Se eles estavam apenas a ’namorar’ num sítio discreto, não estou a ver o problema. Contando que eles não exagerem. – Aí a Directora semicerrou os olhos para os dois jovens, como quem dá um aviso. – Penso que a vergonha que passaram foi castigo suficiente. Mas atenção! Juizinho, que isto é um estabelecimento de ensino bem sério. Alguma falha e eu telefono aos vossos pais.
-Sim senhora Directora! – Disseram os dois em uníssono.
-Mas Directora…
-Podem sair. – Disse a Directora, dispensando os jovens, que não demoraram a abrir a porta e a sair, anda conseguindo ouvir a Directora dizer:
-Querida, não se preocupe com eles. Já sabe como são os jovens de hoje…

**
-Foi por pouco! – Murmurou o rapaz, suspirando de alívio.
Linda fitou-o com os olhos semicerrados.
-E de quem é a culpa?
-Oh vá lá. Não te queixaste quando eu te beijava.
-Não me deste hipóteses de fugir.
-E se te desse fugirias?
Ela reflectiu por uns momentos.
-Sim. – Respondeu num tom natural.
-Como? – Disse Eiji, surpreendido com a resposta da namorada.
-Até parece que não te conheço. Sei que tu gostas de fazer coisas ‘indecentes’.
-Bem... na escala de um a dez é apenas um oito. – Ao ver a cara furiosa da namorada, acrescentou. – Que queres? Sou homem!
-Um homem com uma fornalha nas calças. – Murmurou ela, ao mesmo tempo que soava o toque de entrada. Linda pegou nas suas coisas e dirigiu-se para a sala, deixando o namorado atrás. Eiji apenas teve tempo para sussurrar “mulheres…” antes de a seguir.

**
O telemóvel de Linda vibrou a meio da aula de Língua Japonesa. Aproveitando o momento em que a professora estava virada de costas para a turma, pegou no telemóvel e viu a mensagem. Era de um número desconhecido:

Olá, Li. Não sei se tas em aulas, por isso achei melhor mandar SMS. Eu e a Naomi vamos passar pela tua casa por volta do dia 27. Temos coisas para te dizer. Fica atenta. Seiji.

Esta é nova, pensou Linda. Fazia algum tempo desde que tivera notícias dos seus dois amigos do Palácio. Trocava alguns emails com Naomi, mas Seiji parecia ter desaparecido do mapa. Estranho, receber noticias assim de repente.
Mais estranho ainda era a mensagem. Porque motivo, iriam eles avisar que iriam passar por casa dela no dia 27? Mais ainda, o que teriam para lhe dizer?

A pergunta pairou na sua cabeça durante todo o mês, enquanto as aulas prosseguiam sem problemas. Kenji e Setsu entraram em época de exames, o que tornou difícil qualquer encontro. A neve começou a derreter, apesar de o céu continuar nublado e os bons ânimos do Carnaval chegaram a Tokyo. Dividindo o seu tempo entre os amigos e os estudos, Linda chegava a ter pouco tempo para pensar nos seus deveres de navegante. Infelizmente, Mari ia pelo mesmo caminho. Após o Ano Novo, parecia extremamente empenhada nos estudos e noutras coisas que a punham sempre ocupada, sem tempo para pensamentos extras. Apenas Cecília conseguia arranjar tempo para preparar um plano, enfim qualquer coisa para darem um passo em frente ao de Dawson. Mas sozinha não conseguia resultados. A única coisa que sabia era que algo estava a pô-la muito feliz. E não eram as Flores já conquistadas.

O dia vinte e sete chegou e passou e Linda começou a ficar preocupada. Não era hábito de Seiji faltar a um encontro marcado e muito menos de sem sequer avisar com antecedência. Tentou mandar SMS para o número dele e tentou falar com Naomi numa sala de conversação, mas não teve sorte. Tanto um como outro tinham desaparecido. Restava a ela esperar.

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[1] E tudo o Vento levou. Nunca o li, mas falam tão bem desta história…


Última edição por AnA_Sant0s em Ter 23 Nov 2010, 09:27, editado 1 vez(es)

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Ter 23 Nov 2010, 09:21

E chegou o dia catorze de Fevereiro, dia de S. Valentim, e todas as jovens esperavam ansiosamente pelos cartões, flores ou bombons dados pelos seus namorados ou amigos. Mas o dia catorze, apesar de apenas ser celebrado a partir do momento em que um adolescente se levanta da cama, pronto para começar um novo dia, começava a partir da meia-noite.

Duas horas depois de o soar dos relógios de Tokyo, o dia tinha começado para Linda Natsumara. Um dia que não era o dela…

**

Ela subiu as escadas de mármore apressadamente. Já estava atrasada. Amaldiçoou o trânsito que a impediu de chegar cedo, pouco antes de atravessar a porta central da faculdade. Um funcionário limpava o chão alheadamente com a esfregona, deixando-o brilhante e húmido. Ela, de tão apressada que estava, nem prestou atenção a esse detalhe, escorregando.
A queda foi forte. Mas mais forte ainda foi a queda do seu ego quando ouviu um familiar riso masculino à sua frente.
Oh não. Ele não!
-Grande queda, hã Chiba [2]? – Gozou o rapaz loiro que estava mesmo à sua frente, gozando o melhor momento da sua vida.
-Vai ver se eu estou na esquina! – Retorquiu ela, erguendo-se do chão duro e molhado.
-Porque é que achas que eu estou aqui? Vim saber por onde andavas.
-Que querido… - murmurou ela, com sarcasmo profundo. – Não devias estar nas aulas?
-Sabes muito bem como as aulas não funcionam bem sem ti, coelhinha!
-Não me chames coelhinha! – Reclamou ela, elevando o tom de voz. O rapaz parecia já estar à espera disso, pois o seu sorriso não diminuiu nem um pouco. Foi aí que ele notou em algo.
-Ora essa… foste ao corte!
-Vai bugiar.
-A sério… Que fizeste aos totós?
Ela desviou o rosto, incomodada. Foi aí que se lembrou que estava atrasada para a aula.
-Oh raios partam. Já estou atrasada.
-Para não variar. – Murmurou ele, e braços cruzados e um sorriso trocista. Ela ignorou-o e correu para a sala de aula, onde o professor circulava por volta das mesas, onde vários estudantes pintavam uma simples jarra vermelha.
-Peço desculpa pelo atraso, senhor Sagahara.
O professor sorriu e, com um leve aceno de cabeça, mandou-a entrar. Mal ela pôs os pés dento da sala de aula, o rapaz entrou a seguir.
-Desculpe o atraso, professor.
-Que não se volte a repetir, senhor Natsumara. – Reprimiu o professor, com os seus cabelos loiros já a mostrar algumas brancas.
Edward sorriu e sentou-se ao lado de um ruivo, mesmo atrás da rapariga, que estava a lado de uma morena.

A turma continuou a aula, desejando vários objectos inanimados com caras e outros detalhes que não se costuma ver na vida real. Detalhes da imaginação, que varia em cada um.
A certa altura, um papel voou para a carteira da rapariga. Foi a morena que o apanhou:
-Usagi, o Edward ‘tá-te a mandar papéis.
-Diz-lhe para ele os enfiar no…
-Vá lá responde-lhe! Olha que ele apenas tem boas intenções.
Usagi suspirou pesadamente, não tirando os olhos do seu desenho.
-Não tenho paciência. Ele tira-me do sério.
A morena sorriu amavelmente. Outro papel voou para a carteira das duas.
-Olha-me este… - reclamou Usagi.
-Ao menos vê os papéis. – Sugeriu a morena, voltando-se para o seu desenho.
Usagi, rendida, pegou no primeiro papel, enquanto a morena chegou-se perto dela para ver o desenho.
O papel de linhas mostrava um coelho cor-de-rosa a saltitar em campos verdes cheios de cenouras intocadas pelo animal. O coelho tinha olhos vermelhos e uma cara aterradora, com os bigodes transfigurados, os olhos tortos, o focinho laranja em vez de vermelho, as orelhas no ar, todas tortas e tinha uns dentes amarelos que mais lhe davam um ar de Frankenstein do que um coelho da Páscoa.
Por cima, uma ‘legenda’: É o que dá a Coelha [2] não comer verduras.

Usagi sentiu o sangue a subir-lhe à cabeça de tanta raiva que sentia. Já a morena não aguentou. O som das suas gargalhadas ecoou por toda a sala, atraindo a atenção de toda a turma e do professor:
-Passa-se alguma coisa, menina Andou? – Perguntou o professor Kentaro, aproximando-se da mesa das raparigas. Usagi escondeu o papel rapidamente, enquanto a morena ficou vermelha de vergonha.
-Ah... nada professor. Foi apenas um detalhe do desenho da Usagi que me fez rir.
Tentando parecer que a história da colega era verdadeira, Usagi pegou na borracha e apagou uma linha pouco importante do seu desenho.
Kentaro não pareceu acreditar na história da rapariga, pois os seus olhos saltaram de Usagi para Edward, que sorria descontraidamente na mesa de trás, como se nada daquilo tivesse a ver com ele. Sem provas do contrário, Kentaro desistiu:
-Não se descuidem. A arte é uma coisa séria! Desenhem linhas rectas em várias direcções, juntem isso aos círculos, formem um objecto por via abstracta. Pela vossa via abstracta.
E continuou a circular pela sala, enquanto Usagi deitava um olhar furioso no colega. Já a morena começava a perder o rubor na face:
-É bem-feita Misaki. Para a próxima, não gozas comigo – sussurrou Usagi.
-Que queres? Tem piada. Dá-lhe uma oportunidade.
-NUNCA! – Silvou furiosamente a outra, os olhos bem abertos. – Se quiseres fica tu com ele.
Misaki sorriu.
-Acredita que há muitas aqui que bem gostariam de ficar com ele. Mas o Eddie só tem olhos para ti.
-Eddie? Por favor, não me digas que já o tratas dessa forma.
-Eu não o trato dessa forma.
Usagi semicerrou os olhos. Misaki soltou uma silenciosa gargalhada.
-Ele pede para ser tratado assim, que quereres…
-Ele também pede a todos para me tratarem por ‘coelha’ e não me vais dizer que eu tenho que concordar com isso.
-Usa, mas tu és coelha. Tanto pelo nome como pelo penteado… por falar nisso. – Misaki olhou para o penteado da amiga, como se o visse pela primeira vez. – O que raio fizeste ao cabelo?
-Cortei-o.
-Novidade. Mas porquê? Tinhas um cabelo tão bonito.
Usagi mordeu o lábio, ponderando na resposta.
-Não sei porque te importas. Até parece que não cresce de novo. Aliás, na minha família os cabelos crescem bem depressa. Há alturas em que a minha mãe mais parece a Rapunzel do que outra coisa.
-E o teu cabelo está todo encaracolado porquê?
Usagi ergueu o sobrolho, como se lhe tivessem perguntado se dois mais dois eram igual a quatro.
-Porque é assim, ora essa. Se eu retirar os odangos, o meu cabelo é encaracolado. Nem sei onde fui buscar isso, os meus pais têm cabelos lisos.
-Ainda assim não estou a ver porquê é que o cortaste. – Comentou a morena, desenhando uns lábios grossos na sua jarra.
Usagi ia responder, mas Misaki foi mais rápida.
-Não queres é que o Eddie goze com o teu penteado, é isso?
-Hum hum… - confirmou ela, traçando umas linhas a negro no seu desenho, que começava a ter uma forma rectângula, apesar de a jarra ser circular. - Até queria pintar de ruivo, mas a minha mãe disse que me deserdava se o fizesse. Pedi ajuda ao meu pai e ele, não só concordou com a mãe, como disse que ele próprio me voltava a pintar o cabelo, desta vez com um rosa mais forte.
-Coitada. Os teus pais têm um grande amor ao teu cabelo…
-Não é amor. Apenas acham que eu não devia ir abaixo com bocas foleiras. E é verdade! Nunca fui.
-Até que conheceste o Eddie… – Murmurou Misaki, sem tirar os olhos do desenho. Pelo canto do olho, viu que a amiga voltara a semicerrar os olhos com força, sinal que ficou ‘ofendida’ com o comentário. No entanto, não respondeu à provocação.

-Pára quieta!
-Só tu para estares a desenhar a esta hora do dia. – Reclamou Misaki, mexendo as pernas estendidas na relva verde. Estavam as duas sentadas no pequeno parque em frente ao Pólo Universitário e Usagi desenhava a amiga a carvão, com o bloco por cima das suas pernas cruzadas. – E ainda por cima a mim.
-És uma boa modelo. – Respondeu a outra alheadamente, sem tirar os olhos do desenho – não mexas o queixo!
Misaki suspirou, enquanto observava a paisagem. O sol ia alto, sinal de que o meio-dia já tinha chegado. Tinham estado no parque cerca de duas horas.
-Amanhã queres sair? – Perguntou Usagi.
-Sair aonde?
-Ao shopping. A Hotaru vem connosco.
-Não achas estranho a tua melhor amiga ter quase o dobro da tua idade?
-Até podia. – Mudou de posição, ficando mais próxima da companheira. Ergueu o lápis, de modo a ter uma percepção da escala do queixo e prosseguiu o seu trabalho. – Mas já estou demasiado habituada para reclamar.
-Quem vai mais?
-O Benjamin, a Guinevere e o Edward.
Misaki ergueu o sobrolho, divertida.
-Três ingleses?
-Yup. O Benjamin é o namorado da Hotaru, o Edward o melhor amigo dele, a Guinevere…- Aí, Usagi hesitou, voltando a sua atenção para o desenho, fingindo que nada se passara.
-Que tem ela? – Perguntou Misaki, curiosa. Mexeu-se um pouco, querendo descansar os músculos.
Usagi parou de desenhar e fitou a amiga. Havia algo de sombrio nos seus olhos vermelhos:
-Ela é estranha. Tem qualquer coisa nela que…
-Que o quê?
Tal pergunta funcionou como estimulo para Usagi, que ‘acordou’ do seu transe.
-Nada. Não se passa nada.
-Não foi essa a minha pergunta. – Misaki levantou-se e sentou-se junto da colega. – O que é que ela tem?
Usagi olhou nos olhos da amiga e reflectiu. As suas suspeitas não eram daquelas que se contassem a qualquer um. Principalmente a Misaki, que nada tinha a ver com aquilo.
-Ela prefere que a tratemos pelo apelido. – Respondeu por fim. Misaki percebeu que estava tudo dito naquele momento e decidiu não insistir. Mas a curiosidade que sentia era demasiado forte para ser ignorada:
-Qual apelido?
-Dawson.

Ao longe, ouviu-se um assobio. Edward passava descontraidamente pelas ruas com um braço a segurar cadernos e um grande livro, o outro no bolso.
As duas raparigas olharam para ele curiosamente. Usagi bufou de impaciência e voltou ao seu desenho, mas estava tão desconcentrada que não conseguia acertar em nenhuma linha. Misaki viu Edward entrar na porta central da faculdade cujo nome ela não conseguia ler dali.
-O que está ele ali a fazer? – Perguntou à colega, sem tirar os olhos da entrada.
-A estudar. Não sei como, mas ele está a tirar Artes e Relações Públicas ao mesmo tempo.
Misaki piscou os olhos, surpreendida.
-Como é que é possível. Nós já nos vimos lixadas para lidar com um único curso e ele ainda consegue tirar dois?
-Pelo que ouvi dizer, ele não tem as cadeias todas nesse curso e no de Artes também. Explica como é que ele consegue comer e dormir.
-Uau, ele deve ser o Super-Homem ou algo do género.
-Nem uma coisa nem outra. – Usagi levantou os olhos do bloco para a entrada. Sorriu maliciosamente e depois levantou-se, sacudindo as roupas.
-Onde vais? – Perguntou Misaki, levantando-se também.
-O inglês deu-me cabo da aula, então eu também vou dar cabo da dele. – E correu para a entrada, seguida pela morena, que a chamava atrás.

Percorreu os corredores do instituto até encontrar uma porta aberta, que mostrava um auditório com, pelo menos, uma centena de estudantes, Edward incluído. O professor citava um livro e, de vez em quando, virava costas para escrever algumas frases no quadro. Usagi sorriu e entrou sorrateiramente, passando despercebida.
-Usa, que vais fazer? – Sussurrou Misaki da soleira da porta. Usagi pôs o dedo nos lábios e prosseguiu até às carteiras dianteiras, onde se encontrava o loiro inglês. Ninguém notou na jovem de cabelos cor-de-rosa a rastejar por entre mesas até que parou junto de um estudante que apontava tudo aquilo que o professor dizia, apesar de os seus olhos estarem vidrados do sermão cansativo do homem. Do outro lado, Misaki estava tão nervosa que começou a roer as unhas.

Ela estava agora junto à cadeira dele e ia anunciar a sua presença quando ele a viu. Os seus olhos castanhos brilhantes abriram-se em surpresa:
-Coelhinha! – Gritou ele, atraindo a atenção dos outros, incluindo o professor. Alguns alunos notaram na rapariga e começaram a sussurrar, sem no entanto a denunciar. No seu esconderijo, Usagi ficou vermelha que nem um tomate.
O professor ergueu o queixo, perguntando silenciosamente o que se passava. Edward fingiu-se atrapalhado e envergonhado e pediu ao professor que continuasse a lição. Este semicerrou os olhos, mas acabou por prosseguir a aula. A atenção da turma estava agora centrada tanto no professor, como em Edward que se sentara no chão, junto a Usagi. Esta fitava-o furiosa. Grande mentiroso, pensava. Ela nunca conseguira mentir daquela forma. O pai apanhava-a por mais que tentasse e isso fez com que ela deixasse eventualmente de mentir. Agora nem para salvar a vida conseguia enganar os outros. Mas claro que Edward não tinha problemas com isso.
-Parvo! Tens que chamar as atenções? – Sussurrou ela furiosamente. Ele esboçou um sorriso, que se estendeu até às orelhas.
-Oh Coelhinha. Vieste visitar-me? Que querida!
-Não gozes. Vim aqui humilhar-te.
Edward ergueu o sobrolho, ao mesmo tempo que se acomodava, cruzando uma perna junto ao tronco e deixando a outra esticada.
-Ai sim? E como isso está a correr? – Perguntou, o com o seu sorriso mais sedutor. Usagi perdeu a voz. De facto, era suposto ela estar a humilhá-lo, mas acabara por ser o contrário. É sempre o contrário, pensou para a sua consciência.
-Eu…
-Admite que vieste cá só para me ver.
Ela corou violentamente.
-Nunca!
-Shh. – Ordenou alguém nas carteiras de frente, provocando um pequeno salto nos dois, que bateram com as cabeças na mesa, apanhados de surpresa. Usaram todas as suas forças para não gritarem de dor. Os outros de trás riram-se silenciosamente. Ele passou a mão pelo sítio onde batera e, ignorando a dor, aproximou-se mais dela.
-Admite. – Ordenou ele, sussurrando na orelha dela.
-Para isso tens que parar de me chatear para o resto da tua vida.
-Lamento, mas não posso fazer isso.
Ela ergueu o sobrolho, irritada.
-Porquê? Divertes-te assim tanto?
Ele sorriu amavelmente, deixando-a desconfortável.
-Um pouco. Mas também não posso ignorar os meus desejos.
Ela sentiu um rubor nas bochechas e de repente desejou ter apanhado o cabelo, devido ao calor que sentia.
-Aí sim? E o que desejas neste momento?
Ele não respondeu logo. Invés disso fitou-a. Os olhos cor de brandy brilhavam como pequenos sois, destacando-os naquele rosto atraente. Usagi tinha que admitir, mas Edward Natsumara era um pedaço de mau caminho. Corpo esbelto, olhos expressivos, feições angelicais e voz sedutora, para além de se engraçado, esperto e bem fácil de conversar.
Agora que se recordava, ela não tinha nenhum motivo sério para vir, a não ser vê-lo. Tinha que admitir. Ela queria vê-lo.
-O que mais desejo neste momento… - sussurrou ele, tão baixo que ela mal ouviu. – É beijar esses lábios que nunca estão selados.
Ela não o impediu de se aproximar, os seus lábios prontos a roçar nos dela.
-E como eu estava a dizer… - A voz do professor aumentou o tom. Um aluno tinha-lhe posto uma dúvida e, após esclarecida, estava pronto para continuar a lição. Mas falara tão depressa que assustara os dois jovens debaixo da mesa, que se separaram antes que os lábios tivessem o prazer de se unirem. Ele, pela primeira vez, parecia embaraçado. Levantou-se e sentou-se na sua cadeira, tentando apontar aquilo que o professor dizia. Usagi, incapaz de dizer alguma coisa, afastou-se dele e saiu da sala tão sorrateiramente quanto entrara.
Ao chegar à porta, pensou naquilo que sentira. Estivera quase lá… quase lá. Raios partam o professor que o impedira de a beijar. Mas também… quereria ela que ele a beijasse? Talvez... ou melhor, sim. Ela queria que ele a beijasse. Podia não suportar estar ao lado dele, mas não podia negar a atracção que sentia.
Raios partam, amaldiçoou. Era mesmo pouca sorte. Estava tão perto. Oxalá mais nenhuma rapariga passasse por esta ansiedade de receber um beijo de um homem, para que depois este nunca se concretizasse. [4]
Procurou por Misaki, que não estava na porta e foi encontrá-la encostada à parede, com um homem a dar-lhe um sermão. Um professor da faculdade.
Aflita, Usagi correu em socorro da amiga.
-Peço desculpa, senhor, mas é que nós… - parou quando o homem se virou para ela. Conhecê-lo-ia em qualquer lado. – Hiróito?
O homem olhou-a desconfiado. Quando finalmente a reconheceu, sorriu.
-Olá Usagi. Penso que é esse o teu nome. – Acrescentou, um pouco confuso.
-E é. – Usagi soltou uma gargalhada, aliviada. Afinal não estavam em tantos sarilhos como imaginavam. Atrás do homem, Misaki fitava-a aterrorizada. – Misaki, este é um amigo do Benjamim, Hiróito Tamura.
-Ela é tua amiga? – Perguntou Hiróito, olhando para a morena com os seus olhos castanhos escondidos atrás de óculos rectangulares, que corava um pouco.
-Sim, chama-se Misaki Andou.
-Prazer. – Cumprimentou a morena. – Como o conheces?
-Como ouviste, é um amigo do Benjamin e foi assim que nos conhecemos. És professor cá?
-Não, mas tenho uma colega que o é. Vim cá deixar-lhe um recado. Eu trabalho o na faculdade de Arquitectura, como professor.
-O que dá? – Perguntou Misaki, sempre curiosa.
-História da Arquitectura Antiga. Não é a cadeia mais famosa, mas tenho sempre bons alunos. Mas estamos a mudar de assunto. Que fazem as duas aqui?
Usagi e Misaki entreolharam-se, atrapalhadas.
-Viemos… ver o Eddie. – Disse Misaki, apanhando a amiga de surpresa ao contar a verdade.
-O Edward? Mas ele não está em aula? – Hiróito deitou um olhar na sala por onde Usagi tinha saído, desconfiado. Esta corou e nada disse, não confiando em si própria para responder. – É melhor vocês irem. – Sugeriu ele, ao ver o modo como as duas estavam.
-Ah… nos vemos no sábado? Digo, nós vamos sair… – Perguntou Usagi.
-Eu sei, o Ben convidou-me. Mas não sei, tenho muito que fazer.
-Espero que vás. És sempre melhor companhia que outras pessoas… - Murmurou Usagi entre dentes. Misaki perguntou-se de quem ela falaria.
-Talvez. E vais só tu? Não ficas desconfortável?
-Porque ficaria?
-Porque és a única com dezanove ali no meio. [5]
-A Guinevere também vai. E a Misaki… - Usagi virou-se para a amiga. – Não me chegaste a dizer se vinhas ou não.
Os olhos dourados da morena saltaram da amiga para Hiróito, que a fitava atentamente. Suspirando levemente, respondeu:
-Vou sim. Penso que será divertido.
Usagi e Hiróito sorriam.
-Excelente! Sendo assim, Hiróito és o único que não vai e isso seria mau. Vê se te decides.
Ele suspirou.
-Vou ver o que posso fazer. É melhor vocês irem. Adeus e até à próxima. Espero não vos voltar a ver aqui – Despediu-se virando a esquina. As duas jovens seguiram a direcção contrária, para a porta central. Ao atravessarem o parque, foram falando dos detalhes da noite que viria aí, e do encontro de Edward com Usagi. Esta falara no ‘quase-beijo’, mas não se atreveu a revelar detalhes. Sabia que Misaki ainda não compreenderia o que se passava. Aliás, só a sua mãe e Hotaru é que a entendiam nestes assuntos.

Chegaram à sua faculdade, onde Misaki se lembrou de uma dúvida que tinha para falar com Kentaro. Aproximaram-se da sala onde sabiam que ele tivera aula cinco minutos antes e espreitaram pela porta. Dentro, Kentaro falava com um grupo de adolescentes, que não devia ter mais do que doze anos, apesar dos exagerados tamanhos dos rapazes. O mais alto, filho do professor falava com o pai alegremente, enquanto os amigos escutavam, alguns com interesse, outros a contar os minutos para sair dali. Por vezes Kentaro falava para os outros dois rapazes ou para as duas raparigas do grupo, que sorriam timidamente e respondiam em sussurros.
Ao ver as suas estudantes na entrada, Kentaro tratou-se de se despedir do filho e dos amigos dele. Estes abriram a porta e saíram, obrigando as mais velhas a afastarem-se para eles terem caminho. Iam elas a entrar quando, de súbito, uma corrente de electricidade percorreu o corpo das duas. Deixaram-se ficar no mesmo sítio, enquanto Usagi tentava identificar a fonte. Ao olhar para o grupo dos jovens, as energias aumentaram. A fonte vinha dali. Quando uma das raparigas parou e se virou para elas, elas sabiam que ela também sentira o mesmo. A rapariga, com os seus cabelos loiros soltos até aos cotovelos, olhava aterrorizada para elas, como se não conseguisse explicar o que acontecera. Misaki tinha um semblante parecido. Apenas Usagi tinha uma pequena ideia do que acontecera. Não pode ser, não é possível…
-Hei Ju! Vens ou não? – Perguntou o filho do professor Kentaro, chamando a amiga de longe. Esta acordou do transe e tratou de seguir os companheiros, deixando Usagi e Misaki a olhar para a porta por onde ela saíra, estáticas.

Que tinha acontecido. Porque raio tinham elas sentido aquela sensação de… conforto? Quem seria aquela rapariga?
-O que aconteceu? – Perguntou Misaki num sussurro, ecoando uma das outras perguntas de Usagi. Ao olhar para a amiga, percebeu que tinha muito que lhe explicar.

**
Linda sentiu o sono a desaparecer, mas não se deixou acordar. Com o controlo total da mente, tentou descansar a mente depois de tão exaustivo sonho. No entanto, ainda vinha mais. Não sabendo ela ignorar tais sonhos, a única coisa que pôde fazer era deixar-se levar…

**
No parque no centro de Tokyo, Hotaru suspira impacientemente, com as mãos nos bolsos. Ao seu lado, Usagi não desviava os olhos da pequena criança loira que brincava na caixa de areia do parque, divertido com o seu barquito vermelho.
-Quando é que a Misaki disse que vinha? – Perguntou Hotaru. Usagi encolheu os ombros.
-Ás três. – Respondeu.
-Já são três e meia.
Usagi sorriu.
-Já aturas os meus atrasos desde que eu nasci, mas ainda assim não toleras que a Misaki se demore.
-Não quando eu tenho coisas para fazer…
Usagi abanou a cabeça.
-És sempre a mesma. KENJI, NÃO COMAS ISSO! – Gritou para o menino, que deixou cair o pedaço que terra que ia pôr na boca. Ao ouvir o tom irritado da mãe, começou a soluçar. Esta apressou-se a pega-lo ao colo.
-Oh querido. Pronto, não chores.
-Decupa mama - disse o pequenino por entre pequenas lágrimas que caíam dos seus grandes olhos azuis-escuros brilhantes pelas suas bochechinhas rechonchudas. A mãe sorriu. Como poderia ela resistir a aquela linda criança?
-Pronto, pronto. Está tudo bem. Mas ficas a saber que não podes comer o que vem do chão. Faz-te mal e tu não queres ficar doente, pois não Kenji?
O pequeno abanou a cabeça em resposta. Vendo que a mãe já não estava zangada, tentou libertar-se, a fim de pegar no seu barquito. A mãe largou-o no chão e ele andou a curta distância até à caixa de areia, onde o seu barquito esperava por ele, semienterrado na areia.
-E pensar que crescem tão depressa. – Comentou Hotaru, ao ver o brilho nos olhos da amiga. Esta, automaticamente, pôs a mão no ventre, onde ela sabia que uma menina se formava. Tanto ela tinha insistido ao marido em descobrir o sexo desta criança. Mais porque ela não queria esperar os nove meses da gravidez, tal como fora com o primeiro filho. Dizia o seu pai “que a filha dera em louca de tanta curiosidade”. E agora ela sabia. Uma menina. A menina que ela sonhava ter desde pequenina, tal como a sua mãe. A sua pequena Linda.

Ao longe, surgiu uma mulher morena, a empurrar um carrinho de bebé. Ela sorriu ao ver as amigas:
-Bom dia.
Usagi abraçou a amiga, que retribuiu o gesto.
-Oh, Misaki, que saudades.
-O mesmo digo-te eu. – Soltaram-se e Misaki abraçou também Hotaru. Ao longo do tempo, tinham-se tornado grandes amigas, e mais devido ao facto de partilharem a mesma melhor amiga. – Que bom voltar a ver-te Hotaru.
-É. Já se fazem uns meses. – Hotaru lançou um olhar para o carrinho, onde uma recém-nascida repousava, as suas bochechas ainda cor-de-rosa. – É esta a tua filha?
-É. Esta é a Cecília. – Respondeu Misaki, orgulhosa. – E onde está o Kenji?
-Está ali. – Usagi aproximou-se do pequeno e, beijando-lhe a face, disse: - Anda ver a tia Misaki.
-Hu? – Disse Kenji, completamente alheio ao que a mãe disse.
-Eu disse, anda ver a tia Misaki. Ela vem com a filha, a pequena Cecília.
-Ce..sis.s.
-Cecília – repetiu a mãe, sorrindo para as tentativas do filho em dizer o nome da bebé. -Cessiliie. – Disse o pequeno e, acreditando ter falado correctamente, sorriu todo confiante para a mãe, que soltou uma gargalhada, que se espalhou pelas outras adultas.
-Cecily? Gosto do nome. – Comentou Misaki, deitando um olhar na filha, ainda adormecida no meio de cobertores cor-de-rosa.
-Não me digas que vais passar a chamar isso à miúda?
-Quanto apostas? Foi o Hiróito que escolheu o nome. Eu escolho a forma como ela é tratada.
Usagi, ignorando as pequenas birras do filho, pegou-lhe ao colo e levou-o para junto as amigas.
-Estás a ver? – Perguntou ao filho, olhando tanto para ele como para a pequena. – Esta é a Cecília. Pode vir a ser tua amiga e amiga da tua irmã.
-Mana? Mana Li! – Gritou o pequeno, contente por falarem de algo que ele já sabia. Afinal, os pais fartavam-se de falar na sua maninha que chegaria dentro de cinco meses.
-Mana Li? – Perguntou Misaki. – Como assim?
-Sabes como ela é maluca pelas histórias da Linda O’Connell. Quer dar o nome da escritora à filha. – Respondeu Hotaru, provocando uma careta na amiga.
-Mas que maluca mesmo! O Eddie deixa-te?
-Ele tem muito que reclamar. Sou eu que os carrego durante os nove meses, não tem nada de que queixar.
-Oxalá tivesse feito o mesmo. Mas como a Cecília nasceu com pouco do Hiróito, achei melhor dar-lhe alguma alegria.
-A miúda não tem nada dele?
-Não sei. Pode ter os olhos. Mas ainda estão azuis. Temos que esperar para ver. De resto, ela é a minha cara.
-Dá para ver. – Comentou Usagi, olhando para a pequenina, que agora bocejava, colocando o pequeno punho cor-de-rosa na boca e, em seguida, chuchou o dedo.
-É tão adorável.
-É. Posso segurar no teu menino? – Perguntou Misaki, abrindo os braços para o rapaz. Este olhou-a desconfiado e abanou a cabeça para a mãe.
-Não sejas tão desconfiado. A Misaki não te faz mal. – Usagi passou o filho para os braços da morena, que o recebeu um pouco mal.
-Caramba, está crescido. – Comentou, enquanto o segurava firmemente. – E está tão parecido com o Edward e com o teu pai.
-Como será isso possível? – Murmurou Hotaru.
-Pela mesma forma que os meus pais são loiros e morenos e eu tenha cabelos rosa.
-Que voltaste a cortar, pelo que estou a ver.
-Oh Misaki, só tu para notares nisso. Fora tu, apenas o Edward repara.
-Não é ele que adora o teu cabelo comprido?
-Sim, mas decidi variar. Quando estive grávida do Kenji, sabe-se lá como, o meu cabelo cresceu mais depressa do que devia, lembram-se?
-Claro, até chegava à porta do quarto. O Edward ficou parvo a olhar para tanto cabelo cor-de-rosa. Parecia que estava no paraíso. – Disse Hotaru, cruzando os braços.
-Acho que isso foi mais porque eu tinha acabado de dar à luz o filho dele.
-Ambos os motivos. – Disseram Misaki e Hotaru em uníssono.
As três riram-se, enquanto o pequeno Kenji olhava para Cecília, como se ela se tratasse de um brinquedo novo.
A certa altura, Misaki parou de rir. Olhava para trás de Usagi e Hotaru, chocada.
-Olhem! – Disse ela, os seus olhos bem abertos. As outras duas viraram-se, mas apenas Usagi entendeu. Ao olhar para a amiga, foi apenas necessário um aceno de cabeça para tomarem uma decisão.
-Hotaru tomas conta do Kenji e da Cecília, por favor? – Perguntou Usagi, pondo a mão de Hotaru no carrinho, enquanto Misaki entregava o rapazinho aos braços da mais velha, que o recebeu confusa.
-Mas o que vão fazer?
Mas as outras duas já não ouviam. Corriam atrás de um vulto que Misaki tinha visto no parque prestes a atravessar a passadeira. Estavam quase lá.
-Hei tu! – Chamou Misaki. O vulto – uma jovem – não se virou. – Como a chamo?
-Pelo nome, como é óbvio! – Respondeu a amiga, já ofegante com a corrida. Grávidas não podem fazer esforços daqueles. De repente, parou - Desisto! JULIANNA! – Berrou, a sua voz ecoando por todo o parque. Desta vez, a rapariga virou-se, surpreendida.
As duas mulheres chegaram-se perto dela, ainda a ofegar:
-E dizia a minha sogra que eu não precisava de ir ao ginásio! – Lamentou-se Misaki, pondo a mão na anca, a fim de se apoiar. Usagi inspirava e expirava lentamente, tentando recuperar o fôlego. Ambas faziam uma figura tão cómica que Julianna teve que fazer um tremendo esforço para não se rir.
-Oh, pelos deuses! – Misaki virou-se para a amiga, preocupada. – Não podes fazer esforços.
Usagi semicerrou os olhos.
-Obrigada por teres notado nisso… após eu ter feito os esforços.
-Ainda não me acostumei à ideia de que…
-desculpem! – Interrompeu a jovem loira. – Mas quem são vocês? E como sabem o meu nome?
Misaki olhou instintivamente para Usagi, que aproveitou a deixa para falar:
-A minha mãe é a Usagi Tsukino. Sabes, a amiga da tua mãe? Aiko Nakamura?
-Oh sim! – Disse Julianna, recordando-se da estranha amiga da mãe – ela falou-me de ti. Usagi, não é?
-Hum hum. Esta é a Misaki Andou. De casamento, Tamura.
-Vamos poupar os detalhes Usagi! – Retorquiu Misaki, olhando por cima do ombro. Hotaru estava sentada num banco com Kenji num lado e o carrinho do outro. Virou-se e encontrou os olhos de Julianna. – Tu por acaso lembras-te de nós?
Julianna pareceu reflectir por uns momentos, até que disse:
-Sim. Há cinco anos. Lembro-me por causa do cabelo dela – apontou para Usagi, que revirou os olhos ao comentário.
De súbito a cara de Julianna assumiu uma expressão sombria. – Por acaso sabem…
-Sabemos. – Cortou Usagi, ciente do novo tema de conversa. – E queríamos falar disso contigo. – Suspirou e olhou para trás, para ter a certeza de que os três estavam bem – mas temos tempo. Vem connosco! – Ofereceu a sua mão, que foi recebida por Julianna. Esta sorriu e foi com elas para junto de Hotaru, que parecia impaciente.
No meio do caminho, Usagi não pôde deixar de notar na saliente barriga da rapariga. Segundo a sua mãe, Julianna estava grávida de oito meses e era solteira, apesar do namorado estar presente. Mãe aos dezassete, pensou Usagi para os seus botões. O que era uma pena, considerando que a rapariga era bem bonita.

-Bem, esta é a Hotaru. Hotaru, esta é a Julianna Nakamura. – Apresentou Misaki, vendo que a amiga estava de novo ‘perdida em pensamentos’. O seu sorriso cordial perdeu-se um pouco ao ver que Hotaru olha estupefacta para Julianna. Mordeu o lábio, incomodada e Usagi sabia que ela se lembrava do dia em que ela própria conhecera Hotaru. Esta fizera uma cara semelhante ao vê-la. E as razões eram extremamente óbvias.
-Prazer. – Cumprimentou Hotaru, com um leve abanão de cabeça. Um pesado silêncio instalou-se entre as quatro mulheres que foi apenas quebrado com o leve choro da pequenina. Misaki chegou-se perto do carrinho e pegou na filha com o máximo de cuidado, como quem pega numa peça de porcelana e abanou-a levemente. A bebé chorou um pouco até que começou a acalmar. Julianna sorriu perante tal visão:
-Tem uma filha lindíssima. – Comentou. – Como se chama?
-Cecília. Nasceu na semana passada, dia catorze.
-No São Valentim? Que pontaria!
-Mesmo... – Misaki viu que a bebé voltara a adormecer e voltou a pousá-la no carrinho, beijando as faces rosadas e as mãozinhas pequenininhas dela com ternura. Kenji olhava para dentro do carrinho, ainda maravilhado com o pequeno exemplar humano presente ali no meio. Inclinou-se um pouco mais, o seu nariz quase a tocar no da pequenina e aí a própria mãe o afastou:
-Este é o meu filho, o Kenji.
-É um lindo rapaz. – Disse Julianna, sinceramente.
-É. Faz quatro em Abril e vai dar muito trabalho às meninas no futuro, tal como o pai.
-És sempre a mesma. – Disse Hotaru, revirando os olhos. – Achas mal o miúdo estar mais ligado a ti do que ao pai, mas também achas que as únicas semelhanças que o pobre miúdo possa vir a ter do pai (com a tua influência chega a ser difícil o Edward sequer pegar na criança…; - Hei!) não devia ser o aspecto nem a personalidade.
-Dele apenas quero o bom humor e a inteligência. O resto pode ser tudo meu.
-Pobre criança que terá o teu temperamento…
Julianna riu-se, o seu riso natural espalhando-se pelo ar do parque já vazio em meados de Fevereiro. Sentou-se ao lado de Misaki e Hotaru no banco, ficando Usagi de pé, a segurar o filho traquina, que queria ir observar a bebé no carrinho. Farta dos empurrões, Usagi largou-o e deixou-o espreitar para o carrinho. Mas Kenji depressa encontrou outro novo interesse. Julianna olhara para Cecília sonhadora, a sua mão viajando involuntariamente para o ventre, massajando-o suavemente. O pequeno notou na grande barriga da rapariga e, curioso, aproximou-se ficando a olhar para a barriga atentamente, como que esperando que algo fosse acontecer. Julianna olhou para as outras, sem saber o que fazer. Usagi clareou a garganta:
-Kenji, que estás a fazer?
-Bebe?
-Sim, tem aí um bebé. Tal como a Cecília.
-Cessiliie bebe. Mana Li!
As quatro mulheres sorriram.
-Sim, um bebé como a Cecília e a tua maninha que ainda não nasceu. Mas vai ficar tão grande quando a Cecília e… - Aí, Usagi olhou para Julianna. – É um rapaz ou uma rapariga?
-Não sei. – Respondeu a loira, encolhendo os ombros – pedi à minha mãe para não me dizer.
-Mas o que achas que é? – Perguntou Misaki, apesar de tanto ela como Usagi e Hotaru saberem o que viria aí. Não podia ser coincidência Usagi estar grávida numa menina, na mesma altura em que Misaki dá à luz outra e Julianna também estava de esperanças. Não com o passado que as três partilhavam.
-munina bunita cmu a mama dela – respondeu Kenji, a sua mãozinha sobre o tecido negro que cobria o ventre de Julianna. Esta, meia estupefacta, meio sorridente, ficou sem palavras. Misaki e Hotaru entreolharam-se e Usagi passou a mão pelo cabelo.
-Tal pai, tal filho – sussurrou ela, tendo sido ouvida apenas por Hotaru. Em seguida, as quatro mulheres riram-se durante uns bons momentos. Momentos únicos que jamais se repetiriam. Momentos assombrados por uma nuvem negra que tirou o sorriso a Usagi, a vida a Julianna e a estabilidade a Misaki e prometia assombrar também a vida das duas meninas ainda por nascerem, a pequena recém-nascida e até o pequeno rapaz que sensibilizada as adultas pela sua forma de falar.

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[2] De acordo com o manga, o nome dela é Usagi Tsukino, como a mãe, mas tenho problemas com esse detalhe. Prefiro que ela tenha o nome do pai.
[3] Usagi = coelho xDD
[4] Mal sabia ela que o próprio filho seguiria as pisadas do pai
[5] Fica já dito para não terem dúvidas. A Hotaru tem trintas, assim como o namorado dela. O Hiróito também anda por aí. (é doze anos mais velho que Misaki). Já o Edward, a Dawson, a Usagi e a Misaki têm a mesma idade (apesar da Dawson ser a mais velha dos quatro).


Última edição por AnA_Sant0s em Ter 23 Nov 2010, 09:44, editado 2 vez(es)

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Ter 23 Nov 2010, 09:22

**
Claro que Linda não conseguia identificar a nuvem negra. Se tal acontecesse, jamais haveria segredo para descobrir. E assim também seria muito fácil.
Quando se levantou da cama, não pôde deixar de pensar na mãe. Naquilo que ela e o pai tinham tido e sido e no que mais tarde de tinham tornado. O que teria acontecido que mudasse as personalidades de duas pessoas tão drasticamente? Linda começava a ter umas pistas: tinha algo a ver com o seu poder de navegante. Tanto que Julianna e Misaki também estavam metidas ao barulho, mas não directamente.
Fosse como fosse, estava agora mais perto de descobrir. O sonho tinha-lhe dado pistas. Provavelmente um pouco de pesquisa com Mari e Cecília e talvez descobrisse mais.
Ela queria saber mais. Era desconcentrante saber que todos à sua volta foram influenciados por algo provocado pelo seu nascimento, ou melhor, provocado por si e ela própria não saber de nada. Afirmavam que ela ainda não estava preparada. Mas quando é que ela estaria preparada? Quando fosse velha e tivesse bigode?
Foi com pensamentos positivos que Linda se levantou da cama, agora menos cansada do que o costume. A sua mente já descansava mais rapidamente do que da primeira vez e agora até já conseguia ter mais noção dos pensamentos e emoções da pessoa. Por isso conseguira ter uma percepção correcta do que realmente acontecera. Ou melhor quase correcta. Linda ainda não sabia até que ponto o seu poder se estendia e não tinha coragem de revelar às suas amigas que conseguia entrar nos sonhos delas e, pior, que já o tinha feito. Sentia que estava a entrar em território pessoal e o que ela menos queria era magoá-las.
Visto ser sábado, procurou vestimentas normais. No entanto, visto ser dia de celebrações, optou por uma túnica cinzenta com umas calças justas de ganga negra. Pegou em duas madeixas junto às orelhas e amarrou-as atrás, deixando o resto livre.
Quando saiu para tomar o pequeno-almoço, Mari já lá estava, sozinha:
-Onde está a Aiko? – Perguntou, servindo-se de leite quente.
Mari engoliu os pãezinhos com manteiga que devorara e, após se recompor, respondeu:
-Foi ao bingo. Uma amiga dela não pôde ir na segunda, por isso decidiram ir hoje. O que até não é problema nenhum para nós, pois não?
-É claro que não. – Sentou-se e comeu uma tosta com compota de morango. – A que horas vem a Cecília?
-Às horas que lhe apetecer. O padrasto ‘tá lá hoje e ela quer aproveitar.
-Ela parece gostar mesmo dele. – Comentou Linda, casualmente.
-Sim. Como ela era muito nova quando o pai dela morreu, o padrasto veio como um substituto que a levava à escola, ao teatro, a passeios... Ela adora-o.
-Entendo. Então como vais passar o dia? – Perguntou. A loira ergueu o sobrolho, do mesmo modo que Usagi (Linda notou) quando Misaki lhe fizera uma pergunta estúpida.
-Bem, hoje a Cecy faz anos. Que queres que faça?
-Podias ter... sei lá… um encontro!
Mari pareceu escandalizada com a hipótese:
-Nem penses. Detesto este dia, para além de ser o aniversário da minha melhor amiga. Não a troco por nada.
Linda sorriu, impressionada com a lealdade de Mari.
-Entendo-te. Eu planeio passar o dia com a Cecília, mas já sabes… como tenho namorado, não o posso deixar de parte.
-Não te preocupes! O Eiji também ignora este dia só mesmo por causa da Cecília.
A morena não pôde evitar suspirar de alívio.
-Ainda bem. Não queria passar por…. Enfim, um dia destes.
-Nunca tiveste namorados no São Valentim?
-Nunca tive namorado em ocasião alguma, queres tu dizer! Sei lá o que fazer no dia de São Valentim.
-Que exagero. Basta que deixes o rapaz fazer tudo… enfim, quase tudo. Mas lembra-te do conselho da Aiko Nakamura: Usar sempre preservativo.
Linda riu-se da recordação de quando ela saíra com Setsu e Mari acompanhou-a, desta vez evitando uma queda da cadeira.
O momento foi quebrado pelo toque de uma campainha:
-Quem será? – Perguntou Mari, olhando para Linda confusa.
-Quem esperamos?
-Bem… pode ser a minha avó, ou a Cecy… ou até o teu namoradinho.
-Que engraçada! Eu vou lá – ofereceu-se Linda, levantando-se, deixando Mari a controlar o fôlego.
Quando abriu a porta, encontrou não Cecília, Eiji ou Aiko, mas sim outras duas caras conhecidas.

**
Quando Cecília olhou-se ao espelho, uma jovem morena com uma blusa azul e saia negra cumprimentou-a, os cabelos todos despenteados e ela ainda com ar sonolento. Depressa tratou desses míseros detalhes e desceu para cumprimentar a mãe.
Misaki não estava na sala, nem na biblioteca. Cecília podia jurar que a mãe já se tinha levantado. Onde estaria ela?
Foi encontrá-la na sua sala especial, junto ao piano. Apesar de as suas mãos passearem pelo teclado graciosamente, Cecília tinha a leve impressão que ela apenas fazia aquilo para não ceder à tentação de pegar no retrato do falecido marido.
-Bom dia mãe! – Saudou, entrando na sala branca. Misaki sorriu.
-Parabéns filha. – Abriu os braços e cercou a filha, beijando o topo da cabeça dela. Eram naqueles momentos em que Cecília se esquecia da mulher que a mãe costumava ser no Palácio. Estranho como, por vezes, ela parecia ter duas personalidades. Ela afastou-se e olhou a filha nos olhos, os seus à beira de lágrimas – Dezassete anos. Parece que ainda foi ontem que tu…
-Vá lá mãe, não venha com lamechices.
-Quando fores mãe vais entender, Cecily.
-Talvez. – Cecília suspirou, evitando olhar para a foto em cima do piano – E não me chame Cecily. Onde é que foi buscar o raio do nome?
Misaki sorriu, mas nada disse. Desistindo, Cecília olhou em volta:
-O pai?
-Foi buscar a tua prenda.
Mal Misaki acabara de pronunciar a frase, um homem entrou na divisão sorrateiramente, como se entrasse num santuário.
-Parabéns Cecília! – Abraçou a enteada, que correspondeu o gesto. Quando se separaram, a rapariga reparou num pequeno embrulho que o padrasto segurava. – Aqui tens! – Disse, estendendo-o.
Cecília abriu-o, puxando a fita com cuidado para não rasgar o papel. Uma caixa azul metálica estava por debaixo do papel. Quando a abriu, uma pequena corrente com uma lua brilhava para Cecília:
-Pai…
-Sei que tens a mania das luas, por isso achei melhor dar-te algo do género.
-Eu… - não conseguindo encontrar palavras para agradecer ao seu ‘pai’, abraçou-o mais uma vez, desta vez apertando o homem com mais força. – Muito obrigada pai.

Era apenas uma prenda simples, mas Cecília não conseguia deixar de pensar que este ano era algo diferente. O ano passado ela não sabia da sua ligação à lua, não sabia o quanto era diferente. Bem, um ano passara, ela crescera e sentia-se mais adulta. Talvez seja por isso que tivesse ficado tão comovida ao receber um presente de alguém querido que mostrasse a sua ligação à lua, misturada com sentimentos e emoções que ela sentira quando era pequena. Tinha sido sempre a mãe a comprar-lhe luas ou estrelas para pulseiras, jóias, brincos. Porque nisso a mãe sabia como ela era.
Quando tocou à campainha das Nakamura, sentia-se leve como uma pena, sentimento raro nos seus aniversários. Ela nunca contara a ninguém, mesmo a Mari e a Linda, mas o seu aniversário tornara-se num dia negro após a morte do seu pai. Ela ainda se lembrava estar a festejar o seu quarto aniversário, a mãe a perguntar-se onde estaria o marido e um polícia a aparecer à porta, dizendo que o seu pai tinha morrido num acidente de carro provocado por um bêbado que conduzia a alta velocidade. Era pequena, mas esperta o suficiente para saber que as coisas nunca mais seriam o mesmo naquele dia. No seu aniversário.
Agora tinha dezassete, fazia treze que o pai tinha morrido, e conseguia passear pelas ruas sem o pesar no coração que ela sempre sentira. Agora estava bem.
-Entra. – Disse Mari, baixinho.
-O que se passa? – Perguntou Cecília, percebendo que algo se passava.
-Vê por ti própria.
Mal Cecília entrou dentro da casa, percebeu o que se passava. Duas almas desconhecidas estavam na cozinha a falar com uma outra bem familiar. A de Linda. Almas que, apesar de não serem puras, eram extremamente próximas e possuíam uma força fora do vulgar.
Linda saiu da cozinha. Atrás dela, vinha uma rapariga de cabelos negros compridos e um rapaz de cabelos turquesa e olhos brancos. Como… vi bem? Brancos?
-Cecília, esta é a Naomi e o Seiji.
-Prazer em conhecer-te Cecília Tamura – disse Naomi, com um sorriso caloroso.
-Ou melhor, Sailor Harmony – disse Seiji, estendendo a sua mão para apertar a da morena. Mais de perto, Cecília viu que os olhos de Seiji eram de um cinzento muito claro que facilmente se confundia com branco com a luz da sala. – Ouvi dizer que hoje é o teu aniversário
-Prazer em conhecer-vos. E sim, é o meu aniversário.
Linda e Mari entreolharam-se como se tivesse apercebido de alguma coisa.
-Que despistadas somos. PARABÉNS! – Cecília de repente viu-se com dificuldade em respirar, pois Mari e Linda abraçavam-na com muita força, talvez querendo competir uma contra a outra sob quem seria a que dava abraços mais fortes.
-Meninas, deixem-me respirar. – Pediu a morena, tentando soltar-se. Linda largou-a logo, mas Mari ainda hesitou um pouquinho antes de fazer o mesmo. Livre para respirar, Cecília tornou a sua atenção para os outros dois – O que fazem aqui?
-Era isso que eu lhes estava a perguntar quando tu chegaste. – Respondeu Linda, sentando-se no sofá – e também porque é que eles não vieram em Janeiro.
Seiji e Naomi entreolharam-se.
-Li podes ir buscar o diário que a Makoto te deu? – Pediu Seiji, de braços cruzados – e também a pedra que a Rei te deu.
-Vocês têm as vossas pedras? – Perguntou Naomi a Cecília e a Mari. Cecília assentiu com a cabeça, indicando para a pedra que estava na sua pulseira. Mari levantou-se para ir buscar as suas, juntamente com Linda. Os visitantes pegaram em bancos e sentaram-se em frente ao sofá, onde mais tarde se sentaram Linda e Mari.
-Para que é que servem as pedras? – Perguntou Cecília, antes que as outras duas pudessem falar.
-Para que achas que servem? – Respondeu Seiji. Linda revirou os olhos. Típico de Seiji responder a uma pergunta com outra pergunta.
-Bem…
-Provavelmente para ‘canalizar’ os nossos poderes. – Sugeriu Mari, um pouco alheia aquilo que dissera. Os outros olharam para ela, espantados. – O que foi?
-Estás certa. É mais para isso. – Seiji acomodou-se no banco e olhou para Naomi, como se pedissem autorização para prosseguir. A morena encolheu os ombros como resposta e Seiji prosseguiu – De certa forma é como as canetas das navegantes em fase Eterna ou Super. Evoluem conforme o estado. Com essas pedras, os nossos talismãs evoluem.
-Explica isso melhor… - pediu Linda, confusa. – Supostamente, só evoluímos por causa das pedras?
-Não. Evoluem devido a outros factores que nem as próprias navegantes os conseguem identificar com precisão. Pode depender da força de vontade de cada um ou de uma força exterior. No entanto, vocês não são navegantes comuns e isso tem algumas consequências. Esta é uma delas. Se vocês evoluem, terão muita energia e poder novo e isso tem que ir para algum lado, caso contrário gasta-se e acaba por ser mais uma desvantagem do que poder.
-Ou seja, ‘organiza’ os nossos poderes, de modo a que tenhamos maior controlo – concluiu Linda.
-Exactamente. Andem sempre com as pedras. Podem até mesmo colar com fita-cola só pelo caso. Quando chegar a altura, ela ligam-se sozinhas.
As três olharam para as suas pedras, entendendo o seu significo. Os visitantes fizeram uma pausa, esperando por mais uma pergunta. Foi Mari a primeira:
-Porque não vieram no dia em que disseram que vinham?
Naomi tomou a dianteira:
-Temos tido uns problemas no palácio. Como sabem… - aí lançou um olhar a Linda, um olhar cheio de pena. – A Rainha está a morrer.
-De quê? – Perguntou Linda, sem conseguir controlar as palavras que saíam da sua boca. Mari e Cecília olharam para a amiga, tristes por ela.
-Não sabemos. Os adultos não contam. Nem sequer sabemos como é que a Rainha apanhou a doença.
Naomi esperava mais perguntas por parte de Linda, mas esta não falou. Suspirando, prosseguiu:
-A Dawson já tem quase todas as Flores. Só lhe falta a de Mercúrio, que está bem protegida, a da Terra (que ela jamais apanhará) e a de Vénus. Umas pistas recentes levaram-nos a tomar umas acções para a despistar. Ela não pode saber quem tem a Flor de Vénus. Temos desaparecido mesmo por isso. Tornava-se suspeitos as navegantes procurarem por pistas da Flor da Terra ou provas da identidade da Flor de Vénus, por isso fomos nós. Nós éramos para ter tudo pronto nos finais de Janeiro, mas acabamos por ter uns problemas…
-Conseguiram? – Perguntou Linda, olhando os amigos nos olhos. – Encontrar essas duas Flores?
-Nós já sabíamos quem tinha o sangue da família, apenas tínhamos que saber qual membro de família tinha a Flor. Procuramos por provas e finalmente as encontramos. Já a da Terra… temos suspeitas e apenas isso.
-Quem tem a Flor de Vénus?
Naomi e Seiji trocaram um olhar algo desesperado. Linda tomou isso como más notícias.
-É alguém que conheçamos?
-É. – Confirmou Seiji. – Chama-se Eiji Yamamoto.
As três deram um pequeno salto do sofá, mas nenhum foi tão alto quanto o de Linda, que ficou pálida como um lençol.
-O Eiji? Como é possível?
-Durante todo este tempo pensamos que fosse Yvonne, a mãe dele, mas era apenas porque considerávamos o Eiji filho da segunda mulher do Yamamoto. Quando o teu pai te viu a dançar com ele, foi dizer à tua mãe, a Hotaru ouviu e foi aí que descobrimos que a Yvonne tinha tido um segundo filho, um filho com todas as qualidades para ser um receptáculo da Flor.
-Receptáculo? – Perguntou Mari, ainda chocada com a notícia de que o seu amigo estava em perigo.
-É mais fácil que dizer ‘pessoa que suporta a Flor’.
-Não. É menos humano. – Disse Linda. – Mas isso não interessa. A Dawson…
-Tentámos despistá-la e acho que conseguimos. Ela ainda está a vigiar a Yvonne e nós mantivemos as nossas defesas nela pelo sim pelo não. Já o Eiji… bem, vocês são as únicas que o podem proteger. Enquanto a Dawson não souber de nada, basta vocês afastarem o Eiji das batalhas, caso contrário o lacaio da Dawson ainda se apercebe do poder dele. De resto, nada muda.
Linda duvidava seriamente que as coisas não iriam mudar dali para adiante, mas se Dawson ainda não sabia de nada... para quê preocupar? Não seria também caso para ela começar a ver Eiji de modo diferente.

O diário no colo de Linda era no entanto um bom motivo para ela não puxar mais o assunto. Pela primeira vez, sentia uma força misteriosa a correr por entre as suas páginas amareladas. Uma força que ela queria sentir mais de perto.
-Como se abre o diário? E para que é que serve? – Perguntou, vendo Seiji sorrir. Ele tirou do bolso do casaco uma chavezinha e estendeu-a a Linda.
-Chegou a altura de vocês descobrirem o vosso passado. Este diário vai-vos mostrar as memórias das vossas vidas anteriores. Dêem as mãos umas às outras, pois só a Linda é que pode ‘ver’.
Confusas, as três deram as mãos umas às outras. Linda inseriu a chave no pequeno buraco e ouviu um pequeno clique, conseguindo virar a capa.
Num momento estavam ali, noutro não…

**
Estando no Milénio Prateado, tinham agora conhecimento de factos que antes não sabiam.
Eram irmãs de sangue. Elas e a herdeira do trono, Serenity. Havia diferenças, era óbvio. Serenity e Agnes eram filhas do Rei da Lua, Cariocecus e da Rainha Camilla. Já as outras duas, Belisa e Ignês eram filhas do Rei e de duas amantes que este tivera. Ambas nasceram no mesmo ano que Agnes, enquanto Serenity era quatro anos mais velha.
Cariocecus era um homem rude e poderoso, que defendia a guerra contra os planetas rivais. Graças a ele, as relações da Lua com a Terra tinham-se tornado difíceis, semelhantes à entrada num campo minado.
Sem maneiras, não escondia o ódio de não ter tido nenhum filho barão e o desprezo que sentia em ter que entregar o trono do reino a uma filha. O desprezo à filha mais velha era correspondido.
Serenity detestava o pai e, como tal, mostrava-o ao conquistar a amizade de todos os habitantes da Lua, as suas amantes inclusive. Calma e inteligente, prometia ser uma melhor rainha que o progenitor. Mas isso Cariocecus duvidava. Dizia várias vezes a Camilla e a Agnes que Serenity iria levar o Milénio Prateado à ruína.
A sua relação com as outras filhas era quase inexistente, preferindo sempre passar algum tempo com as suas amantes, a organizar planos de ataque e defesa do Reino e a preparar os casamentos das filhas. As mais novas geravam problemas. Não pela falta de beleza, mas pela protecção que Camilla e Serenity lhes davam. Ambas pareciam dispostas a impedir que ele as casasse com os seus guerreiros mais estimados. Conseguiu arranjar noivado entre um nobre da Lua e Serenity, mas para as restantes, a acção estava difícil de realizar.
No seu leito de morte, Camilla pediu a Cariocecus que deixasse as três mais novas escolherem os seus esposos e que deixasse de implicar com a mais velha. Após a morte da esposa, Cariocecus ficou dois anos de luto e concedeu o seu último desejo de deixar as mais novas escolherem os esposos. No que tocava à mais velha, nada mudara.

Mas tudo isso eram memórias. Memórias que surgiam na cabeça das três Guardiãs durante um baile de celebração do Reino. As três jovens estavam encostadas num canto menos iluminado do grande salão, observando as pessoas a dançarem e a conversarem umas com as outras. No meio da multidão, surgiu o Rei, acompanhado com uma rapariga com um penteado peculiar. Ambos tinham cabelos prateados, olhos azuis-escuros e um semblante firme como uma rocha. Os dois pareciam discutir, ainda que discretamente, até que a rapariga afastou-se do homem, aproximando-se das jovens:
-Como estão? – Perguntou cordialmente, com um sorriso pouco natural.
-O é que o pai te disse? – Perguntou Ignês, um olho na irmã, outro nos diferentes convidados que surgiam na grande porta branca.
A rapariga suspirou.
-Nada de importante. Não há necessidade de vos preocupar.
-Não somos crianças Serenity. Podes contar-nos. – Insistiu Belisa, um olho na irmã, outro no pai, que cumprimentava o Rei de Vénus e a sua esposa.
Serenity ergueu o queixo, levemente irritada:
-Trata-se de um assunto demasiado delicado para vocês. – Disse firmemente. – Não há necessidade de vos preocupar. – Repetiu, olhando Belisa e Ignês nos olhos. As três irmãs nada tinham em comum. Belisa e Ignês eram semelhantes às mães, tal como Agnes e Serenity. Mas Serenity herdara o cabelo do pai e ambas as filhas de Camilla haviam herdado os olhos azuis-escuros de Cariocecus.
-Não o deixes entrar. – Disse Ignês de repente, os seus olhos castanhos fixos numa figura de capa vermelha. – A sua alma é maligna.
Serenity virou-se para trás.
-Não o reconheço – disse, preocupada.
-Vou avisar o pai. – Disse Belisa, dirigindo-se até Cariocecus. Fez-lhe uma vénia, sendo o acto correspondido, e murmurou para o pai algumas palavras. Este virou-se para Ignês e assentiu.
Por muito pai desinteressado que este fosse, jamais ousaria a colocar os poderes das suas três filhas em jogo. O que elas diziam era lei. Azar de Serenity e dele que elas nunca diziam nada que indicasse qual dos reinos seria o melhor.
Aliviada, Serenity tornou a sua atenção nas irmãs, tentando esquecer a presença do seu pai naquela mesma festa. Belisa voltara, mais animada:
-Algo de bom acontecerá. – Disse, confiante.
-Algo o quê? – Perguntou Ignês.
-Se eu soubesse já teria dito. Sei que será algo bom, mas não sei se é para nós ou para o reino.
-O que acontece de bom a nós, também acontece ao reino – proferiu Agnes, falando pela primeira vez desde que Serenity chegara. As suas três irmãs olharam-na espantadas, querendo saber mais, mas esta não se submeteu à pressão e nada mais revelou.
-Serenity, quando será o dia do teu casamento? – Perguntou Belisa, passando a mão pelo seu cabelo loiro.
-Honestamente, ainda não sei. Nem estou muito interessada. Casar-me-ei com o nome que ele escolheu para mim, mas jamais me submeterei às suas ordens a partir do momento em que eu me tornar mulher de outro homem. Jamais! – Prometeu Serenity, erguendo um cálice de vinho aos lábios. Belisa e Ignês seguiram o exemplo, enquanto Agnes fitava um ponto fixo no horizonte. Parecia envolta em pensamentos e as suas irmãs sabiam que jamais conseguiriam falar com ela naquele estado.
Quando as três voltaram a encher os cálices, Agnes também encheu o seu e juntas, as quatro irmãs do Milénio Prateado brindaram à vida.
-Quem é aquele? – Perguntou Ignês, cujo olho nunca saíra da porta de entrada. Com a cabeça, apontou para um jovem de cabelos compridos que entrara. – Tem uma aura estranha.
-Maligna?
-Não. É pura, mas estranha.
Junto do jovem, vinha outro mais novo e um casal mais velho de braço dado. Serenity examinou-os, tentando os reconhecer:
-Não sei quem são, apesar do homem mais velho me parecer familiar.
Agnes olhou para os quatro atentamente, sem mexer as pestanas. Os seus olhos azuis tinham um certo brilho que não foi identificado pelas irmãs, nem quando o jovem de aura estranha encontrou os olhos dela. Ficaram em silêncio a olhar um para o outro, sem que nenhum pensasse sequer em dar um passo em frente. Ignês, Belisa e Serenity falavam, assim como o jovem mais novo, mas nenhum dos dois ouvia. E, sem mais nem menos, conheceram-se um ao outro, apesar de nunca se terem visto:
-Aquele é Morfeu, filho do Rei Hipnos e da Rainha Grácia. O outro é o seu irmão, Ícelo.
-Como sabes disso? – Perguntou Belisa. Agnes respondeu com um encolher de ombros.
-Acho que já descobri o cerne da tua premonição. – Disse Ignês, tentando dar um pouco de humor à situação – a Agnes conseguiu dizer mais do que uma frase numa conversa. Digam lá que isso não é uma coisa boa!
Serenity e Belisa riram-se, enquanto Agnes limitou-se a um sorriso. Um sorriso que do outro lado do salão, era partilhado por outro homem.

O tempo no Milénio Prateado era algo relativo. Para uns passa bem depressa, para outros extremamente devagar. A corrente do tempo tinha sempre falhas e Agnes era uma delas. Para os seus dezassete, era muito madura e forte. Ninguém esperava nada dela, a não ser que fosse uma princesa de bons costumes. No entanto, o povo gostava dela pela sua bondade e a sua sabedoria, que espantava todos os habitantes do Milénio Prateado.
Era do conhecimento geral que as princesas Agnes, Belisa e Ignês eram Guardiãs do místico portal da Esperança e tal dava-lhes poderes especiais. Belisa tinha premonições de acordo com os desejos das pessoas, Ignês pressentia a bondade das pessoas e se as suas intenções eram boas ou más. Era a única pessoa em todo o Sistema Solar capaz de distinguir o peso de uma alma a outra, tanto figurativamente como no mundo físico. Mas Agnes era um mistério. Sabia-se que era a Guardiã dos Sonhos, portanto o seu poder tinha algo a ver com o seu dever. Mas o poder dela era tão extenso que ninguém sabia se ela tinha um poder próprio ou se uma fusão dos poderes das suas irmãs. Ninguém sabia. E Agnes não contava a ninguém.
Todavia, tal não impedia que Serenity não fosse bastante protectora dela. Sempre que olhava para a irmã, conseguia ver os traços delicados da mãe misturados com a força do pai. E naquele dia, também os conseguia ver, por detrás de um pilar, junto aos jardins reais. Mas não era a única.
Um homem olhava-a à distância, enquanto Agnes passeava pelos jardins da Lua. O mesmo homem cuja aura estranha Ignês ainda não conseguira decifrar. O Rei Hipnos e a sua família haviam sido convidados a ficarem por alguns tempo no reino, a fim de descansarem até à sua viagem ao planeta Gliese, fora do Sistema solar.
Agnes sabia que ele a observava. Isso fê-la esquecer-se do que fazia e pegar numa flor qualquer e cheirá-la, apenas para o atrair. Ele deu um passo em frente, um pouco receoso, mas quando ela se virou para ele, os olhos azuis-escuros a brilharem como nunca tinham brilhado, ele perdeu todo o medo.
-Bom dia, princesa Agnes. – Cumprimentou, com um leve aceno de cabeça.
-Bom dia, príncipe Morfeu – respondeu ela, num sussurro provocador.
-Estais a dar um passeio?
Ela sorriu.
-Sim. Quereis fazer-me companhia? – Perguntou, estendendo o braço dela. Ele recebeu-o e juntos passearam pelos jardins, falando sobre as suas famílias e gostos pessoais. Ao longe, Serenity viu a irmã apaixonar-se por aquele príncipe exótico.

Morfeu ficou em Milénio Prateado, com a desculpa de representar o seu planeta, substituindo o seu pai e irmão nas burocracias habituais. De dia, acompanhava o rei Cariocecus nas suas tarefas, de à noite passeava com a princesa, plenamente consciente que as três irmãs dela observavam-nos de longe. Sussurros pouco maliciosos espalharam-se pelo palácio como fumo, afirmando que a princesa tinha um pretendente. Tais rumores agradaram ao Rei, que tinha agora um bom motivo para casar a filha, ao mesmo tempo que compunha uma ligação com um planeta Exo-solar [6]. Tal era deveras necessário, pois estava convencido de que a certa altura iria precisar do máximo de ajuda possível numa batalha.
Entretanto, Serenity casou-se e ficou grávida em menos de um ano. Belisa pressentiu morte e vida e tal foi dito, tal aconteceu. No exacto momento em que a Rainha Anfitrite, de Mercúrio, deu à luz a princesa do planeta azul, Cariocecus morreria, vítima de uma doença provocada por uma determinada planta na Lua. A sua cara ficara vermelha, assim como os olhos.
No seu leito de morte, proferiu, mais uma vez, a queda do Milénio Prateado às mãos da filha mais velha e a queda de Belisa e de Ignês por estarem a seu lado. Já a Agnes apenas pediu para que ela seguisse o seu coração, pois sabia que as decisões dela eram sempre sábias e correctas. Qualquer consequência trazida por uma decisão dela tinha um sentido.
Movida pelo pedido do pai, Agnes aceitou o pedido de casamento de Morfeu e ajudou as irmãs nos seus casamentos combinados. Serenity, ainda grávida, subira ao trono e logo remodelou as leis do reino. Procurou a paz com a Terra e, de modo a fortificar laços com o planeta do céu azul, pediu às suas irmãs para se casarem com membros da família real da Terra. As duas aceitaram e quando a pequena Serenity nasceu, já as tias estavam casadas. Uma com o homem que amava, as outras a pedido da irmã.

No reino, a felicidade era plena. Serenity crescia uma menina linda, com cabelos loiros e olhos azuis-escuros e brincava com as tias frequentemente, pois os pais estavam deveras ocupados com assuntos do reino. Morfeu participava nesses assuntos, representando o seu planeta e também a Lua (visto ser esposo de Agnes) nas suas visitas à Terra. Com ele, ia o Rei, esposo de Serenity.
Preocupada com o aviso do pai, Belisa teve uma nova premonição: Caos por todo o lado. Um menino seria o inicio.
As três irmãs ficaram grávidas e com essa notícia, preocupação ocupou os corações delas. Jamais uma mãe quereria que o seu filho herdasse uma responsabilidade tão grande quanto a de guardar um portal.
Das três, a mais preocupada era Agnes. O seu poder era extremamente perigoso e temia ser mal usado pelo seu filho, para não falar dos poderes que o próprio Morfeu possuía. Tal criança teria um poder inimaginável.
O marido tentou reconfortá-la, mas a sua viagem de semanas à Terra não facilitou as coisas. Preocupado, Morfeu procurou conselhos nos cunhados, que nada lhes podiam dizer, pois nem eles próprios entendiam as mulheres.
Fora, para grande surpresa dele, um rapazito que o acalmara. Um rapaz de cabelos negros e olhos azuis-escuros, que o lembrou de Agnes. O jovem Endymion, nas suas aventuras e travessuras pelo palácio, fez lembrar a Morfeu que cada criança era inocente à sua maneira. A educação que recebiam era o que as formavam e estava certo que ele e Agnes iriam acertar nesse papel.
Quando voltara à Terra, vinha com o coração leve e pronto a beijar a esposa que ele tanto sentia saudades. Mas não a encontrou em parte alguma. Fora necessário um gato branco, de nome Artemis, ter vindo em seu socorro, afirmar-lhe que Agnes tinha dado à luz.
Um rapaz… O seu filho. Morfeu nem sequer notou que estava a correr até que, dois segundos depois de Artemis lhe ter entregado a mensagem, ter chegado ao quarto onde a mulher repousava com um recém-nascido nos braços. Um tufo de cabelo negro podia ser visto do meio dos lençóis que o cobriam.
Tamanha felicidade jamais fora sentida pela Guardiã dos Sonhos que estava ali, a segurar o filho, enquanto o marido aproximava-se, cheio de medo e as irmãs no canto a sorrirem para ela. E ela sabia que a sobrinha estava no quarto a dormir, sem suspeitar que no dia seguinte já veria o primo.
Sim, não havia maior felicidade.

Belisa e Ignês deram à luz raparigas e, um ano depois, o esposo de Serenity morreu de doença. Nem uma única lágrima caiu pelo rosto da soberana, não por frieza, mas apenas porque nada sentira pelo homem e a tristeza que a sua morte lhe provocava não era o suficiente para a pôr a largar água como uma cascata
Anos passaram-se e a paz com a Terra parecia difícil. O povo queria o Cristal Prateado, que permitia a longevidade do reino e a sua eterna juventude, algo que Serenity não podia partilhar, ainda que quisesse. Tais actos trouxeram problemas.
-Quanto tempo demorarás? – Perguntou Agnes, a sua mão direita sobre a cabecinha do filho. Morfeu olhou para os dois com profunda mágoa. Como lhe custava deixá-los.
-Pouco tempo – pegou na mão livre da mulher e beijou-a e em seguida acariciou o rosto do filho. – Voltarei em breve.
-Papa posso ir contigo? – Perguntou o rapazinho, não escondendo a tristeza de ver o pai partir… outra vez.
-Não. É muito perigoso, filho. Ficas aqui com a mãe, que é mais seguro.
Agnes controlou a vontade de gritar para o marido que ele também devia ficar ali, junto dela e do filho, onde ele era mais seguro. Não conseguia explicar, mas tinha um mau pressentimento em relação a aquela viagem. Um pressentimento tão forte, que ela não o podia negar, mesmo que fosse Belisa a especialista em premonições.
-Até breve. – Aproximou-se do rosto da mulher e beijou-a ternamente nos lábios, tal como o primeiro beijo deles. Agnes sentiu uma súbita vontade de dizer algo. A sua frase ecoou no ar, enquanto Morfeu se despedia do filho e lançava um último olhar à mulher. As palavras dela haviam encravado na sua garganta e na dela também. Temeu por ela e pelo filho. Mas acima de tudo, temeu pela felicidade deles.

O rapazinho correu até ao portal por onde o pai desaparecia e os tios surgiam para o visitar. Após ter aprendido a ler, a primeira coisa que leu na biblioteca real fora como funcionavam os portais. O procedimento era simples e ele, antes de tomar a decisão final, pensou se estava a fazer o correcto. O seu pai iria zangar-se e ficar muito desiludido com ele, e pior seria a reacção da mãe quando esta se apercebesse da sua falta.
Mas também, que motivos tinha ele para fazer aquilo? Estar com o pai. Raramente ele estava com o progenitor, pois este trabalhava bastante nas negociações e outras burocracias. Desde a morte do Rei que ele assumira as suas responsabilidades, pois Serenity não acatava tudo sozinha e os seus outros cunhados eram da Terra. Tanto trabalho dava-lhe pouco tempo para estar com a mulher e com o filho e os três sofriam com isso. Por isso ele hoje iria passar o dia com o pai. E iria conhece-lo melhor, talvez. Com sorte, a mãe não ficaria zangada e ele safa-se de um valente castigo.

Tal não aconteceu. Um ataque de rebeldes causou a destruição nas terras por onde Morfeu passara. Agnes sentiu o ar a desaparecer quando notou pela falta do filho, mas já estava morta quando recebeu a pior notícia de todas: Morfeu estava morto e o seu filho tinha sido visto na Terra. Estava desaparecido.
De repente, foi como se toda a vida de Agnes tivesse sido sugada. Perdera o homem que amava e o seu filho no mesmo dia. Quanta injustiça haveria mais? Tirar a uma mãe um filho pequeno. Um filho que ela carregara dentro dela e que depois educara, amamentara e amara com toda o amor que lhe podia a dar, mais do que dava ao marido, às irmãs e às sobrinhas?
A luz tornou-se um fardo que Agnes não conseguia suportar. Devastada pelo sofrimento da irmã, Serenity pediu ao Rei da Terra para procurar o seu sobrinho. Mas as buscas não deram em nada. Agnes acreditava na morte do filho.
Anos poderiam passar-se e ela iria sempre culpar-se por não ter falado ao marido do seu mau pressentimento, por não ter vigiado o filho, já um rapazinho esperto que queria ver o pai. Ela devia ter imaginado que ele iria fazer algo do género. Mas não o fez e agora o seu filho estava morto. Por culpa dela.

Agnes fechou os olhos no dia em que as irmãs se despediram das filhas. Já não era seguro estar com elas, pois os parentes das meninas na Terra exigiam a permanência delas por lá. Belisa devia ter tomado aquilo como um presságio de que a Lua seria, um dia, palco de guerra.
Os olhos dela permaneceram fechados durante dias, semanas, meses. Agnes escondeu-se nas sombras do seu quarto, a sua sabedoria espelhada na dança. Um dia, dançava no seu quarto enquanto a sobrinha a observava ao longe. Foi aí que abriu os olhos pela primeira vez em muito tempo. A pequena deu um pequeno salto, não esperando que a tia fizesse tal coisa, após tantos meses na escuridão.
Os olhos de Agnes haviam perdido a cor e a visão. Estavam tão transparentes que Serenity viu o seu próprio reflexo neles. Nada incomodada pela falta de um dos seus sentidos, Agnes sorriu pela primeira vez em meses. Não era um sorriso verdadeiro – jamais daria um após tamanha perda – mas sempre era um sinal de que não se tinha perdido.

As relações Terra e Lua estavam agora mais tensas. Qualquer desacordo entre os reis dos respectivos planetas, provocava um recuo nos vários acordos que haviam selado. No meio disto tudo, Belisa e Ignês perderam contactos com as filhas e os maridos. De rastos, as duas desabafaram com Agnes, que as ouviu sem interromper, tal era o seu hábito. Quando as duas desapareceram, Agnes ouviu um suspiro:
-Sentes-te mal, Serenity? – Perguntou à sobrinha, que estava junto da janela. Tinha pouco mais de onze e já era uma rapariga muito bonita.
A menina assentiu com a cabeça mas depois, ao lembrar-se de que a tia não conseguia ver, disse - Sim.
-Porquê?
Serenity hesitou um pouco antes de responder:
-Eu gostava muito de conhecer a Terra. A tia sabe, o céu azul, os campos verdes… nunca vi tal coisa.
-Nem eu – admitiu Agnes, num tom baixo. Falar do Planeta Terra trazia-lhe más recordações. Fora nesse planeta que morrera o marido e o filho, afinal de contas.
-Podemos… ir? – Perguntou Serenity, receosa. Agnes notou que ela estava a respirar aceleradamente e tinha as mãos postas nalgum sítio, pois pressionavam com força essa base.
-É perigoso. – Disse Agnes, que já não possuía controlo na conversa. Sabia que a sobrinha queria muito lá ir e a sua felicidade era o que mais importava a Agnes. – Verei o que posso fazer.

Serenity preparava-se para sair. Mas claro que ninguém sabia. Nem mesmo as tias, em quem ela tanto confiava.
Desceu as escadas devagar, sob o risco de ser apanhada. Não notou numa sombra que a observava ao longe. Chegou-se perto do portal e activou-o, desaparecendo de seguida.
-Até que perguntávamos onde estiveste, mas é obvio aonde. – Disse Belisa num tom frio, após encontrar a sobrinha no quarto, horas mais tarde. - Sabes perfeitamente que estás proibida de ir à Terra.
-Eu sei… - murmurou a princesa, de cabeça baixa.
-Não, não sabes! – Retorquiu a tia, furiosa. – Se soubesses não irias lá. Não depois do que aconteceu…
Aí a voz de Belisa falhou. Um nó na garganta enrolou-se e impediu-a de falar. Ignês aproximou-se da irmã, caída em lágrimas:
-Acalma-te. – Disse calmamente, apesar de a sua voz também tremer um pouco. Virou-se para a sobrinha. – Porque fazes isto?
Serenity não respondeu. Os seus olhos estavam inundados de lágrimas, resultado da recordação do pior dia da vida dela. O dia em que convenceu a tia Agnes a levá-la à Terra.

As duas partiram para o portal juntas, sem que Agnes largasse a sobrinha um único segundo.
Haviam chegado ao destino. Apesar de não ver, Agnes tinha uma pequena percepção das maravilhas que a rodeavam. Os cursos de água a correr, borboletas de várias cores batiam as suas asas e voavam em várias direcções, montanhas, prados e árvores cheias de folha, flores e frutos da Primavera, Estação desconhecida na Lua. Mesmo para quem não visse, só os sons e os cheiros indicavam o quanto aquilo era lindo.
Avançaram por entre a vegetação, Agnes contando os passos e confiando no seu sentido de orientação para descobrir o caminho de volta. Serenity olhava para todo o lado, a sua cabeça girando 180º e até mais se fosse possível, de boca aberta e mãos a tremer. Agnes sentia o entusiasmo da sobrinha e tal fê-la sorrir. Um sorriso verdadeiro, ainda que fraco.
Apesar de cega, conseguia ouvir o som da água da nascente a correr, o leve vento a bater nas árvores e o calor do sol a bater na sua pele branca.
O som de passos captou a sua atenção. Sim, não estava enganada. Eram passos humanos… e estavam próximos.
-Serenity? – Sussurrou, tentando chamar a atenção da sobrinha. Ela não respondeu. Não estava por perto. – Serenity?
O som dos passos leves da sobrinha ouvia-se mais à frente… a caminho dos outros…
Foi então que ouviu. Homens a sussurrarem, um cheiro nauseabundo a infestar o ar puro e risos maliciosos. Não eram homens de bem.
Sem dar por isso, estava a correr para junto da sobrinha, que ainda não tinha dado por nada.
-Vamos! – Ordenou, obrigando a menina a mexer-se.
-Aonde tia?
-Não discutas! Mexe-te.
As duas correram pelos prados, ambas guiando uma à outra até que o portal ficou à vista de Serenity. Os homens corriam atrás dela, sem pararem para respirar. A distância que as separava dos homens diminuía rapidamente. Agnes ouvia-os cada vez mais próximos.
Um dos homens agarrou o pé de Serenity, que caiu no chão, soltando um grito que provocou um calafrio em Agnes.
-Tia! – Gritou ela, em pânico. O homem segurava a perna dela e tentava puxá-la para si. Um raio de luz atingiu-o nos olhos, cegando-o por completo. Ele gritou de dor, colocando as mãos na vista inútil e caiu de joelhos, gemendo de dor. Os outros aproximavam-se e Serenity apenas podia ver a tia a tremer, os olhos completamente opacos. Correu para junto da sobrinha, a sua voz estranhamente calma:
-Vai. – Disse, apontando para o portal.
-Mas tia…
-VAI! – Gritou Agnes, ouvindo os outros homens a chegarem-se. – Eu distraio-os.
Serenity correu até ao portal, tropeçando algumas vezes nos ramos caídos. Sempre que caía, voltava a levantar-se. Estava mais próxima. Atrás dela, ouvia os homens a chegarem-se perto da tia, esta sem se mover.
Serenity estava agora no portal e esperava que este fosse activado. Olhou para a tia, tentando vê-la atrás de si. Mas Agnes estava parada e não tinha intenções de se mexer. E Serenity apercebeu-se disso tarde demais.
-TIA! – Gritou ela, os olhos azuis banhados de lágrimas.
Agnes sentiu os homens aproximarem-se. Lágrimas caíam dos seus olhos fechados. As mãos estavam húmidas e o seu coração batia extremamente depressa. Apesar de tudo não tremia e sentia-se leve, como nunca se sentira em anos. Chegara a hora. A hora de ela usar o poder com o qual nascera. A hora de finalmente poder salvar aqueles que ela amava. A hora de voltar a ver Morfeu e o seu filho.
Os seus lábios abriram-se e ela voltou a murmurar a mesma frase que dissera a Morfeu, desta vez jura eterna que nenhuma alma poderia quebrar.
Quando ela abriu os olhos, estes estavam azuis e a íris dilatada. Não piscou os olhos, não se moveu. Serenity deixou de respirar por uns escassos segundos.
Algo acontecera e Serenity jamais descobriria o quê. Metade dos homens haviam virado costas de repente, enquanto os outros caíam mortos no chão, o rosto envolvido em pânico.
A tia virara-se para ela. De tantas lágrimas que lhe caíam pelos olhos, não conseguiu ver mais do que a silhueta da tia ao longe. O portal iria partir em segundos. A única coisa que Serenity pôde ver antes de voltar para a Lua, foi a tia a cair no chão, o seu corpo misturados com os outros corpos em decomposição. Agnes não voltou a erguer-se.

Anos haviam se passado e Serenity jamais voltara a pôr os pés na Terra. Até que um dia decidira quebrar os seus medos, tal como a tia fizera anos antes ao visitar o planeta onde o marido e o filho tinham morrido. Para além disso, a beleza do Planeta Terra era impossível de resistir. Fora aí que conhecera Endymion, o homem dos seus sonhos e da sua vida.
-Promete-nos que não voltas lá! – Ordenou Belisa, a sua voz rouca, como que se estivesse prestes a desfalecer.
Serenity encontrou uma poeira no chão muito interessante. Ignês mordeu o lábio:
-Serenity, só o fazemos para o teu bem. Sabes como a tua mãe reage a estas coisas…
E se ela sabia. Ainda se lembrava da cara da mãe quando soubera da morte da irmã mais nova. Parte dela temera que ela descarregasse a raiva em si, que tinha culpa no cartório pela morte de Agnes. Mas tal não aconteceu. Ao invés, a mãe proibira contactos com a Terra, após o Rei ter enviado do corpo de Agnes, com condolências. Quando Serenity fora à Terra mais tarde, fora brevemente em negócios com a mãe e não pudera ir a lado nenhum sem as navegantes.
-Eu amo-o - sussurrou ela, com receio. Se tivesse erguido a cabeça, teria visto o rosto das tias a esmorecer.
-De certeza?
-Sim. Tal como tenho a certeza de que os astros giram à volta do Sol. E ele também sente o mesmo.
-Deveras? – Perguntou Belisa, desconfiada.
-Sim. – Serenity sentou-se, cruzando as pernas levemente. As tias seguiram-lhe exemplo – Foi disso que falamos hoje. Da tia Agnes. Ele conheceu Morfeu e disse que ele amava muito a tia.
-Verdade. – Confirmou Ignês, assentindo com a cabeça. – Nunca vi ninguém tão apaixonado por uma mulher quanto Morfeu por Agnes. E a nossa irmã amava-o muito, igualmente.
-Ás vezes nos perguntávamos como é que ela ainda conseguira viver depois de tamanha perda. – Murmurou Belisa, como se temesse as suas próprias palavras.
-Ele jurou-me… e eu jurei… queríamos tanto ter um amor tão forte quanto os dos meus tios.
Belisa abriu os olhos, aterrorizada.
-Não digas isso. Sabes muito bem como a história acabou.
-Será diferente comigo e com o Endymion.
-Não! – Cortou Ignês, a voz firme como rocha – Será pior. Morfeu não era habitante de um planeta em guerra com a Lua. O nosso pai - teu avô - não teve nenhum problema com o casamento de Agnes, enquanto a tua mãe tem mil e um motivos para o teu relacionamento com Endymion.
Serenity não encontrou argumentos contra a tia. Levantou-se e dirigiu-se para a porta, a cabeça sempre baixa.
-Prometo não voltar a sair às escondidas, nem voltar a ir à Terra sem vos avisar. Agora tenho que ir andando. Tenho que me preparar para o baile. – E desapareceu, deixando as duas adultas sozinhas.

Serenity cumprira a sua promessa, talvez porque ela já sabia que seria Endymion o único a quebrar as regras, para variar. Ninguém notou quando os dois desapareceram, durante o baile de máscaras. A única coisa que repararam, para além do alto festim, foi numa nuvem negra que surgiu no céu.
Cariocecus tinha razão. O seu governo preparara a Lua para a Guerra, estando esta preparada para ataque imprevistos. Serenity governara a Lua para a paz. Como tal, quando a nuvem negra surgira, poucos adivinharam o seu verdadeiro significado. O caos governou por toda a parte, enquanto o grandioso Milénio Prateado caía às mãos das trevas. Corpos tombavam por todos os lados, gritos ecoavam por entre as grandiosas paredes do edifício branco e raios de luz brilhavam no céu como auroras, apesar de os seus brilhos trazerem morte e dor, não alegria.
Ao fim e ao cabo, Belisa e Cariocecus haviam proferido o fim do Milénio Prateado. Um rapaz – filho de Agnes – fora a causa para os primeiros rastos de sangue derramados. A partir da morte do rapazinho e de seu pai, uma das estrelas que guardava o portal da Esperança perdera o seu brilho, enfraquecendo as suas defesas. Cariocecus afirmara que o reino cairia às mãos da filha mais velha… e tinha razão.
Estavam todos mortos. Todos… menos um mulher e dois gatos.
Esta ergueu os olhos cheios de lágrimas para a zona oeste do palácio. Um fragmento do Caos havia-se separado de Beryl e se arrastado até à zona, onde se encontravam Belisa e Ignês.
Conscientes das suas tão próximas mortes, as duas deram as mãos e murmuraram palavras na Língua Antiga, língua ancestral de todos os vocabulários no Sistema Solar. Se haviam de cair, cairiam a lutar.
Um raio de luz emergiu dos corpos das duas e iluminou toda a sala, cegando o Caos temporariamente. Quando este recuperara a visão, já Belisa e Agnes estavam mortas no chão. A luz ainda iluminava os seus corpos e, quando o espectro de ódio aproximou-se delas, cercou-o, sufocando-o até à morte. O que seria aquela luz? Esperança. Apenas esperança podia destruir o Caos, apenas aquele sentimento tão puro poderia impedir os avanços das trevas. E as Guardiãs haviam-se apercebido disso tarde de mais. Ou melhor, Belisa e Ignês aperceberam-se tarde de mais…

‘Protege-os’ pensou a monarca, cujo trono e vida estavam perdidos. Nas suas mãos, o ceptro lunar brilhava intensamente, emitindo uma luz ainda mais brilhante que o Sol. O alinhamento dos planetas passava despercebido perante tamanha beleza e poder que provinha de um simples cristal.
O resto da história ficou perdido, porque nenhuma das três respirava na altura em que Serenity sacrificara a sua própria vida para que as irmãs, a filha e os habitantes do Milénio Prateado tivessem uma segunda hipótese.
A única coisa que elas sabiam daqueles meros momentos que se passaram após a morte da última guardiã da Esperança, era que Serenity pedira a vida das irmãs, incluindo a de Agnes. Mas Agnes não morrera no Milénio Prateado.
Algo estava para dar errado…

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[6] Exo-solar: fora do sistema solar. Para quem não perceber.


Última edição por AnA_Sant0s em Ter 23 Nov 2010, 09:52, editado 1 vez(es)

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por AnA_Sant0s em Ter 23 Nov 2010, 09:23

**
As três jovens fitaram o diário, assombradas. Uma vida passada passava-lhes pela mente, fazendo contraste com os momentos da vida presente. Cecília mirou Mari, que também se sentia sem ar. As duas ergueram as cabeças, olhando para Seiji e Naomi, que sorriam para elas.
-Então? – Perguntou a morena. – Como correu?
-Estranho… - comentou Mari, num sussurro.
-Bem, ao menos sabemos porque só nascemos agora. – Disse Cecília, pensativa.
-Como assim?
-A Agnes não morreu durante a queda do Milénio Prateado, como tal houve uma espécie de “desencontro” com as reencarnações dos outros. É por isso que a Linda é ‘tia’ da sua avó.
-Estranho… - repetiu Mari, provocando um riso nas raparigas e no rapaz. Este parou de rir ao ver que Linda não reagia à conversa. Mari, Cecília e Naomi seguiram o exemplo. Linda estava pálida e fitava o diário com os olhos baços, o rosto numa expressão de puro choque.
-Linda? – Perguntou Cecília, tocando no braço na amiga com cuidado – estás bem?
Esta, ao ouvir as palavras da amiga, ergueu a cabeça devagarinho, sem nenhum olhar surpreendido. Ao que parecia, esta havia ouvido cada palavra dos amigos.
-Estou – respondeu, apesar de a voz estar um pouco trémula. – Apenas…
-Ficaste preocupada – acabou Seiji. – É normal. Mas não te preocupes, tu não vais ficar cega.
Linda fitou o amigo de olhos semicerrados. Seiji não disseram tudo aquilo que ela queria ouvir.
Ao ver que ele não iria continuar, Linda decidiu fazer uma pergunta:
-Que poder era o de Agnes?
Naomi e Seiji entreolharam-se, preocupados:
-Terás que descobrir isso sozinha.
-Mas... eu tenho esse poder?
-Não sabemos – respondeu Naomi, tomando a dianteira. – Vocês as três são diferentes das vossas antepassadas pela simples razão de, por exemplo, a Linda ser filha de duas guerreiras, enquanto a Agnes não tinha nada disso no sangue.
-Isso era outra coisa que queria perguntar. – Interrompeu Mari – nós éramos irmãs… irmãs com poderes… podem explicar isso melhor?
-As memórias não foram esclarecedoras?
-Não quando os poderem eram inatos e nós já sabíamos usá-los desde crianças, não precisando sequer de interrogar os seus efeitos. – Retorquiu Cecília. O seu argumento convenceu Seiji, que se acomodou numa cadeira da mesa de jantar.
-Cecília, sendo tu a Guardiã da Harmonia, consegues ver a ‘harmonia’ nos outros. Por outras palavras, ver se estas são felizes e se têm boas intenções ou más. Por consequência, consegues ver as suas almas, malignas, puras ou semi-puras. A Mari consegue captar a ‘fé’ das pessoas, através de premonições. Uma pessoa que coloca a sua fé no prato pesado da balança, provoca-te visões acerca dos seus objectivos. Sempre que alguém se sente mais feliz, mais triste, mais… diferente, tu saberás.
-Mas e se uma pessoa tiver maus objectivos. Como no pavilhão… - perguntou Mari, confusa.
-Não podes ver os maus objectivos. Mas podes ver os bons. Não querias tu e a Cecília encontrar o máximo de Flores possíveis? Como tal, a vossa fé na missão fez com que tu soubesses em antemão quando alguém iria ser atacado.
-Entendi. – Mari olhou para Linda que, apesar de ouvir tudo aquilo que Seiji dia, ainda conservava a palidez do rosto. – E a Linda?
-A Li tem o poder mais obvio. Entra nos sonhos das pessoas.
Cecília e Mari ficaram de boca aberta, enquanto Linda ficou um pouco corada.
-Mas… eu já vejo as almas desde pequena, a Mari começou a ter premonições…
-Isso foi porque os poderes das três estão acordados. A partir do momento em que começam a ‘entregar-se’ aos poderes que herdaram, começam a receber os vossos ‘dons’. – Cortou Seiji.
-… Ou seja – continuou Cecília, agora olhando para Linda desconfiada – Tu já entraste nos sonhos das pessoas? Nas suas memórias privadas?
-Não consigo evitar… - murmurou Linda, baixando a cabeça.
-ESPERA AÍ! Tu confirmas isto? – Berrou Mari, fazendo com que a amiga ganhasse mais vermelho na cara. Esta assentiu com a cabeça. – De quem?
Linda estava pálida não faziam cinco minutos e agora estava mais vermelha do que um tomate cherry.
-As vossas e as do Kenji – sussurrou ela, temendo olhar nos olhos de Mari.
Esta ergueu-se do sofá, indecisa de haveria de ficar furiosa ou preocupada. Como sempre, foi Cecília que acalmou as águas:
-Ela não consegue evitar, Mari. Não adianta lhe pormos as culpas todas. O que podemos fazer agora é ajudá-la a controlar o seu poder, de modo a que não entre na cabeça das pessoas quando está a dormir.
Mari rodou o sofá vermelho, pensativa. Quase todos os olhos da divisão estavam postos nela. Apenas Linda olhava para os dois amigos de lado. Tinha sido ela a única a notar os olhares deles quando Cecília dissera “quando está a dormir.”?
-Então foi por isso que berraste naquela noite? – Perguntou a Linda de repente. – Porque tinhas entrado num sonho… no meu sonho.
-Sim. – Confirmou a morena, já mais calma ao ver que Mari não ia explodir. – Tu é que não te lembras.
-O que é que viste?
-Queres mesmo que te conte? – Perguntou Linda, num tom provocante. Mari engoliu em seco. Para Linda falar naquele modo, era porque se tratava de um sonho deveras embaraçante.
-Não… prefiro não saber. – Respondeu por fim. Linda suspirou de alívio. – Mas podes controlar isso?
-Pode – respondeu Naomi, com um sorriso – Depende mesmo da vontade dela.
-Acreditem que eu tenho vontade – murmurou Linda, mexendo a cabeça.
-Sendo assim…. Mais alguma dúvida? – Perguntou Seiji, animado.
-Uma… porque é que elas se sacrificaram? A Belisa e a Ignês? – Perguntou Cecília. – O que fizeram elas?
-Salvaguardaram o portal. Deste modo, o Caos jamais poderá fechar o portal. Ou melhor pode…
-Como? – Perguntou Mari.
-A Caixa de Pandora – respondeu Linda. – Vocês conhecem a lenda. Pandora abriu uma caixa que continha todos os males do mundo – ou melhor, o Caos – e a Esperança. Sem Esperança, não há Caos. Sem Caos, não há Esperança. Ao sacrificaram-se garantiram o balanço entre o bem e o mal. Jamais um poderá governar sem o outro.
-Exacto, Li. Foi por isso que elas morreram. E não foi uma morte em vão.
-Foi sim. O pai tinha razão. Nós morremos por acreditarmos na Serenity – comentou Mari, num tom ácido.
-Não adianta culparmos a Serenity. – Respondeu Linda, calmamente – Ela acreditava na paz entre os dois planetas, enquanto o pai não. Não podemos julgar uma pessoa pelas suas crenças.
-Mas sim pelas suas escolhas – retorquiu Mari.
-Sim… por isso não critiques a Serenity. Ela não te obrigou a segui-la, tu e a Ignês fizeram-no porque acreditavam nela. Criticares a Serenity, é o mesmo que te criticares a ti própria.
Mari bufou em resposta, cruzando os braços. Cecília sorriu, enquanto Naomi tossiu, chamando a atenção das três:
-Linda, posso falar contigo?

A morena assentiu e seguiu-a até á cozinha.
-Deves estar confusa.
-Porquê?
-Primeiro descobres que o teu namorado pode ser a próxima vítima da Dawson, depois… acerca de Agnes e agora sabes que…
-Sei o quê?
-Não te faças de parva que eu sei que tu percebeste – respondeu Naomi, irritada. Linda desviou o olhar, incomodada.
-Sim percebi. Mas que queres que eu faça? Não há nada que impeça que eu tenha este poder sobrenatural…
-Não contes às tuas amigas.
-Também não planeava faze-lo. Acabaria por perder a sua amizade.
-Olha, Linda. Só quero que tenhas cuidado. Se perdes o controlo…
-O que acontece? – Perguntou Linda, chegando perto da amiga – eu morro ou algo do género?
Naomi ficou pálida como um lençol.
-Não digas isso. Não tem nada a ver.
-Então o que é.
-Não sei – respondeu Naomi, sinceramente. – Só os teus avós e a tua mãe é que sabem. E também era disso que te queria falar.
-Disso o quê? – Perguntou Linda, apesar de já saber do que Naomi falava. Esta ficou de frente para a amiga, olhando-a nos olhos. Apesar de alta, era quase do tamanho de Linda, apenas uns dois centímetros mais baixa.
-Eu conheço-te Linda. Sei que a ideia de perderes a tua mãe nunca te passou pela cabeça. O facto de ela estar a morrer incomoda-te. Não adianta esconderes isso.
-Sim, incomoda – confessou Linda. - Mas apenas porque tenho descobrido muitas coisas acerca dela e… queria muito conhecer a mulher que foi minha mãe antes de eu nascer.
-Ainda vais a tempo.
-Como?
-Vai vê-la. – Sugeriu Naomi. Ao ver o olhar da amiga, acrescentou. – Não te estou a obrigar, mas era melhor ires. Vais te arrepender de não te despedires da tua mãe antes de esta morrer.
-E porque faria isso, se ela nunca fez nada por mim?
-Sabes muito bem que isso é mentira. Pode não ter sido a melhor mãe do mundo, mas não deixou de ser tua mãe. Nunca o mostrou, é claro, mas acredita que é difícil uma mulher ignorar duas crianças que ela dera à luz.
-Disfarça bem... – comentou Linda, secamente.
-Ainda assim… - Naomi quase que deitava fogo pelos olhos perante tamanha teimosia da amiga – vais descer ao nível deles? Se queres provar aos teus pais que te tornaste numa boa pessoa sem eles e que não nada igual a eles, vai vê-la. Mostra-lhe isso.
-Estás a provocar-me!
Naomi sorriu.
-Talvez assim vejas a razão. Não te peço para convenceres o Kenji. O caso dele é mais complicado. Mas vai… vais-te sentir melhor no fim.
-Será? – Sussurrou Linda, vendo a amiga sair da cozinha sem dizer mais nada.

**

O dia passara a correr. Cecília juntara-se às duas amigas, a Eiji, a Setsu e a Kenji à praia onde celebraram os anos da rapariga. No meio de danças, risotas, lutas e muitas outras coisas, o dia passou depressa e a lua irrompeu no céu, apanhando os jovens desprevenidos.
-Ora-me esta. Já está escuro! – Murmurou Eiji ao ouvido de Linda, que estava com a cabeça pousada no tronco dele. Os seis jovens estavam junto a uma fogueira acesa na praia, cada um com os seus tópicos de conversa.
-A lua está linda – comentou Linda, ao olhar para a lua, tão cheia que chegava a iluminar mais que a fogueira.
-Pois está. – Concordou ele, dando-lhe um beijo no topo da cabeça. Ela acomodou-se mais nos braços dele, deixando-se levar por aquela sensação de conforto.
Ao seu lado, Kenji punha mais madeira na fogueira, as chamas saltitando como pequenos tiros de pistola e ouvia, e conversa com Setsu, Mari e Cecília acerca de namoros. Mas quanto mais a conversa avançava, mais Mari e Kenji se sentiam de fora.
Agora só Setsu e Cecília falavam. Por entre palavras em tom de gozo, ironias e provocações, haveria de chegar a altura em que Setsu dissesse algo errado:
-Tanta preocupação para as mulheres, quando elas são tão diabólicas quanto os homens. – Comentou ele, sem perder o seu ar descontraído. Já Cecília, parecia perder a paciência a cada minuto.
-Ou seja, eu sou diabólica… - disse ela, secamente.
-Tu? Não. – Ele riu-se, mexendo na fogueira com um pau. – Tu nem sexy consegues ser.
Fora longe de mais. Em conversas normais, Cecília nem ligaria ao comentário mas, ao ouvir disparates vindos da boca do moreno constantemente e um acerca de sua pessoa, qualquer rapariga perderia os nervos.
-Desculpa? – Ela ergueu-se, assim como ele. Os outros quatro nem abriam a boca.
-Ouviste o que disse. Tu não és sexy. Não basta vestires um vestido bonitinho, tens que agir como tal… e isso tu não fazes.
-Queres que eu aja que nem uma pega, é isso? – Perguntou ela, elevando o tom de voz. Setsu não se mexeu. Kenji e Eiji tinham que admirar a sua coragem.
-Não. Ser pega é ser demasiado provocante. Não há mal nenhum em ser sexy. Claro deve ser difícil para ti… vê-se pela tua cara que és menina de colégios.
-Eu NÃO ando num colégio!
-Mas já andaste!
Cecília mordeu o lábio, irritada. Suspirando fundo mirou-o, os olhos a largarem faíscas verdes.
-Que o seja. Vou-te provar que eu consigo ser provocante e sexy… mas sem ser uma pega. – Aproximou-se dele, baixando o tom de voz de modo a que apenas ele ouvisse – vou-te provar que te consigo excitar tanto quanto as ‘mamalhudas’ que falaste há pouco.
Setsu poderia ter se encolhido de medo, não fosse aquele desafio tão apelativo.
-Como? – Perguntou ele, provocante.
Cecília olhou em volta. Ao ver que as luzes do café mais adiante ainda estavam acesas, sorriu:
-Ali, no café.

E sem esperar por resposta, dirigiu-se para o café, pegando nas sandálias. Setsu foi atrás dela. Kenji, Mari, Eiji e Linda entreolharam-se.
-O que acham que vai sair aqui? – Perguntou Eiji, pegando nos seus sapatos.
-Sinceramente, não sei. – Respondeu Mari, pegando no seu calçado. Kenji fez o mesmo e, quando os dois se abaixaram, os dedos deles tocaram-se levemente. Mari afastou-se de imediato, evitando o olhar do loiro, correndo para o café. Kenji ficou parado, sem saber o que fazer. Linda, ao ver o embrulho em que o irmão se metera, olhou para o namorado. Este entendeu o pedido e foi atrás da loira, deixando os dois irmãos sozinhos.
Linda pegou nas sandálias e sorriu para o irmão, que passava a mão pela leve barba. Tanto tempo de estudo fizera com que ele se desleixasse na aparência:
-Parece que estamos no mesmo barco. – Disse, animada. Kenji virou-se para ela, confuso
-Como assim?
-Eu tenho algo que quero fazer… mas não arranjo coragem.
-O quê? – Perguntou o irmão, curioso. Linda não respondeu, os seus olhos fixos na areia húmida nos seus pés.
A brisa marítima fazia os cabelos soltos dela esvoaçarem levemente, o seu olhar nostálgico rendido a sensações que ela já considerava perdidas. Linda suspirou e sorriu:
-Se tu o fizeres… eu farei.
-Fazer o quê? – Kenji não estava a perceber onde Linda queria chegar.
-Seguires o teu coração. – Murmurou ela, sem dar tempo para o irmão responder. Dirigiu-se para o café, a cabeça sempre virada para o chão, os movimentos quase automáticos. Parecia que ela reflectia algo…

**
-Não estou a ver como me vais convencer… - comentou Setsu, observando Cecília dar uma volta ao café, já vazio. A sua pequena pista de dança era grande o suficiente para ela, mas esta parecia insatisfeita. – Já está?
-Cala-te! – Ordenou ela, furiosa – A paciência é uma virtude.
-Olha que minha não é de certeza… - sussurrou Setsu, de braços cruzados, perna apoiada na parede. Eiji olhava para Mari preocupado. Desde o inicio do encontro que ela se mantivera estranha. Aliás, as três haviam estado estranhas com ele desde o inicio e, a partir do momento em que chamaram Kenji para falar à parte, este também começou a agir estranhamente. Mas a atitude de Linda e Mari eram as mais estranhas. Linda estava agora sempre perdida em pensamentos. Apanhara-a várias vezes a olhar para ele, o seu rosto impossível de identificar e os olhos meio baços. Como a atitude dela melhorara ao longo da tarde, deixou o assunto passar, apesar de ainda lhe deitar um olho quando ela não estava a ver. Via-a sempre com a cabeça na Lua (quão irónico…).
Mas Mari era outra história. Apenas Setsu e Cecília pareciam não ter notado na estranha tensão entre Kenji e Mari. Aliás, havia sido assim todo o tempo. Mari não falava para Kenji e este fazia o mesmo, o seu olhar perdido na rapariga de cabelos dourados.
Linda entrou. Olhou em volta e viu Cecília a andar em roda pela pista de dança:
-O que estás a fazer? – Perguntou.
-Preciso de… - quando Cecília focou o olhar nela, o seu rosto iluminou-se. – Linda, vem comigo à casa de banho!
Puxada por Cecília, Linda não teve outra opção se não ir para a casa de banho, Mari atrás das duas amigas.
-Empresta-me a tua túnica!
-Como?
-Empresta-me a tua túnica! – Repetiu Cecília.
-Eu ouvi. Mas para quê?
-Para ganhar o desafio. Para isso preciso de algo mais… sexy. E a tua túnica vem que dá para uma minissaia.
-Mas…
-A culpa é tua de andarem com túnicas compridas – comentou Mari, sombria.
Linda rosnou e tirou a sua túnica, substituindo-a pela blusa de Cecília. Esta, olhou-se ao espelho.
-Perfeito. – Disse, contente. – Agora ele vai ver. – E saiu, sem esperar por Mari e Linda. Estas entreolharam-se e encolheram os ombros às acções da amiga.
-Prepara-te Yamamoto! – Disse ela, ao chegar-se perto dos outros. Kenji já estava á beira dos irmãos, distraído.
-Quem, eu? – Perguntou Eiji, inocentemente.
-Parvo… - reprimiu ela, suprimindo um sorriso - o teu maninho.
-Ui, põe-me à prova. – Desafiou Setsu. – Prova-me que tu és ‘mulher’.
Cecília ignorou a provocação. Ligou a aparelhagem (com a permissão do barman) e uma música de rock começou a tocar.
[7]
Como Cecília havia arranjado a música sem voz, nenhum deles sabia, mas todos puseram-se a ouvir a morena a mexer-se no centro da pista, a túnica de Linda a abater-lhe nas coxas. Sendo ela dançarina, não lhe foi difícil inventar uma coreografia na hora. Principalmente se o objectivo era ser sexy.
Ela começou a cantar. Se havia alguma coisa que aquela música era, era provocante. E a voz dela, grossa e sedutora, prometia abanar o palco... isto é, se houvesse palco.
Ela foi ter com Setsu, que a olhava abismado e puxou-o para a pista de dança. Rodeou-o, com o seu olhar mais provocante. Cantou a música, dançando como nunca ninguém a tinha visto dançar. Era fácil abanar a cabeça e deixar os cabelos espalharem de um lado para o outro e ou até de encolher um pouco os joelhos e subir devagarinho, o corpo colado ao dele.
Não havia duvidas que ela tinha ganho o desafio mas Cecília, querendo levar o ego de Setsu ‘para a lama’ continuou a dançar, não deixando o moreno sair do centro (mesmo que ele pudesse…).

Do outro lado, Kenji não tirava os olhos de Mari. Esta sabia que era observada e tentava ignorar os olhares o máximo possível. Mas chega uma altura em que as pessoas já não aguentam mais. Virou-se para ele, pronta a mandar-lhe uma boca mas ele foi mais rápido.
-Vem comigo. – Não era um pedido. Pegou no braço dela e arrastou-a para fora.

A brisa diminuíra e a fogueira ainda estava acesa, iluminando a praia. A lua estava um pouco encoberta por pequenas nuvens negras e não se viam estrelas no céu negro. Kenji levou-a até junto da fogueira e só aí a largou:
-O que raio se passa contigo? – Perguntou ele, ríspido.
-Eu?
-Sim. Estás farta de me ignorar!
Mari piscou os olhos várias vezes, incrédula.
-E o que isso tem de importante?
-Andas a evitar-me desde o dia em que nos beijamos. – Disse ele, cuspindo cada palavra.
As feições do rosto dela contraíram-se.
-Achas que não tenho razão? Beijei aquele que não queria beijar. – Disse, tão brusca quanto ele. Havia algo nos seus tons de voz e discursos que estranhavam aos próprios. Que raiva era aquela que nenhum deles sentia?
A resposta era óbvia. Era a primeira vez que estava tão próximos um do outro desde o beijo no Ano Novo e o desejo que sentiam um pelo outro estava cada vez mais forte. E Kenji estava a ter dificuldade em ignorá-lo.
-Aí sim?
-Sim.
-Esta conversa não leva a lado nenhum, Mari. Qual é o teu problema comigo? – Ele não queria dizer aquilo. Mas estava demasiado nervoso para ter controlo nas suas acções.
-Tu... és igual aos outros… - Ela não queria dizer aquilo. Mas também ela perdia o controlo de si própria. Agora era tudo automático. No fundo ela queria dizer-lhe aquilo, porque era a desculpa que ela dava a si própria para não insistir naquele romance não correspondido.
-Igual? Que queres dizer?
-Não te faças de estúpido! Não procuras uma namorada séria, nem nada disso. Brincaste com os sentimentos da Angelique, apesar de esta gostar de ti.
-Olha-me esta… - murmurou ele, desviando os olhos dela. – Achas que eu sou assim? Que eu fui o vilão daquela relação? Pois bem, admito. Eu agi errado com a Angel. Não devia ter começado a namorar com ela porque nunca gostei dela.
-Oh pois, só servia para a cama.
-Para tua informação, eu não brinco com os sentimentos das raparigas – Agora ele estava furioso. Quem era ela para lhe atirar acusações tão fortes? – Só me aproximava delas quando sabia que as intenções delas eram as mesmas que as minhas.
-E então a Angel? Também gostavas dela?
-Não… - confessou ele, de cabeça baixa. Mari abanou a cabeça.
-Ela era apenas um brinquedo para ir para a cama contigo. É assim que as coisas são. Foi assim com… - aí ela parou, arrependida do que dissera antes. Mas Kenji já sabia do que ela ia falar.
-Como a tua mãe – completou ele, serenamente.
-Elas contaram-te – murmurou Mari, furiosa. – Traidoras.
-Não, elas não me contaram. Eu é que sei.
-Aí sim… como?
-Eu lembro-me da tua mãe. E lembro-me da minha avó me ter falado dela.
Mari semicerrou os olhos:
-Como a conheceste?
-Ainda estavas na barriga dela. Era pequeno, mas ainda me lembro dessas coisas. Acho que a minha mãe até correu pelo parque adentro só para a alcançar. E a minha avó disse-me que a tua mãe não era casada com o teu pai, nem que ele alguma vez tivera intenção para tal. Sendo homem, foi fácil descobrir o resto…
Mari não respondeu. Sentia o sangue a subir-lhe à cabeça de tanta raiva e vergonha que sentia.
-É por isso que te vestes à rapaz. É por isso que és desconfiada e tens um temperamento… enfim, difícil.
Ela mirou-o, o seu olhar capaz de fuzilar um batalhão.
-Não tens o direito o mencionar o meu pai e justificar as minhas acções. Não tens nada a ver com isso.
-Tenho sim – Ele aproximou-se dela. Conseguia sentir o seu cheiro a jasmim. Queria ela pô-lo louco? – Principalmente quando eu quero quebrar essa barreira que tu me impões.
Ela deu um passo para trás, atordoada. Ele deu um em frente, confiante:
-Eu não sou o teu pai. Eu não te quero mal. Apenas quero…
-Não quero saber! – Gritou ela. – Eu não quero…
-Eu ouvi-te no ano novo. – Gritou ele em retornou, esperando o silêncio dela – em vez de ficar com a minha namorada, fui atrás de ti e ouvi-te. E sei que é por isso que me tens andado a evitar.
-Então porque raio me andas a chatear, a saber porque motivo eu te ignoro?
-Eu não achava que me irias tratar como se eu fosse lixo. Não depois do que aconteceu.
-Não aconteceu nada.
-Continua a negar, Mari, mas nós beijamo-nos e tu gostaste, admite.
-Para quê? – Perguntou ela, a raiva a sair pelos poros da pele – Para aumentar o teu ego. Esquece, não serei uma das tuas brincadeiras. Eu achava que não terias coragem de te aproximares de mim depois daquela noite, mas estava enganada. Se pensas que eu sou daquelas ‘difíceis’ que constituem um desafio e que no final valem a pena, estás enganado. Vais precisar de muito mais do que isso.
Ela foi-se embora e ele ficou parado, sem saber o que fazer. Sentindo-se impotente, lembrou-se do beijo que lhe dera no Ano Novo, na declaração que ela fizera ao luar nesse mesmo dia, no abraço que ela lhe dera e todos os outros momentos que partilhara com ela.
Não, ele não a iria deixar fugir.

Correu atrás dela, até que a agarrou no braço. Não estava era preparado era que ela desse luta. Tentando libertar-se, Mari empurrou-o, mas Kenji era mais pesado do que ela e acabou por se desequilibrar, caindo no chão com Mari. No chão, continuaram a lutar, até que Kenji conseguiu dar a volta e ficar por cima dela.
-Raios, eu amo-te. – Gritou, frustrado.

Ela parou de lutar e ele próprio perdeu alguma da força do qual era feito. Ele não queria dizer aquilo. Ou queria? Naquela altura ele já nem sabia o que queria mais, que ela ficasse quieta ou dizer-lhe tudo aquilo que tinha para lhe dizer.
Mas agora ali, com ela debaixo dele, o som da respiração dela a acelerar, em compasso com o seu próprio pulsar, o intenso cheiro dela e aqueles olhos tão verdes que ele nunca vira em nenhum outra rapariga… excepto em Angel, mas ela devia ser alguma parente. E ainda assim o brilho dos olhos de Mari hipnotizava-o. Agora ali, não sabia o que fazer. Dizer aquilo que ele queria dizer ou…
-Deixa-te de tretas. – Disse a Voz na sua cabeça.

Deixou-se ficar a olhar para ela, seus punhos a agarrarem os braços dela e as suas pernas entrelaçadas nas dela. Soltou os braços dela, mas não saiu de cima dela, temendo que esta fugisse.
-Namorei com a Angel porque estava passar uma fase má na minha vida e tu eras a única coisa que me fazia sentir melhor. Mas, infelizmente, eu não te podia ter e isso deixou-se frustrado. Daí que me tenha virado para a Angel. Mas nunca lhe quis mal e juro no que te digo. Eu nunca aproveitei-me das raparigas. Se elas queriam coisas serias, eu nem sequer me aproximava. Mas contigo…. Raios, tu és diferente. Fazes o meu coração quase saltar da minha caixa torácica, sinto-me a tremer que nem varas perto de ti, fico louco com o teu cheiro e a tua boca… nossa, nem sabes o quanto desejei a tua boca naquele dia no telhado. Não te beijei porque te respeitava e jamais de aproveitaria de ti.
Eu… eu quero-te. Eu desejo-te, muito mais do que alguma vez desejei uma mulher. Eu… - inspirou, tentando arranjar coragem para repetir o feito anterior – eu amo-te, Mari. Tenho tanta certeza como tenho a certeza que tu sentes o mesmo por mim.

Ela tremeu, talvez de frio, talvez de receio. Evitava olhar para ele, mas o mar de azul era impossível de evitar e ela dava por si a olha-lo como um caçador à beira da sua presa. Também ela o desejava. E ele estava agora ali, tão perto dela que o cheiro do seu perfume chegava a ser intoxicante.
Mais, ele dissera que a amava. Poderia confiar nele? Algo nos olhos dele dizia que sim. Algo dentro dela lhe dizia para acreditar naquelas palavras tão sinceras.
Tomou a dianteira e aproximou os seus lábios dos dele. A partir do momento em que o beijo foi selado, foi como se duas bestas tivessem sido libertadas das suas jaulas. Ele cobriu o corpo dele sobre o dela, passando as suas mãos pelas suas ancas e tronco. Beijou-lhe o pescoço, fazendo-a suspirar e voltou a tomar a boca dela. Mari sentiu um choque de electricidade a percorrer pelo corpo dela. Não se conseguia mexer, mas também não tinha intenções para tal. Ele pareceu ter-se esquecido dos pudores e não hesitou em tocar em cada zona do corpo dela ao seu alcance. Conseguiu estabelecer limites a si próprio, fazendo questão que nenhum dos dois tomasse o próximo passo. Ele esperaria, tal como tinha esperado tanto tempo por aquele momento. Esperaria por ela, para quando o momento fosse mais adequado. Nessa altura, ele iria se esquecer de todas as mulheres com quem se tinha deitado e seria apenas dele. Só dela.

As ondas do mar começavam a acalmar e a fogueira começava a perder lume, tal como o desejo dos dois jovens que, apesar de separarem as bocas, ainda estavam juntos. Mari fechou os olhos:
-Tenho medo – sussurrou ela.
-Medo de quê?
-De te perder…
Kenji fitou-a, confuso.
-Perder-me? Mari. – Ao ver que a loira evitava o olhar dele, elevou-a o suficiente para a sentar junto a uma rocha, ele junto dela. – Tu não me vais perder. Eu não te vou abandonar.
Mari desviou o rosto e ergueu-se, olhando para o luar. Ele levantou-se também, sem saber o que fazer:
-Mari… - não conseguiu dizer mais nada. Não sabia que dizer. Quem diria que era tão difícil falar com as mulheres. O homem que criasse o livro “Como entender as mulheres” devia ser galardoado com o prémio Nobel da Paz durante um século inteirinho.
De repente, ela virou-se para ele, o rosto firme como rocha. Aproximou-se e depositou um suave beijo nos lábios dele.
-Eu sei que não me abandonarás… pelo menos voluntariamente.
Havia algo nas últimas palavras que chamou a atenção de Kenji, mas Mari parecia ainda mais aflita com a ideia do que ele próprio, por isso não insistiu, abraçando-a com ternura. Mas o seu sonho, o tempo a escassear, Mari… ela tinha premonições… estaria aquilo tudo a indicar a morte dele? Ou algo mais?

**
-Estás a esconder-me qualquer coisa.
Linda sabia que era uma afirmação, não uma pergunta. Por isso, não conseguiu evitar morder o lábio. Oxalá pudesse perder esse tique…
Eiji suspirou pesadamente. Daria todo o dinheiro do mundo para saber o que Linda pensava.
-Tenho algo a fazer. – Confessou ela, num tom baixo.
-O quê?
Linda não respondeu, perdida em pensamentos. Nas últimas horas, tomara consciência de muitos factos até agora desconhecidos. E mais de metade assombravam os seus pensamentos… e a sua vida.

**
Mari e Kenji calçavam-se quando Cecília e Setsu apareceram, vindos do café, com Eiji e Linda atrás.
-Admite! – Gritou a morena, eufórica.
-Pronto, eu admito. És sexy! – Disse Setsu, num tom derrotado. Cecília deu um pequeno salto de alegria, fazendo uma pequena dança de vitória.
Foi a primeira a entrar no carro de Setsu, enquanto os irmãos Yamamoto seguiram-na. Eiji, antes de entrar no carro, tornou a olhar para a namorada. Ainda mantinha o seu olhar nostálgico. Um dia… um dia…
Mari e Kenji entreolharam-se. Ele sorriu, gesto correspondido. Ela tocou na mão dele e depois, hesitante, afastou-a, dirigindo-se para a mota de Kenji, estacionada ao lado do carro vermelho do moreno. Ainda sorria quando colocou o capacete.
Kenji ia segui-la quando o olhar dele cruzou-se com o da irmã.
Nenhum deles eram profetas, mas ambos sabiam que algo errado estava prestes a acontecer. Ele fazia uma ideia... uma ideia que o aterrorizava. Mas Linda não. Ela apenas podia especular.
Não havia forma. Se queria saber mais, tinha que fazer aquilo que ela mais temia. Voltar ao mesmo sítio que ela fugira meses antes.
Estava decidido. Iria voltar ao Palácio.

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[7] http://www.youtube.com/watch?v=dYeGw-bo430 para o caso…
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Pois bem, aqui está. Não se esqueçam de deixar comentário. Podem até dizer qual foi o casalinho que mais gostaram neste capítulo. Very Happy


Última edição por AnA_Sant0s em Ter 23 Nov 2010, 09:58, editado 1 vez(es)

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Re: A Guardiã dos Sonhos

Mensagem por ss em Ter 23 Nov 2010, 09:56

Está muita gira, estou seguindo, contibua assim

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Re: A Guardiã dos Sonhos

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